Carlos Fontes

 

 

   

Cristovão Colombo, português ?

 

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As Provas do Colombo Português 

 

15. Missão Espanhola 

 

Porque razão teria D. João II (rei de Portugal ), ao longo de 14 anos de insistências (1470-1484), recusado a ideia de Colombo?  Não sabemos.

 

A única coisa concreta que se pode assegurar é que não o impediu de ter feito a mesma proposta aos reis de Castela e Aragão, e até criou todas as condições para que a sua missão tivesse êxito. 

 

Durante anos Colombo, a partir de Lisboa pode livremente e sem qualquer impedimento, procurar convencer outros monarcas europeus, e em especial os de Espanha, para atingirem a India navegando sempre para Ocidente. Porquê ?

 

Tem surgido várias hipóteses explicativas, sendo as mais importantes as seguintes:

 

1) Ignorante

 

Um grande número de historiadores apresenta-o como um ignorante. A sua ideia de atingir a Ásia navegando de Lisboa para Ocidente  só podia ter lugar na cabeça de um ignorante, que concebia a Terra como um globo minúsculo. Apesar de todas as evidências em contrário, até morrer, estava convencido que chegara a umas ilhas muito próximas do continente asiático.

 

Alguns historiadores apresentam-no como um fanfarrão, autodidacta e aventureiro. Apesar de ter acertado, quase  sempre nas rotas que tomou, nas quatro viagens que realizou tem sido identificados enormes erros de navegação e de comando que são aparentemente inconcebíveis num experiente comandante.

 

É nesse sentido, que alguns afirmam que D. João II conhecendo já a existência de um novo continente, a actual América, e sabendo portanto, que a India (Ásia) não seria atingível pelo Ocidente, foi-lhe fornecendo informações falsas, que ele usou para convencer os reis de Espanha.

 

D. João II não se opôs que Colombo apresentasse a ideia a Castela, nem que o seu irmão o fizesse junto do rei de Inglaterra e França. O projecto de Colombo servia os interesses de Portugal, ao afastar os castelhanos e outros possíveis interessados da Guiné e da rota da India. Nesse sentido incentivou-o a prosseguir a sua missão.

 

Esta hipótese, historicamente fundamentada no "Memorial portugues de 1494" (Arquivo General de Simancas) (6),  apresenta algumas fragilidades. Não consegue, por exemplo, explicar a intencionalidade de muitos dos seus erros. Colombo mentia e falsificava documentos de forma sistemática de modo a enganar os reis de Espanha.

 

Aquilo que para uns é fruto de ignorância, para outros é uma sucessão de mentiras estudadas.

 

 

2 ) Descontente

 

Colombo desde 1469 até 1485, andou documentalmente ao serviço dos reis de Portugal, e eventualmente dos Duque de Viseu-Beja. É muito provável que, como muitos outros navegadores, cosmógrafos e cartógrafos portugueses entre o século XV e o XVII, se sentisse pouco recompensado pela Corte que controlava e detinha o monopólio das expedições marítimas. 

 

Esta insatisfação levou-o a aproveitar-se dos conhecimentos que possuía e vendê-los a outros reis, nesse sentido foi para Castela. 

 

A sua iniciativa foi logo apoiada por importantes famílias de nobres portugueses que se haviam exilado em Castela e Aragão, vendo na mesma a possibilidade de continuarem a ter acesso aos domínios de Portugal e aos segredos das suas descobertas marítimas.

 

Os erros nauticos colossais de Colombo como marinheiro tem sido explicados de várias formas maneira:

 

- Luis Miguel Coin Cuenca afirma que, embora Colombo não fosse um grande navegador, os seus erros nauticos eram intencionais e destinavam-se a enganar os portugueses, dando-lhes falsas pistas sobre a rota que seguira, nomeadamente para não ser acusado de entrar nos seus domínios maritimos (John Dyson y Peter Christopher -Por la ruta de Colón. El viaje que cambió el mundo; Colon.Un Hombre que Cambió el Mundo, 1991).

 

- Hernández Sánchez-Barba, afirma que "Toda la vida y la acción histórica de Colón bascula, gira y se promueve en torno a su secreto, que implica una doble posición, un desdoblamiento en las vivencias emocionales [...] Tal secreto consiste en la información recibida por Colón, bien directamente, bien en los papeles de su suegro Perestrello, de un piloto anónimo o protonauta sobre el mundo al que navegó Colón como “descubridor”. El secreto – que sólo reveló bajo sigilo sacramental a fray Antonio de Marchena – obligó a Colón a mantener un desdoblamiento constante en sus reacciones y expresiones, una especie de disimulo permanente que, sin embargo, se manifiesta de un modo inevitable en sus escritos". ( Historia y literatura en Hispano-América (1492-1820): La versión intelectual de una experiencia. Madrid: Fundación Juan March, 1978)”.

 

D. João II, depois de uma forte reacção inicial à traição de Colombo, acabou por ver na sua ideia, uma excelente oportunidade para desviar as atenções da rota das Indias através da costa africana, e acabou por o apoiar. Caso contrário o teria facilmente eliminado, como fez em relação a tantos outros traidores.

 

Esta hipótese não tem em conta inúmeros aspectos da sua biografia, nomeadamente a enorme fidelidade que sempre revelou em relação a Portugal.

 

 

 

3) Conspirador

 

Colombo, segundo o seu filho Hernando Colon, terá fugido de Portugal, numa altura que muitos dos conspiradores  contra D. João II estavam a ser mortos (cerca de 80) ou seguiam seguiam idêntico recurso. 

 

Estaria envolvido na conspiração do Duque de Viseu-Beja e mestre da Ordem de Cristo ?  Tudo parece apontar para esta possibilidade.

 

Esta Casa Ducal, que dominava as ilhas atlânticas e as costas da Guiné, via com agrado o afastamento dos espanhóis destas regiões, dando-lhes ilhas a Ocidente. 

 

Nas três primeiras viagens à América nunca deixou de visitar os domínios do Ducado de Viseu-Beja. No regresso da 1ª. viagem à América, teve inclusive um longo encontro com o Duque de Beja (D. Manuel) no Convento de Santo António da Castanheira. Em Espanha contou sempre com participação de nobre ligados a esta casa ducal.

 

Não é de descurar a hipótese, de muitos dos nobres portugueses exilados, para se vingarem de D. João II ou caírem nas boas graças dos reis católicos que os acolheram, quisessem oferecer um segredo da Corte Portuguesa: a existência de terras a Ocidente. 

 

Embora tenha fugido secretamente para Castela, o certo é que esteve sempre em contacto o que aqui se passava em Portugal, registando-se inclusive pelo menos 6 visitas posteriores a 1484. 

 

É possível que o ataque que realizou a duas galeras venezianas tenha ocorrido pouco antes de fugir para Castela, e não em 1485. A sua alegada presença em Lisboa, em 1485, poderá também fazer uma mistificação, no qual era hábil.

 

É todavia um facto que Colombo se correspondeu com D. João II. O rei escreveu-lhe, em 1488, em resposta a uma sua carta. Trata-o por "Colon" e o que é mais importante por "especial amigo", um tratamento inimaginável entre um rei e um plebeu, alegadamente estrangeiro. 

Esta carta mostra que Colombo continuava em diálogo com o rei, mesmo depois de sair do país. O facto é tanto mais intrigante, quando sabemos que nesta altura estava a ser pago pelos reis espanhóis. 

Este facto leva-nos a concluir que D. João II rapidamente se tenha apercebeu que a traição de Colombo interessava a Portugal e por isso passou a apoiar a sua missão. De traidor, Colombo passou a colaborador.  Quem estava também interessado nesta viagem de Colombo, eram mercadores como o florentino Bartolomeu Marchione, pois a mesma iria afastar a concorrência da costa africana. 

 

Deste modo se explica toda a encenação em torno de vida de Colombo, as múltiplas cumplicidades com a Casa de Bragança e outras famílias portuguesas, mas também o seu constante patriotismo. 

Para se compreender toda a trama que estava a ser urdida é necessário ter em conta as  disputas e guerras entre castelhanos e portugueses.

3) Espião

 

A alegada "fuga para precipitada" para Castela, referida por Hernando Colón, poderá não ter passado de uma encenação a que Colombo recorreu, para se infiltrar no circulo de exilados portugueses, envolvidos nas conspirações contra D. João II. A Pero da Covilhã foi confiada, na altura, uma missão idêntica (9). 

 

É provável que fosse cavaleiro da Ordem de Santiago, como a sua esposa (Filipa Moniz Perestrelo), ambos estavam sob a alçada do mestre da Ordem, o próprio Rei e depois o seu filho D. Jorge de Lencastre. Quando se aperceberam que a sua missão em Castela não tinha retorno possível, Filipa regressará, em 1490,  ao convento de Santos, como comendadeira, enquanto esposa de um cavaleiro da Ordem.

 

Nesta hipótese, a partida de Colombo para Castela, só terá ocorrido em meados de 1485. Neste ano estava ainda em Portugal, e em grande actividade:

 

 - Como corsário "Cristoforo Colombo", assim denominado na documentação da Senhoria de Veneza, atacou e prendeu duas galeras de Veneza. Esta republica italiana, recorde-se, mandou a D. João II um embaixador para reclamar a sua devolução junto do rei. Este facto releva a intima ligação entre "Cristoforo Colombo corsaro" e o rei de Portugal. 

 

- Como navegador, escreve que, neste ano, assistiu em Lisboa, na presença do rei, à apresentação dos resultados das medições do mestre José Vizinho na Guiné. 

 

As relações entre Colombo e D. João II, prosseguiram sempre muito próximas, ao ponto do rei, em 1488, o tratar por "especial amigo", e elogiar o bons serviços que lhe havia prestado.

 

A missão de Colombo, a partir de 1486, passou a ser a de propor à Rainha de Castela uma viagem para a Ásia navegando para Ocidente, de modo a afastar os castelhanos das lucrativas expedições portuguesas ao longo da costa africana e da própria India. 

 

A fidelidade de Colombo a D. João II manteve ao longo dos anos. A 12 de Outubro de 1492, quando aportou na "Àsia", ergue uma bandeira com a Cruz Verde da Dinastia de Aviz. Nas Indias procurou evitar a fixação dos espanhóis, perseguindo-os. Apenas foi a Terra Firme, em 1498, um ano depois de Vasco da Gama ter partido para a India e meses depois de D. Manuel I ter sido jurado herdeiro do trono de Espanha. Em 1502 apela ao papa para que expulse os espanhóis das Indias (América).

 

Esta hipótese permite explicar muito do seu comportamento. 

 

b) A Questão da Concorrência

A conquista de Ceuta (1415) marcou o inicio da expansão marítima de Portugal. Tratou-se de um projecto sistemático conduzido de forma monopolista pela casa real, que através de concessões lhe permitia obter os rendimentos com que sustentava à própria expansão.

O Infante D. Henrique, mestre da Ordem de Cristo (desde 1420),  teve entre 1415 e 1460, um papel fundamental neste processo expansionista, que nunca é de mais salientar. Depois da morte do Infante, em 1460, a Coroa passou a assumir e a dirigir a expansão marítima, aproveitando todas as ocasiões que surgiram para acentuar este processo de centralização (15).

Ao longo do século XV, e conforme a expansão se efectuava foi sendo criada uma complexa estrutura administrativa para gerir a expansão marítima, os novos domínios e arrecadar os respectivos rendimentos, tais como: a Casa de Ceuta (Lisboa, 1434); Casa dos Tratos de Arguim (Lagos, 1445) e a Casa da Guiné (Lagos, 1445), transferidas para Lisboa em 1463; Casa da Mina (Lisboa, 1482), que agregou a Casa da Guiné; Casa dos Escravos (1486), e por fim a Casa da India (Lisboa, 1501), que integrou a Casa da Guiné e da Mina.

No inicio da expansão Portugal não manifestou grandes intenções exclusivistas. Os governadores de Ceuta por exemplo, recebem com entusiasmo muitos estrangeiros que vem participar na guerra e nos lucrativos saques que eram praticados aos mouros. Algo semelhante aconteceu no povoamento do arquipélago da Madeira (iniciado em 1419-26), e depois do arquipélago dos Açores (iniciado depois de 1439), a fixação de estrangeiros foi particularmente acarinhada. Na rentável exploração da produção e comércio de açúcar, na Ilha da Madeira, foi criada uma rede internacional com a larga participação de estrangeiros.

A situação foi-se tornando muito diferente à medida que avançava a exploração da costa ocidental de África. A Corte, mas também o Infante D. Henrique passaram a falar, cada vez mais, dos enormes custos da própria expansão, em termos de recursos financeiros e de vidas humanas. Um discurso que Colombo foi particularmente sensível, ao ponto de o repetir. Mais

Nesse sentido passaram a defender uma política exclusivista. O controlo por parte do Estado português foi aqui se tornando mais apertado, implicando a criação de um forte dispositivo militar que desencadeava frequentes acções punitivas para expulsar os estrangeiros das regiões que haviam sido descobertas pelos portugueses.

Desde que foi dobrado o Cabo do Bojador ( 1434 ), a coroa portuguesa e o Infante D. Henrique  passaram a assumir como um dos seus objectivos estratégicos afastar outros reinos cristãos da costa ocidental de África. A 9/1/1443, o papa, concede ao infante D. Henrique o direito de povoar as ilhas do Atlântico, mas também a orientação espiritualidade das populações das ilhas que não tivessem bispo. O regente Infante D. Pedro doa-lhe os territórios a Sul do Bojador a título vitalício. A 3/2/1446, o Infante D. Pedro, regente de Portugal, ordena que ninguém navegue a sul do Bojador sem uma licença do rei (ou do Infante D. Henrique), sob o pena de ficarem sem os navios. O papa Nicolau V, a 8/1/1455, confere esta exclusividade ao Infante D. Henrique. O que foi também confirmado pela bula do papa Calisto III, a 13/3/1456.

Com a morte do Infante, em 1460, a Coroa portuguesa, liberta dos condicionalismos que os privilégios que possuía o Infante D. Henrique a Sul do Bojador chama a si este o monopólio dos produtos, comércio, navegações e dos mares (15). Esta política que foi consagrada em 1474, com a proibição das navegações estrangeiras a sul das Ilhas Canárias ("Mare Clausum"), prosseguida em 1479/8 no Tratado de Alcáçovas-Toledo, reforçada com a construção do Forte de S. Jorge da Mina (1482) e outras fortalezas, processo que culminou no Tratado de Tordesilhas (1494).

Era nesta costa africana que foram descobertas as principais fontes de rendimento do país nos séculos XV, e encontrado o caminho para as que marcaram o século XVI:

1. Pescarias. O avanço das descobertas marítimas para sul, ao longo da costa africana, revelaram a existência importantes ricas zonas  de peixe desde o Cabo do Bojador até ao Rio do Ouro. Uma região especialmente sensível pra os interesses de Portugal. Não tardaram a sucederem-se contínuos e violentos conflitos entre portugueses e os andaluzes que prendiam ter acesso a estas pescarias. D. João II fez questão de consagrar o seu exclusivo para os portugueses no Tratado de Alcaçovas-Toledo (1479/1480)(16).

Colombo, como vimos, procurou encontrar uma alternativa nas Antilhas para estas disputadas zonas de pesca na costa africana.Mais

2. Escravos. Percorrendo a costa ocidental de África, a sul do Cabo do Bojador, Lançarote de Lagos, em 1444, encontra uma enorme fonte de riqueza: escravos !. Não tardaram a serem criadas ao longo da costa várias feitorias, cuja principal actividade estava neste lucrativo tráfico: Arguim (1445), Mina (1482), Cacheu e São Tomé.

3. Especiarias Africanas. O comércio destas especiarias, sofre um forte impulso depois da viagem de Diogo Gomes, em 1456, ao Rio Grande (Geba, Guiné), quando obteve directamente a pimenta-malagueta. Com a pimenta-do-reino abundava nas costas da Guiné, em Benin e Gana. Perdeu grande parte da sua importância económica com a vinda para a Europa das especiarias asiáticas, no início do século XVI.

4. Ouro. Quando o Infante D. Henrique faleceu, em 1460, os descobrimentos haviam já atingido à Serra Leoa, sendo ainda pouco rentável os produtos obtidos na costa africana. O ouro anualmente obtido em Arguiam, oscilava entre os 20 e os 25 kg. Tudo muda quando os  portugueses atingiram a Mina (Elmina, Gana), em 1471, as explorações marítimas começaram a ser efectivamente muito lucrativas. O ouro oriundo da Mina atingia, no inicio do reinado de D. João II, as centenas de quilos, o que lhe permitiu conceber um arrojado plano de expansão marítima (15).

D. João II  fez questão de iniciar o seu reinado (1481-1495) com a construção do Forte de S. Jorge da Mina (1482), cuja fortaleza foi elevada, em 1486, à categoria de cidade. A Mina, como ficou conhecida, era o símbolo maior da coroa portuguesa sobre toda a costa ocidental de África.

Durante o reinado de D. João II, o ouro da Mina duplicou as receitas publicas: cerca de 120.000 cruzados, enquanto as restantes não ultrapassavam os 126.688. No começo do século XVI, escreve Vitorino Magalhães Godinho, que as especiarias asiáticas não ultrapassavam em muito este valor. O ouro da mina representava uma percentagem importante dos recursos do Estado: 24% em 1506; 15% em 1519; O declínio do ouro da mina (1521-1523) produziu uma profunda crise económica. Portugal viu-se então obrigado a atrair o ouro das Antilhas, do México e Perú (11).

5. Especiarias Asiáticas. O avanço para sul abriu a possibilidade do acesso a uma nova e fabulosa fonte de riquezas, as especiarias da India. O plano aparece já referido na Bula de 1456, foi a partir de 1474, que começou a ser concretizado de forma sistemática.

O ano em que Colombo, "fugiu"  (8) para Castela (1484) , foi de particular importância para a expansão portuguesa em África, em especial para o projecto da India. Diogo Cão comunicou a D. João II a convicção que havia chegado ao extremo de Africa, atingindo o Promontório Prasso. Os portugueses estariam a uma curta distância da India (Ásia). 

Os geógrafos antigos, como Ptolomeu, designavam o extremo sul da África por Promontório Prasso. A partir daí abria-se o Golfo da Pérsia já na Ásia. 

Diogo Cão que havia partido em Agosto de 1482, trouxe a notícia que tinha chegado a este Promontório pouco antes do dia 8 de Abril de 1484. A notícia entusiasmou D. João II de tal forma que este lhe deu uma importante tença e o armou cavaleiro com o respectivo brasão. Era sua convicção que havia chegado às portas da Ásia. Na Oração de Obediência ao papa (Inocêncio VIII), pronunciada na corte pontifícia, a 11/12/1485, o embaixador de Portugal Vasco Fernandes de Lucena anunciou que os navios portugueses estavam prestes a atingir a India, tendo ficado a dias do Golfo Arábico

O promontório, segundo afirmou, estaria a 4.500 milhas italianas, o que corresponde aproximadamente à distância entre Lisboa ao Cabo do Lobo (2). D. João II, segundo Peres Damião (1 ) teria sido enganado, julgando que já atingira o extremo sul da África. 

Os dois padrões que foram encontrados de Diogo Cão parecem indicar que não terá ultrapassado o Cabo do Lobo, depois chamado de Cabo de Stª Maria a sul de Benguela - Angola, à Lat. 13º 25' sul".

Em 1485 Diogo Cão iniciou uma nova expedição, mas o seu barco desapareceu. O que significa durante 1485 e 1487, D. João II não possui informações concretas que pudessem confirmar se o Promontório de Crasso havia de facto sido atingido. 

Colombo afirma que esteve em 1485, com o cosmógrafo José Vizinho e D. João II, a analisar o novo método de navegação astronómica, baseados na altura do sol. Certamente teria sido obter novas informações sobre o Promontório de Crasso.

A vasta rede de espiões de D. João II, actuavam também no interior de África, a partir do Senegal. As informações que  enviarem ao rei, entre 1484 e 1487, pareciam reforçar a convicção que Diogo Cão havia de facto atingido o extremo sul África (3). Informaram-no inclusive que a largura de África seria mais pequena do que na realidade é.

 

A Longa Espera de 1489 a 1497

As informações entretanto recebidas de África, ao longo de 1487, mostraram de tinha havido um erro de cálculo. O objectivo estava próximo, mas ainda não fora alcançado. Bartolomeu Dias inicia, em 1487 uma expedição que o levará finalmente ao Cabo da Boa Esperança, de onde só regressa em Dezembro 1488 (4). A partir daqui D. João II tinha a certeza que podia atingir a India.

Os historiadores têm dificuldade em explicar porque é que depois de 1488 e até 1497, D. João II e depois D. Manuel I, terão suspendido as expedições para a India. Portugal possuía informações, recursos técnicos e humanos para atingir a India contornando África, mas resolveu esperar pacientemente para o fazer. Uma coisa é certa: não ficou parado !. 

A explicação oficial para esta pausa, assenta na ideia que D João II, terá percebido que para a expedição à India ter êxito, era necessário melhorar o conhecimento dos ventos e correntes, assim como a tecnologia dos navios.

- A rota seguida por Bartolomeu Dias revelou-se muito penosa, pois o mesmo fê-la ao longo da costa africana, enfrentando ventos e correntes maritimas contrárias à sua progressão para sul. Os portugueses tiveram que estudar entre 1488 e 1497,  os ventos do hemisferio sul, até que descobriram que a navegação para o extremo sul do continente africano, era muito mais rápida se os navios fizessem uma longa bordada a oeste no Atlântico Sul, depois de passadas as ilhas de Cabo Verde, aproximando-se do Brasil (10). Esta foi a rota que Vasco da Gama tomou em 1497, e com grande precisão foi ter ao extremo sul de África. É pois seguro que neste longo período muitas expedições portugueses tiveram que ser enviadas para o hemisfério sul, afim de descobrirem os ventos e correntes maritimas. 

- Bartolomeu Dias comandava uma pequena frota de duas caravelas latinas e uma naveta. A caravela era particularmente apta para a navegação à bolina, em manobras de zigue-zague contra o sentido dominante dos ventos, o que tornava a navegação muito penosa. Os portugueses tiveram também que desenvolver novas embarcações para grandes viagens e adaptadas aos ventos do hemisfério sul. As naus de pano redondo mostraram-se muito adequadas à navegação com vento pela popa. Vasco da Gama, em 1497, comandou uma armada com 4 naus.

A rota seguida por Vasco da Gama, em 1497, revela já um amplo conhecimento dos ventos e correntes maritimas do Atlântico Sul, assim como um pleno domínio da sua geografia. Ao dirigir-se para o extremo sul de África, dirige-se primeiro para os ilheus de S. Pedro e S. Paulo no meio do Oceano Atlântico, entre o Brasil e África (29°22' long. O; 0°56' lat. N, a cerca de 1300 km da costa brasileira e 1500 km da costa da Guiné), e só depois dos avistar rumou então para Oriente para atingir o cabo da Boa Esperança.

 

Foram três meses em pleno mar alto, sem ver terra, nos quais Vasco da Gama conduziu sem engano a sua armada até à ponta de África. Esta precisão na navegação implicava um prévio conhecimento não apenas dos ventos e correntes de todos o Atlântico Sul, mas também da posição exacta do Cabo da Boa Esperança. Mais 

 

- As informações enviadas pelos espiões que D. João II mandou por terra para a India só chegaram a Portugal em 1492. Só então o rei passou a ter um mais amplo conhecimento da parte oriental de África e das terras e povos que os navegadores iriam encontrar.

Terão sido estas as razões porque, segundo muitos historiadores, Portugal foi adiando a partida de uma expedição marítima para a India.

 

C)  Controlo de Castela

Sem ignorar a importância das razões anteriores, para explicar a longa "pausa"  de 8 anos, pensamos que razão principal foi de natureza estratégica. 

Uma das preocupações de D. João II foi sempre o de afastar a possível concorrência do caminho marítimo para as especiarias das India, em especial a Espanha, o principal inimigo do reino.

Na longa guerra ente 1475 e 1479 o acesso dos espanhóis à Guiné e ao Ouro da Mina esteve sempre no centro do conflito. Portugal reclamava o exclusivo da explorações e do comércio marítimo a sul das Canárias.

Não era apenas o rei que estava interessado neste afastamento dos espanhóis de África, mas também muitos mercadores envolvidos nos negócios africanos, como Marchione. Entre 1486 e 1495, recebeu o monopólio do tráfico de escravos, e possuía o exclusivo da sua exportação para Espanha e Itália. Esteve directamente ligado à rede de portugueses e florentinos que apoiaram o projecto de Colombo. Mais

 

Colombo em Castela.

O que andou a fazer durante 6 anos (princípios de 1485 a Julho de 1491)? A maioria dos historiadores afirma que até 1488 foi pouco convincente na maneira que expôs os seu projecto. Na verdade, as informações que recebia de Portugal, eram frequentemente contraditórias.

Tudo mudou em 1488, depois de ter vindo a Portugal para assistir à chegada de Bartolomeu Dias e à sua conferência, em Beja, com D. João II . Las Casas afirma que Bartolomeu Colón terá participado nesta viagem até ao extremo sul de África. 

O certo é que depois desta conferência, o seu irmão Bartolomeu Colon, o mesmo foi para Londres e a seguir para França, tendo como objectivo promover o projecto de Colombo de chegar à Ásia navegando para Ocidente.  

Colombo regressa a Castela. Em 1489, Frei Peres de Marchena, assim como uma vasta rede de apoiantes de origem portuguesa, têm uma participação cada vez mais activa no projecto de Colombo. Mais.

Marchione que dominava o tráfico negreiro em Castela e Aragão, a partir de Lisboa, irá colocar os seus agentes comerciais, como Juanoto Berardi, ao serviço de Colombo.

 

Consequências da Morte do Principe D. Afonso

Isabel, rainha de Castela, apesar de todas as pressões dos exilados portugueses, seguindo as recomendações de Hernando de Talavera,  continuou a hesitar na decisão de autorizar a viagem de Colombo.

A razão porque o fez, em dado momento, está ligada a um facto da maior importância:

Portugal e Castela após uma longa guerra (1475-79), fizeram as pazes, estabelecendo o Tratado de Alcaçovas-Toledo (1479-1480), onde pela primeira vez fizeram uma partilha do mundo descoberto e a descobrir. Esta era uma das condições que os nobres portugueses exilados em Castela não aceitaram (13), mas que em nome da paz entre os dois reinos era defendida por Hernando de Talavera.

O Tratado foi selado com um casamento:

- O principe D. Afonso de Portugal (herdeiro do trono) casaria com a infanta D.Isabel, a filha mais velha dos reis de Espanha. O matrimónio ficara acordado a 4 de Setembro de 1479, mas só aconteceu em 1490, devido à menoridade dos noivos.

Acontece que o principe D. Afonso, em Julho de 1491, morre num acidente equestre. A infanta espanhola regressa à casa dos seus pais.

D. João II envolve-se a partir deste momento numa tremenda luta para legitimar o único filho que lhe restava - D. Jorge de Lencastre -, fruto dos amores com Ana de Mendonça, que pertencera ao séquito de Joana, a Beltraneja...

As reacções não se fizeram esperar. Dona Brites, antiga Duquesa de Beja-Viseu, mãe da rainha Dona Leonor, D. Diogo  (assassinado em 1484) e D. Manuel (Duque de Beja e mestre da Ordem de Cristo) opõe-se de forma veemente às intenções do rei em legitimar o seu filho bastardo, defendendo a legitimidade de D. Manuel , como futuro rei de Portugal.

Dona Brites, recebe de imediato o apoio da sua sobrinha - Isabel, a católica- com a qual havia concebido o Tratado de Alcaçovas. D. Jorge da Costa, o conhecido cardeal Alpedrinha, opõem-se também à legitimação de D. Jorge de Lencastre.

Os reis de Espanha viam em D. Manuel um aliado, com o qual haviam convivido em Castela durante as Terciarias. Mais

Não é pois de estranhar que dias depois da morte do principe D. Afonso, a rainha de Castela mude a sua posição em relação ao Tratado de Alcáçovas-Toledo, mas também em relação ao projecto de Colombo. A partir daqui irá assumir uma clara atitude de afrontamento para com D. João II.   

Os reis de Espanha deixam de aceitar o estabelecido no Tratado de Alcaçovas-Toledo. As conversões com Colombo são retomadas, terminando meses depois na celebração das Capitulações de Santa Fé (17 de Abril de 1492). Nestas Capitulações afirmam-se igualmente "senhores do Mar Oceano", ignorando os domínios de Portugal e o acordado no referido Tratado.

Temendo uma possível reacção de D. João II, nomeadamente em relação à viagem de Colombo,  mandam preparar uma armada- a "Armada de Vizcaya", em Agosto-Setembro de 1492 (7). A posição é de aberto confronto.  

A maior parte dos portugueses exilados em Castela embora tenha apoiado o projecto de Colombo, fizeram saber à rainha Isabel que haviam terras a Ocidente, mas estas não eram a India (Ásia) que este apregoava (cfr. Memorial Português de 1494).

 Os dois reinos peninsulares pareciam caminhar para uma nova guerra.

 

Posição de D. João II

Tudo o que se passava com Colombo em Espanha era do conhecimento de D. João II, o próprio certamente o manteve informado, não fossem ambos "amigos muito especiais". As Capitulações de Santa Fé, assim como os preparativos em Palos para 1ª. viagem à "India" (América), eram, como é óbvio, do conhecimento rei de Portugal.

Os "reis católicos" não faziam segredo da expedição que estava a ser preparada para a India. Antes da partida da expedição, fizeram mesmo questão de anunciar nos portos da Andaluzia que a mesma não iria à Guiné, nem à Mina, domínios de Portugal.

D. João II, quando à viagem de Colombo, não manifestou qualquer discordância. Nada fez para a impedir, nem sequer tomou medidas especiais sobe o assunto, por saber estar confiante que o projecto de Colombo correspondia aos interesses de Portugal. Não andavam os portugueses numa guerra permanente para afastarem os estrangeiros da costa ocidental de África? Esta viagem servia na perfeição este objectivo.

Á cautela mandou na primeira viagem de Colombo pelo menos 6 portugueses, mas não foi tudo. Quando Colombo partiu da Ilha de Gomeira (Gomera, Canárias) na direcção da India (América), a 6 de Setembro de 1492, foi informado que três caravelas portugueses estavam a navegar junto à Ilha de Ferro (Hierro) à sua espera. O objectivo de D. João II era claro: mostrar que ninguém se podia aproximar do ...Brasil !

A única preocupação de D. João II, parece ter sido mesmo a de assegurar-se que Colombo não atingiria o novo continente que sabia existir no hemisfério sul.

Outra das grandes preocupações de D. João II, entre 1491 e 1494, era a questão da legitimação do seu filho bastardo D. Jorge de Lencastre, para a qual necessitava não apenas do apoio do papa, mas também dos reis de Espanha. Para obter este apoio, procurou casá-lo, sem êxito, com uma das infantas castelhanas. O cronista Çurita deixa entender que D. João II  terá condicionado as próprias negociações do Tratado de Tordesilhas por esta questão (14).

 

e ) As Prioridades de Colombo

Colombo realizou a sua primeira viagem à América acompanhado de pelo menos de 6 portugueses, dois dos quais eram pilotos. Ao chegarem a Lisboa, como o próprio afirma, ficaram em Portugal. Com que objectivo ? Informarem o rei e seguirem numa expedição portuguesa que logo a seguir partiu para as Indias. Nada foi deixado ao acaso.

A melhor prova do envolvimento de Colombo nesta missão está nas suas prioridades quando regressou à Europa.

No regresso dirigiu-se em primeiro lugar para os Açores e depois para Lisboa. O seu primeiro objectivo foi informar o rei português e obter novas instruções.

Ficou em Portugal continental de 4 a 14 de Março de 1493, durante dez dias, nas quais se encontrou não apenas com D. João II, mas também com a Rainha Dona Leonor de Lencastre e muitos outros nobres, inclusive o futuro rei - D. Manuel I. As duas facções em que estava dividida a sociedade portuguesa. Mais

Decisões tomadas:

- Divulgar a "descoberta". A partir de Lisboa escreveu para tudo quanto era sítio na Europa para informar outros países que havia atingido a India navegando para Ocidente. Tratava-se agora não apenas de enganar os espanhóis, mas também os italianos, ingleses, franceses, flamengos, etc.

Colombo só regressou a Espanha quando ficou seguro que esta informação fora enviada para toda a Europa. Porquê ? A explicação é simples: - Ao dar conhecimento da sua viagem à India e da curta distância que a mesma podia ser atingida, estimulando desta forma a cobiça das potências europeias. A Espanha tradicional inimiga de Portugal ficou desde logo envolvida numa guerra permanente para defender as suas "Indias" dos ingleses, franceses e holandeses. 

- Propor um novo Tratado. Acordou com D. João II os termos de uma nova divisão do mundo entre os dois países, ficando Portugal com parte do Novo Continente, o que lhe permitiria futuras expansões nestas regiões (América), mas sobretudo bloqueando as incursões dos espanhóis no caminho maritimo que estava a ser preparado para atingir a India (Ásia).

 

A posição de confronto dos reis espanhóis aumentou de intensidade, após a chegada de Pinzon e Colombo. Mandaram acelerar a criação da Armada de Vizcaya, tendo o seu capitão general apresado, em 1493, navios de um comboio português que se dirigia para a Ilha de S. Tomé. Ordenaram que nas regiões fronteiras com Portugal pudessem sair cavalos e armas, dando desta forma o sinal que uma acção militar estava a ser preparada.

 

Sabotagem

Depois das conversões em Portugal, Colombo dirigiu-se para Espanha, onde no Porto de Palos, durante 15 dias, se reuniu com um espião português - Frei Peres de Marchena -, a fim de combinar os passos a seguir neste país.

Decisões tomadas:

- Sabotar a informação. Conforme o combinado, propôs ao reis espanhóis um novo tratado com Portugal de divisão do mundo, com base de linha meridiana de demarcação dos respectivos domínios. A ideia foi aceite e iniciaram-se as primeiras negociações com vista ao estabelecimento de um novo Tratado. 

Uma vez iniciadas as negociações, Colombo tratou logo de sabotar o trabalho dos negociadores espanhóis não lhes dando informações precisas. Os reis espanhóis (Isabel e Fernando) solicitaram-lhe vezes sem conta as posições, latitudes, mapas das "Indias" descobertas. Ainda em 1495  andavam à nora sem saberem nada de concreto. Portugal, aproveitou a situação e através de várias manobras diplomáticas, apressou a conclusão do trabalhos. 

- Novas Viagens de Diversão. Em 1493 Colombo regressou, conforme o previsto, às Indias (Ásia). Recorde-se que nas mesmas havia deixado na 1ª. viagem, 38 espanhóis e 1 italiano no forte da Navidad. Tratava-se agora de entreter os espanhóis de forma a envolvê-los nas Indias, assim como empurrar outras potências europeias para as Indias criando aí uma zona de disputas territoriais e tensões diplomáticas. 

A nova expedição conduzida por Colombo, preparada ao mínimo pormenor, revelou-se um desastre completo. Ao fim de alguns meses, 10 dos 17 navios que haviam partido tiveram que regressar. O número de mortos e doentes que provocou foi impressionante. O que andava a fazer ? A saltitar de ilha em ilha, evitando que os espanhóis pudesse ter uma visão de conjunto das ditas "Indias". 

A assinatura do Tratado de Tordesilhas, a 7 de Junho de 1494, marca um momento alto na estratégia de D. João II. Os espanhóis estavam agora atascados nas Indias, sofrendo os seus navios contínuos assaltos de piratas e corsários portugueses, franceses, ingleses e italianos. 

Portugal está agora em condições de avançar, sem concorrência para a India. As atenções internacionais estão desfocadas das costas africanas. Negreiros como Marchione, respiraram de alívio. 

 

F) Plano Incompleto

D.Manuel I, conforme o próprio Colombo afirma, tornou-se imprevisivel. O rei terá feito algo muito diferente do combinado com ele em Março de 1493, quando se encontraram no Convento de Santo António da Castanheira. 

D.Manuel I, entre 1495 e o verão de 1497, segundo Colombo, continuou a explorar a rota do cabo, e os navios portugueses terão entrado pelo Indico. Após anos de estudo e ensaios, como dissemos, os portugueses em 1497 estavam em condições de efectuar com êxito uma viagem de dois anos até à India.

Antes de tomar uma decisão, o rei fez questão de obter do papa Alexandre VI a bula "Ineffabilis", a 1 de Junho de 1497, onde lhe reconhecia a ele e aos sucessores o direito de "receber e reter cidades, fortalezas, terras, lugares e domínios dos infiéis que adregassem submeterem-se ao seu jugo, pagarem-lhes tributo ou reconhecerem-no como seu senhor", desde que não fosse em prejuízo de para os direitos constituídos de qualquer principe cristão (17).  

Obtida a bula, no dia 8 de Julho de 1497, Vasco da Gama, partiu finalmente para a India, sem concorrência ! 

A corte espanhola, ao aperceber-se do logro em que estava metida, exige que Colombo elabore uma resposta à altura da gravidade da situação. No Memorial de la Mejorada, datado de Julho de 1497, acusa D.Manuel I de andar a explorar várias rotas de navegação que supostamente pertenciam a Espanha:

a) A rota da India que contornava África, tendo ultrapassando na altura o Cabo da Boa Esperança;

b) A rota do poente na direcção das Indias espanholas e sudoeste (Brasil);

c) A rota do norte na direcção do Polo Artico, isto é, da Terra Nova. 

De todas as expedições D. Manuel I enviara a que mais preocupava Colombo era, naturalmente a de Vasco da Gama pela rota do Cabo da Boa Esperança, porque iria confirmar que aquilo que se tornara claro: ele não chegara à Ásia, mas a umas ilhas perdidas no Atlântico.

É neste contexto que no Memorial de la Mejorada se lamenta que o "Plano de D. João II" não estava a ser cumprido, deixando no ar a ideia que este rei lhe prometera que nunca mandaria navios para a India. Alvaro de Bragança, percebendo a sua  posição melindrosa, negoceia em 1497 com a Corte Espanhola, o morgadio de Colombo.

D. Manuel I, em 1498, manda também Duarte Pacheco Pereira explorar as costas da América do Sul, atingindo o Brasil, e possivelmente percorrendo a América central até à Florida. Sabemos igualmente na mesma altura, portugueses ao serviço de Inglaterra, andavam a explorar as costas dos actuais EUA e do Canadá.

Era previsível um novo conflito entre Portugal e Espanha, caso não tivesse ocorrido uma  situação inesperada: D. Manuel I ao casar-se com uma princesa espanhola, acaba em Abril de 1498, na cidade de Toledo, a ser jurado herdeiro do trono de Castela...

Alvaro de Bragança, resolver o problema, reunindo meios para uma nova viagem de Colombo,  com uma importante novidade: - a 3ª viagem (1498-1500) careceu de autorização de D. Manuel I, que lhe possibilitou andar em domínios e mares portugueses, tendo visitado a Madeira e Cabo Verde, onde recebeu todo o apoio. Qual era o grande objectivo desta viagem? - Ver o continente que D. João II lhe falara que existia no hemisfério sul.

Quando chegou às Indias espanholas o que fez Colombo e os seus irmãos ?  Continuou a perseguir e a matar espanhóis, impedindo-os de se fixarem. É preso, em 1500, enquanto se preparava para assassinar mais uns quantos.

Missão ou Traição ?

A missão de Colombo implicava ter que assumir o papel de traidor, revelando a Castela segredos da corte portuguesa.  Esta foi justamente a principal acusação que D. João II, em 1485, fazia aos nobres que se haviam refugiado em Castela.  

Colombo nunca atuou sozinho, contou desde que chegou a Castela, em 1485, com o apoio de um vasto grupo dos nobres exilados portugueses, em especial de Alvaro de Bragança, irmão do Duque de Bragança decapitado em 1483.

Na perspectiva da maioria dos exilados portugueses, Portugal devia partilhar com os outros reinos cristãos as suas descobertas. Opunham-se à política do "Mar Fechado".

O apoio que estes nobres exilados receberam dos "reis católicos", tornaram-nos receptivos à ideia de aceitarem uma "união" dos reinos da Península Ibérica.

Os reis católicos cedo se aperceberam da importância dos portugueses (nobres, navegadores, militares, dinheiro ) para a expansão e manutenção dos seus domínios ultramarinos, dando-lhes amplas recompensas e elevando-os aos mais altos cargos. Uma política que foi seguida por Carlos V, e que não se cansou de a recomendar ao seu filho Filipe II de Espanha (18).

Durante o período de domínio filipino (1580-1640), os descendentes dos exilados de 1483-1484, foram largamente recompensados em títulos, cargos, privilégios  e manifestações de reconhecimento ( 5 ). Dramaturgos espanhóis escreveram inclusive peças de teatro em que os conspiradores contra D. João II foram recordados e elevados à categoria de heróis.

Carlos Fontes

   

( 1 ) Damião, Peres - Descobrimentos Portugueses, p.192

(2 ) O que é que Colombo disse em Castela? Em vez de se servir destes cálculos de Diogo Cão que erravam por defeito, defendia distancias muito maiores. Escreveu que Bartolomeu Dias a partir de Lisboa ao cabo da Boa Esperança, em 1488, havia navegado 2.850 léguas ou 11.400 milhas, o que daria 135 milhas por grau. Uma enormidade que não estava de acordo com os cálculos do seu contemporâneo Duarte Pacheco Pereira.

O seu objectivo parece ter sido mostrar que o percurso seguido pelo portugueses era enorme, quando comparado com a curta distância da Europa à India navegando para Ocidente. Neste sentido falseou os dados, aumentando e não diminuindo.

(3) Mota, A. Teixeira da - A Viagem de Bartolomeu Dias e a Concepção Geopolítica de D. João II. Boletim da Sociedade de Geografia. Out./Dez. Lisboa. 1958

(4) Recorde-se que o conhecimento deste feito nautico foi omitido pelos cronistas de Portugal. Se não fosse o seu testemunho de Colombo, esta viagem teria ficado no esquecimento, como muitas outras realizadas pelos navegadores portugueses. A política do segredo imposta pelo Estado português assim o obrigava.

 

(5) De forma muito selectiva, depois de 1580, a corte espanhola procurou recompensar as principais famílias dos conspiradores contra D. João II. Alguns exemplos:

a) Casa de Bragança ( os mais beneficiados):

- Filipe II, em 1588, apressou-se a conceder Duarte, irmão do Duque de Bragança, o título de marquês, e as vilas de Frechilla e Villumbrales.

- Um neto de Alvaro de Bragança - Francisco de Melo Bragança (Estremoz, 1597 - Madrid, 1651) recebeu o título de Conde de Assumar (1636), 1º. marques de Vellisca (1646), Visconde de Sacede, etc, capitão geral da Flandres, vice-rei da Sicilia (1639-1641), governador dos países baixos (1641-1644), vice-rei da catalunha (1645), embaixador em Saboya, Luca, Toscana, etc.

- O morgadio de Vimieiro, criado por Fradique de Portugal, filho do Conde de Faro, foi transformado num condado...

-  Um bisneto de Alvaro de Bragança - Nuno Alvares de Portugal, filho do 2º. Conde de Vimioso (Afonso de Portugal) foi nomeado corregedor da cidade de Lisboa (presidente do município) por Filipe II de Espanha, e depois fez parte da 1ª. Junta Governativa do reinado de Filipe III de Espanha, entre 1/9/1621 e 30/8/1623. A uma traição juntou-se outra, por um descendente directo de D. Nuno Alvares Pereira, o celebrado condestável de Portugal !

b) Ataídes.

Filipe II quando visitou Portugal fez questão de subir até ao Convento de Santo António da Castanheira para homenagear o panteão dos ataídes (1581).

Os seus membros tiveram elevados cargos e privilégios: Jorge de Ataíde, um dos principais defensores do domínio espanhol em 1580 foi nomeado Inquisidor-mor; António de Ataíde, 5º. conde da Castanheira, participou na conquista espanhola dos Açores (1581-1583), governador de Portugal (1631), recebeu o título de Conde de Castro Daire (1625), presidente do conselho de Aragão, etc.; Jerónimo de Ataíde, filho do anterior, foi nomeado pelos espanhóis Marquês de Colares (título não reconhecido em Portugal);

c) Távoras.

Cristovão Moura e Távora (Lisboa, 1538 - Madrid, 1613), o principal agente de Filipe II de Espanha na "união ibérica" de 1580, não só acumulou em poucos anos uma enorme fortuna, como recebeu títulos (Conde e depois Marquês de Castelo Rodrigo) e importantes cargos (vice-rei e capitão-geral de Portugal). Era descendente de uma figura enigmática que fugiu para Castela no tempo de D. João II: Condessa de Caminha- Teresa de Távora -  filha de Alvaro Pires de Tavora, 2º. Senhor de Mogadouro.

Cristovão Moura procurou também ligar a sua linhagem às casas que em 1483-1484 tinham conspirado ou se haviam afastado de D. João II: Tentúgal (Alvaro de Bragança) e Vila Real (Marques de Vila Real) e aos Corte Reais, que entretanto se haviam ligado aos Moniz.

 

(6) El Memorial Portugues de 1494. Una Alternativa al Tratado de Tordesillas. Prefácio. transcrição, e notas de István Szászdi Léon-Borja. Madrid. Testimonio Compañia Editorial. 1994

Szászdi Léon-Borja que descobriu e editou o documento de um portugues exilado em Espanha, no seu estudo introdutório, conclui que o seu autor, estava justamente a denunciar aos reis católicos o logro a que Colombo os estava a conduzir. A India que afirmava ter descoberto, não passavam de ilhas que os portugueses já conheciam muito bem. 

D. João II não se opôs a esta "descoberta", muito contrário, incentivou-a. O seu objectivo era afastar os espanhóis da Guiné e da rota da India.

(7) León-Borja, István Szászdi - El Origen de la armada de Vizcaya e el Tratado de las Alcáçovas, in,....

(8) Hernando Colón afirma que se tratou de uma "fuga", em finais de 1484. Neste ano ocorre uma nova conspiração contra D. João II, dirigida pelo Duque de Viseu-Beja, a cuja casa pertencia a família da esposa de Colombo. Não é de excluir a hipótese, como dissemos, que o próprio estivesse ligado a este grupo de conspiradores que tentarem matar o rei.

Não é de excluir também a hipótese que os conspiradores que conseguiram fugir, tenham procurado vender a Espanha um segredo de Portugal - a existência de terras a Ocidente -, pagando dessa forma o acolhimento que receberam dos reis católicos. 

Contudo, D. João II com o tempo apercebeu-se que este projecto interessava também a Portugal, porque afastava os estrangeiros do caminho que estava a seguir para atingir a India. Por esta razão o perdoou (1488) e apoiou financeiramente a 1ª. viagem. Colombo de traidor passou a colaborador. Esta hipótese explicativa permite perceber a razão porque os nobres portugueses o apoiaram desde o inicio, assim como a razão porque D. João II o trata por "especial amigo", e a duplicidade que passou a assumir na sua vida, etc.  

(9) Não é de excluir a hipótese de D. João II, perante a perspectiva de estar perto do Oceano Indico, em 1484, tenha começado a pôr em prática um plano de desviar os espanhóis da rota da India, oferecendo-lhes através de Colombo as Indias a Ocidente. Neste sentido este teria sido enviado para Castela princípios de 1485, onde contou com uma eficaz rede de espiões (2), como João Peres de Marchena (Português).

Bartolomeu Marchione, negreiro estabelecido em Lisboa, a mando do rei enviou para Castela os seus agentes e deu a indispensável cobertura financeira.

(10) Dominguez, Francisco Contente, ob.cit., pp. 6-8

(11) Godinho, Vitorino Magalhães - Os Descobrimentos e a Economia Mundial. Vol. I, Lisboa. 1963. p.46- 47 e 50.

(12) Godinho, Vitorino Magalhães - A Expansão Quatrocentista ...2ª. edição. p.187

(13) Os nobres portugueses exilados em Castela que apoiavam Colombo, nunca aceitaram a partilha do mundo acordado no Tratado de Alcáçovas, porque o mesmo os afastava de importantes fontes de rendimentos ultramarinos a que as suas casas em Portugal estiveram envolvidas na descoberta e defesa. Uma situação que provocou constantes desconfianças entre os dois reinos. 

(14) Çurita, Geronymo - Historia del Rey don Hernando el Catholico. De las empresas... Libro II, cap. XIII 

(15) Oliveira e Costa, João Paulo - D. Afonso V e o Atlântico: a Base do Projecto Expansionista de D. João II, p.52, in, III Simpósio de História Marítima. D. João II, o Mar e o Universalismo Lusíada. 11 a 13 de Outubro de 1995. Academia de Marinha. Lisboa. 2000

(16) No Tratado de Tordesilhas (7/6/1494), as pescarias a sul do Bojador são de novo consagradas como exclusivamente de Portugal, sendo no entanto estabelecida uma clausula de 3 anos. Todas as violações espanholas foram prontamente denunciadas por D. João III. A verdade é que passaram os três anos, e os reis católicos decidiram continuar a aceitar o exclusivo de Portugal, porque precisavam do seu apoio para combaterem a pirataria nas Indias.

(17) Levy Maria Jordão - Bullarium Patronatus Portugalliae Regum in Ecclesiis Africae, Asiae atque Oceaniae, Tomo I (1171-1600), Lisboa. IN/CM.1868, pp.56-57

(18) Sanchez, Angel Rodriguez - Carlos V y Portugal, in, Primeiras Jornadas de História Moderna ...

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Continuação:

 

16. Nobre em Fuga  17. Lugares em Espanha 18. Descobridores e Conquistadores 

19. Castelhanos 

20. Portugueses em Espanha.  21. Apoio de Judeus

22. Negociante Oportuno de Miragens

23. A Bandeira de Colombo  24.  Nomes de Terras

25. Regresso da primeira viagem 26. Significado de um reencontro

27. Partilha do Mundo

28.Defensor de Portugueses  29. Patriotismo

30. Mentiroso e Desleal  31. Regresso da segunda viagem 32. Manobrador 

33. Assassino de Espanhóis

34. Impacto da Viagem de Vasco da Gama 35. Perseguido 36. Ocultação

37.  Armadilha Genovesa  38 Mercadores-Negreiros Italianos  39.  Genoveses a Bordo 

40. Descendentes de Colombo 41. Descendentes (cont. ) 42. Descendentes (concl.)

43. Historiadores Portugueses. 44. Lugares do Navegador em Portugal

45. Cronologia da Vida de Colombo

 

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As Provas de Colombo Italiano

As Provas de Colombo Espanhol

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  Carlos Fontes
 
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