Carlos Fontes

 

 

   

Cristovão Colombo, português ?

 

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As Provas do Colombo Português 

36.  Ocultação

O contexto político em que decorre a missão de Colombo entre 1484 e 1495 alterou-se subitamente. A subida ao trono de D. Manuel, em fins de 1495, implicou um profundo processo de reescrita da história recente de Portugal e ocultação do passado de muitos dos seus protagonistas. 

O melhor exemplo desta mudança está na forma como passou a ser tratado em Portugal: D. João II, em 1488, chama-lhe "Colom", mas os cronistas do século XVI, como Rui de Pina, dão-lhe o nome de "Colombo", para que o mesmo fosse associado à Itália.

 

a ) D. Manuel 

D. Manuel I, que ascendeu ao trono 27 de Outubro de 1495,  tinha ideias próprias em relação à Espanha. Não procurava apenas afastá-la dos seus territórios, através de Tratados ou alianças matrimoniais, como o fizera D. João II, mas também procurou apoderar-se do reino vizinho. 

Entre as primeiras medidas que tomou, logo após ter sido coroado rei de Portugal, foi a de chamar todos os nobres que havia estado envolvidos nas conspirações de 1483 e 1484, devolvendo-lhes os bens confiscados. 

Em simultâneo, preparou o ataque o trono de Espanha, que lhe garantia também a segurança da expedição para a India.

Alvaro de Bragança, radicado em Espanha é encarregado de negociar o seu casamento com a infanta castelhana - Isabel -, viúva do principe D. Afonso, e segunda na linha de sucessão do trono de Espanha. 

Em 1496, uma embaixada espanhola, chefiada por Afonso da Silva (de origem portuguesa), oferece-lhe a Infanta D.Maria. O rei português insiste na infanta Isabel. Em Novembro de 1496, na cidade de Burgos, Alvaro de Bragança (por D.Manuel) e o Arcebispo de Toledo (pelos reis espanhóis) estabelecem um contrato nupcial, que é uma verdadeira aliança política

O contrato possui todavia uma exigência terrível dos reis espanhóis: a expulsão dos judeus de Portugal (2). Uma exigência a que D. Manuel I se apresta formalmente a aceitar.

1. Fidelidade ou manha ?

A ascensão de D.Manuel I ao trono deixa confiante os reis de Espanha, que finalmente passavam a controlar Portugal. A aceitação da expulsão dos judeus parece ser um sinal claro desta submissão.

A Espanha sente que poderá finalmente se apossar dos territórios ultramarinos de Portugal. O Tratado de Tordesilhas, em 1497, uma vez que não fora denunciado pelas partes durante três anos passava a definitivo. 

É neste contexto que o submisso rei de Portugal, toma duas decisões fundamentais para a expansão marítima:

- Vasco da Gama, a 8 de Julho de 1497, parte para a India.  D.Manuel I  toma esta decisão contrariando a posição dos que afirmavam que Portugal não tinha meios para fazer frente à concorrência de outros reinos europeus, nomeadamente dos espanhóis.

- Duarte Pacheco Pereira, no princípio de 1498, recebe ordens para explorar todas as terras a Ocidente, ao longo da linha do Tratado de Tordesilhas. D. Manuel I pretende saber quais as terras que pertenciam de facto a Portugal. Na sequência desta expedição (re) descobre o Brasil dois anos antes de Pedro Alvares Cabral.

Os espanhóis ficaram inquietos e iniciam uma fase de contestação destas iniciativas régias portuguesas, de que o Memorial de la Mejorada, pedido a Colombo, em Julho de 1497,  é disso o primeiro exemplo.

A fim de apaziguar os espanhóis. Em Outubro de 1497, D. Manuel I, casa-se com a Infanta Isabel.

Acontece que neste mesmo mês de 1497, morre o principe espanhol herdeiro do trono. A sua saúde era desde há muito reconhecidamente débil, minado por várias doenças que lhe atacavam a medula e o estomago.  Em virtude deste facto, D. Manuel I, ascende à posição de primeiro herdeiro.  A 28 de Abril, no ano seguinte, na catedral de Toledo é jurado herdeiro do trono de Espanha.

2. Posição de Colombo 

A situação de Colombo em Espanha altera-se quando Vasco da Gama parte para a India, mas agrava-se de forma brutal quando regressa a Portugal (1499). Os reis espanhóis passam a ter a plena consciência que foram enganados.  

A missão de Colombo tornou-se um problema para os interesses de D. Manuel I, pois mostrava aos espanhóis que não podiam confiar nos portugueses. A questão da confiança mútua tinha sido objecto de discussão no acordo de casamento de Novembro de 1496.

Após o regresso de Vasco da Gama, tornou-se evidente que os portugueses haviam enganado de forma habilidosa e sistemática os reis espanhóis afastando-os do verdadeiro caminho para a India. Esta questão era discutida desde a sua 2ª. Viagem, acumulando-se provas que o engano fora premeditado. 

Em 1500 Colombo é preso.

A D. Manuel I, assim como a Casa de Bragança, só lhes restava  empenharam-se em ocultar traições antigas, fazendo desaparecer provas das conspirações de 1483 e 1484, assim como a memória dos seus conspiradores.   

A estratégia de identificar Colombo como italiano, não era nova, colocou-se  antes de 1492, como um modo de afastar possíveis suspeitas sobre as suas reais intenções em Castela. A ideia foi assumir como suas, as raízes italianas da sua esposa - Filipa Moniz Perestrelo, cujo avô - Filipe Perestrelo -, por volta de 1380 se mudou de Piacenza para Lisboa. Mais.

As ligações de Colombo ao judeus também não agradavam a D. Manuel I, que mal chegou ao trono adoptou uma estratégia de expulsão, ocultação e integração forçada dos judeus (1497), num contexto político-social  marcado por crescentes manifestações de intolerância contra os judeus. Recorde-se que em 1506 ocorreu na cidade de Lisboa, uma verdadeira chacina de judeus: 4 mil são mortos. Colombo morre neste ano em Valhadolide.

3. Intervenção de Isabel de Portugal

Depois da morte de Colombo, em 1506, reacenderam-se as antigas acusações de traição. Dois anos depois foram abertos uma série de processos judiciais entre a Corte Espanhola e a família de Colombo. 

Durante quase 30 anos os seus descendentes, por mais subornos que fizessem, não conseguiram provar que o mesmo não era português, nem que não enganara deliberadamente os espanhóis conduzindo-os para uma falsa India. Era de todo o interesse de Portugal afastar esta suspeita, continuando a insistir que o mesmo era italiano. A questão nunca foi clarificada em tribunal, terminando o processo através de uma acordo judicial, em 1536, quando a família de Colombo cedeu grande parte dos seus privilégios. O acordo foi celebrado por uma portuguesa.

D. Manuel I, deixou num anexo ao seu Testamento, em 1521, uma tarefa precisa para o seu filho sucessor D. João III: casar a Infante D. Isabel com Carlos V, imperador da Alemanha e de Espanha. 

O casamento deu-se em 1526. No ano seguinte já a Infanta portuguesa assumia o governo de Espanha na ausência do marido, e continuou a fazê-lo durante vários anos até 1539, quando faleceu em trabalhos de parto. 

As questões que atormentava a família de Colombo, assim como a corte portuguesa foram por ela resolvidas. Não apenas garantiu importantes rendimentos aos descendentes de Colombo, como criou o Ducado de Véragua e o Marquesado da Jamaica, fazendo desaparecer neste período muito documentação incómoda. Mais

A filha de D. Manuel I cumpria a parte que lhe competia no plano de ocultação da identidade de Colombo. 

Os cronistas oficiais, ao serviço do rei, a partir do século XVI, começam a tratar Cristoval Colom por  "Colombo", adoptando o nome italiano, assim como a história fantasiosa que entretanto fora produzida sobre este navegador (Rui de Pina), pondo em marcha um novo logro.

 

b ) Regresso e Ocultação

 

Após a morte de D. João II por envenenamento, em 1495, D. Manuel I irá procurar criar as condições para o regresso a Portugal destes conspiradores (1497). 

 

O encontro de Colombo, a 11 de Março de 1493, com D. Leonor, D.Manuel e o Marques de Vila Real são proibidos de serem referidos. Não fosse o Diário de Bordo de Colombo jamais saberíamos da sua ocorrência.

 

Começa então uma acção sistemática de ocultação dos acontecimentos e dos conspiradores de 1492 a 1494. Os cronistas do reino, como veremos, serão censurados. 

 

Damião de Góis, como veremos, pagou no século XVI com a própria vida, o facto de ter procurado levantar o véu desta traição e dos vários implicados. 

 

Os títulos de Condes de Penamacor, Condes de Faro (o título será retomado pelos Filipes), Marqueses de Montemor-o-Novo, ligados a nobres envolvido na conspiração deixaram de ser atribuídos. O próprio título de Duque de Viseu, D. Manuel I apenas o concedeu à sua filha Dona Maria (1521-1577), mas sem continuidade. O mestrado da Ordem de Cristo ficou na Corte, dando D. Manuel I instruções precisas a D. João III que nunca o concedesse. 

 

A principal preocupação foi em ocultar tudo o que dissesse respeito à Casa de Bragança, e aos nobres que fugiram para Espanha em 1483 e 1484.  Três exemplos.

 

1 ) Lopo de Albuquerque, Conde de Penamacor, é dado como morto a 8 de Maio de 1493, na altura que Colombo era recebido pelos reis católicos em Barcelona, no seu regresso das Indias. Acontece que dois anos depois, alguém com o seu nome e intitulando-se Conde de Penamacor, exerce as funções de corregedor de Baeza -Ubeda. Os cronistas de Portugal - Garcia de Resende e Ruy de Pina - afirmam que mesmo morreu em 1493. O embuste é total, mas não é o único. Mais 

 

2 ) Pedro de Albuquerque, Almirante. Irmão do Conde de Penamacor. Participou também na conspiração de 1484. Os cronista do tempo, como Rui de Pina, Garcia de Resende e outros descrevem com enorme detalhe a forma como foi decapitado. Em 1492, um "Almirante português", não identificado consta da lista do que eram abonados por Isabel, a Católica, a lado de outros nobres portugueses exilados. Trata-se de Pedro de Albuquerque ou do próprio Colombo, uma vez mais identificado como português ? Mais

 

3 ) Jaime de Bragança (1479 -1532), filho do 3.º duque, D. Fernando II foi um dos nobres que regressou a Portugal (1497). Por morte do seu irmão D.Filipe herdou o título de Duque de Bragança ( 4º). D. Manuel nomeia-o fronteiro-mor de todas as terras e restituí-lhe todos os títulos. É-lhe dada a vila de Borba que D. João II tinha entregue a Vasco Menezes Coutinho, o denunciante da conjura de 1484. Em 1498 é apontado como o herdeiro do trono de Portugal. Selando o compromissos que haviam sido estabelecidos com os Duques de Medina Sidónia com a Casa de Bragança, em 1502, casou com Leonor de Mendonça, filha de D. João de Gusmão, 3.º duque de Medina Sidónia e de D. Isabel de Velasco. Num acesso de ciúme matou Leonor, a 2/11/1512, no Paço de Vila Viçosa. 

 

A traição de 1483/4 e a morte da Duquesa em 1512 mostravam os enormes as enormes perturbações que ocorriam na Casa Real Portuguesa. Os cronistas oficiais foram obrigados a ocultar estes factos de modo a não comprometerem a imagem da Casa de Bragança.

 

 

c ) Mudanças em Angeja (Aveiro)

 

Os Albuquerques de Angeja, enquanto senhores de Angeja, desaparecem no inicio do reinado de D. Manuel I, sendo substituídos por os descendentes de Vasco Martins Moniz ( ? - 1437), casado com Brites Pereira, pais de Isabel Moniz, que foi mãe de Filipa Moniz Perestrelo, esposa de Colombo ( consultar ). Este ramo dos monizes do Algarve (Silves), migrou para a Madeira.

 

O seu filho homónimo, casado com Aldonça Cabral, era comendador de Panóias (Ourique, Alentejo), cavaleiro da Ordem de Santiago e Mordomo-mor do Duque de Viseu - Diogo de Bragança - assassinado em 1484 (5). O filho deste último - Jorge Moniz -, era alcaide-mor de Mourão, guarda-mor de D.Manuel I, tendo-se casado com a filha de Fernão Roiz, amo do infante de D. Fernando. 

 

No final do século XV, o filho de Jorge Moniz - Diogo Moniz - torna-se senhor de Angeja,  casando-se em 2ª. núpcias com a filha de Affaitati, um dos banqueiros com ligações à família de Colombo... Uma das suas filhas casa-se, por sua vez, com Brás Henriques (dos Alcaçovas), familia à qual se ligou outros dos albuquerques de Angeja - Henrique de Albuquerque - desaparecido depois da conspiração de 1484. 

 

Assistimos a total controlo das famílias directamente envolvidas na conspiração, por pessoas ligadas à Casa de Bragança. Nenhuma fuga da informação é permitida.

 

d )  Rui de Pina - Cúmplice, Censor e Vitima de Censura

Rui de Pina (1440-1523) foi a primeira vítima deste processo de reescrever a História de Colombo, e dos acontecimentos que rodearam a sua partida para Espanha em 1484, em particular a conspiração contra D. João II. Ele era de todos os cronistas cronistas na altura o mais bem informado sobre Colombo

- Participara nas negociações que se seguiram à assinatura do Tratado de Alcaçovas-Toledo (1479/1480).

- Participara em 1493-1494 nas negociações que conduziram  à assinatura do Tratado de Tordesilhas (Junho de 1494).

- Conhecia a estratégia que conduziu os espanhóis ao logro de pensarem que haviam, em 1492, chegado à India. 

- Conhecia a redes de conspiradores portugueses que haviam participado na operação, como o frade João Peres de Marchena ou D. Alvaro de Bragança. Sabia das ligações do Rei com Colombo, as suas relações familiares e pessoais, mas também a dificil situação da sua família em Espanha. 

- Conhecia a rede dos aliados portugueses em Espanha, como os Duques de Medina Sidónia ou os Duques de Medinaceli. 

- Não desconhecia certamente que desde 1498 Colombo era visto como um traidor, e que desde 1516 se sucediam os processos em Tribunal contra os seus descendentes, nos quais a Corte espanhola procurava  provar que o mesmo era português e que enganara deliberadamente os espanhóis. Rui de Pina sabia disto tudo e muito mais. Revelar verdadeira identidade de Colombo era condenar a família de Colombo que, na altura, reforçara as suas ligações a Portugal, através do casamento de uma sua neta com um nobre português parente dos Duques de Bragança. Dizer a verdade significava trair todos aqueles que se mantiveram fiéis a Portugal e pôr em risco o próprio país, pois no caso fora envolvida a Casa Real de Bragança. Rui de Pina sabia disso.

- Sabia certamente que as suas palavras poderiam ser decisivas como provas em Tribunal e as consequências daí resultantes. 

Crónica de D. João II

Por o saber uma pessoa muito bem informada, D. Manuel I, nomeou-o a 24 de Junho de 1497, cronista-mor do reino.  A sua crónica mais aguardada era a "Crónica do Príncipe D. João" (D. João II). Ele era uma testemunha directa do acontecimentos. Terá começado a redigir a Crónica em 1518, tendo falecido em 1522 ou 1523.

A crónica que escreveu a mando de D. Manuel I foi alvo de uma enorme censura. O manuscrito original desapareceu, subsistem três cópias da época do século XVI possivelmente adulteradas em relação ao original. Para reforçar estas cautelas, a primeira edição da crónica só foi publicada em 1792.

Contra o "Plano da India"

Durante o reinado de D. João II, muitos foram os que se opuseram o "Plano da India", defendendo que Portugal devia limitar-se a explorar combater os mouros em África, explorando as riquezas deste continente, nomeadamente ouro da Mina. A India devia ficar para outros reinos cristãos. 

Esta ideia parece ter sido partilhada por Rui de Pina. Na Crónica de D.João II, como nota  Luís Fílipe Thomas ( 7), atribui particular relevo quer à construção de S. Jorge da Mina quer à cristianização do Congo, mas não refere sequer as viagens de Bartolomeu Dias, Pero da Covilhã e Afonso Paiva, cujo alvo era o Indico. 

O mesmo faz Garcia de Resende, que terminou a sua Crónica, em 1533, referindo em brevissimas palavras o feito de Bartolomeu Dias, que afiram ter sido realizado antes de 1486, como as expedições terrestres de Afonso Paiva e Pero da Covilhã. O erro é injustificável. Gaspar Correia, que começou as Lendas da India, por volta de 1515 ignora também o nome de Bartolomeu Dias, e atribui o feito a Janinfante (8). 

Os portugueses envolvidos no Plano da India são ignorados ou censurados por estes cronistas.

Os únicos contemporâneos que o assinalam o feito de Bartolomeu Dias foram Duarte Pacheco Pereira, Bartolomeu Colombo e o próprio Colombo!

Traição ou Cumplicidade?

O caso mais intrigante deste cronista-mor data de 1492. Neste ano, concluiu uma Crónica do Congo, a mando de D. João II. A 16/2/1490 recebera a incumbência de redigir os feitos famosos do monarca e do reino, nomeadamente a célebre embaixada de Rui de Sousa ao reino do Congo (1491). Rui de Pina, copiou a relação do piloto da armada e ouviu testemunhas. A sua crónica era da  maior importância, pois revelava a existência de um importante reino africano muito receptivo às ideias expansionistas do cristãos, assim como da penetração pelo interior de Africa de espiões portugueses.. 

Acontece que o manuscrito de Rui de Pina foi enviado para Florença. O original desapareceu em Portugal, subsistindo apenas uma tradução italiana do final do século XV, que se encontra na Biblioteca Ricardina de Florença (códice 1910) (6).  

Porque razão este cronista nunca mencionou o roubo ? Será que era um traidor ? Ou os florentinos também estavam envolvidos na estratégia de D. João II de afastar os espanhóis de África, e nesse sentido eram  informados das descobertas e de tudo o que as mesmas envolviam ? 

 

e ) Garcia de Resende - A Crónica Oficial 

A Crónica de D. João II original de Rui de Pina não terá agradado a D. Manuel (1469 - 1521), sendo a sua redacção dada a outro cronista - Garcia de Resende (1470?-1536). Foi moço de escrivaninha de D. João II e era muito estimado por D. Manuel. O seu pai - Francisco Resende - fora criado de D. Garcia de Meneses, o bispo de Évora morto no cárcere por conspirar contra D. João II.

Garcia de Resende "copiou" a crónica de Rui de Pina, mas fez-lhe as alterações que as conveniências do Estado obrigavam. A sua crónica foi publicada em 1545, a de Rui de Pina só viu a luz do dia 238 anos depois de ser escrita. 

A Crónica de Garcia de Resende passou a ser versão oficial sobre D. João II, as conspiração de 1483/84 e Colombo. Os desvios deixaram de ser permitidos. 

O parágrafo que refere Colombo como genovês é rigorosamente o mesmo que irá constar na versão de Rui de Pina que, em teoria, teria sido escrita 27 anos antes. A construção das frases e as palavras são as mesmas.  Este facto prova que a versão oficial foi imposta, sendo cronistas obrigados a segui-la. Tratava-se de uma questão de Estado, era do interesse do país que a mentira fosse mantida. 

Cronistas Diferentes - Parágrafos Iguais, a mesma censura do Estado*

Garcia de Resende:


No anno seguinte de mil e quatrocentos e nouenta e tres, estando el Rey no lugar de Val de paraiso, que he acima do mosteiro das virtudes, por causa das grandes pestes que nos lugares principaes daquella comarca auia, a seis dias de Março veyo ter a Restello em Lisboa Christouão Colombo, Italiano, que vinha do descubrimento das ilhas de Cipango, e Antilhas, que per mandado del Rey e da Raynha de Castella tinha descuberto. Das quaes trazia consigo as mostras das gentes, e ouro, e outras cousas que nellas auia, e foy dellas feyto Almirante.

Rui de Pina:


No anno seguinte de mil quatrocentos, e noventa e tres, estando ElRey no lugar do Val do Paraiso, que he acima do Moesteiro de Sancta Maria das Vertudes, por causa das grandes pestenenças, que nos lugares principaes daquella Comarca avia, a seis dias de Março arribou arrestello em Lixboa Christovam Colombo Italiano, que vynha do descobrimento das Ilhas de Cipango, e d’Antilia, que per mandado dos Reys de Castella tynha fecto, da qual terra trazia comsigo as primeiras mostras da gente, o ouro, e algüas outras cousas que nellas avia; e foy dellas intitolado Almirante.

* Descoberta de Manuel da Silva Rosa

 

A grande diferença nas crónicas de Garcia de Resende e Rui de Pina está na forma como descrevem o re-encontro de Colombo com o Rei, em 1493.

Na versão Garcia Resende, Colombo censura D. João II por não ter aceite a sua proposta, obrigando-o a ter que ir para Espanha ("e acusaua el Rey por se escusar deste descubrimento", Cap.CLXV).  Temos aqui implicita uma crítica às perseguições de D. João II, em 1483 e 1484, levando a que muitos portugueses tivessem que pedir protecção aos monarcas espanhóis, ficando ao seu serviço. D. Manuel, a partir de 1497, irá apoiar o regresso destes nobres acusados de traição.  

Há todavia dois importantes pormenores:

Ambos cometem um erro, ao afirmarem que Colombo chegou a Lisboa a 6 de Março de 1493, quando ele chegou no dia 4. Nenhum conseguiu inventar um motivo credível para justificar a longa permanência de Colombo em Lisboa, e por isso resolveram encurtá-la, evitando deste modo falarem outras questões que pudessem levantar suspeitas.

Ambos omitem o importante encontro entre Colombo e a Rainha Dona Leonor, D. Manuel e o Marques de Vila Real a 11 de Março, no Convento de Santo António da Castanheira. O longo encontro que aí ocorreu poderia levantar suspeitas sobre o papel desempenhado pelos Duques de Viseu e Beja na "descoberta" da América. Mais 

 

f ) João de Barros e Las Casas

Foi com decepção que Bartolomeu de Las Casas leu as "Décadas da Ásia"(Ásia de Ioam de Barros, dos feitos que os Portuguezes fizeram na conquista e descobrimento dos mares e terras do Oriente) de  João de Barros.

Ao contrário que esperava, o cronista português na esteira de Garcia de Resende limitou-se a escrever "segundo o que todos afirmam, este Cristóbal era de nação genovesa" (Primeira Década, cap.XI do Livro III, publicada em 1552).

Pouco mais podia dizer João de Barros. Não era ele padrinho de Jorge de Ataíde, bispo de Viseu, capelão-mor, inquisidor-mor de Portugal? Não era o bispo de Viseu neto de um principais conspiradores de 1484 - Alvaro de Ataíde ? (11)

Os outros historiadores portugueses posteriores a Garcia Resende e João de Barros, quando à origem de Colombo limitaram-se a escrever: "Diz-se que ...", "Afirmam que ...", ninguém se compromete com o assunto. A posição oficial estava definida, bastando seguir o exemplo. No final do século XVI havia já cronistas portugueses com uma versão totalmente romanceado sobre o caso. 

Em Espanha o processo judicial pelo embuste de Colombo arrastou-se até finais do século XVI, quando já não interessava a portugueses e espanhóis levantar a questão da sua identidade. A política da "União Ibérica" assim o requeria.  

 

g  ) Damião de Góis - A Nova Vítima

Em meados do século XVI, tudo aquilo que envolvia D. João II, a conspiração contra o rei em 1483/1484, as relações entre os Duques de Bragança e os Duques de Medina Sidónia continua a ser um assunto perigoso. 

Damião de Góis (9) , genro de João de Barros, em 1552, é nomeado Cronista-Mor da Torre do Tombo, ficando encarregue de escrever a Crónica do Rei D. Manuel.  Este cronista teve a ousadia  de pretender esclarecer os acontecimento que rodearam a conspiração contra D. João II, envolvendo os Duques de Bragança, mas também o assassinato da Duquesa de D. Leonor de Gusmão (Parente dos Duques de Medina Sidónia) pelo seu marido D. Jaime (1512). 

O seu censor foi o 2º. conde de Tentúgal, Francisco de Melo, neto de D. Alvaro de Bragança, um dos implicados na conspiração de 1483 e também grande amigo de Colombo (10).

A Crónica acabou por o conduzir aos cárceres da Inquisição. Disse o que não devia e teve que se conformar com a versão oficial dos factos. 

A Crónica foi publicada entre 1566 e 1567, mas os originais desapareceram. Apenas no século XIX foram descobertos alguns fragmentos dos originais que comprovam que muitas as partes da Crónica publicada foram adulteradas ou suprimidas por razões de Estado (1):

- As referências à morte de D. João II foram suprimidas, nomeadamente a suspeita de ter sido envenenado (cap.I, fl. 2).

- Os nomes e referências aos desterrados das traições de 1483 e 1484, nas quais Colombo aparece envolvido, foram suprimidos ou adulterados (Cap.VIII). Desapareceram entre outras, as linhas sobre as informações dos filhos do Duque de Bragança que haviam fugido para Espanha (D. Jaime e D. Dinis) na mesma altura que Colombo. Terão sido também acolhidos pelo Duque de Medina Sidónia ?

- O assassinato da Duquesa de Bragança pelo marido (D. Jaime) foi suprimido.

A extensão completa destes cortes e adulterações nunca as saberemos. O que eles revelam é que o assunto não era pacífico. Damião de Góis estando à longos meses preso pela Inquisição, apareceu morto a 30 de Janeiro de 1574. Terá sido afogado ou queimado na sua casa em Alenquer. 

 

h ) Rui de Pina - Expurgado  

A Crónica de Rui de Pina que foi publicada em 1792, foi possivelmente feita sobre um texto adulterado no século XVI, num trabalho feito em colaboração com Garcia de Resende, apesar disso é fácil de detectar muitas mutilações. Dois exemplos: 

- O escriba do Codex 632, manuscrito da crónica existente na Biblioteca Nacional de Lisboa, revela alguma hesitação quando tem que escrever "Colonbo" em vez de "Colon".     

- A data da conspiração, segundo Rui de Pina, foi a 28 de Agosto de 1484, o que não é coincidente com a data registada por Nicolaus Von Popplau, que a testemunhou e que regista ter ocorrido a 13 de Setembro (4).

Na altura em que escreveu a Crónica, por volta de 1518/19, era acusado de heresia, tinha pois razões que sobra para não levantar mais problemas. Como cronista-mor a sua missão era colocar os "interesses do Estado Português acima da "verdade" e foi isso que fez. 

Não é de estranhar se tivesse "esquecido" do nome que D. João II tratava o seu espião em Espanha (Cristoval Colon). Esqueceu-se também de registar muitas outras coisas importantes, como a descoberta de Bartolomeu Dias (1488).

Como antes fizera, continuou a proteger a verdadeira identidade de Colombo e a prolongar a mentira. Era do interesse do país que o fizesse, o contrário seria uma traição àqueles que se envolveram na missão.

O segredo estava bem guardado de modo a proteger a família de Colombo e todos os aliados de Portugal em Espanha.  

 

i) A Política do Sigílio

Estes factos nada têm de extraordinário faziam parte do processo de actuação da corte portuguesa em relação ás questões dos descobrimentos, onde imperava um rígida política do sigílio estudada por Jaime Cortesão. Muitas crónicas que sabemos da sua existência foram destruídas, a totalidade das mesmas emendas ou mutiladas. As de Rui de Pina não foram uma excepção: A Crónica de D. Duarte não se refere aos descobrimentos; A Crónica de D. Afonso V, a questão é apenas referida num capítulo. A própria Crónica de D. João II apenas aborda a questão em dois pequenos capítulos.  

"Sobre as explorações atlânticas, a ocidente do arquipélago dos açores, madeira e cabo verde, realizadas desde o reinado de D. Afonso V e continuadas em tempo de D.João II, nem uma palavra existe nas respectivas crónicas" , escreve Jaime Cortesão (1).

Damião de Góis, não apenas censurou Rui de Pina pelo que fez às crónicas do reino, mas também se insurgiu contra a sua destruição, atribuindo este facto ao seu "roubo".

A constatação desta censura data do século XVI, e Rui de Pina é justamente apontado como um dos principais censores. 

João de Barros , acusa-o de ter emendado e acrescentado coisas às crónicas de D. Duarte e D. Afonso V de Zurara (Década, I, Liv. VII, cap.II).

Jaime Cortesão, demonstrou que a própria Crónica da Guiné de Zurara foi mutilada, sendo da mesma retirados os capítulos que diziam respeito à exploração das Indias.

Carlos Fontes

  Notas:

 ( 1 ) Teófilo Braga - História da Literatura Portuguesa. 2. Volume. Renascença.

( 2 ) Estes casamentos e a expulsão dos judeus estão intimamente liagdos: no dia 30/11/1496, em Burgos é assinado o tratado de casamento de D. Manuel I, com Dona Isabel de Castela. No dia 5/12/1496 D. Manuel I "expulsa" os judeus de Portugal, esta era uma das exigências dos reis católicos e do próprio papa.

(4 ) Rodrigues Cavaleiro, Eduardo Dias - Memórias de Forasteiros - Aqui e Além Mar. Portugal, África, India. Séculos XII-XVI. Lisboa. Livraria Clássica Editora. Vol. I

Os acontecimentos que rodearam a morte de D. Diogo, Mestre da Ordem de Cristo, foram  testemunhados por Nicolaus Von Popplau - natural da Silésia (região que está hoje dividida entre a Alemanha, Polónia e a República Checa). 

Trata-se de uma enigmática personagem que andava por toda a Europa num carro atrelado a um cavalo de combate, sobre o qual colocou uma enorme lança. Em 1484 estava na cidade de Setúbal, por razões que se ignoram. Pretendia encontrar-se com a Rainha Dona Leonor de Lencastre, tendo D. Diogo, se oferecido para o levar junto da sua irmã, mas este recusou para não levantar falsas ideias em D. João II. 

Regressou a Lisboa, onde teve conhecimento do "assassinato" que ocorreram no dia anterior. Não teve dúvidas em afirmar que eram fantasiosas as descrições que então foram feitas dos trágicos acontecimentos. 

(5 ) Alguns historiadores tem chamado a atenção para a povoação de Panóias, pertencente á Ordem de Santiago, pela sua possível relação esotérica. 

Vasco Martim Moniz, cavaleiro da Ordem de Santiago, era senhor de Panóias, onde habitou no Paço do Comendador. Deixou em testamento a terça dos seus bens para a Igreja Matriz. A herdade coutada que administrava em Panóias foi entregue a Catarina de Albuquerque, mãe Tristão da Cunha, ilustre navegador, senhor de Panóias.

(6)Francisco Leite de Faria - Uma relação de Rui de Pina sobre o Congo, escrita em 1492. A 1ª.Edição desta crónica foi publicada em 1792: Collecção de Livros Inéditos da História Porruguesa, 2ª. Vol. pp.5-199

(7) Thomas, Luiz Filipe -De Ceuta a Timor, p.160.

(8) Andrade, A. A Banha de -Mundos Novos Mundos p.189

(9) Damião de Góis (Alenquer, 1502-1574), nasceu nos domínios da Rainha Dona Leonor. O seu pai - Rui Dias de Góis -, foi fidalgo da Casa do Infante D. Fernando e almoxarife da Rainha Dona Leonor. Com apenas 10 anos de idade entrou para a Corte de D. Manuel I.

(10) Identificado por Edgar Prestage, in, David Lopes, "Prefácio" à "Crónica do Felicissimo Rei D. Manuel..." 1949

(11) Jorge de Ataíde foi quem, em 1610, trasladou os restos mortais de João de Barros para a igreja matriz de Alcobaça.

 

 

Continuação:

 

37.  Armadilha Genovesa  38 Mercadores-Negreiros Italianos  39.  Genoveses a Bordo 

40. Descendentes de Colombo 41. Descendentes (cont. ) 42. Descendentes (concl.)

43. Historiadores Portugueses. 44. Lugares do Navegador em Portugal

45. Cronologia da Vida de Colombo

 

 

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As Provas de Colombo Italiano

As Provas de Colombo Espanhol

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  Carlos Fontes
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