Carlos Fontes

Olivença

Usurpação e Etnocídio

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A traição de "nostros hermanos"

 

     
   
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A traição de "nostros hermanos"

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É difícil encontrar país mais traidor e repleto de traidores, como foi a Espanha em finais dos século XVIII e princípios do século XIX. Todas as comparações ficam aquém da realidade. 

 

 

A Ameaça Francesa

Quando em 1789 eclodiu a Revolução Francesa, a Espanha foi um dos primeiros países que se levantaram contra as suas ideias liberais. Fez parte inclusive de uma acção armada contra a França (campanha do Rosilhão). O movimento revolucionário francês rapidamente adquiriu uma dimensão expansionista. A França precisava de dinheiro e não tarda a declarar guerra aos vários países europeus, para os poder saquear. 

Portugal comunga dos mesmos receios que a Espanha. Espera que esta se mantenha fiel aos compromissos de paz entre os dois países. Nada justificava aliás uma posição diferente.   

 

 

A Traição Espanhola

O homem que é apontado como o mentor da traição que os espanhóis fizeram aos portugueses é Manuel Godoy, amante da rainha de Espanha, mais conhecido pelos espanhóis como o "Principe da Paz". Carlos IV, a 15 de Novembro de 1792, entrega-lhe o governo do país. Após quatro anos de governação a Espanha Católica e símbolo da Inquisição na sua forma mais brutal torna-se no mais fiel aliado da França ateia, republicana e jacobina. Ao serviço da França declara guerra a meio mundo. É neste contexto de fidelidade canina que se pode perceber a sua declaração de guerra à Rússia.

Pensando-se reforçada pelo poder da França, de imediato a Espanha começa a urdir a trama para ocupar Portugal. Inicia então conversações com os franceses para a sua invasão e partilha. 

     
  Espanha e França Invadem Portugal

Estes países, em Março de 1801, fazem um ultimato a Portugal para que feche os portos a Inglaterra,sua tradicional aliada.Os termos deste ultimato constituem uma verdadeira declaração de guerra. A partilha de Portugal está há muito combinada, era apenas preciso um pretexto. Na fronteira com Portugal, em Abril de 1801, os espanhóis concentram cerca de 70 mil homens. Esperam contudo pela chegada dos franceses para a invasão. Entre 17 e 18 de Abril, os franceses entram pela primeira vez em Espanha com 15 mil homens. O seu objectivo comum é o saque do país, e o dos espanhóis o seu domínio. No dia 16 de Maio, o exército espanhol invade o sul de Portugal e lança a destruição pelo Alentejo, tomando Olivença. 

Isolado, sem apoios exteriores, traído pelos seus vizinhos ibéricos, fustigado pelos franceses, os portugueses procuram resistir. No tratado de paz que ainda em 1801 é  celebrado, na cidade que viu parir Godoy- Badajoz-, a Espanha protegida pela França, exige Olivença.  

Em Olivença vivem-se horas de desespero. A população é humilhada, massacrada e saqueada pelos invasores. Como o país procura resistir e aguardar por melhores dias. 

A história espanhola regista a rapidez desta acção de 1801. Ao longo de quatro meses saquem e tomam várias vilas e cidades junto à fronteira.Olivença caiu ao fim de dois dias. O que esta história não refere é a vergonhosa traição que fizeram aos portugueses, os massacres, roubos e violações que por todo o lado realizaram. O que esta história também não fala é que foram os espanhóis que convidaram os franceses a entrarem na Península Ibérica para os ajudar a roubarem e destruírem um seu vizinho, e que acabaram depois por também ser saqueados. 

O prestigiado historiador espanhol, Ramón Mendez Pidal (H.E.vol.XXXI,p.893), vai mais longe que todos e apresentam uma caridosa explicação para a usurpação de Olivença. O seu roubo serviu para consolar o povo espanhol da perda na altura das colónias da Trindade e Luisiana. O povo andava triste e desconsolado, precisava de sentir o sangue dos seus vizinhos e de o roubar para de novo se sentir feliz.  

Uma coisa é certa: os massacres de portugueses em Olivença foram brutais. Mesmo assim, o que restava da martirizada população ainda se revolta em 1806. Mas a Espanha não desiste do seu objectivo, os franceses também não. Portugal continua a resistir.

 

 
  A partilha de Portugal entre a Espanha e a França

Em 1807, em Fontainebleau é feita formalmente a partilha de Portugal. Godoy manifesta o desejo de ficar com o sul do país e de se proclamar rei do Algarve. Os franceses não tardam a trair este traidor. A 17 de Novembro de 1807, as tropas francesas invadem Portugal, mas a família real e os quadros do país (16 mil pessoas) havia já saído para o Brasil. Os espanhóis integrados nas tropas francesas aproveitam para roubar, incendiar as regiões por onde passam. É o desvario dos "hermanos" dos portugueses.

 

 

A Espanha está em todas as incursões dos franceses a Portugal. Entre 1808 e Outubro de 1813, ora estão na primeira fila ora estão na retaguarda, agindo como um exercito organizado ou como bandos de salteadores ao serviço da França ou a mando de caciques. 

Os portugueses contam desde Agosto de 1808, com a ajuda de tropas inglesas comandas por Wellington. Portugal transforma-se no continente Europeu, na principal  base de onde partirão as principais ofensivas contra os franceses e os seus aliados, entre os quais se incluem os traidores espanhóis. A população não tarda em auto-organizarem-se em grupos de guerrilheiros para fustigarem os franceses.

No outro extremo da Europa, a Rússia, desencadeia outra ofensiva similar.  

Numa Espanha repleta de traidores, muitos procuram assumir o poder. Fernando, filho de Carlos IV, ao tentar trair o seu pai tomando-lhe o poder, é denunciado por outros traidores. Não tarda a denunciar os seus amigos. Entre tantos traidores, o povo espanhol, elege-o como o seu novo rei. Os franceses opõem-se. O povo saí á rua, e em Maio de 1808, a revolta alastra por todo o país. Godoy não tarda a refugiar-se em França. Ao trono sobe um novo traidor- Fernando de seu nome.

 

  Portugal está transformado num campo de batalha. A política da terra queimada implica a destruição deliberada de grande parte do país para diminuir os recursos disponíveis para o exército invasor. Os franceses tentam por todos os meios dominar Portugal, sucedendo-se as invasões. Em Olivença, em 1811, o general francês Soult, numa destas tentativas é derrotado. A vila é tomada pelos portugueses. 

A Espanha que  desde 1808 percebera que só tinha a lucrar distanciando-se dos franceses, aproxima-se dos ingleses. Após a capitulação de Olivença em 1811 pede para que lhe seja confiada. Os ingleses cedem procurando agradar ao novo aliado. 

Em Olivença a população massacrada está isolada. A ponte que fazia a ligação com Portugal foi há muito destruída pelos espanhóis(1701). O desespero é total, o que se seguirá é a consumação do etnocídio que os espanhóis foram exímios na América.

Portugal encontra-se completamente destruído pela guerra, cerca de um terço da sua população foi gravemente afectada ou morta. A corte está no Brasil, o governo está confiado aos ingleses. O que resta de franceses e traidores espanhóis só é definitivamente expulsa do país em 1813. Não é difícil imaginar a dificuldade que os portugueses tinham na altura para impor fosse o que fosse.

 

 
 

Retrato de Manuel de Godoy, frente aos estandartes portugueses apreendidas em 1801, na vergonhosa traição da Espanha a Portugal que acabou por conduzir a Península Ibérica à ruína.

 

  ( exposto na Academia de São Fernando, em Madrid)

 

 
 

 

Invasões Franco-Espanholas de Portugal

Entre 1801 1813 Portugal foi por diversas vezes invadido pelos exércitos espanhóis e franceses. Populações inteiras foram exterminadas, saqueadas e violadas. Parte do produto do roubo que então foi praticado está hoje em exposição nos museus destes países, ou faz parte do património das suas mais ilustres famílias. Cerca de milhão de portugueses foram directamente  afectados, centenas de milhares foram mortos.  

 

 

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Dossier sobre Olivença

Inicio .1. Resistência . 2. Cultura . 3. A Tradição de Bolboa . 4. A traição de "nostros hermanos".  5. Isolamento e Extermínio6. A Legitimação da Usurpação.  7.Colaboracionistas  8. Outros casos de etnocídios9.Memorial  10. Bibliografia

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