Carlos Fontes

 

 

  

Cristovão Colombo, português ?

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Santa Maria de Guadalupe 

 

Tudo leva a crer que Colombo fosse devoto de Santa Maria de Guadalupe. No regresso da 1ª. viagem, próximo dos Açores, no meio de uma tormenta, entre a tripulação foi sorteado quem iria em peregrinação a "Santa Maria de Guadalupe",  no caso de se salvarem. 

 

Na segunda viagem às indias deu o nome de Guadalupe a uma ilha. A verdade é que não há registo que alguma vez tivesse estado em Guadalupe, na extremadura espanhola.

 

Esta virgem era a padroeira dos resgatados, reféns ou cativos, sendo portanto de particular devoção pelos marinheiros devido aos perigos que continuamente corriam não apenas de naufragarem, mas sobretudo de serem capturados por corsários e piratas. 

 

O texto do Diário de Bordo onde Colombo refere a promessa, é em tudo idêntico às promessas que muitos nautas portugueses deixaram escrito, que haviam feito sobretudo entre 1482 e 1495 (3), no caso de salvarem de naufrágios no mar ou do cativeiro no Norte de África.

 

Em Portugal, no século XV, os cultos marianos, nomeadamente o de Santa Maria de Guadalupe rivalizavam com o do apóstolo santiago. Um fenómeno que era particularmente notório na região de Lisboa e a sul do rio Tejo. Mais

Que santuário se estaria a referir ? 

A ) Monasterio Real de Nuestra Señora de Guadalupe (Espanha)

Ao contrário do que por vezes se afirma, Colombo nunca esteve neste santuário. Apenas existem provas documentais de que um dos indios que trouxe das Indias tenha sido aqui baptizado. 

A construção deste mosteiro deveu-se , como dissemos, a uma rainha portuguesa de Castela - D. Maria de Portugal-, esposa do rei castelhano Afonso XI, que o mandou construir com parte do espólio da batalha do Salado, na qual portugueses e castelhanos derrotaram os mouros

Tornou-se talvez, por esta razão, um dos locais privilegiados para encontros com da corte portuguesa com castelhana (e espanhola).

O Mosteiro a partir de finais do século XIV passou a ser muito concorrido pelos portugueses, nomeadamente para pagarem as suas promessas pela cura de maleitas, salvação de naufrágios, fuga ou resgate do cativeiro no Norte de África.

Este culto estava acima das rivalidades entre Portugal e Castela. D. Nuno Alvares Pereira, depois de combater os castelhanos em Valverde de Mérida (1485) foi em peregrinação ao santuário de Guadalupe, situado em Castela.

Muitos foram os marinheiros portugueses que constam do registos deste mosteiro. Dois casos espantaram em 1495 Jerónimo Munzer quando o visitou:

- O crocodilo que os portugueses trouxeram da Guiné;

- O "círio" que D. João II ofereceu ao mosteiro, em 1490, por a virgem ter salvo Lisboa da peste e de alguns dos seus súbditos se terem salvo de um naufrágio e regressado salvos a Portugal. Dada a importância da expedição é possível que tenha sido a de Bartolomeu Dias ao Cabo da Tormentas/Cabo da Boa Esperança (1488) (4). 

O Infante D. Fernando, Duque de Beja-Viseu e mestre das Ordens de Cristo e de Santiago foi outros dos muitos nobres que o visitou. A popularidade deste mosteiro atingiu o seu apogeu nos séculos XVI e XVII.

Os monarcas portugueses não eram alheios a este fenómeno popular. Três exemplos:

D. Afonso V.Este rei visitou visitou o santuário três vezes - 1458, 1463 e 1464. Foi um dos protagonistas de um dos mais famosos milagres deste santuário, destacado nas crónicas do tempo. A sua filha, a princesa Joana( 1452.-1490), poucos dias antes de falecer em Aveiro, pediu a um dos seus capelões para ir por ela em peregrinação ao santuário de Guadalupe.

D. João II. Se não é certo que D. João II tenha visitado este santuário, a verdade é que muito a apoiou. Deu-lhe, por exemplo, dois quintais de marfim, e um magnifico "Círio" mencionado por Jerónimo Munzer. Foi neste mosteiro que se soube da conspiração que estava a ser organizada contra D. João II (1483). 

O cronista Rui de Pina teve uma relação muito especial com o mosteiro, envolvendo pastagens comuns na Serra da Estrela.  Em 1482 teve aqui conversações sobre o caso de Dona Joana, a Beltraneja.

D. Manuel I. Enquanto foi Duque de Beja financiava regularmente este santuário, e continuou a fazê-lo depois de ser coroado (1495). Em 1498 quando se dirigiu para Toledo, onde se encontrava Colombo, não deixou de o visitar. Mais

 

B) Capela de Santa Maria de Guadalupe (( Raposeira, Sagres, Portugal) 

Esta capela, situada em Vila do Bispo, perto do Cabo de S. Vicente, Sagres no Algarve, tem uma origem remonta pelo menos ao século XII , pertenceu à Ordem dos Templários e depois à Ordem de Cristo, era um local de grande devoção de marinheiros e navegadores portugueses.

Estando a Virgem de Guadalupe ligada aos cativos é provável que as casas em volta da Igreja servissem para abrigar temporariamente os portugueses que tivessem sido resgatados no mar ou que houvessem sido capturados no Norte de África. Existia aqui também uma residência para os alfaqueques - os rabelos ou rebelos - que se dedicavam à obra do resgate de cristãos cativos dos mouros. O número dos capturados era de tal ordem que existiam por todo o país pessoas encarregues angariar dinheiro e tratarem destes resgastes.

Gil Eanes, Lançarote e outros capitães, depois na volta da Ilha de Tider (Costa da Guiné, 1444) ofereceram um escravo para se vender " a Santa Marya da augua Lupe hua ermida que está naquelle termo de Lagos" ( 1 ) 

Esta capela foi usada pelo Infante D. Henrique ( mestre da Ordem de Cristo ), frequentador da "Quinta de Cima" que fica junto ao local onde está implantada. Está documentada a sua presença em 1446. Próximo desta Igreja fica o célebre Cabo de São Vicente e o Cabo de Sagres. O local está associada à mítica "Escola de Sagres".

Os italianos ligam ao local duas histórias, o que atesta a sua importância religiosa no século XV para os navegadores:

- Primeiro, teria sido aqui que Cadamosto se encontrou com o Infante D. Henrique.  

 

- Segundo, teria sido perto do local que Colombo naufragou, em 1476, antes de vir para Lisboa.

 

C ) Mosteiro de Santa Maria de Guadalupe (Lisboa)

O Infante D. Henrique, em 1454, conseguiu autorização papal para a fundação de um mosteiro dedicada a esta virgem (Bula Exigentibus Meritis, do papa Nicolau V a D.Jaime, bispo eleito de Lisboa, datada de 26/9/1454). Pouco se conhece sobre este mosteiro em Lisboa (cfr. Descobrimentos Portugueses),mas a autorização revela o profundo significado desta virgem para a expansão. 

D ) Ermida de Santa Maria de Guadalupe (Serpa, Portugal)

Esta ermida anterior ao século XII, tendo no seu interior uma imagem do século XV de Stª.Mª. de Guadalupe, padroeira desta vila Alentejana. A capela fica a 1 km de Serpa, numa elevação conhecida por Serra de São Gens. 

A fundação local do culto é atribuída à rainha D. Maria de Portugal (1313 - 1357), mulher do rei castelhano Afonso XI, logo após a batalha do Salado (Cádiz, 30 de Outubro de 1340).

A história desta batalha é de enorme simbolismo. Tendo a frota do prior de S. João do Hospital, almirante castelhano, sido destroçada pelos muçulmanos. O rei Afonso XI de Castela, num gesto de grande humilhação, foi obrigado a pedir ajuda ao rei português Afonso IV de Portugal, para que este enviasse uma esquadra de socorro. A ajuda de Portugal foi decisiva para a estrondosa derrota dos muçulmanos na Batalha do Salado, onde estiveram presentes milhares de portugueses, entre os quais o Mestre de Aviz. 

Colombo mais uma vez, escolhe figuras de enorme simbolismo para a sua especial devoção, o que não deixa de ser surpreendente.

A Ermida de Serpa parece a mais ajustada, por duas razões de peso: 

O cronista do rei Carlos V (I de Espanha), - Juan Ginés de Sepulveda (1490 -1573),  na Historia del Nuevo Mundo afirma que o nome de Guadalupe tinha sido dado por Colombo "pelo que tinha de parecido com os montes que rodeavam a cidade lusitana de Guadalupe". A cidade lusitana ligada a Guadalupe é Serpa.

A vila alentejana está ligada à família de Colombo, em particular ao seu pai Infante D. Fernando, Duque de Beja, irmão do rei D. Afonso V. Este Infante fundou aqui, em 1463, o Convento de Santo António (monumento nacional).

Atendendo ao enorme simbolismo desta virgem para os portugueses, não admira que Colombo pudesse evocar um santuário de Guadalupe, qualquer que ele fosse.

Carlos Fontes   

  Notas:

( 1 ) Crónica dos Feitos da Guiné, Gomes Eanes de Azurara, Vol.II.)

( 2 ) D. Dinis, discordou do casamento do seu meio irmão D. Fernando, tendo-se refugiado em Castela. Henrique II de Castela fez-lhe mercê das vilas de Alba de Tormes, Escalona, Cifuentes e outras, para além de lhe dar uma fabulosa tença. Tinha também poder sobre Tarifa. Casou-o também com a sua filha ilegítima - Juana de Castilla -, cuja mãe se chamava Joana de Cifuentes.  Foram sepultados no Mosteiro de Guadalupe, na tampa do sepulcro do infante D. Dinis foi gravada a seguinte inscrição - "Rey de Portugal". D. Sebastião quando visitou este mosteiro, em 1576, mandou virar a tampa por não concordar com o que nela estava escrito. As estátuas datam do século XVI. Um dos descendentes deste infante foi um dos grandes conquistadores da América espanhola.

(3) Braga, Isabel M.R. Mendes Drumond - O Mosteiro de Guadalupe e Portugal: contribuição para o estudo da religiosidade penínsular dos séculos XIV a XVIII. Lisboa. (1994). Para uma síntese da mesma autora: Portugal e o Mosteiro de Guadalupe. separata das Actas do Congresso Internacional Bartolomeu Dias e a sua Época. Vol. V. Porto. 1989.

(4) Cadafaz de Matos, Manuel - A Peregrinação de D. Manuel a Santiago de Compostela (em 1502) vista à Luz de alguns documentos inéditos, in, I Congresso Internacional dos Caminhos Portugueses ....Lisboa.1992

 

 

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  Carlos Fontes

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