Carlos Fontes

 

 

Cristovão Colombo, português ?

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  5. A Itália de Colombo

 

Que importância atribuiu aos italianos e à Itália? NENHUMA ! Por mais estranho que isto possa parecer esta é a verdade. 

 

Segundo o testemunho de Hernando Colón, ele considerava-se tanto português como espanhol, dado que eram as pátrias dos seus filhos (1) . Nunca aos seus filhos teria colocado a questão de uma hipotética identidade Italiana ou genovesa. 

É por esta razão que em todos os seus textos conhecidos apenas duas vezes menciona a Itália.

A primeira vez foi num texto de 1498, onde sugere aos reis espanhóis que poderiam vender escravos para Itália, entre outros mercados potenciais (Textos, p.408).

A segunda menção, data de 1500. Aparece no meio de uma acusação de ingratidão que faz aos reis espanhóis, na qual sugere que as suas descobertas seriam melhor reconhecidas em França e Itália do que em Espanha (Textos, 410).

Num outro texto refere o nome de um "italián" que os reis católicos lhe indicaram para levantar dinheiro para pagar parte das despesas da 3ª. Viagem às Indias (Textos, p.408.). 

A Itália de Colombo reduz-se a estas simples menções, o contraste é enorme quando as comparamos como o que ao longo da sua vida escreveu sobre Portugal, a forma como descreve o país, a sua história, reis, pessoas, cidades, conquistas, descobrimentos, etc, etc.

A melhor forma para descobrir o que Colombo pensava dos Italianos (genoveses, venezianos, etc) é analisar o seu Diário de Bordo da 1ª. Viagem e os escritos sobre as outras viagens, e depois comparar o que escreveu sobre outros países como Portugal ou a Espanha. 

 

 

 

Primeira Viagem às Indias

"Relación Compendiada por Fray Bartolomé de las Casas".

a) Itália e Italianos

Ao longo de todo o Diário, o mais extenso documento que escreveu, apenas se referiu à "Itália" uma única vez

 

28/10/1492: Afirma em três palavras que as terras de Cuba são altas da mesma maneira que as da Sicília (note-se que iam três italianos a bordo).

 

A França é referida também uma única vez. A Inglaterra duas vezes.

 

Porquê a Sicília ? 

 

O rei da Espanha na altura - D. Fernando - era desde 1468 também rei da Sicília. Em 1501 conquistou Nápoles e reuniu os dois reinos sob a autoridade da coroa espanhola. Ao referir a Sicília Colombo nem sequer estava a falar de um Estado Independente, mas de uma colónia de Espanha. 

 

A explicação pode ser ainda outra e talvez a mais adequada: Desde o inicio do século XV que Portugal possuía na Sicília uma feitoria, que funcionava como entreposto para aquisição de trigo para abastecimento das fortalezas do Norte de África. Na segunda metade do século, temos conhecimento também de muitos navios portugueses estiveram ao serviço de Génova, abastecendo a cidade de trigo que traziam da Sicília e do Sul da Itália (consultar). 

 

 

b ) Portugal e os portugueses.

 

Desde que saiu de Palos (Espanha) não houve um único mês que não escrevesse algo sobre Portugal ou relacionado com os portugueses. O seu país não lhe saía da memória.

 

Exemplos (amostra):

 

9/8/1492: A existência de Ilhas a Ocidente, confirmada em 1484, por habitantes da Madeira e dos Açores.

 

6/9/1492: Três caravelas de Portugal que andavam na zona.

29/9/1492: Aves iguais às de Cabo Verde.

 

7/10/1492: Os portugueses descobriam as ilhas guiando-se pelas aves.

13/10/1492: Moedas portuguesas para trocas com os indios.

28/10/1492: Comparações entre os Indios e os habitantes da Guiné.

30/10/1492: Marinheiro que havia andado na Guiné.

 

4/11/1492: Um português descobre uma planta que lhe parece uma arvore de canela.

12/11/1492: Os portugueses faziam aprender português os habitantes da Guiné 

25/11/1492: Como os portugueses exploravam ouro no Rio Tejo.

 

21/12/1492: Viagens à Guiné e a perfeição dos portos.

26/12/1492: Comparação de Cuba com Portugal (dimensões, população, vestuário, valentia).

 

12/1/1493: Comparação com as dimensões e a beleza do Cabo de São Vicente (Portugal).

 

3/2/1493: A Estrela do Norte como se via no cabo de São Vicente (Portugal).

4/2/1493: Pelo tempo frio e chuvoso que se registava, afirma que ainda não chegara ao Açores. 

6/2/1493: Posição em relação às ilhas das Flores, da Madeira, Faial e Porto Santo.

7/2/1493: Referências às Ilhas dos Açores (Flores, Santa Maria) , mas também a Madeira.

10/2/1493: Referências às Ilhas dos Açores (Santa Maria) , mas também à Ilha da Madeira e de Porto Santo.

14/2/1493: Santa Maria de Guadalupe (Serpa)

15/2/1493: Serra de Sintra, Lisboa, Ilha dos Açores

18/2/1493: Ilha de Santa Maria (Açores)

19/2/1493: Açores, I.Santa Maria, Ermida, etc.

20/2/1493: Açores, Ilha de S. Miguel, etc.

21/2/1493: Açores, Ilha de S. Miguel, etc.

22/2/1493: Ilha de Santa Maria

27/2/1493: Cabo de S. Vicente, Ilha da Madeira, Ilha de Santa Maria (Açores).

 

3/3/1493: Lisboa.

4/3/1493: Cabo da Roca, Cintra, Cascais, Lisboa, Restelo (praia do), Guiné, etc.

5/3/1493: Lisboa, Restelo, etc.

6/3/1493: Lisboa,  7/3/1493: Lisboa

9/3/1493: Lisboa, Sacavém, Guiné, etc.

11/3/1493: Vila Franca de Xira, Alhandra, etc.

12/3/1493: Alhandra, 

14/3/1493: Cabo de São Vicente, Faro.

 

Nestas citações não foram tidas em conta as referências a Portugal, em termos genéricos, nem sequer à "Espanha" como Península Ibérica.

 

 

Segunda Viagem às Indias

"Memorial que para los Reys Católicos dio el Almirante a dom António de Torres". Ciudad de Isabella. 30 de Janeiro de 1494.

a) Itália e Italianos

 Ao longo de toda a carta fala apenas uma única vez menciona a Itália, mais propriamente a Sicília. O que diz Colombo ? Se nas Indias se plantasse trigo como na Andaluzia e na Sicília, a produção não seria inferior. Recorde-se que o rei da Sicília e da Andaluzia era o mesmo, mas também o transporte de trigo realizado por portugueses entre a Sicília e Genova. 

b ) Portugal e os portugueses.

- Ilha da Madeira: recomenda o mel de açúcar, "o melhor alimento do mundo e o mais são". Colombo reclama a sua aquisição urgente para as expedições que estavam a ser feitas, caso contrário continuaria a enorme mortalidade entre os marinheiros. Os espanhóis tinham que aprender com os portugueses.

 

"Carta del Almirante a los Reys Católicos" . Vega de la Maguana (Hispaniola), 14 de Outubro de 1495

a) Itália e Italianos 

Ao longo de toda a carta Colombo nem uma única vez se lhes refere.

b) Palos e os Portugueses

Colombo não apenas assinala o conflito entre os andaluzes (castelhanos) e os portugueses sobre o acesso dos primeiros às pescarias entre o Cabo do Bojador e a Guiné, como apresenta uma alternativa para as pescas. Note-se que esta era uma questão fundamental para Portugal, pois estava em causa, o afastamento dos espanhóis da rota das Indias. Colombo revela uma íntima conexão com os interesses portugueses.

 

 

Terceira Viagem às Indias

"Relación del Tercer Viaje".Santo Domingo, Outubro de 1498.

a) Itália e Italianos 

Ao longo de toda a carta Colombo nem uma única vez se lhes refere.

b) Portugueses

- Ao longa de toda a carta insiste para que a Espanha devia seguir o exemplo de Portugal nas descobertas, na organização e expansão do cristianismo. As referências a Portugal são continuas e abundantes. 

 

 

Quarta Viagem às Indias

"Carta del Almirante a los Reys Católicos". Jamaica. 7 de Julho de 1503

a) Itália e Italianos

 Ao longo de toda a carta Colombo só se lhes refere duas vez para dizer o seguinte:

-  "Parece que estas terras (alagadas) estão com Veragua como Tortosa com Fuenterrabia ou Pisa com Veneza".

- "Genoveses, venezianos e toda a gente que tenha pérolas, pedras preciosas e outras coisas de valor, todos as levam ao cabo do mundo para as trocar e converter em ouro."  

 

Porquê duas inócuas citações ?

Nesta altura a Espanha estava em guerra com a França para controlar o norte da Itália, nomeadamente Génova, Pisa e Veneza. Eram as notícias do dia.

b ) Portugal e os portugueses

A carta é uma crítica aos reis de Espanha pelas perseguições que lhe moviam a si é à sua família. Portugal é citado várias vezes e tomado mais uma vez, como o exemplo a seguir.

 

  História das Alegadas Origens Italianas de Colombo

A explicação para esta manifesta indiferença de Colombo para com Itália, radica numa confusão provocada pelo próprio.

Quando foi para Castela, resolveu adoptar como suas as raízes italianas da sua esposa - Filipa Moniz Perestrelo.

Muitos nobres da época o faziam, nomeadamente se as famílias das suas esposas possuíam um estatuto mais elevado. Não se tratava de qualquer usurpação de identidade, mas do assumir de um dado condição que se havia adquirido por matrimónio. D. Alvaro de Bragança fará o mesmo em relação à família da sua esposa - o melos.

Como referimos, o avô de Filipa era de Piacenza, pertencente ao Ducado de Milão, próximo da Lombardia e da Ligúria. Nesse sentido, não é de estranhar que muitos testemunhos do século XVI afirmem que Colombo era de Piacenza da família dos Perestrelo, outros afirmem digam que era de Milão, Lombardia ou da Ligúria. 

Hernando Colon, como vimos, foi a Itália investigar a alegada terra de origem do seu pai. Em Génova, Saona, Cugureo, Bugiasco e Nervi não encontrou rastos da suposta familia de seu pai. Não existia ninguém, nem qualquer testemunho provasse que alguma vez ali teria vivido.

Apenas em Plasencia (Piacenza)  afirma existiriam "personas muy honradas de su familia y sepulturas con armas y epitafios de los Colombos" (2). Hernando Colon está deste modo a procurar confundir os leitores. 

Tudo aconselhava que Colombo tivesse adoptado a identidade da sua esposa, nomeadamente garantia-lhe uma maior segurança em Espanha. 

A confusão em que ainda hoje os historiadores estão mergulhados decorre desta adopção de Colombo, da origem italiana do avô de Filipa.  Na verdade ele não tinham qualquer relação familiar com a Itália, mas sim a sua esposa.

Carlos Fontes.

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  Notas:

(1) "Teniéndose por natural de estos reinos (Portugal e Espanha) que eran la patria de sus hijos", Hernando Colon, ob.cit., cap.II.

(2) Hernando Colon,ob.cit., primeiros capítulos.

 

 

Continuação:

6. Lugares de um Tecelão em Itália

7. Cronologia Italiana

 

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As Provas do Colombo Português

As Provas de Colombo Espanhol

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