Carlos Fontes

 

 

Cristovão Colombo, português ?

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Colombo: Espanhol ?

 

3. Hernando Colón

 

Hernando Colón, nasceu em Córdova, a 15 de Agosto de 1488,  filho de  Colombo e Beatriz Enríquez de Arana, filha Pedro de Torquemada e de Nuñes de Arana, pequenos agricultores e lagareiros de Trassierra, um pequeno lugar a poucos quilómetros de Córdova. Quando Colombo conheceu a cordobesa, por volta de 1487, esta não teria mais do que vinte anos.

 

Filipa Moniz Perestrelo, em 1488,  ainda era viva, ao contrário do que Hernando Colon mais tarde irá escrever, tendo em vista não ser considerado um filho ilegítimo.

 

Colombo, antes de partir para a sua primeira viagem, mandou entregar aos cuidados de Beatriz Enríquez o seu filho primogénito - Diogo, natural de Lisboa, que contava na altura 12 anos e Hernando 4 anos. Temia que a sua cunhada, Briolanja Moniz Perestrelo, suficiente conhecida par ser localizada, pudesse vir a ter problemas caso a sua viagem fracassasse.  Briolanja tinha desde 1485 o seu filho primogénito. A cordobesa era uma simples aldeã, cujo paradeiro era difícil de descobrir.

 

No regresso, em Março de 1493, mandou vir para Sevilha os seus dois filhos, que foram entregues aos cuidados de Violante Moniz Perestrelo, em casa da qual passaram a residir. Hernando Colon nunca mais viu a sua mãe cordobesa, pela qual passou a nutrir um profundo desprezo.

 

Á semelhança do seu irmão Diego (cerca de 8 anos mais velho) foi também nomeado pagem do principe de Espanha. Tomou posse nos princípios de 1494. Após a morte do principe (4/10/1497), passaram a pagens da rainha Isabel, a Católica (18 e19/2/1498), recebendo Hernando um soldo de 9.400 mvds ano. O seu preceptor na corte foi o célebre aldrabão italiano - Pietro Martire di Anghiera, o que poderá justificar muito do seu comportamento ardiloso. 

 

Retrato de Hernando Colón. Anónimo.Sevilha.Séc.XVI

 

A partir de 1498 assistiu à perseguição movida contra o seu pai, nomeadamente à sua chegada sobre prisão em Outubro de 1500. Em Maio de 1502 embarcou com ele na 4ª. e última viagem às Indias. A humilhação da sua família era completa.

 

Após a nomeação do seu irmão governador da Hispaniola, em 1509, foi uma temporada para Santo Domingo, onde se encarregou da supervisionar a construção de igrejas. Regressou pouco depois à Espanha, nunca mais voltando às Indias. 

 

Entre 1510 e 1512, andou a estudar a forma de explorar as Indias espanholas e retomou a ideia de Colombo de uma volta ao mundo. Fernando de Aragão, negou-lhe a autorização, obrigando-o a permanecer em Córdoba ou Sevilha a seu serviço (16).

 

Entre 1512/13 viajou por Roma. Em 1515 esteve em Génova, à procura de possíveis descendentes do seu pai, mas nem um encontrou.  Quando começou a pesquisar Portugal, a corte espanhola proibiu-o.  

 

Em 1518 veio clandestinamente a Portugal. Dois anos depois foi à Flandres assistir à coroação de Carlos V, tendo-o acompanhado pelos Estados da Alemanha e da Itália, onde procura sem êxito familiares do seu pai. O novo rei de Espanha, pensado que o mesmo era um especialista em cosmografia, passou a pagar-lhe um salário de 200.000 mvds anuais, que em 1523 foram acrescidos de mais 65.000 (15).  

 

Renuncia entretanto aos seus direitos à herança de Colombo a favor de Diego Colon, a troco de uma renda vitalícia de 200.000 mvds anuais (17)

 

Regressou a Espanha. Carlos V nomeou-o membro da comissão espanhola que participou nas Juntas de Badajoz de 1524 que discutiu o direitos de possessão das ilhas Molucas, entre Portugal e a Espanha. Nesta altura foi também nomeado para elaborar um mapa-padrão na Casa da Contratação. O problema é que Carlos V foi rapidamente informado que Hernando Colon estava completamente desfasado dos avanços cosmográficos do seu tempo, continuando a defender a mesma concepção com que o seu pai enganara os reis católicos.... Foi por esta razão que acabou por ser afastado da Junta e da concepção do mapa-padrão que acabou por ser realizado por um português.

 

Em Sevilha, entre 1493 e 1525, a sua casa foi sempre a de Violante Moniz Perestrelo, onde também sempre residiu o seu pai. Ainda a 22/1/1519, deu amplos poderes ao seu aio Jerónimo de Aguero, em casa de Briolanja Munis (13).

 

Em 1525 decidiu começar a pensar em construir a sua própria casa. Acabou por adquirir uma casa, em 1526, no Barrio de los Humeros, entre a muralha e o rio, junto à Porta de Goles (12).Entre 1526 -1529 dedica-se à construção da sua casa em Sevilha onde reúne uma vasta biblioteca.

 

Em 1529 parte para a Alemanha e Itália, onde permanece até 1533.  Cinco anos depois procura fundar, em Sevilha,  um "Colégio Imperial" destinado a ensinar jovens na arte de navegar, projecto que nunca se concretizou. Apesar disto, a historiografia espanhola continua a afirmar que criou um "centro de estudios cosmográficos", o que é uma completa mentira.

 

Morreu em 1539 sendo sepultado na Catedral de Sevilha. 

 

A sua preciosa biblioteca ficou fechada durante alguns anos para se fazer um catálogo, tendo os livros sido mudados para o Convento de São Paulo. O Cabido da Catedral de Sevilha colocou o caso em tribunal, tendo os livros voltado para a catedral em 1552, onde ainda permanecem. Em virtude dos inúmeros roubos, a biblioteca inicial está reduzida a um terço.  

 

A sua obra é de enorme importância, tendo nela procurado construir a imagem do seu pai como um homem só, desamparado e sem apoios. A única forma de evitar que lhe fossem descobertos os seus verdadeiros cúmplices:

 

   -  "Historia del Almirante" (Historie della Vita e dei Fatti di Cristoforo Colombo), apesar de todas as adulterações e mentiras continua a ser uma fonte imprescindível sobre a vida de seu pai. Nesta obra contesta a ideia que o seu pai fosse plebeu, nunca confirmando que fosse italiano. Afirma que o nome "Colón" significa "membro" de uma organização. 

 

   -  "Itinerários". Um levantamento de Espanha, mas também de Portugal, realizado entre 1518-1523, com inúmeras pistas para a descoberta da verdadeira identidade do seu pai.

 

  -  - "Testamento". Trata-se de um documento produzido no final da vida, e que aparentemente contradiz, como veremos,  tudo o que antes afirmara durante anos sobre a nacionalidade do seus pai.  

 

 

Recomendações de um Testamento

 

O testamento original Hernando Colon perdeu-se, mas restam do mesmo duas cópias, uma no Archivo de Protocolos e outra no Archivo de la Catedral de Sevilha. Hernando Colon começou a escrevê-lo, a 16/3/1439, mas não o terminou. Sabemos que foram os seus outros que o concluíram o seu Testamento, nomeadamente Marcos Filipe, quando já estava gravemente doente. Intervieram também no mesmo, alguns dos seus credores italianos, como Franco Leardo, Gregório Cataño ou Leonardo de Spíndola (19). Fruto destas intervenções as cópias do Testamento estão repletas de erros (Juan Guillén, ob.cit.,p.150)

 

Na segunda parte do Testamento, Hernando Colón "faz" diversas recomendações sobre o funcionamento da sua biblioteca, e os procedimentos a seguir quanto à aquisição de livros.

 

Em relação às aquisições de livros em Itália, manda que sejam feitas por italianos. O comprador deveria apresentar-se como sendo da "librería de Fernandina que instituyó don Fernando Colón hijo de don Cristóbal Colón, genovés, primer Almirante que descubrió las Indias y que por razón de ser de la patria del fundador le pide merced le favorezca en lo que se le ofreciere ... porque sabía que siempre hallaría en los de su padre muy bien ayuda."

 

A afirmação no Testamento de que Colombo era genovês, não passa afinal de uma estratégia para obter descontos na aquisição de livros em Itália. A ideia agradava aos italianos, pouco interessando se fosse verdadeira.

 

No caso de não se conseguir arranjar um italiano para fazer estas aquisições de livros, recomenda que as mesmas  fossem realizadas por comprador alemão ou francês, mas nunca por um espanhol...

 

O autor deste texto do Testamento afirma que estas recomendações derivam da experiência do próprio Hernando Colon, que havia concluído que fora de Espanha:

 

" siendo de cualquiera de estas tres naciones (Alemanha, França e Itália) era más seguro y le miran con mejores ojos que no al español, y esto lo tenía muy experimentado; cuando andaba fuera de los reinos de España siempre hablaba italiano doquira que fuese por no ser conocido por español."

 

Hernando Colón, não apenas manifesta vergonha em assumir-se como espanhol, mas sobretudo não vê nisso qualquer vantagem nas suas aquisições de livros em Itália.

 

Podemos concluir que a referência à origem genovesa de Colombo, no Testamento de Hernando Colon, não foi feita pelo próprio, e em última instância, não passa de uma manobra para enganar os italianos obtendo dos mesmos descontos na compra de livros !.

 

Apesar da sua condição de filho ilegítimo, procurou defender os interesses da sua família, e em especial os do seu irmão Diego. O seu brasão parece indiciar a possibilidade do mesmo se assumir como um novo "membro". 

 

O que Procurava Hernando Colón ?

Entre 1517 e 1523 o filho de Colombo contratou uma série de agentes para fazerem um levantamento da Espanha. Não se limitou a este país e realizou também o levantamento de uma região e de várias localidades de Portugal, onde em 1518 entrou o clandestinamente. Carlos V informado destes trabalhos tratou logo de os proibir.

O temia Carlos V ? O que procura Hernando Colón em Portugal ? O que dizem as suas notas ? (1)

1. Alentejo  

O seu principal foco de atenção em Portugal centrou-se sobre o Alentejo, em localidades à volta da Casa de Bragança (Vila Viçosa).  

Recolheu notas sobre as seguintes localidades: Villaviciosa (Vila Viçosa), Olivenca (Olivença), Buyn (Boim, Elvas), Alaondral (Alandroal),  Alfayates (Alfaiatas - Cuba ou Alfaiates- Sabugal ?), El Redondo (Redondo), Ebora (Evora) e Portalegre. O que procurava Hernando Colón no Alentejo ? A terra do seu pai ? 

2. Lisboa  

Hernando Colón tem longas referências a Lisboa. Descreve-a como a capital da antiga Lusitânia que no seu entender englobava toda a extremadura, incluindo Sevilha.  O que estava a procurar dizer quando afirma que Lisboa e Sevilha tiveram na antiguidade o mesmo nome - Lusitânia ?

Refere ainda outras localidade á volta de Lisboa: Setúbal, Almeirim, Santarém e Óbidos .

3. Norte de Portugal

A norte apenas regista a região do Porto, Braña (Braga ?), Chaves e  Freixo de Espada (à Cinta), esta última vila termina com o nome de uma virgem de grande devoção de Colombo. Andaria à procura da origem de "Nossa Senhora de Cinta" ? 

4. Cabos  

Refere o Cabo Espichel (perto da Arrábida) e o Cabo de S. Vicente (Algarve). Assinala também na costa portuguesa as Ilhas Berlengas.  

Amigo de André de Resende

As ligações de Hernando Colon a Portugal foram cuidadosamente ocultadas, no entanto uma carta que acompanhava um dos seus livros acabou por o trair.

No verão de 1531 foi, pela terceira vez, a Lovaina, onde recorreu ao célebre humanista português - André de Resende - para que o mesmo o apresentasse Nicolau Clenardo (1493 - 1542). A sua ideia era trazer Clenardo para Espanha, onde passaria durante algum tempo a trabalhar na sua biblioteca. Clenardo aceitou ir para Espanha, mas acabou a dar aulas em Salamanca. Não tardou a vir para Portugal (Dezembro de 1533), recrutado por D. João III para dirigir a educação do infante D. Henrique, futuro cardeal-rei de Portugal  (20).

Avós Portuguesas

Hernando Colón na História del Almirante parece desconhecer totalmente a família portuguesa do seu pai. Trata-se todavia de uma ideia errada. Em 1518, como vimos, entrou clandestinamente em Portugal provavelmente à procura destes laços familiares, mas foi proibido de continuar a fazê-lo por Carlos V.

A verdade é que, em 1526, dirigiu-se ao embaixador português em Espanha - António de Azevedo Coutinho -, invocando o facto das suas avós serem portuguesas para obter o deferimento de um pedido. A carta, datada de 14/4/1526, foi remetida pelo embaixador a D. João III (3).

Ocultação

A família de Colombo colaborou de forma coordenada e empenhada, na ocultação da sua verdadeira identidade. Estava em causa títulos e uma enorme fonte de rendimentos. Hernando Colón não se poupou a esforços (a mentir) para deliberadamente confundir todos aqueles que procuram descobrir a verdade.

Fray Gaspar Gorricio de Novara (?- Dezembro de 1515). Colombo, como é sabido, quando se viu acusado de estar a trair os espanhóis, viu-se cercado de italianos que lhe prometeram que o ajudariam a garantir a transmissão dos seus títulos e herança para o seu filho primogénito - Diego Colon, filho de Filipa Moniz Perestrelo.

Gaspar Gorricio, frade italiano que estava no Mosteiro de Las Cuevas, em Sevilha, colaborou em muitas mentiras de Colombo, nomeadamente na redação do Livro das Profecias, onde este surge como um predestinado. Colombo seria o eleito por Deus para cumprir a "profecia" de evangelizar os indios e libertar Jerusalém, o que nunca fez, nem verdadeiramente estava interessado.

Colombo entregou-lhe grande parte da sua documentação, a qual não tardou a dispersar.

A verdade é que a familia de Colombo passou depois de 1500, a confiar no frade devido à sua suposta influência na Santa Sé. Foi no mosteiro de Las Cuevas que Diego Colon e a sua esposa Maria de Toledo fizeram o seu Testamento (1509). Fê-lo também Bartolomeu Colon, tendo os mesmos ficados aí depositados ao cuidado do frade.

Quando morreu Bartolomeu Colon, em Agosto de 1514, foi o frade que se incumbiu de transmitir os seus bens ao primogénito Diego Colon. Aquando da morte de Diego Colon, irmão de Colombo, actuou como representante da família. Foi ele que recebeu a ossadas de Colombo, que foram trazidas  de Valladolid a Sevilha por Juan António Colombo.

Todos os membros da familia Colombo que faleceram em Espanha foram sepultados no mosteiro do frade, menos Hernando Colon (18).

As manhas do frade italiano não lhe passaram despercebidas, pelo que nunca manifestou qualquer simpatia pelo mesmo, ignorando-o. Uma coisa era ajudar a familia, outra participar na apropriação da sua fortuna.

Maria de Toledo, esposa de Diego Colon, quando este morre trata logo de retirar a documentação do Mosteiro de las Cuevas, os cartuxos não inspiravam confiança. A documentação foi transferida para os dominicanos de San Paulo, a cuja ordem pertencia o seu irmão. 

Bibliófilo

Colombo, como vimos, quando regressa à Espanha da sua segunda viagem, em Junho de 1496, é desmascarado em público. Não tem argumentos para contrapor às acusações que lhe são feitas de andar a enganar os espanhóis. Foi Alvaro de Bragança que o salvou, defendendo os seus privilégios em Burgos.

A partir de 1497 percebe que tem que fundamentar melhor as suas mentiras, corrigir textos antigos e desfazer-se de outros. Nesse sentido, começa a adquirir um apreciável número de obras de autores antigos para sustentar melhor o logro que havia levado os espanhóis até ao Japão e à China navegando para Ocidente.

Hernando Colon, quando o seu irmão lhe pede para assegurar a defesa dos títulos e privilégios da sua família junto da corte espanhola, sente também a necessidade de ter uma boa biblioteca pessoal.

As ideias retrógradas que defendia em termos geográficos e cosmográficos eram cada vez mais difíceis de sustentar, obrigando-o a ter um bom conhecimento dos autores clássicos, mas também os que no seu tempo eram a favor ou contra as concepções do seu pai.

 

Falsificações da "Vida del Almirante"  

 

A mais antiga biografia de Colombo foi escrita pelo seu próprio filho Hernando. Os manuscritos originais foram também levados para Itália, a fim de serem  traduzidos e acabaram por desaparecer. Um dos tradutores foi um espanhol - Alfonso de Ulloa - que realizou o trabalho enquanto se encontrava preso, tendo morrido em 1570, sem ter concluído a tradução.

 

O editor (italiano) fez questão de escrever: "Eu publico isto para glória de Génova". A sua publicação coincidiu com as manobras da ladroagem italiana em torno do Testamento de Colombo.

 

A obra está povoada de "espanholismo",  "italianismo", erros, adulterações e falsificações. O próprio nome do autor foi adulterado, em vez de Hernando Colón ( o seu verdadeiro nome) aparece Fernando Colombo

 

Os erros e incongruências são particularmente notórias até ao capítulo XV, em que é feita a biografia de Colombo, onde se pretendeu fundamentar a sua origem italiana. Os restantes capítulos ( XVI a CVIII), centram-se na descrição das quatro viagens.

 

Não deixa de ser surpreendente que apesar das mutilações a leitura da obra coloca em causa a biografia oficial de Colombo.  

 

Bartolomeu de las Casas serviu-se desta obra, no final da vida, para escrever a sua biografia de Colombo, tendo todavia introduzido bastantes alterações. 

 

Mentiras e Mutilações

 

No final dos século XIX quando se começou a analisar esta biografia, não tardaram a aparecer investigadores que afirmaram que a mesma era falsa. Desde então tem-se acumulado as provas de mutilações e falsificações dos XV primeiros capítulos, levando vários investigadores a negarem a sua autenticidade. 

 

Principais Mentiras:

 

-  A origem romana de Colombo.

 

- Os seus estudos superiores em Pavia (Itália).

 

- A história da chegada de Colombo a Portugal, em 1485, envolvendo um combate ao lado de Colon o Moço, ao largo do cabo de S. Vicente, contra galeras venezianas.

 

- O alegado ódio de Colombo a Portugal

 

- A história da revolta da tripulação na primeira viagem

 

- Os testemunhos de um marinheiro cego de um olho e de um Pero Velasco, galego, destinados a ocultar as viagens de Diogo Teive à Terra Nova.

 

- A  história das "ilhas flutuantes", onde faz referência da passagens de obras inexistentes (4). O seu objectivo foi neste caso desacreditar as ilhas que António Leme havia descoberto a ocidente da Madeira.

 

- Mistura a história da viagem do "Piloto Anónimo" de Oviedo com a de Vicente Dias de Tavira, de modo a confundir ambas (5).

- Atribui a Colombo a crença absurda que os portugueses nunca tinha navegado 100 léguas para ocidente dos Açores (5), apresentado depois factos que contradizem esta afirmação (7).

 

- A proibição do Psalterium decretada pela Senhoria de Génova (8), não passa de uma mentira.

 

- Afirma que Colombo estava viúvo quando saiu de Portugal. A sua esposa Filipa Moniz Perestrelo só faleceu em 1497.

 

- A localização de Palos em Portugal

 

- Tentou passar a ideia de que Toscanelli e Colombo se teriam correspondido através e um florentino - "Lorenzo Girardi" (sic) - que vivia ou residia em Lisboa. Trata-se de uma falsidade, partilhada por Las Casas, para tentar associar Colombo a Itália, desorientando os investigadores.

 

Mutilações:

 

- A viagem à Terra Nova ( "Terra di bacalaos", sic) de Fernão Dulme (Femaldolmos) é enunciada a sua descrição, mas a mesma desapareceu do texto. Estamos perante uma clara mutilação de forma a ocultar esta expedição portuguesa à Terra Nova, a partir dos Açores (1487).

 

- Procura confundir a identidade de Pero Vasquez de Fronteira, dizendo que era de Palos Moguer em Portugal.

 

A maioria dos historiadores que defendem a autenticidade deste texto, afirmam que estas mentiras e mutilações tiveram como objectivo ocultar a identidade de Colombo e valorizar a sua descoberta.

 

Autores das Mentiras e Mutilações:

 

- Rumeu de Armas foi o primeiro a identificar com rigor dois autores diferentes da Historia del Amirante.

 

- Geoffrey Symcox, na análise publicada no Repertorium Columbianun identifica cinco mãos diferentes.

 

 

Ideias incontornáveis dos XV primeiros capítulos:

 

- Nobreza. Recusa a possibilidade do mesmo ser de origem plebeia.

- Nome: Colón significa "membro" de uma Ordem/irmandade. 

- Fontes Italianas: Os italianos são uns aldrabões, o que afirmam sobre Colombo é falso.

- Formação e Experiência. As únicas referencias concretas que faz sobre a formação teórica e prática de Colombo estão sempre ligadas a Portugal. Nenhuma envolve qualquer parte de  Itália. 

 

 

Cosmógrafo e Examinador de Pilotos

 

Hernando Colón, era apontado como o herdeiro do saber cosmográfico de Colombo, sendo particularmente escutado pela corte espanhola. 

 

A sua concepção do mundo correspondia àquela que Colombo defendera em 1487, junto da corte castelhana para a convencer a apoiar a sua viagem: As Indias faziam parte da Ásia, não existia nenhum novo continente. As dimensões do mundo eram muito reduzidas.

 

Apesar de todas as evidências em contrário, continuou a defender ao longo dos anos uma concepção do mundo ultrapassada.

 

Junta de Badajoz. Assim aconteceu em 1524, durante as conversações entre Portugal e Espanha sobre a posse das Ilhas Molucas, que tiveram lugar em Badajoz.

 

Os negociadores portugueses, trataram de afastar logo o único representante de Espanha que sabia de cosmografia - o português Simão de Alcáçovas.  

 

Hernando Colon, assumiu então as negociações, apresentando os cálculos do seu pai. Neste sentido continuou a dizer que o valor do grau equivalia a 56 milhas e dois terços, o que dava 14 léguas e dois terços. As suas referências geográficas continuavam a ser as de Ptolomeu, Alfragano, Marco Polo, etc., um completo delírio. Produziu três memorandos sobre a questão das Molucas.

 

Apesar das posições disparatadas que assumiu na Junta de Badajoz, a verdade é que as suas posições iam ao encontro dos interesses de Portugal, dado que dilatavam a questão no tempo:

 

Considerava que não bastava assinalar num mapa o meridiano, havia que marcar nas próprias ilhas das Molucas, o local onde passa o meridiano (14). Uma posição que para os espanhóis representava um verdadeiro desafio: atravessar o Oceano Pacífico, o que depois da travessia de Fernão de Magalhães (1521), só o conseguiram fazer em 1565.

 

Carlos V acabou por o afastar da Junta de Badajoz.

 

Os negociadores portugueses cedo se aperceberam que estavam a lidar com ignorantes, chefiados por um ignorante (10), e que o problema só podia ser resolvido em termos políticos, não científicos. Uma posição era aliás partilhada por Hernando Colon.

 

Sebastián Caboto, piloto maior da Casa da Contratação de Sevilha, entre 1526 e 1530 empreendeu uma expedição às Molucas, que terminou de forma trágica no Rio da Prata. Após o seu regresso foi preso em Madrid (1530) e depois desterrado para Oran.

 

Mapa-Padrão. Dada a ausência de Caboto, o imperador Carlos V, em 1526 (Granada, 6/10/1526), encarregou Hernando Colon de rever o "mapamundi", isto é, o mapa padrão que servia de base a todas as cartas de navegação espanholas, assim como de incluir no mesmo os seus domínios. Como era evidente, Hernando Colon nada sabia de cosmografia, razão pela qual o seu trabalho nunca foi concluído. 

 

Carlos V teve que recorrer a cosmógrafos portugueses, como Alonso de Chaves ou Diogo Ribeiro, para realizar o trabalho que Hernando Colon se mostrou totalmente incompetente. O mapa padrão só foi elaborado, em 1529, por Diogo Ribeiro, e ainda existe na casa da Contratação de Sevilha.  

 

Exame de Pilotos. O Conselho das Indias, a 2/8/1527, mandou que estes portugueses, pilotos da Casa da Contratação, fizessem também o exame do novos pilotos. Alguns historiadores espanhóis espanhóis, afirmam que os portugueses se serviram nestes exames da casa de Hernando Colon (11), o que constitui outro completo disparate.   

 

 

 

Pleitos Colombinos

 

A família Colombo entre 1500 e 1536, desenvolve uma verdadeira guerra judicial contra a Corte Espanhola, reclamando para a os privilégios e títulos hereditários que tinham sido dados a Colombo em 1492, confirmados em 1493 e 1497, consumindo nas batalhas judiciais grande parte da fortuna familiar.


Após a morte de Colombo, em 1506, os seus filhos prosseguiram nesta luta.

Em consequência do casamento de Diego Colon, com Maria de Toledo, em 1508, o rei Fernando de Argão nomeia-governador das Indias, mas não vice-rei.

 

A família Colombo instaura um novo processo contra a corte espanhola (1508-1511). Hernando Colon, em representação do seu irmão, irá fazer desta luta judicial um dos principais objectivos da sua vida, desenvolvendo uma vasta argumentação, que assentava na seguinte tese: - Os privilégios de Colombo resultavam de um contrato com a Corte espanhola, e como tal as condições do contrato obrigavam ambas as partes, e não apenas uma.  A sentença dada pelo "Consejo Real en Sevilla", a 5/5/1511, constitui uma pequena vitória: Diego Colon recebia 1, 5 milhão de maravedís; Hernando Colon, uma encomienda de 300 indios na Hispaniola, cujos rendimentos passa a receber em Espanha; Fradique de Toledo, o Duque de Alba, tio de Maria de Toledo recebia 1 milhão de ouro das Indias... Diego Colon acabou também por ser integrado na dignidade de Almirante. 

 

Hernando Colon, entre 1512 e 1516 esteve em Roma, a tratar do problema levantado pela amante de Diego Colon, para anulação do seu casamento com Maria de Toledo. Mais É também provável que andasse a informar o papa da necessidade de expulsar os espanhóis das Indias, como defendia em 1502 o seu pai, e o fazia Las Casas.

 

Regressou a Espanha, em 1516, quando Fernando de Aragão e regente de Espanha faleceu.

 

Em 1516 e 1517, apresentam uma proposta para colocar a " Audiencia Real em Santo Domingo, sob a alçada de Diego Colón, mas a mesma foi rejeitada. O Pleito de Darién acaba em 1518.

 

Em 1519 Diego Colón e Bartolomé de Las Casas, elaboram plano que apresentaram à corte para povoarem um vasta região da Terra Firme. Hernando Colón, aconselha o irmão a pedir a governação perpétua desta região. A proposta foi rejeitada. 

 

Em 1523-24, defende o seu irmão Diego Colon das gravíssimas acusações que lhe são feitas de ter abusado do poder nas Indias ( 1521- 1522). 

 

Em 1524 a corte pretendeu abrir um processo global contra Colombo, para averiguar quais os motivos que tinham levado á sua prisão em 1500. Hernando Colon e a sua família tratou de fazer desaparecer este processo.

Depois da morte de Diego Colon, em 1526, a influência de Hernando Colon parece ter diminuído no seio da família.

Em 1532-1536, a corte espanhola contra-ataca, apoiando-se na família Pinzon, pondo em causa a primazia da descoberta de Colombo. A família de Colombo é obrigada, a 28/6/1536,  a ceder grande parte dos seus privilégios, mas a guerra judicial prossegue. 

 

Subornos.  Hernando Colon nestas lutas judiciais não olha a meios para atingir os fins, nomeadamente mentindo e subornando todos os que pode.

 

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  Notas:

(1 ) Fonte:  Man. BB, 148, 27 - Biblioteca Colombina de Sevilha (manuscritos) e- Man. 7855 - Biblioteca Nacional de Madrid  (manuscritos) 

(3) Braancamp Freire, publicou esta carta na colectânea de documentos - "Ida da Imperatriz D. Isabel para Castela" , Boletim da Classe de Letras da Academia das Cìências, Vol. XIII, 1919 p.637, Coimbra, 1921.

(4 ) Cortesão, Jaime - Os Descobrimentos...., p. 139

(5) Cortesão, Jaime , ob.cit., p. 141-142

(7) Cortesão, Jaime , ob.cit., p. 143

(8) Romeu de Armas, António - Hernando Colon, Historiador da América. Madrid. 1970. Real Academia de Historia. p.35

(10) Colección de Documentos Inéditos para a História de España, vol. 16. p. 320

(11) Martin-Meres, Luisa - Las Ensenañzes nauticas en la Casa da Contratación de Sevilla, in, La Casa de Contratación y la Navegación entre España y las Indias, vários.

(12) Guillén, Juan - Hernando Colon, p.192.

(13) Guillén, Juan - Hernando Colon, p.234.

(14) Puente y Olea - Los Trabajos Geograficos de la Casa de Contratacion, 1900, p. 319

(15) AGI, Indiferentes General 420, Vol. IX, fol. 69 r.

(16) AGI, Indiferente Geral, 418, Lib. III, fol. 153 V

(17 ) McDonald, M.P. (2004),.... p.44

(18) Guillén, Juan - Hernando Colon, Humanismo y bibliofilia. Fundacion José Manuel Lara. Sevilla. 2004. p.234-235.

(19) Guillén, Juan - Hernando Colon..., p.151

(20) Carvalho, Joaquim de - Uma Epístola de Nicolau Clenardo a Fernando Colombo. Imprensa da Universidade de Coimbra. Coimbra. 1926

 

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Continuação

 

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