Carlos Fontes

 

 

Cristovão Colombo, português ?

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Colombo: Espanhol ?

 

 

2. Frei Bartolomeu de las Casas 

A maior parte da documentação que possuímos de Colombo, como os seus textos mis extensos, são cópias feitas por Frei Bartolomeu  de las Casas (Sevilha, 1474 - Madrid, 1566). Os originais desapareceram. Durante décadas teve acesso não apenas aos seus manuscritos, mas também à biblioteca de Hernando Colon. Depois da sua morte, em 1539, a biblioteca passou para o convento de S.Pablo em Sevilha, onde esteve entre 1544 e 1552. Las Casas teve a oportunidade de a consultar e dispor da documentação conforme quis.

A sua vida está ligada à família de Colombo. Em 1507, estava e Roma, onde se encontrou com Bartolomeu Colon irmão de Colombo, que aí se encontrava para defender junto do papa os privilégios do seu sobrinho, Diego Colon.

Foi para Hispaniola, na mesma altura que Diego Colon assumiu o cargo de governador de Hispaniola (1509). Este concede-lhe terras e um encomienda (um grupo de indios para explorar), junto da sua corte, em La Concepción. No ano seguinte, faz-lhe uma grande festa, por ser o primeiro sacerdote que cantava uma missa nas Indias. Não tardaram a ficar amigos intimos, 

Las Casas mudou-se para Cuba, em 1513, como capelão e conselheiro de Pánfilo de Narváez, que havia empreendido com Diego Velázquez a conquista da população da Ilha. A brutalidade do sistema que aqui encontrou, levam-no a revoltar-se contra o extermínio que os espanhóis estavam a fazer nas Indias.

A amizade entre os dois não parou de se aprofundar. Em 1516, Diego Colon escreve-lhe queixando-se da corte espanhola. Três anos depois, em Junho, estando a corte em Barcelona elaboraram o célebre projecto de povoar com indios uma extensa região da Terra Firme. Devido a exigências impostas por Hernando Colon, que reclamava o governo desta região, o projecto comum não foi aceite pela corte (2). Conseguiu todavia um aprovação de um outro mais limitado, que se circunscrevia à costa da Venezuela e Colombia, cuja colónia veio a resultar num tremendo fracasso. Os espanhóis estavam apenas interessados no saque, não no povoamento as Indias.

Las Casas defendia que a mão de obra india devia de ser substituída por escravos negros. Um facto que o tornou num dos promotores da introdução da escravos negros nas indias, revelando uma total cumplicidade com os negreiros portugueses, que controlavam o tráfico na costa ocidental de Àfrica.

Las Casas manteve sempre um enorme amizade para com Diego Colón, encarando as perseguições da corte espanhola lhe fazia como parte do mesmo plano maléfico de extermínio da Humanidade. Nesse sentido irá apoiá-lo nos vários processos (Pleitos) que este moveu contra a corte espanhola e defender os privilégios da sua família, dispondo inclusive de uma cópia dos Pleitos com a coroa.

Em 1536, a família Colombo foi finalmente espoliada de todas as suas honras e privilégios que haviam sido concedidos ao Almirante nas Capitulações de Santa Fé. Desagradado do comportamento da corte espanhola, Las Casas passa ao ataque e escreve várias obras, como a Brevísima relación de la destrucción de las Indias (1552), onde denúncia o extermínio dos indios pelos espanhóis.

Era tudo menos um historiador imparcial. 

1. Ocultação

Las Casas estava convencido que Fernando de Aragão, não era apenas hostil para Colombo, mas planeava privar Diego Colon  da herança do seu pai (cfr.Las Casas, II, p.324-327).

Sabia como ninguém das acusações de traição que na corte lhe faziam. Fiel à família Colombo, não lhe passava pela cabeça atraiçoa-la revelando a verdadeira identidade do almirante.

Como lhe haviam dito, a melhor origem que convinha a Colombo era ser identificado como italiano. Nesse sentido, colaborou, como Fernando Colón, na invenção de uma pseudo-correspondência entre Colombo com Toscanelli, envolvendo um italiano - "Lorenzo Birardo" , que vivia ou residia em Lisboa (Las Casas, Livro I, cap.2, Tomo I)

É fácil perceber o inestimável apoio que deu à construção da mentira que envolve a biografia deste navegador. Os historiadores têm descoberto inúmeras falsificações no textos de Colombo que são reconhecidamente deste frade dominicano.

Las Casas concebeu inclusivamente todo um discurso messiânico para afastar os espanhóis da Indias, considerando nula a doação que lhes havia feito Alexandre VI. Colombo, era na suas palavras um predestinado, tendo sido conduzido às Indias por Deus para que a fé cristã pudesse aí ser difundida. 

Neste sentido, as Indias deviam ser entregues ao Papa, acabando com a destruição da Humanidade em que os espanhóis estavam a praticar. Este discurso coincide com o de Colombo no fim da vida, quando passa a afirmar que recebeu as Indias de Deus e depois as deu aos reis espanhóis.

2. Diários de Bordo

 

O original do Diário de Bordo  da primeira viagem (1492-93), escrito por Colombo, foi o primeiro documento importante a desaparecer. Ele fora obrigado a entregar o original aos reis católicos para que estes fizessem uma cópia, tendo o mesmo sido devolvido a Colombo.

 

Las Casas, entre 1523-1526, faz um resumo do mesmo em Santo Domingo, que utiliza na sua História das Indias (1527-1529), e que foi também utilizada por Hernando Colon, na Historia del Almirante (1537-1539). Las Casas expurgou, neste resumo, o Diário de Bordo de tudo o que podia Colombo. A verdade é que o original desapareceram sem deixar rasto. O resumo de Las Casas sofreu depois várias alterações feitas pelo próprio Las Casas e por  Hernando Colon. As duas citações do mesmo texto, feitas por ambos, não coincidem. 

 

O Diário de Bordo da segunda viagem (1493-1495) desapareceu. Hernando Colon consultou-o para a sua História del Almirante, sendo as suas referências aproveitadas por Las Casas (1553) na sua História das Indias.

 

O Diário de Bordo da terceira viagem (1498) desapareceu. Las Casas consultou-o (1523-1526), utilizou-o na História das Indias (1530-1534), e depois numa nova versão do factos (1553-1554). Hernando Colon consultou a versão de Las Casas. O certo é que o Diário desapareceu.

 

O Diário de Bordo da quarta viagem (1502-1504) esteve a cargo do português - Diego Mendez de Segura. Foi consultado por Hernando Colon e por Las Casas. O Diário acabou por também desaparecer.

 

 

3. Historia de las  Índias

 

Obra escrita por Las Casas, entre 1527 e 1559, numa altura que a família de Colombo estava a ser espoliada pela corte espanhola. Foi nesta altura que visitou Lisboa (Janeiro de 1547), onde nasceu Diego Colon e está sepultada Filipa Moniz Perestrelo esposa de Colombo.

 

Embora Las Casas tenha estado na posse de toda a documentação de Colombo, a verdade é que quando se tratou de referir a sua origem, apoia-se num cronista português do século XVI - João de Barros - que nunca o conheceu.

 

Las Casas tem a consciência que a chave do segredo da sua origem, não estava em Espanha, mas em Portugal. Outra leitura não é possível fazer.

 

A obra só foi publicada em 1875-1876, tendo os manuscritos sofrido ao longo de três séculos muitas alterações. Esta obra de Las Casas está repleta de inexactidões e contradições, não sendo de excluir a intervenção de vários falsários, mas uma boa parte das quais se devem ao seu autor. O seu principal objectivo foi sempre o de defender a família Colombo. É por esta razão que esta obra deve ser lida com muitas reservas. 

 

Notas de Leitura:

 

- Predestinado. Colombo, segundo Las Casas, era um predestinado. Deus lhe conferiu a missão de descobrir o "Novo Mundo" para a Espanha, para que esta difundisse aqui o cristianismo. Este reino perdeu a legitimidade para governar as Indias, quando se envolveu na escravatura dos indios. O próprio Colombo foi castigado por também o ter feito.

 

- Nome: "Colón" significa "povoador", o primeiro povoador de cristãos do Novo Mundo. 

 

- Identidade. Las Casas começa por afirmar que era genovês, embora diga que Colombo se assumia como natural de Portugal. A única prova que apresenta para afirmar que era genovês estava na "História Portuguesa" (sic) de João de Barros.

 

Nas Décadas da Ásia o cronista português diz que Colombo era genovês porque muitos o diziam no seu tempo, não porque tivesse provas para o afirmar.

 

Naturalidade: Las Casas, baseado nuns versos em latim de Bartolomeu Colon, feitos em Londres e datados de 13/2/1480 deixa entender que Colombo era natural de "Terra Rubra" (Hist. Indias, Livro, I, Cap.19), mas, como Hernando Colon, não sabia precisar onde a mesma ficava. Os versos constavam num Mapa-Mundi que Bartolomeu mostrou a Enrique VII e que levou para Inglaterra em 1488.

 

- Nobreza. A forma como Colombo se comportava e muitos outros aspectos revelam que seria de origem nobre e não plebeia. Las Casas afirma que os seus antepassados remontavam todos à Antiga Roma (antes do século IV). Neste caso, limita-se a repetir aquilo que Hernando Colon afirma. Opõe-se à ideia que pudesse ser um plebeu, tecelão ou taberneiro.

 

- Formação. A formação teórica e prática demonstrada por Colombo, nomeadamente em cosmografia, cartografia, fabrico de instrumentos nauticos, matemática ou latim, era incompatível com a sua suposta actividade de artesão, corsário ou simples aventureiro. Escrevia de modo tão perfeito que podia viver a fazê-lo.  Afirma que estudou em Pavia, dominando a lingua latina, um facto segundo ele muito apreciado na "História Portuguesa" de João de Barros...   

 

- Formação nautica. Las Casas é muito mais explicito ao afirmar que a formação nautica de Colombo foi feita com os portugueses, nomeadamente nas expedições em Àfrica. Insiste na ideia que tinha provas documentais que Colombo ou o seu irmão Bartolomeu Colon foram com Bartolomeu Dias ao Cabo da Boa Esperança (Hist.Indias, Livro I, cap.27).

 

- Pré-Descoberta da América. Las Casas estava firmemente convencido que Cristovão Colombo já estivera nas Indias (América), e utilizou este conhecimento para as vender aos reis espanhóis.

 

- Fontes Italianas. Recusa a informação dada pelos italianos, porque nada esclarece e é contraditória com os factos.

 

- Fontes Portuguesas: João de Barros, Garcia de Resende e outros cronistas portugueses são abundantemente citados. As Décadas da Ásia, de João de Barros são largamente citadas e tomadas como modelo.

 

 

 

4. Brevísima relación de la destrucción de Africa (1556)

 

A obra foi escrita como resposta a todos aqueles que o acusavam de atacar a destruição dos indios pelos espanhóis, esquecendo o que os portugueses haviam feito aos guanches (Canárias), aos mouros e negros em África. Las Casas faz uma breve história comentada das descobertas portuguesas de Africa, incluindo os Açores, Madeira e as guerras pela conquista das Canarias. Termina em 1488, com a chegada de Bartolomeu Dias a Cabo da Boa Esperança, seguindo no essencial João de Barros.

 

Nas expedições portuguesas a Congo, mas sobretudo ao Cabo da Boa Esperança introduz referências, muito citadas, a Colombo e ao seu irmão Bartolomeu. Afirma o seguinte:"En estos viajes y descubrimientos, o en alguno dellos, se halló el Almirante D. Cristóbal Colón y su hermano D. Bartolomé Colón, según lo que yo pude colegir de cartas y cosas escritas que tengo de sus manos".

 

A prova do que afirma, está no acesso que os mesmos tinham aos dados dos cosmógrafos portugueses.

 

 

5. Destruição da Documentação

 

Las Casas deixou os seus arquivos ao Colegio de San Gregorio (Valladolid), onde viveu os últimos anos de vida. António de Herrera y Tordesillas (1549 - 1626), o cronista das Indias Espanholas, foi autorizado pela Corte a tomar posse da documentação de Las Casas,  tendo-se encarregado de a dispersar e a fazer desaparecer na sua maior parte. Desta forma pensava poder escrever uma história das Indias Espanholas à sua vontade.

a) Hernando Colon

A primeira biografia de Colombo foi escrita pelo seu filho. A obra serviu de base às notas biográficas elaboradas por Las Casas, e está repleta de erros, mutilações e falsificações. Tratou-se neste caso, não de exaltar os feitos dos espanhóis, mas de os denegrir, lançando a confusão sobre a origem de colombo.  Mais

b) Colombo noutras Geografias

 

A Colombo tornou-se num problema para os espanhóis, um  verdadeiro complexo (4). Para os italianos, sobretudo, os genoveses, virou uma fonte absurda de prestígio.

 

Os portugueses procuraram ocultá-lo, nomeadamente para que esconder as questões que envolvem as familias que o ligam a Portugal, mas também para evitar que o mesmo fizesse sombra aos grandes navegadores como Bartolomeu Dias, Duarte Pacheco Pereira, Vasco da Gama ou Pedro Alvares Cabral.

 

O seu renome internacional ficou a dever-se primeiro aos ingleses e depois aos norte-americanos, que o elevaram a uma dimensão divina.

No século XVII, os ingleses procuram apropriar-se da figura de Colombo. Francis Bacon, na Nova Atlantida (1626), honra-o com uma estátua. Milton no Paraiso Lost (1667) eleva-o à categoria de imortal.

 

Esta admiração inglesa recebe uma forte impulso quando, em 1662, chega a Londres - Catarina de Bragança -, cujos familiares em Espanha eram agora os herdeiros dos títulos de Colombo. Catarina só regressou a Portugal, em 1693,mas antes disso os cortesãos portugueses passaram para a corte inglesa muitos segredos sobre a verdadeira identidade deste navegador.

 

Charles Molloby, na sua obra - De Jure Maritimo et Navali,or a Treatise of affairs maritime and of commerce, editado em Londres, em 1682, afirma que Colombo era um piloto inglês que se exilara em Génova. Uma história que dá conta do problema que se sabia existir sobre a origem deste navegador.

 

Depois da independência dos EUA, em 1776, Colombo tornou-se numa das figuras mais populares e mitificadas deste país. A influente comunidade italiana, a partir do século XIX, procurou por todas as formas moldar a história oficial, construindo para tal uma verdadeira floresta de mentiras e falsificações.

 

 

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Notas:

(2 )

(4) Iwasaki, Fernando - El Complejo de Colon , in, El viaje en la literatura Hispanoamericana: el espíritu colombino...

 

 

Continuação:

 

3. Hernando Colon

 

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As Provas do Colombo Português

As Provas de Colombo Italiano

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