Navegando na Filosofia - Carlos Fontes

O que distingue uma falácia de um paradoxo?

Voltar

Falácias e Paradoxos

 

Falácias

1. Designa-se por falácia um raciocínio errado com aparência de verdadeiro. O termo falácia deriva do verbo latino fallere que significa enganar. As falácias que são cometidas involuntariamente, designam-se por paralogismos; as que  são produzidas de forma a confundir alguém numa discussão designam-se por sofismas.   

2. Existem muitos tipos de falácias, não havendo consenso quanto à sua classificação. Para efeitos de nosso estudo vamos classificá-las em dois grandes tipos:

a)  as falácias formais, constituídas por raciocínios inválidos de natureza dedutiva.

b)  as falácias informais, que compreendem os restantes tipos.

 

Falácias Formais

1. Falácia da afirmação do consequente

 

Ex. Se as estradas têm gelo, o correio está atrasado

      O correio está atrasado

Logo, as estradas têm gelo.

As premissas podem ser verdadeiras, mas a conclusão é falsa. A conclusão é abusivamente inferida, ignorando-se as outras alternativas.

 

2. Falácia da negação do antecedente

Ex. Se as estradas têm gelo, o correio está atrasado

      As estradas não tem gelo

    Logo, o correio não está atrasado.

3. Falácia da Conversão

    Ex.  O mendigo pede

    Logo, quem pede é mendigo.

 

    Não respeitam as leis da oposição

4. Falácia de Oposição

    Ex. É  falso que todo o homem é sábio

          Nenhum homem é sábio

     Não respeita as leis da oposição

 

Falácias Informais

Falácias cujas premissas: a) não são relevantes para a conclusão; b) Não fornecem dados suficientes para garantir a conclusão; c) estão formuladas com linguagem ambígua. A capacidade persuasiva destes argumentos reside frequentemente no seu impacto psicológico sobre o auditório.  

5. Apelo à Piedade ( Argumentum ad Misericordiam). Faz-se apelo à misericórdia do auditório de forma a que a conclusão seja aceite.  

Exemplos:

 a) Sr. Juiz não me prenda, porque se o fizer os meus filhos ficam desamparados.  

 b) Não torne o seu filho infeliz, adquira-lhe já um televisor panorâmico!

6. Apelo à Ignorância (Argumentum ad Ignorantiam). Utiliza-se uma premissa baseada na insuficiência de evidências para sustentar ou negar uma dada conclusão.

Exemplo: 

a) Ninguém provou que Deus existe. Logo, Deus não existe.

b) Ninguém provou que Deus não existe. Logo, Deus existe.

7. Apelo à Força ( Argumentum ad Baculum). Pressão psicológica sobre o auditório. Os argumentos são substituídos por ameaças de punições.

Exemplos: 

a) As minhas ideias são verdadeiras, quem não as seguir será castigado.

b) Ou te calas ou não de dou dinheiro para ires ao cinema!

c) A força faz a lei.

8. Apelo à Autoridade ( Argumentum ad Verecundiam). Faz apelo à autoridade e prestígio de alguém para sustentar uma dada conclusão.

Exemplos:

a) Einstein, o maior génio de todos o tempos, gostava batatas fritas. Logo, as batatas fritas são o melhor alimento do mundo.

b) O que foi bom bom no passado para a tua família é também bom para ti.

9. Ataque Pessoal ( Argumentum ad hominem). Coloca-se em causa a credibilidade do oponente, através de ataques pessoais, de forma a desvalorizar a importância do seus argumentos.  

Ex. Esta mulher afirma que foi roubada! Mas que confiança nos pode merecer alguém que vive com uma ladra ?.

10. Apelo ao Povo (Argumentum ad populum). Apela-se à emoção e preconceitos das pessoas, não à sua razão.

Ex. Querem uma escola melhor? Querem um melhor ensino? Votem na lista Z.

11. Argumento do Terror (Argumentum ad terrorem). Evoca-se as consequências negativas que podem resultar da não admissão de determinada tese. 

Ex. Ou nós ou o caos!.  A escolha é vossa.

12. Falácia da Bola de Neve ( Argumentum ad consequentian). Exagera-se nas consequências que podem resultar se se aceitar uma dada tese.

Ex. Os pequenos delitos se não forem severamente reprimidos, abrem caminho aos crimes mais hediondos.  

13. Falácia ignorância da causa. A conclusão é extraída de uma sucessão de acontecimentos. Um facto circunstancial é tomado a causa principal.    

Exemplos:

a) Depois do cometa houve uma epidemia; logo, os cometas causam epidemias.

b) O dinheiro desapareceu do cofre depois do João ter saído da loja. Logo.... 

c) O trovão ocorreu depois do relâmpago. Logo, o relâmpago é a causa do trovão.

14. Falácia do Ónus da Prova. 

15. Falso Dilema. Apenas são apresentadas duas alternativas, sendo omitidas as restantes hipóteses.

Exemplos:

a) Quem não está por mim, está contra mim.

b) É pegar ou largar!

c) O Joaquim é genial ou idiota. Como não se revelou genial, é pois idiota.  

16. Perguntas capciosas. A pergunta funciona como uma armadilha para quem responde.

Exemplos:

a). Perante uma situação em que são solicitadas respostas do tipo sim ou não, pergunta-se a alguém que se vê envolvida num furto ocorrido numa escola:

"Já deixou de roubar na escola?

b) Vocês ganharam fazendo batota ou subornando o arbitro ?

c) Continuas tão egoísta como eras ?

 

Qualquer resposta do tipo sim ou não, compromete o sujeito em actos ilícitos.

 

17. Múltiplas perguntas. Consiste em confundir o adversário com várias perguntas de modo a que não seja possível uma única resposta, ou levando-o a contradizer-se.

 

18. Petição de Princípio (Petitio Principii) Pretende-se provar uma conclusão, partindo de uma premissa que é a própria conclusão. Considera-se como provado algo que se pretende provar.

Exemplos:

a) Toda a gente sabe que as autarquias são corruptas. Por isso não faz sentido provar o contrário.

b) O aborto é um crime; logo comete um crime quem aborta.

c) O Corão é indiscutível porque é a palavra de Deus.

 

 

18.1. Raciocínio Circular

a) Porque faz a ópio dormir? . Porque tem propriedades dormitativas!

b) O que é a História ? Uma ciência que estuda factos históricos.

 

19. Ignorância da Questão. A questão em discussão é ignorada, centrando-se o orador em aspectos marginais. 

Exemplo: Ao longo dos tempos têm sido cometidas inúmeras injustiças. Muitos inocentes têm sido condenados. Este individuo é de trato afável, simpático, trabalhador e estimado por todos.

 

20. Falácia do Espantalho. Consiste em atribuir a outrém  uma opinião fictícia ou deturpar as suas afirmações de modo a terem outro significado. 

 

21. Enumeração Incompleta. Atribui-se ao todo aquilo que só está provado para casos particulares.

  

Exemplo: Esta e aquela laranja são amargas. Todas as laranjas são amargas.

 

 

22. Falsa Analogia. Tirar conclusões de um caso para outro semelhente, sem ter em conta as suas diferenças. 

       Exemplo: As aves voam

               Os morcegos voam.

       Logo, os morcegos são aves. 

 

 

23. Falácia de premissas falsas. Premissas ambíguas podem levam a confusões, neste caso entre género e espécie. 

Exemplo.  Os animais são irracionais; Logo, és irracional.

 

24. Falácia do Não Consequente (Non Sequitur). A conclusão não é justificada pelas premissas.

Exemplos: 

a) Trabalhei bastante para o exame; logo devia ter obtido uma boa nota.

b) Trabalhou para Einstein, logo é um genial cientista. 

 

25. Falácia do acidente. Confunde-se o essencial com o acidental e vice-versa.    

Exemplo: Estudar na véspera do teste não dá resultado

               Todo o estudo é inútil

 

26. Falácia da definição.

Exemplo:. "O feto é uma pessoa que ainda não nasceu"

Esta definição prepara um dado interlocutor a admitir que o aborto é um crime na medida que quando é praticado se está a matar uma pessoa.

 

27. Falácias verbais.     

Exemplos:

         a) É estúpido perder tempo com meras palavras

          A guerra é uma mera palavra

         Logo, é estúpido perder tempo com a guerra.

    

          b) O touro muge

          O touro é uma constelação

          Uma constelação muge

 

          c) Os pés têm unhas

          A cadeira tem pés.

          Logo, A cadeira tem unhas.    

 Estas e outras falácias do mesmo tipo são resultantes da ambiguidade das palavras. 

 

Como superar as confusões originadas pelas falácias?

 

- Prestar maior atenção à linguagem, evitando utilizar termos ambíguos, e esclarecer o sentido exacto dos conceitos empregues numa discussão.

- Prestar atenção à possível falsidade  das premissas.

- Respeitar as regras de inferência.

 

Paradoxos

Designam-se por paradoxos os raciocínios onde se parte de enunciados não contraditórios, e se chega a conclusões contraditórias. Um paradoxo tanto demonstra a veracidade como a falsidade de um juízo. A palavra paradoxo significa literalmente o que está para além do senso comum. Em certo sentido, um paradoxo é um absurdo.

 

Paradoxo de Epiménides

.

"O poeta cretense Epiménides afirma que todos os cretenses são mentirosos".

Atendendo ao facto de Epiménides ser também cretense, podemos saber se esta afirmação é verdadeira?

.

Paradoxo das resoluções da conselho de vereadores da ilha da contradição

.

Foram tomadas as seguintes resoluções:

1. É aprovada a construção de uma nova prisão;

2. É aprovado que a nova prisão será construída com os materiais da velha prisão;

3. É ainda aprovado que a antiga prisão se manterá em funcionamento até que a nova esteja construída.

A prisão foi ou não construída?

Carlos Fontes

 

Carlos Fontes

.

11º Ano - Programa de Filosofia

.

Navegando na Filosofia