Moreira Baptista: A Nova Política de Informação e Turismo

 

 

A difusão de uma cultura de massas no país, a partir dos anos sessenta, gerou  elevadas expectativas de acesso ao consumo entre largas faixas da população urbana, deixando muito pouco espaço ao regime, para continuar a sustentar os valores tradicionais que haviam constituído o núcleo central das políticas culturais, entre os anos trinta e meados dos anos cinquenta.

As profundas alterações nas políticas culturais herdadas de António Ferro, foram iniciadas e protagonizada por César Moreira Baptista com o apoio de Marcelo Caetano. Nomeado a 1 de Fevereiro de 1958, para director do SNI, reorganizou-o em 1960 e depois em 1968, quando deu origem à Secretaria de Estado da Informação e Turismo (SEIT). Na sequência desta reestruturação foi nomeado Secretário de Estado deste organismo a 16 de Outubro, tendo exercido este cargo até 7 de Novembro de 1973, quando foi substituído por Pedro Pinto. Ascendeu então a  ministro do Interior, cargo que ocupava a 25 de Abril de 1974.

Ao longo deste período, Moreira Baptista manteve uma enorme coerência na orientação que imprimiu  a este organismo.

Entre 1958 e 1973, Moreira Baptista procurou de forma sistemática transformar o SNI/SEIT num órgão essencialmente virado para o turismo de massas, a produção e controlo da informação  veiculada pela comunicação social e a inspecção de certas actividades culturais. Era neste plano que se situavam os principais problemas de sobrevivência do regime. Estas alterações reflectiam também a própria evolução interna deste organismo. Há muito que deixara de ser  identificado com uma instituição promotora de actividades culturais, para ser sobretudo um órgão conotado com a  censura da imprensa e dos espectáculos.

Moreira Baptista de forma persistente, foi secundarizando todas as estruturas de apoio à cultura criadas por António Ferro, transferindo parte delas para a FNAT e o Ministério da Educação. A Cultura Popular,  núcleo central da Política do Espírito foi transformada num instrumento de animação turística. Um dos seus símbolos, o Museu de Arte Popular foi praticamente abandonado. As célebres intervenções do SNI, na produção ou apoio a exposições de artes plásticas, no país ou no estrangeiro, passaram a obedecer à mesma lógica de apoio ao turismo, ou simplesmente, confinaram-se a assinalar visitas ou comemorações oficiais. As exposições nos salões de exposição no Palácio Foz e na Galeria de Arte Moderna em Belém, pouco ultrapassaram esta perspectiva pragmática. Os “prémios” quase passavam despercebidos da comunicação social, tão pouco prestígio possuíam.

O apoio ao cinema português atingiu a sua expressão ínfima. A preocupação deste organismo parecia confinar-se apenas à censura dos filmes, como reconhecia o próprio Grémio do sector. Os apoios à produção nacional mostraram-se escassos, numa altura que os custos de produção aumentavam. Procurando corrigir a sua imagem, em 1971, será publicada uma nova Lei do Cinema. O Fundo de Cinema Nacional é substituído pelo Instituto Português de Cinema que se pretendia mais ágil na sua acção, mas não foi.

As crónicas crises do teatro agravaram-se nos anos 60, tendo como consequência  o encerramento de muitas salas. Problema que não deixava de pôr em causa a política cultural até aí prosseguida. O parecer da Câmara Corporativa foi a este respeito muito crítico, aquando da discussão, em 1970, de um projecto de lei sobre a reorganização do Fundo de Teatro. Face à imensidão de problemas, o SNI/SEIT aproveitou para nada fazer.

Estes factos ajudam-nos a enquadrar toda a importância que Moreira Baptista atribuía à comunicação social e à censura. Internamente, as mudanças foram mais profundas do que se possa imaginar. Uma das suas primeiras tarefas foi afastar os militares que desde a Ditadura Militar continuavam a dominar  as áreas da censura da imprensa e da inspecção dos espectáculos. Mas a mais importante, foi sem dúvida a de tentar criar um corpo de especialistas em comunicação de massas e turismo,  promovendo para o efeito estudos e lançando uma publicação regular neste domínio.

Em resultado desta acção, em princípios de 1974, a SEIT estava praticamente esgotada na sua capacidade de intervenção no campo cultural. Melhor capacidade de intervenção revelou a Direcção-Geral de Informação que será transformada logo em 1974, na Direcção-Geral de Comunicação Social,  constituindo o núcleo central sobre o qual se criou o Ministério da Comunicação Social (MCS). Muito do que não conseguira fazer Moreira Baptista, isto é, estabelecer um eficaz mecanismo de controlo sobre os órgãos de comunicação social, irá fazê-lo este Ministério por intermédio das nacionalizações então realizadas.

Carlos Fontes


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