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Prioridades

 

A maioria dos cargos de gestão das instituições públicas ligadas à cultura são ocupados por militantes dos vários partidos políticos. Uma pratica que se generalizou de tal forma que já nem nos questionamos se poderia ser de outra forma.

 

A sua competência para o cargo começa por ser avaliada primeiro pela sua fidelidade ao partido, e depois pela sua capacidade para colocar a instituição ao serviço da projecção do mesmo numa dada área.

 

Não é neutra esta ligação partidária, a experiência mostra-nos que ela altera as prioridades dos gastos das instituições. 

 

Os poucos recursos que muitas destas instituições possuem para a sua manutenção ou realização de eventos são quase totalmente absorvidos, de forma pornográfica, em cartazes, anúncios, convites, recepções, festas, beberetes, etc. O importante não é o evento, mas a projeção do nome do gestor publico que o autorizou, e por arrasto o nome do partido a que está ligado.

 

Esta lógica de atuação partidária tem conduzido à ruina de centenárias instituições públicas, perante a indiferença da maioria dos cidadãos. 

 

Diga-se em abono da verdade que, muitos destes gestores públicos, revelaram-se pela positiva excelentes surpresas. Há que reconhecer que são todavia excepções, não a regra. A alternativa a esta situação existe, assim os cidadãos o queiram.

 

Carlos Fontes

 

Notas de Arquivo

 

  Coimbra: Uma Desilusão 

Foi em tempos a 3ª. cidade do país. Era uma cidade impar em termos de produção cultural e cientifica . Hoje é uma desilusão em múltiplos aspectos. 

Se tivermos em conta, por exemplo, os locais de edição em Portugal, Coimbra ocupa uma modesta posição. 

Se comparamos os eventos culturais aqui realizados com os que acontecem noutras cidades de Portugal, o panorama é igualmente deprimente. 

Após uma visita à cidade o que salta-nos é desde logo a enorme indiferença como é encarado o seu rico património. Salvo alguns casos excepcionais, os seus  magníficos conjuntos arquitectónicos estão votados ao esquecimento, e rodeados de verdadeiros abortos urbanísticos. Coimbra convive mal com o seu próprio passado e não o saber valorizar. 

Em 2003, Coimbra viveu com modesto entusiasmo o facto de sido "Capital Nacional da Cultura". Foram aqui feitos enormes investimentos públicos em termos de infra-estruturas culturais, como o Centro de Artes Visuais (Pátio da Inquisição). Dois anos passados, este importante Centro está voltado ao mais completo abandono, sem um programa cultural consistente. Os eventos realizados são pontuais e promovidos pela CMC de forma envergonhada. 

A Delegação do Ministério da Cultura da Zona Centro, sediada nesta cidade, espelha no seu site o carácter moribundo da vida cultural de Coimbra. 

O que mais impressiona neste panorama é todavia a Universidade, cada vez mais perdida no tempo. Presentemente são raros os domínios científicos e culturais onde tem alguma importância no país. 

As poucas vezes que o país ouve falar de Coimbra é quase sempre devido às festas promovidas pelos seus estudantes ou aos cíclicos protestos que estes fazem contra as propinas. As suas energias parecem esgotar-se nestas actividades. Será que nesta cidade não acontece nada mais de relevante ?

Carlos Fontes

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Vila Real: Uma referência 

Vila Real sempre foi uma cidade especial no contexto de Trás-os-Montes e Região do Douro. Na cidade existiu sempre pessoas que procuram ao longo dos tempos conjugar a tradição com o cosmopolitismo. É verdade que este casamento nunca foi fácil. A instalação de uma Universidade na cidade foi aproveitada para a transformar num polo cultural na região. Um modesto programa de reabilitação urbana, procurou acabar com as principais aberrações urbanísticas. Vila Real passou a ser mais convidativa. Nos últimos tempos, uma sólida programação cultural, centrada no Teatro Municipal, tornou a cidade numa referência incontornável no mapa cultural de Portugal.  

CF

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Porto: Uma Cidade Cheia de Surpresas

Ninguém que conheça a cidade do Porto pode ficar indiferente perante tantos motivos de interesse: magníficos bairros, um rio soberbo, actividades culturais, tradições únicas, etc. O Porto é uma cidade com História e uma cultural dinâmica.

O problema do Porto não é ter tudo isto e muitíssimo mais, mas uma enorme incapacidade de promover o que possui junto dos diferentes públicos. Quem não faz parte dos meios muito elitistas da cultura desta cidade, tem a sensação que nada acontece na mesma, o que de todo não é verdade. Acontece que os orgãos oficiais que deviam de ter neste campo uma actuação dinâmica na promoção cultural não o fazem. 

Ainda está na memória de todos o que aconteceu durante 2001, quando esta cidade foi capital Europeia da Cultura. Eís o que então escrevemos:

"Porto Capital Europeia da Cultura

"O Porto continua a surpreender todos os que o visitam, mas nem sempre pelas melhores razões. Uma das boas surpresas é o Museu Soares dos Reis. O trabalho remodelação, ainda que incompleto, é simplesmente notável. As obras adquiriram uma outra visibilidade. A surpresa pela negativa está na falta de informação que o visitante sente nesta "capital europeia da cultura 2001". Esperava-se que, neste domínio, houvesse um esforço por alterar a prática dominante no país. Pelo contrário, persistiu-se em reservar a informação culturalmente relevante para um punhado de eleitos. A maioria dos habitantes da cidade e dos visitantes é mantida na mais completa ignorância.

Dois exemplos:

Entrando no Posto de Turismo da CMP, tem-se a sensação que nada se passa em termos culturais nesta cidade. A tal "capital europeia da cultura" aqui pura e simplesmente não existe. Ninguém sabe de nada. Muito custo as funcionárias lá conseguem obter por fax a informação solicitada.

Uma semana após a abertura do Centro Português de Fotografia, na Cadeia da Relação, centenas visitantes que o tentam visitar deparam-se com o seguinte problema: Em nenhuma das suas portas existe qualquer informação sobre o seu horário de abertura e as exposições que nele estão patentes. Após repetidas tentativas a maioria acaba por desistir, sem sequer chegar a saber quando o poderá fazer. Falta de profissionalismo ou simples provincianismo?

Carlos Fontes . Outubro 2001 "

O pior que podia acontecer à Casa da Música, inaugurada a 14 de Abril de 2005, era que na promoção das suas actividades ocorre-se o mesmo que aconteceu no Porto Capital da Cultura. Um pequeno grupo ficaria certamente contente com isso, pois não se misturaria com a "populaça", mas a cultura ficaria certamente mais pobre.

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