Carlos Fontes

S. Vicente, S.Tiago, S. Jorge,

Santo António,

 Nun`Álvares Pereira e Nossa Senhora de Fátima

 

Culto, histórias e ideologias

Se é difícil explicar a popularidade de muitos santos, também não é tarefa simples mostrar as suas relações com o poder e as ideologias. 

No vasto panteão dos santos cultuados em Portugal cinco deles e uma virgem constituem verdadeiros marcos históricos no imaginário colectivo.

 

 

   

Nun`Álvares Pereira 

Pode um chefe militar que lutou pela independência e liberdade do seu país ser um modelo de santidade? 

Os portugueses nunca tiveram dúvidas que sim. Pouco anos depois de falecer (1 de Abril de 1431), Nun`Álvares já era objecto de culto da população. O rei D. Duarte, em 1437, solicita junto do Vaticano a sua canonização. O Infante D. Pedro, associa-se ao culto, escrevendo comemoração do ofício litúrgico em latim. 

O seu culto cedo ultrapassou a fronteiras de Portugal, tornando-se internacionalmente num símbolo da luta liberdade contra a opressão. Os irlandeses evocam-no, juntamente com S. Patrício, como protectores da independência nacional da Irlanda.

Fernão Lopes, na Crónica de D. João I, afirma que foi o primeiro de uma sétima idade, em que tudo se renova, sendo ele a "estrela da manhã" que aponta o novo dia (1).

Luís Vaz de CamõesOs Lusíadas, torna-o na figura central da história de Portugal, reclamando para ele a paternidade do próprio país:

"Ditosa pátria que tal filho teve!

Mas antes, pai; que enquanto o Sol rodeia 

Este globo de Ceres e Neptuno 

Sempre suspirará por tal aluno." (VIII, 32,5-8).

 

Aires A. Nascimento, escreve sobre versos: "Foi ele digno filho da sua terra; mas, mais do que isso, por tudo quanto fez, pela liberdade por que lutou, pela defesa que montou e pelas orientações que criou, merece ser apontado como um verdadeiro pai da pátria e por isso ela o lembrará e por ele há-de suspirar" (1).

 

Fernando Pessoa, na Mensagem, transforma a sua espada no símbolo do rumo espiritual do povo português. 

 

Xilogravura da «Crónica do Condestrabre» (1554)

 

Nun`Álvares nasceu a 25 de Junho de 1360, nos Paços de Bom Jardim (actual Cernache do Bonjardim), perto da Sertão. Com 13 anos foi armado cavaleiro, com uma armadura emprestada por D. João, Mestre da Ordem de Avis.Três anos depois casa-se com Dona Leonor de Alvim.em Vila Nova da Rainha. Durante a crise de 1383/85, com apenas 24 anos foi nomeado Condestável do Reino, em Coimbra.

 

Empregando uma táctica de guerra que implicava uma enorme mobilidade das suas forças, de norte a sul de Portugal, combateu e derrotou os invasores castelhanos, mas também os traidores, que muitos houve, incluindo na sua própria família. 

 

Nos campos de Aljubarrota, a 14 de Agosto de 1383, à frente de 7 mil portugueses, apoiados por ingleses, enfrentou e derrotou 40 mil castelhanos, aragoneses e franceses, numa batalha onde se jogava a independência e a liberdade do povo português. 

 

Para comemorar a libertação de Portugal, em 1397, funda um convento em Lisboa, dedicado a Nossa Senhora do Vencimento, que depois entregou à Ordem do Carmo.

 

Quando sentiu que a independência de Portugal estava segura, não apenas interna mas também externamente, com 62 anos, entra para o convento que fundara. Nunca aceitou ser tratado como frei, mas apenas por Nuno de Santa Maria, vivendo como um dos mais humildes.

 

Ao longo dos séculos, Nuno Alvares tem sido alvo de um intenso conflito ideológico, assim como de múltiplas utilizações nacionalistas.

 

Para a maioria dos portugueses continua a ser o símbolo por excelência de um povo orgulhoso da sua independência e liberdade. Todos os que amam a liberdade e o seu país, identificam-se facilmente com a sua figura. 

 

Os iberistas vêm nele a encarnação de todos os males (cobiça, arrogância, belicismo, etc.),nesse sentido, ao longo da história dedicaram-se a denegrirem a sua memória. Outros, como Alvaro Cunhal (dirigente histórico do PCP), comungando da mesma matriz totalitária, seguiram idêntico caminho. O seu objectivo comum é a desagregação da sociedade portuguesa, não a sua projecção no futuro.   

 

O papa Bento XVI, em 2009, fez a proclamação canónica da sua santidade, para desespero dos espanhóis que desde sempre se opuseram a esta decisão papal.

 

Nun`Álvares tornou-se assim, no mundo católico, no símbolo universal dos que lutam pela liberdade do seu povo contra a tirania que lhes querem impor os invasores.

   

São Vicente

O culto deste santo, originário da região de Valência, teve uma enorme importância em Portugal antes da Independência do país. O seu corpo segundo a lenda foi levado pelo mar até ao Cabo de São Vicente, no Algarve, onde foi erguida uma capela com as suas relíquias. Acontece que entre os séculos VIII e XII, esta região estava sob o domínio dos muçulmanos. A situação representava para os cristãos um verdadeiro sacrilégio à memória do santo. Nas orações ao santo os cristãos faziam questão de o recordar.  

O primeiro rei de Portugal - D. Afonso Henriques -, se serviu desse facto para encorajar os portugueses (cristãos) a combaterem os muçulmanos, reconquistando o território. A lenda diz-nos que quando, em 1147, reconquistou Lisboa, mandou logo uma expedição ao Cabo de São Vicente para trazer o corpo do santo, o qual passou a ser o patrono de Lisboa e da casa real de Portugal. .

   

São Tiago
A descoberta de um suposto túmulo do Apóstolo São Tiago, na Galiza, foi um dos maiores acontecimentos da Europa. Este facto irá trazer ao Norte da Península Ibérica inúmeros peregrinos contribuindo para enriquecer o santuário de Santiago de Compostela, mas também as cidades e vilas situados nos caminhos que ao mesmo conduziam. As peregrinações geravam enormes rendimentos.

O São Tiago foi também utilizado como um instrumento ideológico na luta contra os infiéis, sendo vulgarmente conhecido em Leão e Castela (Espanha) pelo bélico nome de "São Tiago Mata Mouros". Sob o pretexto de proteger os peregrinos foi criada uma poderosa Ordem Militar - a Ordem de Santiago de Espada que teve um papel destacado na reconquista. 

O problema é que os Castelhanos que se haviam anexado o Reino da Galiza, onde se situava o túmulo do Apóstolo, serviram-se desse facto para controlarem tudo aquilo que lhe dissesse respeito, como peregrinações, Ordens Militares e instituições religiosas. 

Uma situação que se tornou intolerável para os portugueses, nomeadamente durante os muitos conflitos com os castelhanos. Apesar de ser muito popular, no final do século XIV, os portugueses tiveram que se libertar do São Tiago castelhano, secundarizando o seu culto..

   

São Jorge

O culto de São Jorge terá sido introduzido em Portugal por cruzados ingleses no século XII. No entanto a sua popularidade só se iniciou verdadeiramente depois da Batalha de Aljubarrota (14 de Agosto de 1385), quando os portugueses com a ajudados pelos ingleses derrotaram os castelhanos apoiados pelos franceses.

Nesta Batalha, Nuno Alvares Pereira segurava um pendão com a imagem de São Jorge. Os portugueses em vez de gritarem por "São Tiago" passaram a gritar por "São Jorge". O sucesso da batalha ditou a difusão do culto do santo. Em agradecimento pela vitória D. Nuno mandou construir a capela de S. Jorge no próprio campo de batalha. O rei D. João I mandou que o castelo de Lisboa tivesse o nome do Santo. 

São Jorge é santo guerreiro que luta contra o mal e as forças invasoras. Um símbolo que se encaixava na perfeição no caso português.

O nome de S. Jorge foi dado a várias paróquias de Portugal, ilhas e fortalezas. Muitos reis e príncipes passaram a ter o seu nome. Foi igualmente patrono de várias ordens militares e religiosas. O seu sucesso foi enorme.

O Santo que já era o padroeiro de Inglaterra (1330), passou a ser também de Portugal (1385), e depois de Aragão (Catalunha), Geórgia e até da Grécia.

No século XVI, o seu culto perdeu muito da sua importância quando a Inglaterra se tornou num país protestante, renegando o Santo. Em Portugal o seu culto permaneceu muito vivo nas camadas populares. No século XVIII, D. José I, decreta que a sua imagem a cavalo devia acompanhar as procissões de Corpus Christi, as mais importantes do país. Os espanhóis ameaçavam mais uma vez invadir Portugal, mas graças à protecção do Santo foram de novo derrotados. 

   

Santo António de Lisboa 
O reconhecimento da santidade do lisboeta Fernando Martim de Bulhões e Taveira Azevedo (1195 -1231), mais conhecido por Santo António ocorreu pouco depois da sua morte. No século XIII já era patrono de cerca de quarenta Igrejas em Portugal. 

No entanto a difusão mundial do seu culto só ocorreu a partir do século XVI, quando se tornou no santo nacional dos Portugueses. Como muitos outros portugueses, também saiu da sua terra e sem desfalecimento difundiu o cristianismo, morrendo longe da sua pátria, com a mesma determinação e humildade com que partiu. 

Os marinheiros portugueses foram os grandes promotores do seu culto pelo mundo, identificando-se com as histórias da sua vida e esperando nas horas más a sua protecção e milagres.

O Santo tornou-se protector de quase tudo o que os portugueses entenderam como necessário: ajudante de combates, protector de naufragos, casamenteiro, pesquisador de objectos perdidos, curador de doentes e de animais, etc, etc. Não há santo mais multifacetado do que Santo António de Lisboa.

   

Nossa Senhora de Fátima

No século XX surge em Portugal, um culto que marcou a história do catolicismo. Em 1917 enquanto ocorria num extremo da Europa (Rússia) uma revolução social que prometia uma sociedade perfeita e um homem novo,  no outro extremo (Portugal) três crianças lançavam um culto que em breve se transformou numa denuncia internacional do materialismo e do terror criado nessa sociedade.

A partir dos anos 30, o culto de Nossa Senhora de Fátima, nomeadamente através das chamadas viagens da Virgem Peregrina (réplicas da imagem de N. S. Fátima), percorrem o mundo e em todo o lado agregam e mobilizam milhões de pessoas para lutarem contra os regimes comunistas e a conversão da Rússia ao cristianismo. A Rússia simboliza o ateísmo e o materialismo.

A frontalidade deste combate ideológico se agrada aos países do Leste da Europa, sob o domínio da antiga União Soviética, não deixa de levantar problemas políticos difíceis de resolver àqueles que se querem manter neutrais. 

O Vaticano encarou com distanciamento este movimento ideológico e combativo de milhões de católicos virado para uma acção global. A Igreja Católica opta por posições menos comprometidas, virando-se para o seu interior, nomeadamente para a justificação ideológica do enriquecimento individual dos seus membros (Opus Dei). Apenas nos anos 60 um papa se digna vir ao santuário de Fátima, numa altura que era impossível ignorar o fenómeno. O entusiasmo não foi todavia muito grande.

A situação mais interessante ocorreu nos anos 80, quando o  papa João Paulo II (polaco) vê nos célebres "segredos" de Fátima a salvação do mundo e o fim para breve do comunismo. A única coisa que ocorreu foi em 1989 a derrocada da antiga União Soviética, o símbolo dos regimes comunistas. Quando à salvação do mundo, não consta que tenham ocorrido grandes conversões de materialistas e ateístas ao cristianismo. No futuro se verá.

Desde 1917 surgiram em todos os continentes milhares de igrejas, santuários e simples altares dedicados à Nossa Senhora de Fátima. Dezenas de milhares das suas imagens percorrem todos os cantos do mundo. Muitas cidades, vilas, aldeias, bairros em toda a parte adoptaram também este nome. Um grande número de organizações foram criadas em vários países para promoverem este culto, agregando largos milhões de pessoas.

Fátima é hoje o maior santuário da Igreja Católica em termos de peregrinos e de receitas

Carlos Fontes 

 

 

 

Notas :

(1) Aires A.Nascimento, Nuno de Santa Maria - Fragmentos de memória persistente. Associação Regina Mundi dos Antigos Alunos da Sociedade Missionária Portuguesa / Câmara Municipal da Sertã. Abril de 2010. Obra de leitura de leitura obrigatória, com bibliografia actualizada.

 

 

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