Pilhagens

As guerras estão sempre associadas a matanças, mas também a pilhagens. O motivo porque muitas vezes foram desencadeadas foi para pilhar cidades ou povos inteiros. O tem mudado é a retórica dos invasores, mas as práticas são sempre as mesmas. 

Neste domínio são raríssimos os povos inocentes. Os romanos pilharam os barbaros para os civilizarem. Os povos muçulmanos e cristãos pilharam-se entre si sobre o pretexto de extreminarem infiéis, idolatras, etc. 

Parte do produto destes saques constituem hoje o espólio dos principais museus do mundo e de inúmeras colecções privadas.    

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Pilhagens Coloniais

No século XV, Colombo ofereceu aos espanhóis um vasto continente (América) para uma das maiores pilhagens história da Humanidade. Em menos de duas décadas centenas de milhares de indios das Caraíbas (Antilhas) foram exterminados para que se pudesse pilhar todo o ouro existente. Quando passaram ao continente destruiram as florescentes e milenares culturas Maia, Asteca, Inca e tantas outras, para lhes puderem saquear todo o ouro e prata que encontraram. Os mentores desta barbárie como Cortez ou Pizarro, foram depois idolatrados como heróis nacionais.

As minas de prata do Cerro Rico de Potosí (Sumac Orcko), na Bolivia são um exemplo paradigmático da dimensão que atingiu a pilhagem dos povos colonizados. A exploração da prata, entre 1525 e 1825, custou a vida a mais de 8 (oito) milhões de indios sul-americanos e milhares de escravos africanos.

Todos os países europeus que possuiram colónias, como Portugal, França, Inglaterra, Holanda, Alemanha, Dinamarca ou a Bélgica tem também no seu passado histórico, múltiplos exemplos de mostruosos saques.  

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Invasões Francesas

Os revolucionários franceses de 1789, rapidamente se esqueceram dos Direitos do Homem e dos Cidadãos, para se tornaram numa das piores hordas de assassinos e ladrões que a humanidade já conheceu.Não tardaram a invadir outros países europeus e o Norte de África matando e pilhando tudo o que de valor encontravam. 

A sua novidade da pilhagens francesas consistiu no facto de terem constituído  equipas de especialistas em diferentes áreas que acompanhavam o exército, evitando desta forma levarem para França coisas sem valor. 

Portugal, entre 1807 e 1814 foi invadido três vezes pelo exército francês, apoiados pelo exército espanhol. Acompanhando estes militares seguiam equipas de especialistas franceses que identificavam as preciosidades nos palácios, conventos, bibliotecas, arquivos ou nas colecções públicas e privadas, como as do Museu Real ou do Marquês de Angeja, procedendo-se de seguida à sua pilhagem.

Três exemplos:

a ) Durante a 1ª. Invasão Francesa (1807-1808), Etienne Geoffroy Saint Hilaire foi enviado pelo Musée d`Histoire Naturelle de Paris para ver as colecções existentes em Lisboa. Nos Gabinetes de Exposição do Museu de História Natural de Lisboa, pode escolher espécimes únicos e manuscritos de incalculável valor. Entre estes estavam os de Alexandre Rodrigues Ferreira, um cientista português que entre 1783 e 1792 percorreu todo o Rio Amazonas e muitos dos seus afluentes. Muitas espécimes de plantas e animais que recolheu, os seus manuscritos e até os seus diários foram enviados para Paris. A pilhagem extendeu-se naturalmente a tudo o que fosse mapas e manuscritos antigos sobre  terras percorridas pelos portugueses. Era desta forma que a ladroagem francesa actuava.  

b ) Nada escapava às ladrões franceses, nomeadamente os túmulos reais. Entre os muitos que foram profanados e saqueados, conta-se os túmulos de Dom Pedro e de Dona Inês de Castro, no Mosteiro de Alcobaça. Neste caso, os ladrões destruiram inclusivé as suas magnificas esculturas.

c ) Muitas foram as cidades pilhadas pelos franceses como Lisboa, Porto ou Coimbra.Évora em 1808, Frei Manuel do Cenáculo testemunhou o saque da cidade pelos franceses. O que não pode ser levado foi destruído ou vandalizado.  

Após teram sido derrotados na 1ª. Invasão , os franceses negoceiam com os ingleses um acordo de rendição propício ao saque (Convenção de Sintra), segundo qual podiam levar tudo o que quissem em barcos que os ingleses lhes disponibilizariam. O roubo foi desta forma oficializado. No 15 de Setembro de 1808 largam do Tejo vários navios abarrotados de alfaias sagradas, quadros, manuscritos, jóias, etc. O mesmo sucedeu na 2ª. e 3ª. Invasão, só que o meio de transporte do saque foi terrestre.

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Pormenor da Bíblia dos Jerónimos. Fins do século XV, em sete volumes.

Depois da guerra, Portugal teve que pagar verdadeiras fortunas para reaver algumas destas peças, como a célebre Bíblia dos Jerónimos, levada para França pelo próprio Junot. A esmagadora maioria das obras nunca retornaram a Portugal, fazendo hoje parte do espólio dos museus e blibliotecas de França.  

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Pilhagens Científicas 

No século XIX e 1ª. Metade do Século XX, os países europeus organizaram expedições científicas à Grécia, Egipto, China, Mesopotâmia e outros berços das civilizações antigas. Na prática trataram-se sobretudo de grandes operações de saque em nome da arqueologia ou da ciência. 

Quem vista o British Museum, em Londres, não pode deixar ficar perturbado com a dimensão que atingiu estas pilhagens. A Acrópole de Atenas, por exemplo, foi literalmente saqueda.

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Pilhagens Nazis

O exército alemão, durante a 2ª.Guerra Mundial (1939-1945) foi dos mais sistemáticos nos crimes que praticou. 

Seguindo o exemplo francês organizou  vastas equipas de especialistas em história de arte para seleccionarem as obras que deviam ser confiscadas aos judeus e nos países que ocuparam. 

Os soviéticos e os "aliados" levaram por sua vez muitos dos despojos de guerra da Alemanha, convenientemente misturarados com obras de arte que os naziz haviam pilhado a outros países.

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Pilhagens no Iraque

A invasão do Iraque pelos EUA e a Grã-Bretanha (2003), continuou a longa prática histórica de pilhar os povos invadidos. Desde então as colecções públicas e privadas destes países tem vindo a ser enriquecidas com verdadeiros tesouros da antiguidade. Nada aparentemente mudou. 

Carlos Fontes

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Projecto do humanista  Leonardo de Vinci para uma arma de vários canos.

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