Director: Carlos Fontes

 

 

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Anarquismo em Portugal

A História do Movimento Anarquista em Portugal ao longo mais de 150 anos, nem sempre teve a mesma repercussão social. Podemos dividida-la em cinco grandes períodos.

1850-1870: Proudhon e o Mutualismo

As primeiras ideias anarquistas em Portugal, estão ligadas a J.Proudhon (-1865), cuja obra política mais conhecida data de 1840 ("O que é a Propriedade ?"). Proudhon defendia a constituição de uniões locais (mutualistas)de pequenos produtores independentes. Acontece que as suas ideias surgem em Portugal precisamente num quadro teórico dominado também pelo mutualismo, embora apoiado nas ideias de Rousseau, Saint-Simon (-1825) e Lamennais.

Estes revolucionários portugueses não procuravam romper com a ordem vigente, mas limitavam-se a denunciar a "escravidão moderna" que ocorria nas fábricas, assim como a promover as associações de apoio mútuo que tinham em vista minorar os problemas económicos e sociais dos trabalhadores. O primeiro estudo sobre a obra de  Proudhon data de 1852: "Análise das "Contradições Económicas" de Proudhon", de Pedro Amorin Viana.

A partir desta altura a influência social de Proudhon começa a suplantar todos os outros pensadores. Nas associações operárias discute-se a sua figura e o seu pensamento.  É ensinado inclusivamente na própria Universidade de Coimbra, entre 1853 e 1873, na Cadeira de Filosofia do Direito (Teoria da Mutualidade). Eça de Queiróz, Antero de Quental, Oliveira Martins, entre muitos outros,  escrevem sobre a sua obra.

1871- 1885: A Influência de Bakunine

Antero de Quental e outros revolucionários portugueses, em 1871, reúnem-se em Lisboa com delgados da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), inteirando-se das teses em confronto, as de Karl Marx e M. Bakunine. Este, ao contrário de Marx afirma que após a revolução o Estado deveria ser abolido e a colectivização da propriedade deveria ser confiada às "associações de trabalhadores" . Estas ideias terão agradado mais aos revolucionários em Portugal do que as de Marx.

Este episódio marca o inicio de uma nova fase. Sem renegar a influência de Proudhon, as ideias de revolta social preconizadas por Bakunine adquirem cada vez mais adeptos. As associações operárias abandonam a sua orientação mutualista e assumem-se agora como verdadeiros sindicatos, em luta permanente contra as péssimas as condições de vida dos trabalhadores.

1886-1910: O Anarquismo Revolucionário. Kropotkin

No princípio da década de 80, as ideias anarquistas amplamente difundidas em Portugal. Assim se compreende que logo após a visita ao país do geografo-anarquista  Elisée Reclus (1886), se tenham fundado os primeiros grupos anarquistas (1887), editado o primeiro jornal de propaganda (A revolução Social,1887) e publicada a primeira tradução de Kropotkine (A Anarquia na Evolução Socialista,1887).

Kropotkine tornou-se rapidamente no mais popular pensador anarquista, nomeadamente devido à sua defesa de uma concepção "científica" do anarquismo, baseada no conceito de "apoio mútuo" o o grande motor da natureza e da história da Humanidade. Kropotkine recusa a violência e defende uma evolução gradual para a Anarquia. As suas ideias foram amplamente comentadas.

É nesta época que Silva Mendes publica a sua conhecida obra. O anarquismo tornou-se neste período numa referência obrigatória em muitos domínios do país: educação, arte, sindicatos, mas também na luta política pela transformação da sociedade. Aliando-se aos republicanos, os anarquistas lutam igualmente pelo derrube da monarquia.

Durante esta fase,  contribuem decisivamente para a difusão do  seu ideário não apenas nas antigas colónias em África, mas também no Brasil.

1910-1926: Sindicalismo

A implantação da República (1910), marcou o predomínio do sindicalismo no movimento anarquista. A maioria dos militantes concentra a sua acção nos sindicatos operários, concebendo-os com embriões de uma futura organização (sindicalismo revolucionário). Ideia já apontada por Bakunine e depois desenvolvida por outros teóricos sindicalistas.

As duas grandes organizações sindicais deste período, a União Operária (1914-1918) e a Confederação Geral do Trabalho (1918-1926) são profundamente influenciadas por este ideário. A acção dos sindicatos ultrapassa o domínio das questões laborais, tendo uma relevante actuação na promoção da cultura e da educação.   

1926-1974: Ditadura e Resistência

Com a implantação da Ditadura, após o golpe militar de 1926, os anarquistas estão entre os primeiros a serem perseguidos, presos e depois deportados para Timor, Tarrafal (Cabo Verde). Até 1939,apesar de perseguidos participam em inúmeras revoltas contra a ditadura, organizam um atentado contra Salazar (1939) e apoiam a luta armada do povo espanhol contra Franco, quer em Portugal, quer em Espanha.

Nos anos 60, à semelhança do que ocorreu em todo mundo, voltam a fazer-se ouvir, mas agora ligados a um fenómeno novo: a revolta da juventude e as questões em torno da libertação sexual.

1974: Crítica do Poder e Acção Directa

Com o derrube da Ditadura (1974) e o regresso à democracia ,o "movimento anarquista" volta de novo a ressurgir concentrando-se agora na crítica do poder e nas suas formas de reprodução. Mais

Para além de organizar acções de carácter simbólico, procurou estimular a intervenção dos cidadãos á margem dos espartilhos partidários.  O seu eco social foi desaparecendo à medida que se instalou, em Portugal, um regime partidocrata.

Carlos Fontes

 

 
 

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