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Carlos Fontes

 

 

 

 

 

   
 

Anarquismo em Portugal

Anteriores Períodos


1990-2020: Novas Perspectivas - Novas Lutas

Banksy. Anarquismo

Em Portugal nos anos 90 grande parte dos antigos militantes anarquistas haviam já falecido. Os mais jovens em Portugal tem manifestado grande dificuldade em darem continuidade a um movimento de ideias e práticas que a globalização mostrou serem pertinentes.

O contexto internacional mudou de forma abrupta. A mundialização do capitalismo nas últimas décadas produziu um arrasador fenómeno de destruição de valores , hábitos e modos de vida tradicionais. Uma avalanche de inovações tecnológicas, a expansão do consumo de massa e o aumento da população, mais 7,8 biliões de pessoas (2020), associado à mobilidade permitiram sustentar esta destruição, tornando-a num facto irreversível.

A Europa que durante séculos se pensou como o centro do mundo, abandonou esta crença procurando agora descobrir o lugar que nele ocupa. De continente exportador de pessoas passou a terra de imigrantes, sem os quais a sua economia não funciona. A presente heterogeneidade de etnias, culturas e religiões exigem a redefinição da chamada “identidade nacional” em muitos países. Um trabalho sistemático de desconstrução foi arruinando nacionalismos, religiões, categorias artísticas e filosóficas, colapsando ideologias políticas que se julgavam portadores de verdades eternas. Foi sem ironia, um progresso real.

A antiga União Soviética desapareceu (1991) e mostrou a barbárie que desde 1917 foi instalada na Rússia e outros países sob o seu controlo. O "homem novo" prometido pelos Partidos Comunistas afinal abominava o comunismo que lhe foi imposto. Os capitalistas russos tornaram-se no simbolo da rápida acumulação e ostentação de enormes fortunas. Os novos czares depois de 1991 trataram de reconstituirem os símbolos da antiga Russia imperial. A China sob a direção do Partido Comunista abriu-se ao mundo para revelar a outra faceta do comunismo marxista: o Capitalismo de Estado na sua mais brutal expressão à escala global. A apregoada "solidariedade proletária" revelou-se um embuste para a rapina de recursos e especulação. A Coreia do Norte copiando o modelo concentracionário do comunismo soviético, com paradas de inspiração nazis elevaram ao extremo da barbárie a "ditadura do proletariado". Em Cuba os dirigentes sob uma fachada comunista instalaram uma monarquia absoluta.

 

O desabar da ideologia comunista foi por muitos interpretado como o "fim de todas as ideologias" e o triunfo definitivo do capitalismo. A partir desta altura só restaria aos revolucionários lutarem por problemas locais esquecendo, por exemplo, a situação do catastrófica do planeta ou a barbárie. Face a este descalabro da ideologia comunista, o liberalismo reinante nos EUA durante algum tempo afirmou-se como o único modelo social. Os comentadores liberais não tardaram a dizer que se estava perante o Fim da História (5). O mundo doravante pertencia ao capitalismo liberal. Tínhamos pela frente um futuro moldado pela paz, democracia representativa e o mercado livre. Pura ilusão. A luta passou a ser entre blocos capitalistas, uns liberais outros estatistas, mas todos vivendo da brutal exploração dos trabalhadores.

 

O culto do dinheiro, símbolo de poder (domínio, aquisição de bens, etc) e reconhecimento social, substituiu as religiões tradicionais. A acumulação de riquezas na posse de um único indivíduo é celebrada como um triunfo civilizacional.

O capitalismo é expansivo, senão declina. A concorrência global que está instalada devora incessantemente recursos naturais e humanos, assim como as mais frágeis economias. O medo, a precariedade e a ausência de meios de sobrevivência e esperança fez emergir vagas de excluídos vagueiam pelo mundo ou reagem aquilo que consideram ser a sua morte colectiva ou marginalização, alimentando movimentos xenófobos e racistas, cujos líderes prometem fechar as fronteiras para proteger empregos, culturas, religiões ou etnias. O migrante, estrangeiro, de religião ou cor diferente passou a ser o inimigo a abater em nome da protecção da economia ou da "identidade nacional”.

O mundo não tardou também a assistir ao impensável: a barbárie praticada pelos seguidores da religião muçulmana. Alegam o direito de imporem a outros a sua religião e regimes políticos teocráticos, incluindo nos países que os acolheram como migrantes.

A tolerância, respeito pelas diferenças, foi aproveitada para difundir a barbárie. Em nome da mesma tem sido tolerados grupos sociais que são “possuidores” de uma identidade étnica, religiosa ou cultural que pregam ódio, o domínio de uns sobre outros, escravizam ou violam os seus em nome da preservação da sua suposta identidade. Não faltam no mundo regimes tirânicos, paraísos para turistas, nos quais uma minoria esbanja recursos que tirariam da extrema miséria milhões dos seus habitantes.

Situações que são expostas quotidianamente nos meios de comunicação como parte de uma diversão permanente para conforto dos que não são vítimas desta barbárie, por viverem noutra realidade.

Contexto social. As mudanças que se registavam em Portugal no final dos anos noventa eram consideráveis em relação a 1974, quando foi restaurada a democracia representativa. Após a entrada na CEE (atual União Europeia) a 1 de Janeiro de 1986 assistiu-se à desindustrialização, abandono da agricultura, implantação de grandes cadeias comerciais, etc. A economia portuguesa tornou-se uma economia de serviços. A população passou a viajar para o estrangeiro com muito maior frequência. Assistiu-se à entrada de sucessivas vagas de imigrantes (brasileiros, ucranianos, romenos, moldavos, russos, chineses, etc.), a diversidade de culturas passou a ser a regra no país. O analfabetismo passou a ser residual. O que não mudou, antes se acentuou foram as desigualdades sociais.

Em suma, a realidade social mudara bastante assim como os motivos susceptiveis para a sua mobilização revolucionária. As antigas e laboriosas concepções de uma "sociedade perfeita" que terminaria com todos os conflitos sociais, surgiam agora aos olhos de muitos anarquistas como "utopias" concentracionárias e totalitárias, só possiveis de serem realizadas através do esmagamento da diversidade e da barbárie. Proudhon ao recusar a "síntese", mantendo a tensão dos contrários filosoficamente surgia de novo mais atraente. Karl Popper com a sua critica às "utopias" (sociedades fechadas) ganhava um novo sentido.

Havia que encontrar um novo "programa de lutas comuns", o que se revelou dificil para os anarquistas em Portugal. O jornal A Batalha manteve-se, mas no meio de polémicas com alguns dos seus novos directores. Após a morte Emídio Santana (Setembro de 1988) assumiu a direcção do jornal José Maria Carvalho Ferreira (1989-1990). O jornal passou a ostentar o subtítulo "Jornal de Expressão Anarquista" o que constituiu um corte com o seu passado sindicalista, o que deixou marcas. A passagem de Moisés da Silva Ramos foi curta embora consensual: entre Julho e Setembro de 1990. Seguiu-se Maria Magos Jorge entre 1991 e 1996, que pouco depois de desempenhar esta função aparece como candidata pelo Bloco de Esquerda ao Parlamento Europeu (1999). Neste caos, a continuidade do jornal foi assegurada por militantes como João Santiago (director desde 1998), Luis Garcia e Silva, Elisa Areias….

Na revista A Ideia os problemas não foram menores. A direção da revista foi assumida por Miguel Serras Pereira (nº54, Maio de 1990) que trouxe para a mesma a confusão ideológica que reinava entre os “marxistas libertários” perante a derrocada da União Soviética, expresso numa manta de retalhos denominada “Nova Plataforma Editorial”. A revista entra num debate interno que não era o seu e acabou suspensa no número seguinte (1991). A Editora Sementeira é dissolvida. João Freire afastou-se da revista e passou a argumentar que mudara de ideias era agora um adepto de teses liberais próximas das defendidas por Robert Nozick (Anarquia, Estado e Utopia), mas também da intervenção americana no mundo para defender os valores ditos ocidentais, etc. Em 2007 publicou uma extensa critica a muitos anarquistas, sob a forma de uma exaltante autobiografia sociológica. O anarquismo era coisa do passado ou um objecto de estudo de sociólogos ou historiadores. A resposta de Júlio Carrapato, um dos visados, foi contundente na crítica ao professor catedrático do ISCTE (9). A revista reapareceu em 2001, numa linha editorial marcadamente literária. Nesta altura uma antiga colaboradora d`A Ideia - Maria de Lurdes Rodrigues andava pelo PS, tendo sido nomeada mais tarde ministra da Educação (2005-2009).O tempo era de grande confusão de ideias.

Intelectuais. Desde Abril de 1974 que o movimento anarquista tem atraído grande número de estudantes e professores universitários. Alguns tem encontrado no anarquismo material para teses de doutoramento, mestrado, livros ou artigos académicos. Outros fazem aqui o seu tirocínio político antes de ingressarem num partido político onde irão tentar obter o poder e a compensações que o anarquismo não lhes dá. Tem a precupação de ficaram sempre num plano teórico, nunca se envolvendo em nenhum luta popular ou ação que possa colocar em causa a sua imagem de académicos, intelectuais.

É por esta razão, como referia Noam Chomsky em 1995 numa entrevista ao jornal A Batalha: "não existem praticamente intelectuais anarquistas, pela simples razão que o anarquismo não oferece aos intelectuais qualquer posição de poder e privilégio". No entanto, constata que os sentimentos anarquistas estavam bastante disseminados. Muito do que se passava por todo o mundo tem um caracter libertador. O problema é que estas ações continuavam com poucas poucas possibilidades de serem articulados de modo construtivo. Restava aos anarquistas continuarem a fazer o que sempre haviam feito: "Ajudar as pessoas a controlarem a suas própria vida, a compreenderem o mundo em que vivem, a organizarem-se para enfrentar e destruir a autoridade ilegitima, ou seja qualquer forma de autoridade que não possa provar a sua legitimidade; uma prova que raramente pode ser feita. É tarefa dos libertários e da sua imprensa mostrar isso, ajudar os outros a compreendê-lo, aprender com as lutas populares e contribuir para elas. Como tem sido sempre." (8)

Em 1993 começa a publicar-se em Lisboa Singularidades- Modos de Ser Inconformista, numa iniciativa de Jorge Telles de Menezes (1951-2018).

A revista a Utopia aparece em 1995, e depois de alguns números de análises sociais acutilantes confina-se à literatura e acaba suspensa em 2012. O panorama libertário em Portugal nos anos 90 era pouco animadorEm 1993 começa a publicar-se "Singularidades" (Lisboa).

Na verdade esta atitude era o reflexo de um tempo em que a maioria dos portugueses abdicou a sua capacidade de decisão e entregou-a a uma minoria (partidos politicos).

Proudhon Essencial

Na confusão ideológica que se instalou nos anos noventa, um nome acabou por ressurgir: Proudhon. Um dos anarquistas que melhor percebeu as consequências resultantes da falência da União Soviética foi Francisco Trindade. Entre 1989 e 2001 publica vários textos que tiveram o mérito de voltar a rediscutir o seu pensamento e a inspirar as práticas libertárias (6).

Proudhon foi o primeiro a demonstrar o erro em que se baseava a “dialéctica” hegeliana apropriada por Karl Marx: a “síntese” que culminaria numa “sociedade perfeita”, no “fim da história” e no “ último homem” era o produto de uma alquimia, um misticismo que se fosse levado à prática só podia conduzir a uma nova barbárie ( o comunismo). Os regimes comunistas no século XX demonstraram à saciedade a previsão de Proudhon.

Na sua filosofia, a vida, as sociedades ou o próprio universo são movidos por contínuas oposições (luta de contrários) irresolúveis. Esta “guerra” pode ser transformada mas não aniquilada. Os equilibrios são sempre precários, a tensão é permanente.

Nas contradições sociais, os injustiçados, oprimidos, governados e explorados estão “condenados” a travar uma luta permanente contra tudo o que impede a sua libertação: o capital, o centralismo, a religião, o militarismo, em suma, aquilo que significa ou permite o domínio de uns sobre outros (autoridade).

Neste combate sem fim, os oprimidos à medida que a sua libertação avançar devem criar formas alternativas que lhes permitem controlarem a sua própria vida sem intermediários, contrariando a tendência para a concentração da propriedade ou o centralismo dos Estados. Proudhon não se cansou de afirmar na necessidade da criação de organizações políticas alternativas, quer potenciando as unidades administrativas próximos dos cidadãos (municípios) ou outras na esfera económica isentas de relações de poder de uns sobre outros (mutualismo, federalismo). Na sua filosofia não existe uma sociedade perfeita, mas sociedades mais ou menos livres e igualitárias. Nada é estático ou garantido, os retrocessos são sempre possíveis, daí a revolta contra o autoritarismo ser permanente.

Causas e Perspectivas

Em todo o mundo na viragem do século XX para o XXI foi assinalado o ressurgimento do anarquismo ligado a ações antiglobalização capitalista, como os protestos contra o G7, Organização Mundial do Comércio, FMI ou Banco Mundial, mas também contra o saque global das multinacionais. Em Portugal uma das ações deste género ocorreu no Porto em 2003 aquando da cimeira da OSCE.

A sociedade portuguesa no princípio do século XXI, revelava uma crescente mentalidade conformista, atávica e indiferente à “coisa pública”. Nesta altura é editado um livro de filosofia que constituiu um êxito editorial, com o significativo título: O Medo de Existir (2004) da autoria de José Gil. Fazia o retrato de um país amedrontado e bloqueado em termos democráticos. A revolta e insubmissão anarquista só podia ser encarada com pavor, medo visceral.

Uma manifestação que colocou a polícia em sobressalto ocorreu no dia 25 de Abril de 2007. Cerca de 300 anarquistas concentraram-se na Praça da Figueira em Lisboa para manifestarem-se contra o "Fascismo e o Capitalismo", dirigindo-se depois para o Chiado. A policia carregou sobre os manifestantes tendo sido detidos onze anarquistas. A imprensa sensacionalista (Correio da Manhã) referiu que se tratavam de "anarcas", entre os quais se contavam criminosos e até estrangeiros delinquentes. O jornal Público entrevistou dez dos participantes e não conseguiu descobrir nenhum dos alegados criminosos. O certo é que a Policia Judiciária desde então passou a vigiar uma "Rede Libertária" que supostamente em maio de 2010, tencionava atentar contra a vida de uma nefasta personagem que dava pelo nome de Anibal Cavaco Silva (Correio da Manhã, 07/05/2010); Diário de Noticias, 07/05/2010). No final constatou-se que o suposto atentado não passava do produto de uma mente delirante. Pouco depois aquando da cimeira da Nato em Lisboa a histeria jornalistica foi total ao associarem os grupos anarquistas à Al-Queda (Diário de Noticias, 5/06/2010).

Em 2011 os anarquistas em Setúbal no 1º. de Maio, e depois em Lisboa (3 de Junho) fizeram ouvir a sua voz contra a violência policial e corrupção no país, o que terá causado grandes incomodados. Portugal é na União Europeia considerado um dos países mais corruptos. Um facto que consta em inúmeros relatórios sobre transparência. Os grandes grupos económicos controlam a produção de leis e negócios do Estado, através dos partidos políticos. Na justiça somam-se também os casos de juizes e funcionários corruptos, envolvidos em manobras partidárias ou tentações judicialistas. Nas forças policiais, onde se regista uma forte infiltração de elementos racistas e xenófobos, acumulam-se os casos de corrupção e situações de horror indescritivel. Em Março de 2020 ocorreu mais um exemplo paradigmático: o cidadão ucraniano Ihor Humenyk foi barbaramente espancado até à morte no Aeroporto Internacional de Lisboa. O caso foi assumido como "natural", sucederam-se meses e meses de encobrimento corporativo e só veio a público graças à ação de jornalistas livres. É fácil perceber quando estes grupos anarquistas nos espaços públicos denunciam atentados contra os direitos humanos são encarados como uma ameaça à Ordem Pública.

O colapso dos partidos ditos revolucionários ligados às várias correntes marxistas, conduziu ao próprio descredito da ideia de Revolução Social. O vazio provocado foi de imediato substituido por as ideias anarquistas de "revolta" e rebeldia" contra o poder. Passou a falar-se em mudar o mundo sem conquistar o poder político (4), um campo de acção onde o anarquismo revela maior capacidade e flexibilidade. Quando se observa as formas de luta e de organização, as narrativas e reportórios dos novos movimentos de sociais descobre-se que as suas referências são muitas vezes explicitamente anarquistas (3). A "Propaganda pela Ação" de Malatesta está de volta.

Os filósofos anarquistas, sobretudo dos USA vieram ocupar um largo espectro no campo libertário, onde muitas vezes se procura confundir anarquismo com liberalismo. A defesa da Liberdade com a do mercado e da propriedade. A internet facilitou o acesso às suas obras e ideias. Entre eles destacamos os seguintes: Robert Paul Wolff (Defense of Anarchism, 1970), David Friedman, (Mecanismo da Liberdade, 1973), Robert Nozick (Anarquia, Estado e Utopia, 1974), Hakim Bey (Peter Lamborn Wilson, T.A.Z.: Zona Autónoma Temporária, 1985), John Zerzan, Todd May (A filosofia política do anarquismo pós-estruturalista, 1994), Saul Newman, Lewis Call, David Graeber,etc.

Em Portugal o movimento anarquista, seguiu a tendência internacional, assistiu-se à pulverização de causas e à dificuldade de encontrar um "programa comum" de ação dos libertários. A reflexão afastou-se frequentemente da ação prática. Desde o inicío do século XXI parecem estar particularmente centrados em oito áreas onde a ação individual se pode mais facilmente manifestar:

a) Crítica dos Mecanismos de Dominação. O que leva seres humanos a aceitarem passivamente serem dominados, dirigidos, humilhados e explorados por outros? A reflexão crítica das diversas formas de dominação, como é expectável, continua a ocupar um lugar central em inúmeros textos anarquistas. O que há agora de novo é a questão da tecnociência. Os mecanismos de controlo estão agora mais sofisticados. Alegadamente apoiam-se na "ciência" e em nome da "eficácia social" apelam a que os individuos se deixem representar, entreguem a intermediários as decisões sobre a sua vida e da comunidade que integram a quem "sabe melhor" o que lhes convém.

Trata-se de uma vasto mecanismo de controlo e exploração social que conta ao seu serviço milhões de cientistas, técnicos e intelectuais que procuram detectar individuos com "problemas" ou "desvios" à "normalidade" para os enquadrarem no sistema (tecnocracia). Fazem-no em nome da "ciência" alegadamente ao serviço da "felicidade" ou "bem estar" da população. O resultado é o conformismo, a anomia social. A revolta contra as injustiças é vista como um distúrbio psicológico.

Na prática este "psicologismo" contribui para manter os mecanismo de reprodução de domínio e o saque.

A Pandemia (Covid -19) que se declarou em 2020 permitiu pela primeira vez em muitos Estados, testarem em larga escala sofisticados mecanismos tecnológicos de vigilância, controlo e repressão dos cidadãos. Estão criadas bases de dados sobre a vida dos cidadãos, numa dimensão que nenhuma ditadura no passado conseguira realizar. A eficácia demonstrada por estas tecnologias de controlo, vieram também relembrar que a tecnologia não é, nem nunca foi neutra. Estão criadas as condições tecnológicas para a instauração de regimes “democráticos totalitários”, como tem alertado muitos anarquistas.

A Pandemia demonstrou igualmente que a receita liberal de entregar a resolução dos problemas sociais ao mercado, apenas resulta no aumento da concentração da riqueza numa minoria deixando a maioria da população desprotegida. Demonstrou igualmente a importância social de equipamentos e espaços públicos para a vida dos cidadãos. Uma constatação que exige da parte dos cidadãos uma intervenção ativa e persistente na sua criação e manutenção. Nada é dado, tudo tem que ser conquistado. .

b) Cidadania. Os anarquistas estão envolvidos nos novos movimentos de cidadania que contestam a democracia representativa, reclamando a descentralização das decisões políticas ou criação de formas de democracia directa. É um combate minoritário, mas coerentemente assumido por todos aqueles que não abdicam de seguirem as suas convicções, e se recusam a abdicaram de decisões que afectam as suas vidas entregando-as a políticos, técnicos e especialistas disto e daquilo. O lema continua a ser o mesmo de sempre: Se queres algo que acreditas ser justo, avança, luta, não esperes que outros o façam por ti. Sem abdicares da tua liberdade junta-se a outros que prossigam objectivos idênticos.

O sistema politico que foi gerado transformou a participação dos cidadãos num simulacro, remetendo-a para atos privados, desligados de relações de pertença, desterritorializados. O resultado tem sido o isolamento social e o afastamento dos cidadãos de ações que envolvam compromissos ou causas sociais. As consequencias desta anomia social é o crescente desinteresse pela sociedade e da própria dignidade.

Em Portugal o alvo desta reflexão e ação tem-se circunscrito à partidocracia que se instalou no país depois de 1974. Foi criado um sistema politico de dominação que procurou elimitar a participação dos cidadãos fora dos partidos politicos. A sua consolidação gerou verdadeiras castas familiares que se reproduzem, perpetuam e unem para garantir o acesso e manutenção de cargos públicos. A crescente percepção deste mecanismo de poder por parte da população tem gerado um crescentes nível de abstenção eleitoral. Trata-se de uma atitude tanto pode traduzir uma posição emancipatória, desde que acompanhada de uma intervenção social alternativa, como de uma atitude de alheamento social, o que manifestamente parece ser o caso. Uma atitude de indiferença reforçada pela constatação de uma corrupção endémica no chamado “poder legislativo”(14), “judicial” (16), “executivo” (17) e “policial”. A longa tradição de impunidade, opacidade e exploração da população por parte dos que exercem cargos públicos em Portugal tem mantido e consolidado este sistema. Na ausência de uma atitude emancipatória libertária, estas percepções tem despertado entre a população apenas instintos básicos de inveja, vingança, maledicência, gosto pela intrigalhada e apelos à “Ordem” e “Salvadores da Pátria”, com os resultados conhecidos.

Nas últimas eleições legislativas em 2019 registou-se um nível record de 51,43%, a que se somaram 2,51% votos em branco e 2,36% de votos nulos. A questão é que a maioria dos portugueses, embora sintam que "não contam para nada", desistiram de lutar por outras formas alternativas de intervenção na sociedade, denúncia e exigência de transparência e controlo por parte dos cidadãos.

A integração de Portugal na União Europeia (UE) a 1 de Janeiro de 1986, que a maioria da população se sente cada vez mais afastada fisicamente dos centros de decisão política. Ao certo já ninguém sabe quem está a tomar decisões que afectam as suas vidas. Um afastamento que está bem patente na enorme abstenção nas chamadas eleições europeias. Nas eleições de 2019 a abstenção foi de 69,3%, os votos em branco 4,3% e os nulos 2,7%. Números que reflectem os danos provocados pela partidocracia no afastamento da população da coisa pública.

Nas eleições presidenciais, onde se escolhe directamente quem, por exemplo, garante a separação dos diversos poderes impedindo a sua concentração ditatorial, a desconfiança nos candidatos é crescente. A abstenção em 2016 foi o dobro de 1976, fixando-se nos 51,3%, sem contar com 2,1% de votos branco e nulos.

Estamos perante um país permanentemente adiado. Uma parte significativa da população continua a emigrar, por as razões mais diversas, sobretudo económicas. A esmagadora maioria mostra-se indiferente perante a questão de transformar as condições de vida na terra onde nasceu, ao contrário do que aconteceu com gerações de emigrantes no passado. A verdade é que os partidos políticos tudo têm feito para afastar os emigrantes da participação nas eleições dada a dificuldade que tem no seu controlo (10). Desde os século XIX a única preocupação é com as remessas que enviam, tudo o mais é secundário.

A questão da cidadania adquire dimensões ainda mais graves em relação aos imigrantes. Desde a entrada de Portugal na CEE (atual UE) que a população em Portugal é mais heterogénea quanto às suas origens. Os novos residentes, a maioria dos quais migrantes são muitas vezes sujeitos a uma brutal exploração, tráfico, sendo-lhes negado o acesso à cidadania, sob as formas mais diversas. Um processo de exclusão social que facilita a sua exploração por redes de criminosos e patrões.

O aumento da imigração fez emergir os movimentos racistas e xenófobos, nomeadamente nas forças policiais. Este é um combate que tem envolvido muitos anarquistas.

c) Trabalho. A palavra "trabalhador" passou a ter um conteúdo difuso, tantas são as categorias, estatutos, situações profissionais e interesses abrangidos. A libertação que antes era projectada a partir dos locais de trabalho é hoje pensada fora deles. A ideia de uma "vanguarda operária" que encabeçaria a revolução social caiu no esquecimento. Os "novos trabalhadores" estão moldados por relações de obediência em nome da eficácia produtiva, em trabalhos cada vez mais precários. Assistimos a fenómenos impensáveis noutras épocas: operários a tomarem como seus inimigos não os patrões mas os migrantes. Estes são apontados como uma ameaçada aos seus postos e condições de trabalho. Viram-se então para lideres políticos populistas, xenófobos e racistas que lhes prometem empregos seguros.

A indiferença e apatia está instalada no movimento sindical. Apenas dá sinais de existir nos momentos rituais do costume, como o 1º. de Maio. É um momento de convívio e de comes e bebes. O número de filiados não tem parado de diminuir. Os trabalhadores começaram a perceber que os sindicatos os usam como simples meios nas lutas interpartidárias pelo controlo do poder. A taxa de sindicalização que em 1978 era de 60,8% passou para 8,3% (MTSS) ou 15,3% segundo a OCDE. A UGT está ao serviço PS - PSD. A CGTP é controlada pelo PCP. Este partido cada vez mais reduzido na sua implantação social aposta a sua sobrevivência nas estruturas sindicais desta organização. Desde 2012 os secretários-gerais da CGTP são igualmente membros do Comité Central do PCP. A independência sindical há muito que não existe. Nada que os anarquistas à décadas não tenham apontado. A ideia que se generalizou é que descontar para os sindicatos significa custear os funcionários do PCP.

Os sindicatos alternativos que surgiram tem registado pouca ou esporádica adesão. Alguns deles foram criados servirem outros objectivos, ou nem sequer já podem ser considerados nessa categoria. Nas forças policiais, por exemplo, multiplicaram-se os sindicatos com o único propósito de livrarem do "serviço" os seus membros. Nestes sindicatos o número de filiados é igual ao de dirigentes sindicais. Com base na lei existente podem ausentarem-se do serviço nas esquadras alegando estarem a fazer trabalho sindical (2020).Noutro caso, como o dos motoristas de materiais perigosos decidem avançar para a greve, contratam um advogado para servir de porta-voz e dirigente sindical (2019). Este pouco depois, aproveitando a notoriedade adquirida aparece como candidato às eleições legislativas. Dois exemplos que ilustram o descrédito em que caiu o sindicalismo em Portugal.

Paralelamente a estas estruturas sindicais partidarizadas tem surgido multiplos movimentos de contestação laboral, contra a precariedade, arbitrariedades, ausência de horários, assédio moral e sexual, etc. Na sua maioria são movimentos pontuais em torno de objectivos concretos.

As comissões de trabalhadores continuam limitadas pela legislação aprovada entre 1975 e 1977, que tinha como objectivo proteger a hegemonia dos sindicatos a Intersindical (CGTP), proibindo-as de negociarem salários e carreiras profissionais. Quando existem, como aconteceu na Autoeuropa são boicotadas pelos sindicatos e presas fáceis de partidos políticos. O reflexo desta situação foi a fragilização da força dos trabalhadores nos locais de trabalho.

Em diversas manifestações sindicais os anarquistas passaram a marcar a sua presença, como o faziam no passado. Foi uma vez mais no norte que se tomou a iniciativa de formar uma seção portuguesa da AIT (AIT-SP).Contando com vários núcleos em 2013: Porto, Chaves, Guimarães, Lisboa, Setúbal, Algarve. No Porto constituiu-se um sindicato de ofícios vários. A 6 e 7 de Dezembro de 2014 realizou no Porto o Congresso Extraordinário da AIT, com a participação de 80 delegados e observadores de 13 secções e uma organização amiga da AIT. Um facto inédito nas relações históricas da AIT com os sindicalista portugueses.

d) municipalismo. Antigas concepções libertárias de municipalismo começaram a ser reelaboradas tendo em conta os novos contextos sociais. Matendo o princípio de construir um nova sociedade de baixo para cima, os anarquistas passaram a estar envolvidos na expansão dos espaços públicos, na reconfiguração humana de bairros ou cidades, seguindo princípios inspirados em Kropotkine ou E. Reclus, combatendo desta forma também a anomia social. Defendem a criação de espaços alternativos, onde os princípios anarquistas de liberdade, autonomia, partilha e igualdade sejam um realidade no presente. No passado estes espaços eram identificados apenas com as "comunas libertárias" hoje podem ser espaços públicos libertados do poder estatal ou do domínio privado. De registar a realização de uma conferência internacional "Ecologia Social e suas perspectivas políticas - o municipalismo libertário", 26 a 28 de Agosto de 1998, pela Soci US/Iseg-UTL, onde Murray Bookchin foi a figura de cartaz.

A verdade é que a grande esperança colocada no ressurgimento do municipalismo liberto dos entraves da Ditadura esboroaram-se. Uma incrivel sucessão de autarcas corruptos nas câmaras municipais e juntas de freguesia criaram a imagem pública que as mesmas são orgãos publicos opacos, povoados por clientelas politicas apostadas no enriquecimento dos seus membros. Perante o roubo generalizado praticado por autarcas que se perpetuavam no poder, em 2005 foi resolvido limitar os mandatos consecutivos dos presidentes. O objectivo era reduzir a dimensão do saque praticado de modo reiterado por estes bandos de caciques.

Por todo o país eram evidentes os desmandos, como a desordem e corrupção urbanistica, equipamentos ruinosos e empresas municipais geradoras de empregos ficticios para membros do partido e familiares, destruição do património paisagistico e edificado, destruição de praças e jardins, etc. Estratégias que visaram afastar os cidadãos dos espaços públicos, encerrá-los em casa. Um processo que foi sendo consolidado com a proliferação de condomínios e conjuntos urbanos inóspitos. Os únicos pontos de encontro que restavam às populações passaram a ser os centros comerciais.

Por todo o país são evidentes os seu desmandos: desordem e corrupção urbanistica, destruição do património paisagisticos e edificado, destruição de praças e jardins, etc. Estratégias que visaram afastar os cidadãos dos espaços públicos, encerrá-los em casa. Um processo que foi sendo consolidado com a proliferação de condomínios e conjuntos urbanos inóspitos. Os únicos pontos de convivio que restavam às populações passaram a ser os centros comerciais.

A participação dos cidadãos nas assembleias municipais e de freguesia tornaram-se irrisórias, a indiferença pela coisa pública completa. A partidocracia afastou os municipes da vida comunitária, como resultado a abstenção disparou. Em 2013 nas eleições autárquicas atingiu os 47,4%, fixando-se no 45% em 2017.

Face a este descalabro os partidos politicos abriram de forma controlada a possibilidade de cidadãos independentes se poderem candidatar, embora em condições muito menos favoráveis. Desde 1976 podiam concorrer apenas às freguesias, mas só a partir de 2001 tiveram a possibilidade de o fazer também aos órgãos municipais. Os movimentos alternativos são escassos. Nas eleições autarquicas de 2017, nos 308 concelhos foram eleitos 17 presidentes de câmara independentes e nas 3.092 freguesias 403 de presidentes. Dir-se-á que é pouco, mas foi o bastante para gerar uma ofensiva contra a cidadania por parte dos partidos políticos. Em Agosto de 2020 aprovaram uma alteração à lei que regula as eleições autárquicas que pretende impossibilitar as candidaturas de cidadãos independentes às Juntas e Câmaras Municipais.

Desde 1976 que está previsto na Constituição do país a sua regionalização, mas com excepção da Madeira e dos Açores esta não saí do papel. O exemplo da plutocracia na Madeira e o desvarios nos Açores ajudaram a criar uma imagem negativa dos processos de regionalização. Em 1998 foi realizado um referendo sobre a regionalização, para além de uma taxa de abstenção de 51%, a mesma foi rejeitada por mais de 60% dos votantes. Uma análise atenta dos resultados permitia perceber que os cidadãos portugueses não recusavam a descentralização, o que temiam é que os partidos políticos se servissem da regionalização para aumentarem a burocracia e a corrupção do sistema.

Entre os movimentos locais mais vigorosos, destaca-se a luta pelo fim de casas devolutas. Trata-se de uma situação inconcebível quando tanta gente delas precisa para morar. O movimento adquiriu grande dimensão entre 1974 e 1975, mas rapidamente desapareceu. Em meados no anos noventa começou de novo a ganhar expressão no movimento anarquista através de ações icónicas. Eram alertas sociais para o problema da falta de habitações, a inoperância dos municipios, a necessidade de se avanoar para a municipalização dos solos urbanos, etc. Entre as várias ações refira-se em Setúbal a COSA - Casa Okupada de Setubal Autogestionada (1). No Porto, as jornadas “Cidade em Revolta. Entrada e saída da Ruína Capitalista ” (IIª Jornada, Dez.2018).

e) Cultura. Cultura e Educação. A cultura nas suas diversas formas, não apenas a artistica, sempre esteve no centro dos temas mais abordados pelos anarquistas. A cultura cria, forma ou reproduz as estruturas que configuram a nossa interpretação da realidade e das vivência quotidiana, neste sentido permite expandir os horizontes de liberdade, escalpelizar e evidenciar obstáculos a derrubar.

Ao contrário do passado o acesso aos bens culturais alimenta é hoje uma necessidade imperiosa das industrias culturais. Um mercado em expansão também ele indispensável para distrair, divertir, entreter milhões de pessoas cujo tempo é preciso ocupar.

Não se pense que a "arte" está morta mercê da expansão do avanço da “arte de massas”. A criação artística tem uma função insubstituível: criar cultura. Desde Proudhon que as perspectivas anarquistas sobre a arte continuam a fascinar criadores e teóricos dos fenómenos artísticos. Muitos criadores continuam a afirmarem-se "anarquistas" sem que se perceba a razão de o fazerem. Não deixa de ser todavia significativo que grande número das publicações anarquistas desde 1974 dediquem largos espaços a intervenções artisticas (plásticas ou literárias) ao ponto de se confinarem praticamente a este tipo de intervenções.

Nestas publicações o pensamento crítico é sobre a cultura dominante e os seus mecanismos de interiorização e reprodução das relações de domínio.

O “anarquista bombista” desapareceu como personagem dos romances para ficar, apenas o do libertador de sistemas opressivos, dois exemplos:

José Eduardo Agualusa em dois romances - Nação Crioula (1997) e Milagreiro Pessoal (2017) - através de duas personagens anarquistas faz uma curiosa homenagem, aos muitos libertários que se baterem pela emancipação do povo angolano.

José Saramago (1922-2010), envolvido depois de 1974 no assalto do PCP meios de comunicação social e na instauração de uma ditadura comunista em Portugal, depois do colapso do URSS fez uma inesperada aproximação ao anarquismo, através de sucessivos romances: Ensaio sobre a Cegueira (1995), A Caverna (2000), Homem Duplicado (2002), culminando no Ensaio sobre a Lucidez (2004). A partir de 2004 declara-se “Comunista Libertário” (El País, 26/04/2004) repudiando a manipulação que os regimes comunistas haviam feito da população. Em Junho de 2007, entrega a Alvaro Cunhal um documento com mais de 300 assinaturas, sobretudo de intelectuais pedindo-lhe para iniciar uma discussão aberta, nomeadamente sobre o “marxismo-leninismo”, o que lhe foi naturalmente negado.

Numa sociedade marcada por uma cultura tecnocrata, onde a educação para a submissão ao sistema é apontada como a chave para o sucesso, o combate pela autonomia do pensar, a reflexão e a crítica tornaram-se indispensáveis para não nos deixarmos aprisionar nas malhas que o poder tece. Um longo historial libertário neste combate, amplamente disseminado, continua a ser uma preciosa fonte de inspiração.

f) Globalização. A partir dos anos oitenta assistiu-se a globalização das transferências de capital, o que facilitou a concentração da propriedade, dos meios de comunicação social ou a criação de referências de consumo e modas globais. Uma das consequências foi também a percepção das profundas desigualdades no mundo, não apenas em termos económicos, mas também de liberdade. Para muitos esta constatação tornou-se insuportável, o que até então era vivido como uma fatalidade, produto da "lotaria social". Uma evidência que a televisão tornou acessível em todo o mundo.

Grande parte da humanidade vive em condições miseráveis para alimentar o "estilo de vida" da outra parte. Trata-se de um "estilo de vida" assente no consumo de "bens" supérfluos, ecologicamente insustentáveis, mas que são indispensáveis no quadro do atual funcionamento do sistema capitalista. É evidente que nenhum muro pode parar a migração de populações inteiras de territórios onde o consumo de bens essenciais é escasso para outros territórios onde são-lhes mostradas imagens de abundância, ainda que muitas vezes sejam apenas imagens. Pouco importa se estas correspondem ou não à realidade. A fuga à miséria é a única esperança que lhes resta.

A globalização das comunicações permitiu o confronto de perspectivas numa escala sem precedentes. Países como Portugal que durante séculos enalteceu um panteão de "heróis nacionais", constata agora que muitos deles são alvo de acusações por outros povos que lhes atribuem as piores atrocidades. Pouco importa recordar os contextos históricos em que as atrocidades foram cometidas. Neste contexto global os heróis admitidos ao panteão universal são outros, o padrão de avaliação não é nacional mas global.

A difusão da Internet, sobretudo a partir de 1995, foi saudada como um importante meio para a difusão das ideias anarquistas. Muitos foram os que viram neste movimento a concretização de uma velha ideia libertária da criação de uma rede de comunicação mundial livre e não controlável pelo Poder (7). A internet potenciava também ações individuais globais contra regimes ditatoriais e muitos outros combates, não importando o seu local. Em Portugal os anarquistas foram dos primeiros a fazê-lo.

A globalização tem permitido, sobretudo, a concentração da propriedade, a especulação e as operações de rapina numa escala planetária antes inimaginável. A interdependência das economias neste contexto de rapina à escala planetária trouxe como consequência crises económicas e sociais mais frequentes e devastadoras. O fecho de fronteiras não é solução. Proudhon face à concentração da propriedade já tinha apontado o caminho: É preciso acabar com o roubo, limitando a acumulação da propriedade.

g) Ecologia. Desde o século XIX que os anarquistas apontam para a necessidade de um equilibrio ( sustentabilidade) entre os seres humanos e a natureza.

O primeiro alerta foi sobre as consequências dos aumento crescente aumento da população mundial. Um factor que só por si implica um brutal mudança na relação dos seres humanos com natureza, conduzindo à progressiva extinção de recursos naturais, de espécies, diminuição das áreas agricolas, etc.

O segundo alerta foi sobre a natureza predadora de recursos naturais em que se baseia o sistema capitalista. A ideia que este modelo predador por ser infinito através de soluções tecnicas, capazes de substituir aquilo é natural por produtos artificiais ignora as consequências para a vida no planeta que esta mudança provoca. Um combate que implica a destruição de atividades económicas e postos de trabalho ligados a atividades predadoras. Uma evidência que impõe uma revolução global neste sistema económico que está a conduzir a Humanidade para o abismo.

O terceiro alerta foi sobre a necessidade de uma mudança no "estilo de vida" no quadro de uma ética global. Esta dimensão ética é inseparável de uma mudança política.

A ecologia social de Murray Bookchin tornou-se na principal referência na abordagem libertária da ecologia. Em Portugal destaque para Planeta Azul (Associação Ecológica Alternativa) do Porto com um percurso coerente com os seus princípios libertários.

h) Memória. Uma das áreas mais interessantes de afirmação do anarquismo surgiu no campo académico onde vários trabalhos permitiram valorizar a ação em Portugal, sendo de destacar os trabalhos de Carlos da Fonseca, João Freire, António Candeias, António Ventura, etc. Os estudos académicos por exigências próprias deste tipo de trabalhos são fragmentários, centrados em problemas muito específicos, onde frequentemente os seus autores passam a imodéstia ideia que esgotaram um dado assunto. Nada mais errado no caso do anarquismo..

A estes valiosos trabalhos que devemos acrescentar os testemunhos e obras publicadas por antigos militantes como Edgar Rodrigues, Emidio Santana, José Francisco, Acácio Tomás Aquino, etc. Todos eles deram importantes contributos para acabar com a obscuridade em que havia mergulhado a História do Anarquismo em Portugal. Uma ação que historiadores e propagandistas marxistas tem procurado durante décadas omitir ou deturpar, como ocorreu recentemente no Museu Nacional da Resistência e Liberdade na Fortaleza de Peniche, criado em 2017. Os muitos presos libertários que estiveram nesta prisão foram omitidos do catálogo de modo a salientar os presos do PCP.

Os estudos académicos são todavia fragmentários, limitados por exigências próprias deste tipo de trabalhos, nos quais os autores procuram passar a ideia que disseram tudo o que havia a dizer sobre um dado assunto, como se o mesmo tivesse terminado. Nada mais errado no caso do anarquismo.

No bicentenário do nascimento de Proudhon (2009) surgiram algumas iniciativas que revisitaram algumas das suas ideias, tentando perceber a sua atualidade em tempo de Globalização económica crise do sistema financeiro mundial e especulação bolsista. Destacava-se a sua obra Manual do Especulador da Bolsa (1857), em que é escalpelizada a categoria económica da «Especulação» (2).

Liderado por João Freire, no ambito universitário, entre 2008 e 2013 decorreu o projecto MOSCA/M.R. - Movimento Social Crítico e Alternativo: Memória e Referência, centrado no estudo do movimento operário na primeira república. Desta iniciativa resultaram várias teses académicas e 4 livros, para além do levantamento de obras sobre o pensamento libertário que haviam caído no esquecimento.

Os anarquistas nestas ações recorrem a formas muito diversificadas de luta, usando recorrentemente as redes sociais. Querem controlar o seu destino e não entregá-lo a uma minoria que controla o poder político e económico.

Relações Internacionais

Desde os anos oitenta que a principal fonte de referência para os anarquistas em Portugal são os movimentos nos EUA. As referências ao que acontece em França, Espanha ou mesmo Itália foram secundarizadas ou mesmo ignoradas. Depois de 1995 devido ao impacto da Internet as ligações ao movimento anarquista no Brasil adquiriu uma relevância que nunca conheceu no passado.

Organização. Dada a dispersão dos grupos anarquista persiste, para desanimo de muitos (13). A coordenação continuou a assentar sobretudo nos contactos pessoais em eventos. A internet a partir do século XXI facilitou este acesso, assim como a organização de ações colectivas pontuais.

Os encontros anarquistas prosseguiram sendo assinalar os que ocorreram em Coimbra (1993), Porto (26 março a 28 de Abril no 1995), Izeda (agosto de 1997), etc. Na pluralidades de iniciativas posteriores salientamos pelo seu significado duas:

Numa época de profundo desânimo que se vivia na sociedade portuguesa, onde menos se esperava surge um movimento inconformista. Elementos de bandas anarcopunks criam em Ferreira do Alentejo (Baixo Alentejo) um Centro de Cultura Anarquista. Em 2003 tendo surgido um espaço mellhor em Aljustrel é aqui que o mesmo ressurge agora como Centro de Cultura Anarquista Gonçalves Correia (12) que editou a revista Alambique (2007-2013).

A exposição e organização de um colóquio na BN Portugal comemorativo do 100 anos do jornal A Batalha , em fins de 2019, que permitiu um novo reencontro de antigos e novos militantes anarquistas e o lançamento de novas publicações.

Publicações, Editoras, Livrarias e Bibliotecas: Imprensa: Em 2006 surge a Húmos (Almada) e a revista Alambique em 2007. Em 2012 aparece a “Letra Livre”, a "Acção Direta" em Évora, e ainda neste ano o jornal MAPA, em Setúbal, uma inteligente publicação de informação. Logo a seguir a “Flauta da Luz” (nº.1, Jan.2013, Julio Henriques) em Portalegre e “Erva Rebelde” (2016/18) no Porto pela Gera.

Entre os sites libertários destacamos neste período: Pimenta Negra (https://pimentanegra.blogspot.com, Porto, 2004 - 2013); Rede Libertária (http://redelibertaria.blogspot.com, 2011); Guilhotina (https://guilhotina.info, 2013-); O Portal Anarquista (https://colectivolibertarioevora.wordpress.com, Évora, 2014 -) Exploram as potencialidades da internet na divulgação ideias e posições anarquistas. Como agência de noticias: ANA (https://noticiasanarquistas.noblogs.org).

No Porto em 2007 surge a livraria Gato Vadio, primeiro na Rua do Rosário, 281 (até maio de 2019), depois na Rua da Maternidade (2020), numa iniciativa entre outros de Julio do Carmo Gomes e César Figueiredo (11). Em Lisboa aparece a Livraria Tortuga (2017) e inicia a atividade a livraria - editora Letra Livre. Em 2010 refunda-se em Lisboa a BOESG (Biblioteca dos Operários e Empregados da Sociedade Geral), que passa a chamar-se Biblioteca e Observatório dos Estragos da Sociedade Globalizada. O panorama é modesto reflectindo o conformismo instalado na sociedade portuguesa.

Sinal positivo dos tempos tem sido a organização de feiras do livro anarquista: No Porto (Encontro Anarquista do Livro, Maio de 2018 e Março de 2019) e em Lisboa (2008, Outubro de 2018).

Conclusão Inconclusiva

As ideias de Godwin, divulgadas por Francisco Solano Constâncio não tiveram seguidores conhecidos. Foi preciso esperar algum tempo para um novo impulso. Quando Sousa Brandão em 1850 apresentou o seu vasto programa para a organização política de Portugal segundo a "Anarchia, isto é, o pleno triunpho da soberania popular", os mais elementares direitos eram na altura negados à esmagadora maioria da população. A Anarquia na concepção que Godwin e Proudhon haviam definido implicava o fim do domínio de uns sobre outros. Um longo combate se perspectivava tendo em conta este objectivo.

A cidadania estava reservada a uma pequena minoria de homens que repartiam o poder entre si em função do valor das propriedades e do capital que haviam acumulado. Aos pobres e iletrados nenhum poder de lhes era concedido. À concentração da propriedade juntava-se o centralismo estatal, que garantia e acentuava as diferenças e o aumento das desigualdades sociais. O combate dos anarquistas pela descentralização e o federalismo era um combate pela liberdade. Como a história demonstrou sempre que se reforçam os poderes do Estado a liberdade é posta em causa.

Aos trabalhadores, pouco lhes restava senão submeterem-se à vontade de uma minoria de exploradores, nenhum direito lhe era concedido. Para tornar possivel o programa de Sousa Brandão havia que associar os trabalhadores, mudar mentalidades de forma a que os mesmos se sentissem capazes de pensar que tinham capacidade para se emanciparem a si mesmos. Assistimos a forma persistente e criativa como os anarquistas combaterem preconceitos étnicos, sexuais, sociais, religiosos e tantos outros.

As ideias e formas de luta dos anarquistas ao longo de 225 anos mudaram bastante, acompanhado as relações de poder instituídas, tendo em vista provocar mudanças na organização social. No plano laboral foi um combate violento pelo direito à greve, redução dos horários e melhores condições de trabalho, segurança social, etc. No plano social pela igualdade de género, libertação sexual, contra a influência da religião na politica, etc. No Plano internacional destacaram-se na luta pela descolonização e organização dos trabalhadores nas colónias, etc.

O objectiva da construção da Anarchia de Sousa Brandão nunca foi abandonado. Muitos anarquistas seguindo Kropotkine ou E. Reclus acreditavam que era uma inevitabilidade ditada pelo desenvolvimento histórico das sociedades. Outros avisados por Proudhon ou Malatesta sempre disseram que dependia da vontade dos que se sentem oprimidos, explorados ou dos que simplesmente consideram injusta a forma como a sociedade está organizada. Progresso e brutais retrocessos são habituais na história da humanidade, nada está definitivamente adquirido.

Passados 170 anos sobre os artigos Sousa Brandão, a concentração da propriedade e do capital continua para dimensões inimagináveis. Os estados tornaram-se máquinas gigantescas, associando-se entre si para criaram organizações cada vez mais poderosas e afastadas do comum dos cidadãos. A resposta da maioria dos cidadãos nos países ocidentais tem sido o alheamento e isolamento social, enveredando por um individualismo ou narcicismo que frequentemente termina na anomia.

O objectivo de Sousa Brandão é inalcançável ? Ontem como hoje continua bem vivo. O que tem mudado são as formas e as lutas. Em Portugal o anarquismo está presente na sociedade em muitas áreas mas através de ações individuais ou de pequenos grupos de militantes. A consistente prática organizativa que caracterizou o movimento durante largas décadas foi abandonada em favor de colectivos mais inorgânicos. Como ocorreu em 1887 falta um acontecimento singular que volte os volte a ligar e a formarem organizações que impulsionem a sua intervenção social.

Carlos Fontes

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(Versão mais atualizada e corrigida)

 

Anarquismo (literalmente "sem poder") 

Movimento político que defende uma organização social baseada em consensos e na cooperação de indivíduos livres e autónomos, abolindo entre eles todas as formas de poder. A Anarquia seria assim uma sociedade sem poder, dado que os indivíduos se auto-organizariam de tal forma que garantiriam que cada um teria em todas as circunstâncias a mesma capacidade de decisão. Esta sociedade, objecto de inúmeras configurações, apresenta-se como uma "Utopia" (algo sem tempo ou espaço determinado). É um ideal a atingir. Continuação

Filosofias Anarquistas

Dadas as características do movimento anarquista não deixa de ser impressionante a diversidade de filosofias que tem surgido no campo libertário. Continuação

que  

Notas

   

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