Carlos Fontes
ENTRADA

 

 
 

Anarquismo em Portugal

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1926-1974: Resistência às Ditaduras

Capa da revista Vida Mundial, 6/02/1970

O golpe militar de 28 de maio 1926 que instaurou mais uma Ditadura em Portugal, acabou por marcar a história do país até aos nossos dias. A resposta do movimento anarquista foi a possivel num contexto interno e externo que lhe era adverso, nada mais ridiculo do que a reduzir a um conflito entre os jornalistas de A Batalha e a CGT. O golpe militar gerou uma natural tensão interna na CGT provocando a sua reorganização. Em 1926 deu-se a entrada de Mário Castelhano (1896-1940) e Manuel Henriques Rijo (1897-1974) para o Conselho Confederal e depois para o Comité Confederal, a direção de A Batalha foi confiada ao primeiro (15).

A Primeira República (1910-1926), como vimos, foi marcada por guerras de poder entre os republicanos, que procuravam resolver os problemas do país através de continuos golpes de estado, mudanças de governo e assassinatos. Criaram um sistema eleitoral que garantia a continuidade do mesmo partido no poder, gerando permanentes conflitos e divisões entre eles. Os problemas sociais eram resolvidos através da sistemática repressão dos trabalhadores, destruição das suas organizações, perseguições, prisões e deportações

O patronato desde o princípio dos anos vinte que se envolveu numa ampla conspiração para derrubar a República e instaurar uma Ditadura, semelhante à que existia em Espanha ou Itália. Os principais jornais, como destaque para o Diário de Notícias e O Século de João Pereira Rosa, envolvido numa tentativa de golpe de estado em 1925, que defendia abertamente esta solução. A Ditadura era desde 1919 também defendida pelos monárquicos vendo nela a possibilidade de um retorno à monarquia. A igreja católica e os monárquicos em guerra aberta com a Republica mitificavam a ditadura de Sidónio Pais. Nas palavras de João de Castro foi um enviado de Deus:

“Era o arcanjo libertador. Quando ele ajoelhava diante Deus nas Igrejas a multidão inteira caia de bruços a ouvir a conversa de Deus com Portugal por intermédio do seu filho amado”, in “Discursos e Alocuções de Sidónio Pais. Um ano de Ditadura”, 1924.

Discursos similares alimentavam uma profusa literatura reacionária que apelava à emergência de um novo Ditador. Um grande número de intelectuais estavam igualmente fascinados com o ideário "enérgico" dos fascistas italianos.

Depois de 1922 o fascismo italiano passou a ser defendido como uma solução para a instabilidade da Republica. Multiplicaram-se os artigos de divulgação sobre o fascismo, a figura de Mussolini e uma Ditadura Militar que estaria a ser preparada. O contexto internacional em 1926 era igualmente favorável à implantação de ditaduras. Por toda a Europa assistia-se à ascensão de regimes autoritários, ao esmagamento das "forças democráticas” (55).

A imprensa libertária procura contrariar uma onda que muitos começavam a pensar ser imparável (56). O Despertar, orgão das Juventudes Sindicalistas, em 1923, escrevia: “Perigo a esconjurar: O Fascismo em Portugal. Trama-se na sombra o aniquilamento das organizações revolucionárias e a eliminação dos seus militantes impõem-se a resistência” (nº22, 21/07/1923). Foram muitas as advertências e as iniciativas contra esta vaga. Em 1926, por exemplo, a revista Renovação (nº13, 1/01/1926) interroga-se sobre “Que é o fascismo ?”. Em Abril era organizada “A Semana Anti-Fascista”, no salão da Construção Civil na Calçada do Combro (Renovação, 19, 1/04/1926).

Após o golpe militar de 28 de maio, o republicano Agostinho de Campos, passava em revista as ditaduras e regimes autoritários que existiam na Europa e concluía que o golpe era um ajustamento do país ao panorama internacional. Por isso a sua aceitação foi “o mais geral e unânime que se tem visto”, não tendo sido sequer necessário “desengatilhar uma espingarda” (Crónica da Quinzena, Revista Ilustração, nº13, 1/07/1926).

Os comunistas sob a liderança de José Carlos Rates, secretário-geral do PCP, deram um importante contributo para a instauração de uma ditadura em Portugal. Para além dos atentados da Legião Vermelha que deu contínuos pretextos para uma brutal repressão policial e da forma sistemática procurou enfraquecer a CGT, dois outros contributos devem ser retidos: a aliança com “partidos golpistas” que pretendiam derrubar a Republica e os ataque à “liberdade e democracia burguesa” defendidos pelos anarquistas.

Carlos Rates antes e depois do seu regresso da URSS (verão de 1924) envolve o PCP com dois dos partidos golpistas que emergiram da Noite Sangrenta (19 de outubro de 1921): o Partido Republicano Radical (PRR) e o Esquerda Democrática (ED) de José Domingos dos Santos.

Entre os dois partidos as preferências do PCP centram-se no PRR, dada a sua maior influência nos militares da guarnição de Lisboa. A mudança de governo, como vimos, fazia-se preferencialmente através de golpes militares. Os socialistas são mais esclarecedores, e denunciam que em 1923 no Centro Republicano Radical, na Av. Saraiva de Carvalho, no Porto, o que ali abundava eram bombas, espingardas e outro material de guerra (República Social, nº89, 16/09/1923). A explosão que ali ocorreu morreram três militantes do PRR tendo sido outros presos ( 60 ).

Neste ano ocorre o primeiro golpe do PRR em que o PCP esteve se envolvido, mas foi logo abortado (cfr. Republica Social, nº92, 7/10/1923). Nas tentativas que se seguiram em 1924, Abril de 1925 e em Fevereiro de 1926, o PCP em parceria com o PRR foi formando com outras forças politicas uma ampla frente para derrubar a República (56). Várias datas foram inclusive anunciadas publicamente para o desfecho fatal.

O jornal A República Radical nº.1(28/11/1924) editado no Barreiro definiu o perfil do homem necessário para liderar o golpe fatal à democracia: uma mistura menos sofrida de Lenine com Mussolini, um ditador-salvador. Um ano depois, o jornal A Republica Radical, nº5, (1/11/1925) informava orgulhosamente os seus leitores da adesão ao PRR do general Gomes da Costa que alguns meses depois instaurava a ditadura militar em Portugal.

Em fins de 1925 Carlos Rates estava insatisfeito com a participação do PCP nas alianças com os golpistas, e decide aproveitar os seus contactos e influência pessoal para acelerar o fim da República. Nas eleições de Novembro de 1925, Carlos Rates e mais sete membros do PCP integram a lista de candidatos da Esquerda Democrática. A magra votação que obtém, obriga Carlos Rates a uma nova mudança. Torna-se jornalista n´O Século de João Pereira da Rosa, um dos principais conspiradores contra a democracia. Instaurada e consolidada a Ditadura, José Carlos Rates, vem a público em Julho de 1931 enaltecer Salazar e a Ditadura, afirmando que havia aderido à União Nacional (Diário da Manhã, 16/7/1931), deixando duas recomendações aos ditadores: preservem a autonomia sindical e defendam o municipalismo. Ironia?

Na propaganda comunista só haviam duas alternativas: o fascismo ou o comunismo. O regime democrático era uma ilusão. O PCP a partir de 1923 lançou um ataque contra a “Liberdade Burguesa” e a Democracia que considerava desacreditada. À Democracia só restava os “sindicalistas da Calçada do Combro a defender-lhes os sagrados princípios” (O Comunista, nº8, 20/12/1923). Estes ataques levam à saída de Lima de Carvalho do PCP. O jornal aproveita para anunciar aos menos avisados que “A Internacional Comunista não se constituiu para ressuscitar a defunta “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” (O Comunista, nº10, 12/01/1924). Os direitos fundamentais dos seres humanos são desta forma negados. Os fascistas e depois os nazis assumiam a mesma posição.

Reacção

Quando ocorre o Golpe Militar, o debate entre os anarquistas centra-se entre um resposta imediata (Greve Geral) ou uma resposta mais demorada e ampla que pudesse agregar outras forças. A Ditadura não esperou e começou de imediato a repressão e sucederam-se as prisões e deportações para as antigas colónias. Alberto Moniz da Silva foi desterrado em 1926 para Angola e Amilcar Ferreira Dias (1878-1943) para a Guiné. José Marques da Costa em Fevereiro de deste ano é preso acusado de pertencer à "Legião Vermelha" e é também desterrado para a Guiné, onde consegue fugir em 1928 para Dakar, daqui para França, onde participa no apoio e organização do exilados anarquistas de Portugal.

A primeira grande ação contra a Ditadura ocorreu em 1927, a 3 de Fevereiro no Porto e a 7 em Lisboa, na qual os anarquistas participaram ativamente. Na sequência desta revolta a CGT e todos os organismos federativos sindicais foram proibidos, A Batalha suspensa e as suas instalações na Calçada do Combro destruídas. As Juventudes Sindicalistas desaparecem na vaga de prisões. Quase todos os membros do comité confederal foram presos.

A 14 de Abril de 1927 segue para Timor uma leva de deportados, muitos dos quais acusados de pertencerem à Legião Vermelha e que haviam sido presos em 1925 mas não só. Entre os deportados anarquistas contavam-se Manuel Viegas Carrascalão (tipógrafo, secretário-geral das Juventudes sindicalistas), preso em 1925 e condenado 6 anos de prisão, Alfredo Pereira Vaz (empregado municipal), Álvaro Damas (metalúrgico), António da Conceição Pereira (operário da construção civil), Arsénio José Filipe (pintor da construção civil, já havia sido deportado para a Guiné e Timor), João Filipe (pintor da construção civil, irmão do anterior), Domingos Paiva (metalúrgico), Francisco Ureña Prieto (espanhol, preso na Madeira), Ilário Gonçalves, José Castelo, João Maria Major, Manuel dos Santos Quintas, Amândio Pinto.

No dia 15 de Novembro Mário Castelhano, Manuel Henriques Rijo, Domingos Lopes Bibi, os irmãos Marques Pereira (Armando e Alfredo) são deportados para Angola, onde irão encontrar Francisco Quintal, Álvaro da Costa Ramos, Arnaldo Simões Januário, António Inácio Martins (1901-1965). Aproveitam a ocasião para desenvolverem uma ativa propaganda neste território colonial.

As prisões em Portugal, como o Aljube, encheram-se de presos anarquistas como José Viegas Samurrinho, Raul Elias Adão, Manuel da Cunha Estrela, Adolfo Lima, César Porto, António Alves Pereira, Emídio Santana, Faustino Bretes, etc.

A vaga de prisões a 26 de Fevereiro de 1928 foi particularmente devastadora. José Agostinho das Neves por andar a distribuir propaganda é preso em 1928 e deportado para a Guiné (Maio de 1929), onde conseguiu fugir para o Senegal, em 1935 já estava em Espanha quando foi expulso para França.

Depois dos sangrentos acontecimentos do 7 de Fevereiro de 1927, os anarquistas percebem que não estão perante mais uma curta ditadura como a de Pimenta de Castro (1915) ou a de Sidónio Pais (1918-1919). Grande parte do exército estava apostado numa Ditadura semelhante às que se estavam a espalhar pela Europa, tendo como referência a de Mussolini em Itália e a do general Primo de Rivera em Espanha (1923-1930). Uma vez mais os anarquistas aliam-se a republicanos em Portugal ou no exílio para defenderem a liberdade e a República. Não era uma posição fácil de aceitar. Perante a brutal repressão que se abateu sobre o movimento alguns intelectuais e artistas afastam-se, como foi o caso de Stuart de Carvalhais.

Reorganização

A UPA depois do seguir do 7 de Fevereiro ficou desarticulada. Em 1928 só restavam em liberdade Carlos Teixeira da Silva e Adriano Botelho que contaram com o apoio de António Rodrigues dos Santos. A vaga assassinatos e prisões que se sucedem leva que muitos anarquistas fujam para França.

Em Portugal para apoiar presos é criada a Federação Portuguesa de Solidariedade com os Presos e Perseguidos Políticos, cuja sede era na Calçada do Combro, 38, 2º. andar. Esta e outras organizações libertárias angariavam dinheiro para pagarem a advogados, multas e outras despesas com os camaradas presos, socorro das suas famílias, campanhas de denúncia, edições, etc. Alguns militantes em Portugal destacaram-se no apoio direto aos presos. Em França, como veremos, será criada em 1930 a Federação Anarquista dos Portugueses Exilados (FAPE)

Os períodos de abrandamento da repressão policial são rapidamente aproveitados para o lançamento de jornais e outras publicações, com o aviso: “visado pela comissão de censura”. No Porto, apesar da censura conseguem publicar O Germinal (quizenário, 1929) (46), a revista Aurora (1929-1930)(47), a Vanguarda Operária (1929-1930)(48) e Campos Lima a revista A Cultura (51). Em Coimbra edita-se “Igualdade” (1928-1929)(54). No Barreiro surge o jornal a Terra e Liberdade (1930-1931) (49). Em Lisboa aparece A Batalha, como orgão da “Comissão Inter-Confederal”, numa edição semanal de 13/09/1930 a 6/12/1930 (13 números).

Aproveitando o facto da edição de livros não terem censura prévia criam duas editoras: Edições do Pensamento Acrata, numa iniciativa de Álvaro da Costa Ramos e Emídio Santana, onde saíram de Adriano Botelho A Conquista do Poder (1932), de Max Netlau Cooperação entre Sindicalismo e o Anarquismo, e de Mário Castelhano, Os Organismo de Transporte na Revolução Social (1932). Editorial O Argonauta, numa iniciativa de vários sindicatos editou a importante obra de Pierre Besnard- Os Sindicatos Operários e a Revolução Social (1931). Outras obras relevantes editadas neste contexto: Emílio Costa: Karl Marx (1930), Sindicalismo Independente (1931), Jean-Jaurés (1931); Manuel Joaquim de Sousa: O Sindicalismo em Portugal (1931);

A repressão acabava por cair sobre os autores e distribuidores: Gonçalves Correia quando reedita em 1931 "A Felicidade de todos os seres na Sociedade Futura", texto apresentado na Conferência no V Congresso dos Trabalhadores Rurais (1922) é preso em 1932. A Polícia política considera-o um perigoso revolucionário em todo o Alentejo.

No início dos trinta os anarquistas reorganizam-se e preparam-se para novos combates contra a Ditadura. Em 1931 cria-se a Aliança Libertária Portuguesa (ALP), que se desdobrava em várias Alianças regionais. A maior de todas era a Aliança Libertária de Lisboa, com sede na Travessa Água da Flor onde tiveram papel destacado Francisco Melo Ramos, Manuel Joaquim de Sousa, António Albuquerque, António Costa e Bernardino Dias, Emidio Santana, Manuel Joaquim e Germinal de Sousa e muitos outros. Foi lançado o jornal A Aliança Libertária de Lisboa, mas a repressão não tardou atrasando a saída do nº.2 (novembro de 1931 ) como dá conta o editorial. Neste ano foi enviado um delegado ao Congresso da FAI a Madrid.

A ALP apoiava a CGT. Na greve que a CGT declara a 12 de Outubro de 1932 nas Minas de São Domingos foi a mesma conduzida pela Aliança Libertária Alentejana, apoiada pelo Grupo anarquista de Mértola e pelo sindicato dos trabalhadores rurais desta localidade. Nestas localidades é de destacar a ação de José Vaz Rodrigues, Francisco Mestre Valadas Ramos Junior, Valentim Adolfo João, Florival Graça, Francisco Ximenes, António Moura (espanhol), Adolfo Valentim João (1902-1970, presidente do sindicato dos mineiros) e outros. Uma ação que se prolongou até meados de Dezembro.

A ALP em 1932 transformou-se na Federação Anarquista da Região Portuguesa (FARP) passando a integrar a Federação Anarquista Ibérica (FAI). Os anarquistas em Portugal procuravam unir forças para derrubar a Ditadura, contando com o apoio da FAI e da CNT, possibilitando-lhes criar uma retaguarda em Espanha. O que se revelou uma continua desilusão. Em Dezembro de 1935 era publicado o Boletim Acrata da FAI-FARP.

Em meados de 1932 funda-se as Juventudes Libertárias- Região Portuguesa, integrada na Federación Ibérica de Juventudes Libertárias (FIJL). Apesar das sucessivas prisões dos seus membros, como veremos, mantém-se bastante ativos até aos anos cinquenta. O Jovem Anarquista, era então o porta-voz das JL -Região Portuguesa, cujo nº.1 saiu em Novembro de 1934 e o nº. 3 em janeiro de 1935.

FAPE

A seguir à revolta de Fevereiro de 1927, como dissemos, sucedeu-se uma enorme vaga de prisões o que levou muitos anarquistas a exilarem-se, nomeadamente em França (Leal da Câmara, Vasco da Fonseca, Jaime Brasil, Agostinho das Neves, etc)

Em New Bedford (EUA) o grupo de anarquistas ali existente publica A Luta, um “jornal de combate às religiões” (52) e no jornal Terra e Liberdade editado no Barreiro (nº´3, Outubro de 1930), inicia uma crónica de longe, assinada por M. Martins..

Em Paris organizam em 1930 a FAPE (Federação Anarquista Portuguesa Exilada) sob a coordenação José Marques da Costa. Foram estabelecidas ligações com núcleos de anarquistas portugueses exilados em Espanha, Argentina, Brasil, EUA, deportados em África e Timor. Em 1931 desenvolve uma campanha internacional para evitar a extradição de Espanha para Portugal de três anarquistas italianos - Giuseppe Volunté, Giovanni Bidoli e Cesare Cuffini. Não conseguiu impedir e os mesmos acabaram às mãos de Mussolini.

Depois da implantação da República em Espanha (1931) criaram-se condições para a instalação da FAPE neste país, o que veio a acontecer quando Marques da Costa é expulso de França, em 1932, por estar envolvido no movimento sindical. Em Espanha são constituidos núcleos de exilados para além de Madrid, em Barcelona, Valência, Sevilha e Vigo. Começa a publicar-se o jornal A Rebelião (1ª. serie, 1932), porta-voz da FAPE.

A Espanha foi o país que pela sua proximidade se refugiaram muitos anarquistas como Manuel Gomes de Matos, Adriano Pimenta (corticeiro do Barreiro), Jaime Rebelo (maritimo de Setubal), Manuel António Boto (ferroviário, Barreiro), Manuel Firmo, Roberto das Neves (1931) e José Rodrigues Reboredo (pasteleiro, 1891-1952) que deu uma vida nova ao núcleo de Vigo (1932-1933). Na Argentina formou-se em 1933 um grupo anarquista português que editou o jornal A Ação Anarquista. José Lopes Soares que havido sido deportado para Timor, em 1933 é transferido para Moçambique onde organiza um núcleo da FAPE. Após regressar a Portugal, ajudou a reorganizar a FARP depois da greve geral do 18 de Janeiro de 1934 (18).

Ligações Internacionais. A Ditadura do general Primo Rivera em Espanha (1923-1930) e a Ditadura Militar em Portugal (1926-1933) exigiu um reforço do entendimento dos anarquistas nos dois países. Em maio de 1926 ocorreu entre eles um encontro em Marselha (França) onde foi aprovado uma Federação Anarquista Ibérica, ficando sediado em Lisboa o comité constitutivo. A revolta de Fevereiro de 1927 e as prisões que se seguiram impossibilitaram a ação do comité. No dia 24 e 25 de Junho deste ano, organizou-se em Valência, o Congresso fundacional da Federação Anarquista Ibérica (FAI), onde estiveram presentes Germinal de Sousa e Francisco Quintal da UAP, cuja participação foi muito discreta. Em Portugal pouco ou nada se avançou com a ideia. Na conferência da FAI, em Junho de 1931, fica evidente que a FAI era uma organização espanhola. Não prestando o apoio que dela esperavam os anarquistas portugueses. Maior apoio obtinham da rede de exilados em França e Espanha. A constituição da FARP, em 1932, pouco melhorou a situação. No Congresso da CNT em maio de 1936, a CGT fez-se representar em Saragoça através de Emídio Santana.

Os contactos com os anarquistas espanhóis e as crescentes adesões que à CNT gera entre os militantes em Portugal a convicção de uma possível Revolução Social em Espanha..

Este reforço dos contactos com os anarquistas espanhóis levam os portugueses a acreditarem que a Revolução Social dar-se-ía em Espanha.

Prossegue a Resistência. A luta contra a miséria e a ditadura não abrandou. A CGT estava desde 1927 na clandestinidade e tinha grande número dos seus militantes presos e deportados. Reagindo contra as manobras do PCP para destruir a CGT , em 1930 é criada uma Comissão Inter-federal de Defesa dos Trabalhadores (Vanguarda Operária, nº43, 20/07/1930) e inicia-se a publicação A Batalha (50), mas não durou muito tempo até ser de novo proibida. A custo a imprensa operária ligada à CGT vai procurando furar o cerco policial de que são exemplo a edição de publicações como o Argonauta, orgão do Sindicato dos Marinheiros Mercantes; Solidariedade Mineira e Metalúrgica, dirigido por Emídio Santana (Dezembro de 1931 - Maio de 1933), etc

A luta contra a miséria e a ditadura não abrandou. A CGT estava desde 1927 na clandestinidade e tinha grande número dos seus militantes presos e deportados. Reagindo contra as manobras do PCP para destruir a CGT , em 1930 é criada uma Comissão Inter-federal de Defesa dos Trabalhadores (Vanguarda Operária, nº43, 20/07/1930) e inicia-se a publicação A Batalha, mas não durou muito tempo até ser de novo proibida.

A luta contra a Ditadura prosseguiuEm Setembro de 1930 os padeiros e distribuidores de pão de Lisboa entraram em greve, na sequência da qual foram presos os dirigentes e delegados do Sindicato dos Manipuladores de Pão (anarquista). O impacto desta greve foi enorme.

O ano de 1931 é de revolta generalizada no continente, Açores, Madeira e na Guiné. Em Setúbal declara-se uma greve de pescadores que durou 92 dias. Entre os anarquistas que lideram a greve e foram presos destacaram-se Jaime Rebelo (1890-1975), Luis Branco ou João Atanásio (deportado para Cabo Verde).

A Ditadura procurava dispersar os deportados por Portugal e colónias de modo a isolá-los, o que nem sempre consegue. Em Agosto de 1930, um grupo de deportados em Angola tentou organizar uma revolta, levando a que a Ditadura retirasse todos os deportados polticos deste território. Nas várias mudanças para isolar os presos politicos, um grupo quinze anarquistas deportados acabam por serem transferidos para a Ilha do Pico nos Açores, para depois serem levados para Cabo Verde: Castelhano, Rijo, Bibi, Domingos da Silva, Anibal Dantas (1897-1963), Fernando Barros e a sua esposa Margarida Barros, Manuel Portules Saraiva, Sebastião José Valoroso, Miguel da Silva, António Carvalho, Manuel João, Raul de Sousa, Anastácio Ramos, José da Silva, António Nunes e José Júlio Ferreira.

Quando o barco que os transportava para Cabo Verde chega à Madeira, o paquete "Carvalho Araújo", dá-se a eclosão da Revolta da Madeira (4 de Abril a 2 de Maio de 1931), chefiada por general Sousa Dias (4). De imediato os anarquistas deportados com outros locais apoiam a revolta contra a Ditadura. Castelhano assume então a direção do jornal A Batalha do Funchal. Este jornal em tudo idêntico ao orgão da CGT, publicou-se entre 8 de Maio de 1926 e meados de 1935, e desde o inicio que apoiava o golpe militar contra a Ditadura (3). O movimento contou com ações de solidariedade, dirigidas por deportados nos Açores (São Miguel e Terceira) e a que se juntou uma revolta na Guiné. Muitas outras ações se seguiram, como o movimento armado de 26 de Agosto, na sequência do qual José Severino Melo Bandeira é preso e deportado para Timor. Fracassada mais esta revolta, das formas mais diversas fogem para o Continente. Fernando Barros e Anastácio Ramos sequestram um vapor e obrigam a tripulação a trazê-los para o continente, onde conseguem fugir para Espanha, fixando-se em Barcelona, integrando-se na CNT. Castelhano e outros na ficam clandestinos em Portugal, onde prosseguem a luta.

Estas ações na Madeira foram secundadas por manifestações de revolta dos estudantes universitários de Lisboa que solicitaram o apoio da CGT que lhes foi dado, seguindo-se numerosas prisões. Roberto das Neves foi ferido a tiro pela polícia. O jornal comunista O Militante relatou a reunião dos estudantes com a CGT dando desta forma informações à polícia para apanhar anarquistas. Emídio Santana foi um dos presos na altura, tendo sido confrontado com a informação divulgada pelo jornal do PCP.

Prisões e Deportações

Os anarquistas desde 1896 que eram deportados para prisões nas antigas colónias portuguesas como Timor (Campo de Okussi), Guiné, Angola ou Moçambique. Nada mudou durante a Iª. República, nem na Ditadura. As prisões da Madeira, Açores (Angra do Heroismo, Forte de São João Baptista), Aljube, Peniche, Limoeiro, Penitenciária de Lisboa ou de Coimbra e outras estiveram quase sempre ocupadas com anarquistas presos.

Em 1931 seguiu para Timor mais duas levas de presos. Entre eles contavam-se os anarquistas José Gordinho (corticeiro); João Maria Major (padeiro); Joaquim da Silva (trabalhador da industria conserveira) morreu em Timor; Raul Pereira dos Santos, José Lopes, Manuel Quintas, César de Castro (serralheiro), Amândio Pinto, Melo Bandeira, Arnaldo Simões Januário, que clandestinamente edita um boletim da Aliança Libertária. Descoberto o boletim, vários anarquistas foram condenados a trabalhos forçados. A amnistia decretada em 1932 não se aplicava aos que a Ditadura considerava "mais perigosos", uma centena. Os anarquistas conseguem publicar na imprensa internacional noticias prisões, deportações e lutas dos trabalhadores em Portugal (44).

Em 1932 prosseguem as prisões: Abílio Augusto Belchior (1898-1937), acusado de um atentado bombista neste ano, acaba em 1936 no Tarrafal, onde faleceu no ano seguinte. Luís Joaquim Portela foi preso na mesma altura, condenado a 14 anos de degredo foi deportado para os Açores, seguiu-se Peniche onde conseguiu fugir, para o Brasil. Luis Fernandes Laranjeira é preso em Dezembro e deportado para os Açores; António Inácio Martins é novamente preso desta vez no Forte de Peniche até 1934; António Pimentel é preso em 1932 e depois em 1933; Manuel da Cunha Estrela preso em Peniche.

Entre as muitas revoadas de prisões a que ocorreu em meados de 1933 foi particularmente devastadora. Em Janeiro no Bairro de Alcântara numerosos anarquistas são presos. Seguiram-se prisões por todo o país. Entre os muitos anarquistas presos contavam-se José Augusto de Castro (deportado para os Açores); Zacarias de Lima (1901-1967) veio do Porto para a Penitenciária de Lisboa, e ainda em 1938 aguardava julgamento; Francisco Melo Ramos (16 de Maio), José Vaz Rodrigues (militante anarquista das Minas de São Domingos, Mértola). Da Aliança Libertária do Barreiro foram presos entre outros Alfredo José da Costa, José António Machado, Manuel Cardoso, Fernando Pedro Cândido, Manuel Ramos Billot. A 21 de Agosto em Lisboa, por exemplo, foram presos na Travessa da Água da Flor, 16, 1º., entre outros Jaime de Oliveira e Castro, Homero de Vírgilio de Azevedo Freitas Sampaio, Francisco Cunha Vicente, José Augusto de Castro e Germinal de Sousa. Dois dias depois foi preso Manuel Joaquim de Sousa (secretário-geral da CGT desde Julho de 1931).

Comunistas e Socialistas

Para os comunistas e socialistas os anarquistas eram o alvo a abater. A frente única que havia construído em 1923 não tardou a desfazer-se, motivando mútuas acusações de traição e vingança. Os Socialistas estão descredibilizados e inoperantes. Os comunistas reduzidos a um bando de sectários, apostados em ações violentas. Acusavam os anarquistas de fazerem o jogo da burguesia ao denunciarem o regime tirânico que se havia instalado na Rússia e os crimes praticados na Ucrânia. Os anarquista respondem na revista Aurora que nada os demoveria da denuncia da tirania onde a mesma existisse. O II Congresso do PCP (Maio de 1926) confirma esta orientação sectária provocando uma debandada de militantes. Num relatório enviado em 1928 à IC afirmaram que estavam reduzidos a 70 militantes, 50 em Lisboa e 20 no Porto. A principal célula era a do Arsenal da Marinha. Congresso do PCP em 1929, com o apoio da União Soviética, conduziu à reorganização do partido e criação de um corpo de funcionários, cuja ação de propaganda se revelou mais eficaz. Vários anarquistas seduzidos por esta mudança aderiram ao PCP.

As dificuldades de coordenação do movimento sindical pela CGT depois de 1927 são aproveitadas pelo PCP para promover a criação de uma nova central sindical (Vanguarda Operária, 34,15/05/1930 e nº37, 5/06/1030). Desencadeou uma intensa campanha de difamações e manobras interior dos sindicatos.

Estes ataques do PCP obedeciam a orientações aprovadas no IIIª. Congresso da Internacional Comunista, a conhecida linha política de “Classe Contra Classe” (1928). O Proletário, orgão do PCP centrou-se em ataques pessoais contra elementos da CGT, sobretudo Manuel José de Sousa rotulado de “Anarco-Fascista”. Apregoou adesões que nunca existiram (Vanguarda Operária, nº42, 13/07/1930). Combatendo os desvios à linha traçada, o Avante (nº5, junho de 1931) relembrava de forma sintética o significado da mesma, escrevendo que não era tolerada “a mais insignificante colaboração com qualquer outro partido político, o que daria lugar a um degenerescência dos seus princípios puramente classistas e revolucionárias”. O resultado foi o aumento exponencial de ataques pessoais, purgas internas, conflitos nos sindicatos, delações na policia para desmascarar o falsos revolucionários.

Estando a CGT ilegalizada, numa reunião dos sindicatos de Lisboa, a 19 de Setembro de 1930, na sede da Associação de Classe dos Descarregadores do Porto de Lisboa, avançaram finalmente para a criação de uma Comissão Intersindical de Lisboa (ISL), tendo como secretário-geral um antigo anarquista (José de Sousa).

O PSP logo após o golpe militar de 28 de maio de 1926 rompe a frente com o PCP, acusando este partido de estar a fazer o recrutamento dos seus militantes para os colocar ao serviço da Rússia, usando de expedientes como os peditórios a favor do Socorro Vermelho (República Social, nº245, 2/10/1926). Uma manobra que a própria CGT, anos depois, também denunciou (60).

O PSP que fora poupado na repressão entre 1927 e 1929, aproveitou este período para atacar e denunciar os anarquistas e comunistas à policia. O Proletário e a República Social (orgão do PSP) trocam acusações e prosseguem as delações. Face à iniciativa dos comunistas, o PSP avança no Porto, em 1929, para a criação da Federação das Associações Operárias (FAO), inicialmente com apenas três associações (manipuladores de tabaco, artes metalúrgicas e ofícios de ourives). O Germinal (nº3, 209/11/1929) escrevia que havia caído a máscara aos socialistas. Uma vez que não tinham conseguido “empalmar” a CGT através do “canto das sereias” da Frente Única, avançavam agora para a criação da FAO.

Em 1930 tenta formar a Federação Operária de Lisboa (República Social, nº458, 20/12/1930), mostrando-se de imediato pronto a colaborar com a Ditadura Militar nas questões laborais.

O PSP continuou continuou a denunciar os comunistas, nomeadamente das suas manobras para desagregar a CGT: fraudes cometidas, delações, agressões, insultos, etc. Publicita igualmente as sucessivas purgas internas de militantes acusados de serem fascistas (República Social, nº.471, 21/03/1931). Faz queixas à policia do roubo de fundos dos sindicatos por parte de membros do PCP (República Social, nº519, 20/02/1932). Em detalhadas notícias sobre as acções dos comunistas fornece à Polícia Política nomes de militantes deste partido, mas também de anarquistas.

Os resultados destas lutas e vinganças foi o enfraquecimento do movimento operário na resistência à Ditadura.

A experiência para muitos anarquistas na Intersindical e outras organizações comunistas revelavam-se frequentemente uma desilusão. Eurico Pinto Mateus, por exemplo, depois de estar no conselho da Intersindical abandona-a e retornou ao campo anarquista. José de Sousa acabará em 1939 por abandonar o PCP

A Intersindical era uma correia de transmissão do PCP procurando afirmar-se no meio sindical através de reivindicações e ações pontuais. Em 1932, decretou para o dia 29 de Fevereiro de 1932, uma Greve Geral contra a imposição do governo de um desconto de 2% no salário dos trabalhadores para a criação de um fundo de desemprego. Apesar da propaganda nada aconteceu nesse dia, nem sequer nos locais onde se dizia o PCP tinha forte implantação. Apesar disto, a "Greve Geral" foi apregoada na XII Reunião Plenária da Internacional Comunista por José de Sousa como uma grandiosa ação revolucionária que nunca existiu. Apesar de possuir um corpo de funcionários ao seu serviço, o PCP continuava a não ter uma efectiva implantação no operariado.

A CGT, por sua vez, em Maio de 1932 promoveu um protesto nacional reclamando a abolição de 2% sobre os salários. Em muitas empresas houve paralisações, nomeadamente na Carris e nas Minas de S. Domingos. Entre os anarquistas preso regista-se António Teixeira de Araújo (1888-1964). Nas comemorações do 1º. de maio de 1933 as Minas de São Domingos voltaram a paralisar. A prisão de anarquistas prolongaram-se por vários meses..

Fascização dos Sindicatos

Quando a Ditadura passou a ser dirigida por Salazar (5/07/1932) começou a construção do então chamado "Estado Novo": uma nova Constituição (plebiscito em Abril de 1933), reorganização da polícia política (PVDE), o Secretariado de Propaganda (SPN) e uma vasta estrutura corporativa, de que faziam parte os novos "sindicatos nacionais únicos" controlados pelo governo. As associações operárias foram proibidas (1933). Constituiram-se também poderosos grémios do patronato. O Partido Socialista auto-dissolveu-se, tendo feito um elogio aos novos “sindicatos nacionais”. Abreu Vieira, num artigo com este título, revela a adesão total dos socialistas às formulas corporativistas e a toda a orgânica corporativa (O Protesto, nº561, 26/03/1934). Era o culminar de anos de delação na imprensa socialista. Os comunistas desistem da Intersindical e resolvem militar nos sindicatos corporativos. Os anarquistas procuram manter clandestinamente os antigos sindicatos e a CGT.

A maioria dos sindicatos preferiu a dissolução à subordinação ao Estado. Proclamou-se que a quotização seria facultativa, mas rapidamente se impôs a obrigatoriedade, sendo a mesma descontada nas férias (28). A policia não tardou a assaltar os sindicatos que suspeitava haver resistência, apropriou-se de bens, incluindo contas bancárias. António Soares (1908-1955) e Júlio de Campos do Sindicato dos Chapeleiros do Porto são presos e barbaramente espancados quando procuravam retirar do sindicato o que só aos trabalhadores pertencia.

A CGT preparou-se para dar uma resposta ao fim do sindicalismo livre e independente em Portugal, procurando unir nesta resposta todas forças antifascistas possiveis. O Conselho Confederal incumbe o Secretariado de lançar as bases de uma greve geral. Era constituído na altura por Mário Castelhano, Manuel Henriques Rijo e José Francisco.

O PCP após o fracasso das suas ações de protesto durante o 1º. de maio de 1933 veio também propor á CGT uma reunião para criar um frente comum antifascista. A reunião ocorreu a 24 de Junho de 1933 no Sindicato do Pessoal do Depósito do Arsenal do Exército. Seguindo a habitual prática, os comunistas embora fossem minoritários, trataram de manobrar a reunião tendo em vista ocuparem a maioria dos cargos num Comité de Unidade Sindical Antifascista. Face a esta situação os delegados da CGT abandonaram a reunião, assim como os sindicatos autónomos. Ao ficarem isolados, os comunistas acabaram por recuar.

A CGT em Julho de 1933 incumbe Rijo de formar um Comité de Ação, formado por Acácio Tomaz Aquino, Custódio da Costa e Serafim Rodrigues. Muitos outros anarquistas colaboraram ativamente com este comité como Jorge Mateus, António Conrado, Manuel Augusto da Costa, Bernardino Xavier, Soares Lopes, Tarcísio de Sousa, Alvaro da Costa Ramos, Eurico Pinto Mateus, João Serra, Joaquim Montes, Manuel Vilanova / Manuel Rodriguez Vilanueva (padeiro de nacionalidade espanhola), Romão dos Santos Duarte e outros.

O Secretariado fica com o trabalho de organização e propaganda. Mário Castelhano estabeleceu as cifras e códigos. Por todo o país foram sendo criadas comités regionais e eleitos os coordenadores.

Foram convidados a colaborar os sindicatos autónomos (COSA), socialistas (Federação das Associações Operárias - FAO) e comunistas (Intersindical), a que se associou um grupo de republicanos que preparavam mais uma ação armada. Desta forma surgiu uma Frente Única Antifascista. O PCP mostrou-se dividido entre José de Sousa e Bento Gonçalves, e por não terem meios limitou-se a organizar comités locais onde tinham alguns militantes.

As fugas de informação para a policia durante a preparação da greve geral foram constantes, assim como as prisões. Em Novembro de 1933 uma vaga de prisões afastou os republicanos. A 11 de Novembro foi preso Acácio Tomás Aquino e a 16 do mesmo mês José Francisco (16). Mário Castelhano substitui Acácio e fica com as ligações em código. A 14 de Janeiro de 1934 era preso, por denúncia Mário Castelhano. A custo estes e outros anarquistas que íam sendo presos eram substituídos por novos elementos.

Depois de vários adiamentos a greve geral foi marcada para o dia 18 de Janeiro de 1934. A Policia estava informada da preparação da greve geral, só desconhecia o dia e a sua possivel dimensão. Na noite do dia 17, na Estrada de Chelas deflagra uma bomba, lançada pelo comunista José Ribeiro, a policia e os militares montam um rápido cerco à cidade de Lisboa e iniciam as prisões (17).

Apesar desta traição a Greve Geral acaba por acontecer, tendo-se registado ações de grande impacto em muitos pontos do país: Lisboa, Coimbra, Leiria, Barreiro, Almada, Martingança, Silves, Vila Boim (Elvas), Algoz-Tunes-Funcheira, Marinha Grande e outros pontos. Os historiadores ligados ao PCP tem procurado reduzida aos acontecimentos à Marinha Grande, de modo a salientar a participação de um funcionário do partido, e proclamar o "fim dos anarquismo". Em Silves, por exemplo, a greve prolongou-se até ao dia 22, tendo sido presos 35 operários corticeiros, 23 dos quais eram anarquistas. O PCP através do jornal O Proletário apressou-se a atacar a CGT, reclamando os “louros” dos acontecimentos na Marinha Grande, onde participara um dos seus funcionários. O que foi prontamente desmentido pela Batalha (Nº3, Junho de 1935) que aproveitou para denunciar outras manobras comunistas (60 ).

Após a greve a CGT não tarda a apelar aos trabalhadores para não desarmem. O Comité de Relações Sindicais de Almada, em Novembro de 1934, num comunicado apela à formação de sindicatos clandestinos. O mesmo apelo foi dirigindo em Dezembro aos trabalhadores de Torres Vedras. O Grupo Sindicalista O Provir manifesta-se através de um panfleto apoiante do Sindicalismo Revolucionário. Estes são alguns dos sinais de organização clandestina que se reorganizava na luta contra a Ditadura.

Nova Vaga de Prisões.

Na sequência da revoltado 18 de Janeiro de 1934 seguiu-se uma vaga de prisões sobretudo de anarquistas ou simpatizantes. Prisões como a do Aljube, Peniche ou presidios, como o da Trafaria ficaram sobrelotadas. A Batalha (clandestina , nº. 2, maio de 1934) relatava as terríveis condições que em estavam os presos na Trafaria, o assassinato pela polícia de Manuel Vieira Tomé, operário ferroviário, na cadeia do Aljube. Noticiava igualmente a morte em Timor de Victor da Conceição para onde fora deportado. A tortura de Jorge Mateus Junior (pedreiro), na prisão do Aljube, atiram-no para o Hospital do Rego, temendo-se então pela sua vida (A Dor, nº1, junho de 1934).

Em Setembro de 1934 seguiu para a Angra do Heroísmo uma nova leva de presos, uma parte dos quais foi depois enviada para o Tarrafal.

Em Peniche onde se encontrava preso Manuel Joaquim de Sousa são encarcerados destacados militantes como José Francisco (1933-1936), Júlio da Purificação, António Augusto Quaresma, Tarcísio de Sousa (1935-36), Barnabé Fernandes (seguiu-se Angra), Sebastião de Almeida ou José S. Lopes. Em Angra do Heroismo ficou preso entre outros Jorge José Silva. José N. Buizel, professor em Portimão, devido à tortura que é vítima no calabouço 8 do Governo Civil vem a morrer algum tempo depois. Manuel Tomé sujeito às piores torturas faleceu na Cadeia do Aljube.

Alguns anarquistas conseguiram fugir, como foi o caso Adélio Gaito (-1975), corticeiro que se refugiou nos EUA.

Para o terrivel campo de concentração do Tarrafal (Cabo Verde), desde 1936 foram deportados os seguintes anarquistas: Pedro de Matos Filipe (1905-1937), morreu no Tarrafal; Mário dos Santos Castelhano (1896-1936), morreu no Tarrafal; Acácio Tomás de Aquino (1899-1998), José Correia Pires (1907-1976); Custódio da Costa; Arnaldo Simões Januário (1897-1938), morreu no Tarrafal; Alvaro da Costa Ramos; Manuel Firmo (1909-2005), Manuel Francisco Rodrigues (1902-1975); Abílio Augusto Belchior (1887-1937), morreu no Tarrafal; Manuel Henriques Rijo; José Reboredo; Joaquim Montes (1912-1943), morreu no Tarrafal; José Manuel Alves dos Reis (1894-1943), morreu no Tarrafal; Manuel Augusto da Costa (1887-1945), morreu no Tarrafal; António Enes Faro; José Ricardo do Vale; António Augusto Russo; Júlio Mascarenhas; José Severino Melo Bandeira; Abílio Guimarães; Américo Martins Vicente; João Gomes; Joaquim Pedro; José de Almeida; Carlos Pereira Ribeiro; Manuel Boto; Bernardo Casaleiro Prates; Joaquim Duarte Ferreira; Américo Fernandes; José Ventura Paixão; José Bernardo (1907-1987); Francisco Domingues Quintas (1889-1937), morreu no Tarrafal; Abílio Gonçalves (1901-2004), etc.

FAPE

As repressão que se seguiu à Greve Geral levou à fuga para Espanha de um numeroso grupo de exilados anarquistas, entre os quais se contavam Alberto Dias, Tarcíso de Sousa, Eurico Pinto Mateus e Custódio Bresce de Lima. É constituído então um novo secretariado da FAPE que passou a contar para além de Marques da Costa, com Eurico e Custódio, os quais devido às suas ações revolucionárias foram expulsos de Espanha. Em Março de 1935 o secretariado passa a ser formado por Reboredo, Correia Pires e Pedro Boaventura. Em Agosto a sede da FAPE é obrigada a transferir-se para Sevilha, ficando a coordená-la Germinal de Sousa e dois membros do grupo Humanidade Livre. Conflitos internos sobre a orientação a seguir só foram ultrapassados em Junho de 1936 quando a FAPE, tendo à sua frente Reboredo voltou a Madrid. A FAPE que tinha desempenhou um importante papel na ligação entre os exilados e na propaganda contra a ditadura em Portugal, durante a guerra civil espanhola perdeu a sua autonomia. Muitos foram os que deram o seu contributo para a sua ação como André Adam Ribas ou José Lousada. Em Madrid formaram também o Núcleo Cultural Português que editou o boletim A Voz do Núcleo, que se ramificou depois por Barcelona, Valência e na Galiza.

CGT

Depois da greve geral Manuel Henriques Rijo, Alberto da Conceição Dias, Eurico Pinto Mateus e Melo Bandeira formavam o comité confederal da CGT, mas as prisões não pararam. Rijo foi preso meses depois, obrigando a uma nova reorganização. Ainda em 1935 o comité confederal passou a ser constituído por Emídio Santana, Adriano Botelho, Joaquim Miquelino da Silva (do grupo Terra e Liberdade do Barreiro), Manuel da Silva Campos. Em fins de 1934 o movimento anarquista estava naturalmente afectado, e a sua reorganização foi mais lenta.

A tipografia que os anarquistas possuiam na Ramada foi transferida para a Rua Fidé, ao Pote de Água por José Severino Melo Bandeira e Alvaro da Costa Ramos. A Batalha voltou a ser publicada na segunda quinzena de Abril de 1934 e o 2º. número um mês depois. Aqui se imprimiram outras publicações clandestinas e tarjetas.

O jornal A Batalha voltou de novo a ser publicado, mas com a prisão a 30 de Maio de 1934 de Melo Bandeira por denuncia de um indivíduo da Covilhã, a tipografia foi apreendida(41). Foi suspensa também a publicação do jornal O Eléctrico Libertário e do Eco Metalúrgico. A CGT divulga então um panfleto de exortação aos trabalhadores para que apoiem a imprensa clandestina: Vozes Clandestinas de Portugal.

Sem uma tipografia recorre-se à publicação de boletins de que são exemplo os seguintes: "Sindicato Metalúrgico. Boletim Informativo do Sindicato Único Metalúrgico de Lisboa. nº6, Janeiro de 1935; Operário do Mobiliário. Boletim do Sindicato Único do Mobiliário, nº4. 1935 (?).

Em Março de 1935 iniciou-se a sua publicação por Joaquim Manuel da Costa, numa cave da Rua Carvalho Araújo, só sendo possivel publicar 3 números , devido ao assalto da polícia, arranjar uma nova tipografia clandestina e a sua instalação na Venda Nova, uma operação auxiliada por Carlos Cruz (42).

O Mito do Comunismo. Desde 1917, como vimos, procurava-se identificar os anarquistas como "bolchevistas", tendo como objectivo criar um regime idêntico ao que foi criado na Rússia. As noticias sobre a barbérie que aconteciam na Rússia Soviética serviam de pretexto para a repressão: havia que evitar a mesma situação em Portugal, eliminando os "bolchvistas". Um pretexto que servia inclusive para a Ditadura Militar (1926-1933) prender republicanos também eles começaram a ser acusados de "bolchevistas".

A Ditadura (Estado Novo) a partir de 1933 passou a usar o termo comunista em vez de bolchevistas, identificando todas as ações revolucionárias como greves ou protestos como "obra de comunistas". A referência aos anarquistas passou de forma mais sistemática a ser omitida na imprensa do regime. O objectivo era criar na opinião pública a ideia que os revolucionários em Portugal estavam todos ao serviço da União Soviética. Ao fazê-lo a Ditadura acabou desta forma por promover o PCP dando-lhe uma dimensão que nunca teve, um facto que muitos historiadores têm vindo a constatar. Em Janeiro de 1938, por exemplo, a polícia política apreende a tipografia clandestina que os anarquistas possuiam no forno de cal, na rua do Alvito. O jornal A Voz, assim como a Emissora Nacional, no dia 23 de Janeiro, noticiam que fora apreendida uma tipografia dos comunistas, financiada com dinheiro vindo da Rússia. Esta passou a ser a versão oficial das ações anarquistas.

Uma estratégia de propaganda que era bem acolhida em muitos países, onde o ditador Salazar era apresentado como o grande combatente do comunismo mundial. No santuário de Fátima orava-se pela conversão da Rússia. A existência de uma ditadura em Portugal tendia a ser secundarizada.

Guerra Aberta

Os acontecimentos em Espanha dão aos anarquistas em Portugal um novo animo. Apesar da feroz repressão inicia-se uma guerra aberta em várias frentes. As Juventudes Libertárias editam em maio de 1936 O Despertar, como orgão da Federação das Juventudes Libertárias da Região Portuguesa (40).

A FAI-FARP, em Abril de 1936 publica em Lisboa o nº.1 (2ª. série) de Acção Anarquista, boletim do Comité de Relações Anarquistas, o n´º. 2 sairá em Junho. O grupo Os Fieis da FARP, em Dezembro de 1937, publica "ABC do Revolucionario" e logo avisa que "Sai Quando Pode", a constante vaga de prisões exige um continuo recomeçar de todo o processo com novos elementos.

O Libertário cujo primeiro número surgiu em Maio de 1935, editado pelo grupo Terra Livre, volta a ser editado em Abril de 1937 para apelar à formação de uma "União Antifascista", reflectindo uma tendência que se afirmava no movimento libertário. O nº. 2 desta série surgiu em Agosto de 1937.

A Batalha volta de novo a ser publicada numa tipografia clandestina na Rua Lopes apoiada por Avelino (1936). Seguiu-se Terramotos e após novas prisões a tipografia foi instalada numa furna na Serra do Monsanto, à entrada da Rua Feliciano de Sousa. Nas publicações aqui impressas, como O Libertário ou O Despertar participou José António Machado. Em Setembro de 1937 surge o último número d`A Batalha na década de trinta (43). Para colmatar a ausência de um meio de comunicação entre os militantes, a CGT continuou a publicação do Boletim, cujo nº. 14 saiu em Julho de 1939 .

Ainda em 1936, surge em Abril o jornal União Sindical, Orgão da União dos Sindicatos de Lisboa da CGT. Em Junho de 1937 surge Acção Sindical, orgão dos sindicatos da Lisboa, aderentes à CGT.

Durante a Guerra Civil em Espanha (1936-1939) ao mesmo tempo que combatem a Ditadura em Portugal participam ativamente na luta armada do povo espanhol contra Franco. Estão na linha da frente no assalto ao quartel de la Montaña em Madrid, que os fascistas haviam tomado a 19 de Julho de 1936. Germinal de Sousa (1909-1968), por exemplo, foi secretário-geral da FAI (1938-39), comandou como delegado político a Coluna Terra y Libertad. Entre os muitos que combateram em Espanha destaca-se ainda Jaime Rebelo (1900-1975, marítimo de Setúbal), Vivaldo Fagundes, Aníbal Dantas, José Marques da Costa, Manuel António Boto (ferroviário do Barreiro, integrou o Serviço de Informações Militares), José Agostinho das Neves, Francisco Taveira, Jaime Brasil, José Gonçalves Lima, José Rodrigues Reboredo, Manuel Firmo (ferroviário do Barreiro), Manuel Francisco Rodrigues, Manuel José Lourenço, Raul Pereira dos Santos, José Mestre Valadas Ramos Junior (morto em combate), Romão Duarte (fuzilado), Manuel Gomes de Matos, etc. Em 1936 criam a Rádio Fantasma que a partir de Espanha faz uma desmontagem das noticias da Ditadura em Portugal, referencia os locais de atuação da policia, prisões e deportações.

Em Portugal em 1937 volta a formar-se uma "frente comum " com o PCP para sabotar o apoio que Salazar prestava a Franco. Entre as numerosas ações que realizaram destacam-se as de 20 e 21 de Janeiro e a 4 de Junho de 1937, quando rebentaram bombas no Ministério da Educação, Consulado de Espanha, no emissor do Rádio Clube Português, junto aos depósito de combustiveis da Vascum Oil Company em Alcantara, antecedidas de atos de sabotagem a comboios de abastecimento que se dirigiam para Espanha, para além do atentado contra Salazar (14/07/1937). Seguiu-se mais uma vaga de prisões.

A luta continuava sem desfalecimentos. A FARP constitui em 1937 pequenos grupos de 3 ou 4 elementos para ações contra o regime. Era a forma de manter a ação revolucionária e evitar as prisões.A sucessão de prisões também prossegue. António José Saraiva Mesquita e José Franclim Fernandes Barroso são presos e a polícia descobre que a Sociedade Alunos do Apolo é um local de recrutamento dos anarquistas e vai no encalço de Abílio, Horácio da Piedade Vitor e Gastão que distribuem O Despertar (orgão das Juventudes Libertárias), O Clarão (orgão das Juventudes Libertárias de Lisboa)(44) e A Batalha. Neste ano, Abílio de Sousa Faria (1906-1963) foi cercado na sua casa pela Polícia Política, consegue fugir, com José Augusto Godinho para França, onde colabora no jornal A Liberdade. É preso e expulso para Portugal onde volta a ser preso. António Texeira Araújo em 1937 é preso pela terceira vez.

Há a clara percepção que o desfecho da guerra em Espanha acabará por ter um enorme impacto sobre a continuidade ou não da Ditadura em Portugal. É sobre esta questão que leva a FAI-Região Portuguesa e as FIJL-Região Portuguesa a editar um folheto: 18 de Julho de 1936 a 18 de Julho de 1938. As lutas prosseguem, como dá conta o panfleto da FAI -.Comité do Sado dirigido "Ao Operariado da Cidade de Setúbal.

Terminada a Guerra Civil em Espanha (Abril de 1939) com a vitória dos falangistas, celebrado o Pacto Germano-Soviético (Agosto) e iniciada a Segunda Guerra Mundial com a invasão da Polónia (setembro), a Ditadura em Portugal quase consegue aniquilar todas as forças que se lhe opõe.

A publicação de panfletos mantém-se, assim como os apelos à luta. A FAI e as Juventudes Libertárias, em Novembro de 1939, num panfleto reflecte grande preocupação pelo evoluir dos acontecimentos internacionais.

A Policia Política (PIDE) em 1939 publica um jornal com o título A Batalha, destinado a lançar a confusão dos mais distraídos fazendo crer que a CGT passara a apoiar a Ditadura (38). A CGT, a FARP e a FIJL denunciam através de panfletos a manobra.

O PCP continuou a minar a oposição ao regime, com posições contraditórias. Em Agosto de 1939, Bento Gonçalves, em nome da Organização Comunista Prisional do Tarrafal e do PCP propõe à Ditadura uma trégua e uma aliança contra o nazismo na Alemanha. Celebrado o Pacto Germano-Soviético, passa a seguir as instruções de Moscovo e toma uma posição pró-hitleriana, o que não deixou de provocar cisões internas. Em 1940 substitui o Avante! pelo Em Frente!, cujo primeiro número reafirma esta posição.

Neste contexto político de enormes contradições, a situação acaba por mostrar-se favorável à consolidação da ditadura em Portugal. Ao apregoar que estava a combater o comunismo recebia um forte apoio interno da Igreja Católica e externo de outras ditaduras (Espanha, Alemanha, Itália, etc), mas também de democracias (Inglaterra, EUA, França, etc.).

Castração Cultural. Os princípios anarquistas negam qualquer visão monolítica da criação artistica, o que não implica que muitos artistas e escritores anarquistas tenham reflectido nas suas obras preocupações sociais. Ferreira de Castro em especial em duas obras Emigrantes (1928) e A Selva (1930) é o exemplo desta atitude libertária. O combate entre anarquistas e comunistas travou-se também no campo da cultura. No inicio um jornal como O Diabo (1934-1940) e a revista Sol Nascente(1937-1940) mostravam uma grande abertura, mas à medida que a influência comunista se fez sentir passou a defender um discurso artistico monolitico: o neorrealista, um programa político imposto aos artistas pelo Partido Comunista Soviético (1934). Os novos censores, como Alves Redol (seguidor da cartilha de Georgi Plekhnov) ou Alvaro Cunhal multiplicaram-se nos ataques a uma "arte inútil", isto é, a arte que não estava diretamente ao serviço da propaganda do PCP. Era preciso criar uma arte para as massas, baseado num receituário determinado superiormente pelo partido. É criticada a influencia de Proudhon na cultura portuguesa assim como a liberdade artística. Este discurso cultural dito revolucionário que acabou por impôr-se a partir de 1939 num ambiente social marcado por regimes totalitários. A arte oficial das ditaduras fosse na Alemanha Nazi ou na Russia Soviética eram formalmente idênticas, dada a sua natureza propagandistica e totalitária destes regimes.

Toda a arte moderna era sumariamente classificada como burguesa ou reacionária. No plano internacional artistas com um passado anarquista, como Walter Benjamim alertavam para o facto dos partidos comunistas imporem uma castração intelectual e criativa aos seus membros.

Num contexto de feroz repressão, poetas e escritores como Miguel Torga inseriram-se na corrente libertária sem usar rótulos (63). Defensor intransigente da liberdade, antimilitarista, pugnava por uma socialismo de raiz anarquista (cfr. O Sexto Dia da Criação do Mundo, vol.I, 1981). O corvo “Vicente” é um dos mais belos contos sobre a insubmissão anarquista contra o conformismo social e as injustiças ( cf. Os Bichos, 1940).

No campo da educação o combate libertário enfrentava agora uma visão classicista e sexista imposta pela Ditadura, seguidora das orientações da Igreja Católica. Alguns anarquistas não deixaram de publicar importantes obras onde registaram as suas reflexões, metodologias e experiências pedagógicas libertárias que haviam realizado, como foi o caso de Adolfo Lima: Metodologia (2 volumes, 1932), Pedagogia Sociológica. Princípios de Pedagogia e Plano de uma Reorganização Geral da Educação.2 volumes, 1936, Enciclopédia-Pedagógica Progredior, vol. I Porto, 1936; Mário de Oliveira, A Escola Única (1933), etc.

Exílio e Ética Anarquista

Com o triunfo de Franco em Espanha, os anarquistas em Portugal ficaram isolados. Não possuiam como os membros do PCP apoios financeiros e de de propaganda externos, nem um país que pudesse acolher e formar os seus militantes. Recusavam também a existência de revolucionários profissionais. Estavam entregues a si mesmos, como sempre estiveram. A sua principal arma para continuar a luta não era a obediência a um chefe ou partido, mas as suas convicções. A maioria nos tribunais assumia a responsabilidade pelos seus atos, denunciando a barbárie da Ditadura. Era também uma forma de ilibarem outros camaradas.

Nisto se distinguiam claramente dos comunistas, onde as purgas se sucediam quando a obediência à linha seguida pelo partido vacilava. Muitos anarquistas fieis as suas convições prosseguiram a luta sozinhos contra a Ditadura em Portugal ou no exilio, sem precisarem a ordens de outros para o fazer.

Em França, José Agostinho das Neves (1905-1974) e Jaime Brasil procuram apoiar e ligar os anarquistas que chegam a este país. Editam várias publicações: Novos Horizontes (1937) e A Liberdade (1938) (39) que não tardaram a ser proibidas. Agostinho das Neves em 1939 ainda tenta editar em espanhol o jornal Democracia mas que também é proibido. As ditaduras unem-se na repressão.

Finda a Guerra Civil em Espanha o destino de muitos anarquistas foi os campos de concentração em França. Em 1939 é criado um campo de concentração em Gurs (Aquitânia, França) para onde foram levados os combatentes contra a Ditadura em Espanha. Neste ano contava com 332 portugueses prisioneiros, a maioria dos quais eram anarquistas. Em Julho protestaram contra o seu ajuntamento com comunistas, exigindo a separação dos mesmos.

Com a ocupação da França em 1940 pela Alemanha Nazi os exilados anarquistas nos campos de concentração são tratados como escravos, como foi o caso de Jaime Rebelo, J.R. Reboredo, Manuel Firmo (25), Francisco Xavier ou Vasco de Castro.

Agostinho das Neves denunciado como oposicionista ao regime de Vichy é preso em Abril de 1940. Foi levado como prisioneiro para o Estádio Roland Garros, e daqui para o campo de concentração de Vernet d´Ariège, onde trabalha como escravo. Em Junho 1944 é enviado para o campo de exterminio de Dachau, onde recebe o número 94250, e quase a morrer é libertado pelos aliados. Mantém-se em França como correspondente de jornais em Portugal (Jornal de Notícias).

Outros, como Germinal de Sousa, destacado militante da FAI, depois de passar pelos campos de concentração Vernet, Bjefta (/1842), Berrouaghia (fins de 1943), exila-se na Argélia (1943-1948), vindo depois para Portugal.

Os que se mostram resistentes às ordens da policia francesa, como Abílio Faria ou José Godinho (1903-1962) são entregues à policia portuguesa e acabam encarcerados. Reboredo foi deportado para o Tarrafal

Timor. Durante a IIª. guerra mundial, Timor é ocupado por forças australianas e holandesas e também por japoneses. Muitos dos anarquistas que ainda se encontravam deportados colaboram com as forças australianas na expulsão dos japoneses, como foi o caso de Manuel Viegas Carrascalão, Pereira Vaz, A. Damas, António da Conceição Pereira, A. J. e J.Filipe, D. Paiva, F. Ureña Prieto e I. Gonçalves. Os australianos seguindo instruções da ditadura portuguesa internou-os em 1943 num campo de concentração na Austrália. Finda guerra devolveu-os a Timor. A Ditadura encerrou o campo mas prosseguiu com a prisão. Gordinho, por exemplo, foi enviado para Portugal em 1946 e quando aqui chegou foi preso pela PIDE.

Muitos foram para a América Latina: Argentina: José de Brito; Vivaldo Fagundes foi para a Argentina em 1928, onde integrou a redação do jornal La Batalla que o enviou para Espanha durante a guerra civil. Em Maio de 1937 estava nas barricadas de Barcelona. Depois da guerra foi internado num campo de Concentração em França, vindo depois para Portugal e aqui integrou o Comité Confederal da CG.T. Brasil: Neno Vasco, António Costa Carvalho, Tércio Miranda, Jorge Campelo, Pinto Quartim, Roberto das Neves (1942), Pedro Ferreira da Silva, Manuel António Vinhais, Inocêncio Câmara Pires, Fernando Neves, Miguel Lopes, António Corrêa Ramiro da Nóbrega, Diamantino Augusto, Luciano Trigo, etc.

Roberto das Neves (1907-1981) quando chega ao Brasil em 1942 já tinha um longo passado como militante anarquista. As suas primeiras prisões ocorreram em 1926, 1927 e em 1929 quando era diretor do jornal A Igualdade (Coimbra), outras se seguiram. Em 1931 está em Madrid onde ajuda à reorganização da Federação Anarquista de Portugueses Exilados e escreve no seu jornal Rebelião. No Brasil, em 1945, participa na criação do Comité Português Anti-Fascista. No ano seguinte funda a Editora Germinal, onde foram publicadas importantes obras de denúncia da ditadura em Portugal, sobre anarquismo, ateismo, esperanto, naturismo, etc.

Organização nas Prisões

Com centenas de anarquistas detidos não tardou a surgir no interior das prisões organizações e jornais manuscritos clandestinos. Em junho de 1934 publica-se A Dor (Presídio da Trafaria?) com impressionantes relatos da situação nelas vividas, assim como a apreensão pelos anarquistas que acabavam de presos e que se desconhecia para onde haviam sido levados.Na Ilha Terceira, por exemplo, editam em 1935 o Brado Libertário. Estas organizações mantiveram-se muito ativas até princípios aos anos cinquenta no Tarrafal, Fortaleza de Peniche, Aljube, Penitenciaria de Lisboa e de Coimbra.

Organização Libertária Presional do campo de concentração do Tarrafal era aquela que era seguida com maior atenção devido às terriveis condições em que viviam os presos. A custo conseguia passar para o exterior informações as quais chegavam a Portugal com grandes atrasos. Apelavam aos libertários em Portugal para integrarem uma frente anti-fascista. Foi neste sentido que Acácio Tomás Aquino apela à participação na Conselho Nacional Anti-Fascista (carta de 8 de Fevereiro de 1945). O objectivo era a sua libertação da morte lenta a que estavam condenados. Os anarquistas em Porrtugal e no estrangeiro nunca esmoreceram em denunciar a existência deste campo de concentração e apelar a libertação dos seus presos.

Na Penitenciária de Coimbra para onde foram levados em Março de 1939 dez dos acusados do atentado a Salazar: Emídio Santana, José Vaz Rodrigues (morreu na prisão), Raul Pimenta, João Veloso, José Lopes (morreu na prisão), Virgílio Ribeiro, Jaime Antunes Duarte, Francisco Damião e António Pinto da Cruz (morreu na prisão), continuaram a editar o jornal manuscrito "O Momento" o que já faziam clandestinamente na Penitenciaria de Lisboa. Formou-se nesta prisão o grupo Claridade, onde sobressaia Emídio Santana (45). Depois da Segunda Guerra Mundial, graças aos contactos que haviam conseguido realizar com o exterior editam também a partir da prisão um "Boletim" copiografado: CGT- Orgão Regional (1945 a Setembro de 1947). Só Em 1953 saíram da prisão os últimos presos anarquistas da leva de 1939.

Da Fortaleza de Peniche, onde muitos anarquistas cumpriam longas penas de prisão, chegavam ao exterior apelos à realização de campanhas de solidariedade. Os anarquistas ao contrário dos republicanos e comunistas não eram amnistiados, conforme denunciava Inácio dos Santos Quintas (carta de 27/10/1945).

Muitos destes militantes anarquistas vítimas das piores torturas morriam nas enfermarias das prisões ou nos hospitais, como foi o caso de Martins Sequeira, em Dezembro de 1942 que faleceu no Hospital do Desterro. Após longos anos de prisão e deportação em África ou Timor quando eram libertados a saúde estava fragilizada e pouco tempo de vida lhes restava.

A necessidade de estrutura este apoio aos presos levou à criação, em 1946 de um Comité de Solidariedade que funcionou até aos anos sessenta.

Reorganização do Movimento e da CGT

No princípio dos anos quarenta a esmagadora maioria dos anarquistas estava identificada pela policia politica, devido à sua exposição publica durante a Primeira República, apreensão de arquivos de organizações (UAP, Alianças Libertárias, assinantes de jornais, etc), delações em interrogatórios, etc. Centenas tinham já passado pelas prisões e eram obrigados a apresentações periódicas nas esquadras. Apesar disto muitos dos que saiam da prisão continuaram a lutar pela suas convicções.

Apesar da repressão procurava-se por todos os meios unir os militantes. Em Setúbal um grupo em 1940 pretendeu formar uma Associação Cultural, a policia política rapidamente interveio e prende os seus promotores: José Quaresma, Afonso do Nascimento Ventura (1887-1967), Armando Prates e Libânio Leal. A vigilância policial era apertada.

Juventudes Libertárias. No principio dos anos 40 tenta-se reorganizar o movimento anarquista, a que deu um forte impulso as juventudes libertárias, menos afectadas pelas sucessivas vagas de prisões. Promovem reuniões, circulares internas, difundem panfletos (31) e editam folhetos (32). Em 1943 constitui-se o Comité Regional da Federação das Juventudes Libertárias de Portugal (JL) que logo apelou à reorganização da CGT. Restabeleceu os contactos com o movimento em Espanha, Brasil, EUA e Argentina. Iniciou a publicação de um suplemento O Jovem Libertário (33), e em Julho também de 1943 surgiu O Despertar (nº 1. IVª, série), impresso, com duas páginas. O número 2 surgiu em Agosto e o 3 em Setembro.

Em Dezembro de 1945 começa a publicar-se o Boletim das J.L., cujo número 12 saírá em Novembro de 1946 (36). Em 1947 editam a Revolta, orgão local que substitui O Despertar (34). Em julho de 1948 ainda publicam uma "folha de combate" intitulada "Juventude Livre". Em Dezembro A Batalha (nº12, Vª. Série, 1948), faz uma alusão a um pleno nacional de militantes da CGT, realizado a 26 de Outubro, no qual foi aprovada uma moção da JL de apoio ao comité confederal. A partir desta data deixamos de ter referências na imprensa (clandestina) às Juventudes Libertárias em Portugal. A repressão policial conseguira quebrar a revolta da juventude. Organizações da Igreja Católica, como a Ação Católica Portuguesa apresentavam então números impressionantes de jovens filiados.

A partir de 1939 muitos anarquistas passam a estar envolvidos no apoio a refugiados espanhóis para outros países. Roberto das Neves, por exemplo, participou na organização do seu transporte marítimo para o México. As Juventudes Libertárias no apoiaram os que se dirigiam para a França depois de 1945. Uma ação nem sempre era coroada de êxito. Quando os refugiados eram descobertos pela Policia Política eram entregues à policia espanhola.

CGT. A reorganização da CGT mostrou-se uma tarefa bastante dificil. Os principais elementos do Conselho Confederal estavam presos. Após vários impasses acabou por se criar uma Comissão Pró-Reorganização da CGT que num plenário em Outubro de 1944, registava a enormes dificuldades que tinha em arranjar dinheiro para comprar uma tipografia e prestar apoio aos camaradas presos e desterrados. Coloca-se a necessidade de modificar a estrutura orgânica da CGT para melhor a adaptar à clandestinidade. Ao longo dos anos foram difundido vários panfletos apelando à luta contra a ditadura ou denunciando os seus crimes (37). Em Dezembro de 1944 surgia um número especial d`A Batalha, com quatro páginas.

Em 1945 surge já um Comité Confederal Provisório (CCP). Na sua composição destacavam-se os nomes de Marques da Costa (Vanderley), Carlos Cruz (Camilo), Adriano Botelho (Lima), Vivaldo Fagundes (Vicente), Júlio Duarte, Alberto Dias (A. David), António Pimentel (Pinho, faleceu em 1949), Jorge Silva (Julião, afastou-se de trabalho). Para além das dificuldades de organização local e da tipografia, colocava-se a questão da colaboração com outras forças políticas, o que era rejeitado pela maioria dos membros do CCP.

A CGT tinha nucleos ativos em Lisboa, Porto, Coimbra, Setúbal, Sintra, Barreiro, Montijo, Santiago do Cacém, Almada, Mafra, Torres Novas, Cascais, Faro, Évora, etc.

O primeiro número d´A Batalha surge em Janeiro de 1946, provocando de imediato uma aberta polémica. O jornal sob a coordenação de Marques da Costa centrava-se na questão da "Unidade" anti-fascista, esquecendo a situação do país. As críticas feitas, sobretudo por Vivaldo Fagundes, levaram ao afastamento de Carlos Cruz (Fevereiro), Marques da Costa e outros elementos. Foram chamados para o Comité Confederal Correia Pires (C. Pedro) e Alberto Moniz da Silva (Silveira, faleceu em 1951).

Vivaldo assumiu a edição do jornal, com a colaboração de Tavares, um operário grafico. A tipografia foi instalada num quarto na Vila Gadanhada ao Caminho de Baixo na Penha de França. Não tardou a mudar para a própria casa que Vivaldo alugou no Alto do Pina, sendo o jornal composto por um primo do mesmo. A qualidade do jornal era péssima, segundo os seus críticos. O último número d`A Batalha surgiu em Dezembro de 1949 (35). A última publicação impressa do Comité Confederal foi a reedição de um folheto de José Carlos de Sousa (1886-1935) - Missionários do Erro e da Mentira (edições confederais), em Janeiro de 1950. O texto de cariz anti-clerical, no contexto da Ditadura, denunciava o papel da Igreja na sua manutenção. Apela-se no folheto à filiação na CGT.

Em Coimbra, como vimos, entre Julho de 1946 e Setembro de 1947 editou-se um Boletim, que se assumia como orgão regional da CGT, mas que não tinha qualquer ligação com o Comité Confederal. Tinha a sua sede na Penitenciária, contando com apoios fora dela (José de Almeida e outros). Eram das vozes mais criticas em relação ao Comité Confederal e à sua posição neutralista face aos partidos políticos.

A CGT, melhor dizendo, um comité confederal, mantém-se clandestinamente como elemento de ligação entre os anarquistas até meados dos anos 60.

Relações Internacionais. O movimento anarquista e a CGT procurava estabelecer as suas relações internacionais, nomeadamente com a A.I.T., a CNT e a CRIA (Comissão de Relações Internacionais Anarquistas, fundada em 1948). Uma tarefa dificil dado o controlo que a policia politica mantinha sobre os correios, o que obrigava a mudar os endereços da correspondência. Outros dos problemas eram os agentes da ditadura espanhola que procuravam inflitrar-se no movimento anarquista, fazendo-se passar por refugiados, representantes da CNT, etc.

MUD

A maioria dos anarquistas sempre participou ativamente com outras forças políticas contra certas medidas governamentais. A questão do abstencionismo nem sempre foi seguido em ditaduras ou democracias. Nos anos quarenta e cinquenta a questão provocava uma enorme discórdia entre os anarquistas, sobretudo a respeito da reorganização da CGT. Era dificil para muitos deles, como Vivaldo Fagundes, colaborarem com republicanos. Estava na memória de todos a forma como os governos republicanos haviam perseguido e assassinado tantos anarquistas. O mesmo se podia dizer dos fuzilamentos de anarquistas pelos comunistas na Rússia, Ucrânia ou em Espanha, para não falar da forma como tentarem destruir a CGT.

Face consolidação da Ditadura, parecia não haver outra solução senão unir forças para a derrubar. Este foi o caminho seguido por muitos anarquistas. A partir de 1943 a situação internacional altera-se. A Alemanha, Itália, Japão e outras ditaduras sofrem sucessivas derrotas. Em Portugal começa-se a acreditar que o fim das ditaduras estava para breve. Neste sentido, neste ano formou-se uma ampla frente de oposição à Ditadura, constituída por republicanos, anarquistas, socialistas, comunistas, monárquicos e católicos.

No final da guerra criou-se em Outubro de 1945 uma organização oposicionista mais ampla o Movimento de Unidade Democrática (MUD) (22) onde militantes anarquistas surgem em grande número, como Alberto Dias (membro da Comissão Central), Emílio Costa (vogal da Comissão Consultiva), Alexandre Vieira (vogal da C.C) e outros.

No Porto, os anarquistas empenham-se na criação de células do MUD nas fábricas e localidades, secundarizando a reorganização da CGT. Uma ação que estavam também envolvidos os comunistas que aproveitaram para se implantar no meio operário.

O MUD embora ilegalizado em Janeiro de 1948 continuou clandestinamente a ligar largos sectores da oposição até meados dos anos cinquenta. Participam ativamente na campanhas eleitoral de Norton de Matos (1949) e, como veremos, em muitas outraas ações oposicionistas ao regime.

A questão desta colaboração era reclamada pela Organização Libertária dos Presos do Tarrafal, mas também pelos presos da Penitenciária de Coimbra, com destaque para Emídio Santana. O derrube da Ditadura sobrepunha-se à reorganização da CGT. Esta discórdia ocorria igualmente em Espanha: a CNT no interior defendia a colaboração com outros partidos para derrubar Franco, a CNT no exilio pelo contrário defendia a absoluta neutralidade.

Pós-Guerra

Depois da Segunda Guerra Mundial o mundo entra numa nova guerra global envolvendo dois blocos: Um liderado pelos EUA e outro pela União Soviética (URSS).

A expansão dos regimes comunistas no mundo parecia imparável na Europa, mas também no resto do mundo. A maioria dos movimentos de descolonização assumiam-se como comunistas ou defensores de idênticos regimes ditatoriais. Os progressos alcançados pela URSS em termos tecnológicos, nomeadamente na industria de armamento provocavam um forte impacto a nível mundial, gerando crescentes adesões ao comunismo. Muitos intelectuais na Europa, como Jean-Paul Sartre, manifestam-se publicamente seduzidos pela ditadura soviética. O "progresso" alcançado e uma apregoada "Igualdade" faziam esquecer a ausência de Liberdade.

A ditadura em Portugal era apontado desde meados dos anos trinta, como uma referência no combate ao comunismo internacional. Depois da segunda guerra mundial multiplicaram-se as manifestações de apoio por parte dos EUA e da Grã-Bretanha: Visitas das suas esquadras navais (1946 e 1948 respetivamente); declaração do reconhecimento pelo apoio prestado durante a guerra (1946); apoio à entrada na ONU, contra o veto da URSS (1946); entrada na NATO, como membro fundador (1949); acordo de defesa com os EUA, etc. Manifestações que se prolongaram até ao inicio dos anos sessenta, quando a descolonização veio esfriar as relações da ditadura com estas potências. A Ditadura conseguiu instalar durante décadas na sociedade portuguesa uma mentalidade conformista e de obediência, assente no medo ao Estado, o temor de Deus e o culto de Salazar como o salvador da pátria da balbúrdia da República e do Comunismo.

O PCP, neste contexto internacional, à semelhança do que ocorreu em outros países capitalizou o descontentamentos contra a ditadura. Em 1947 conseguiu ultrapassar os 5 mil militantes, o maior número registado até 1974. Os valores cultivados no partido não se afastavam dos impostos pela ditadura: obediência aos chefes e negação da individualidade. Os funcionários do partido que se atreviam a colocar em causa a linha imposta por Moscovo, eram expulsos, perseguidos ou mesmo assassinados, como foi o caso de Manuel Domingues, morto a 5 de Maio de 1952 no Pinhal de Belas. Centenas de militantes foram afastados, mulheres usadas e abusadas, períodos da história do partido apagados. As forças não comunistas que se recusavam a integrar uma frente com o PCP eram acusadas de colaborarem com o regime, as que o faziam acabavam desagregadas devido ao sectarismo e manobras controleiras deste partido. Alvaro Cunhal, no seu conhecido relatório "A Tendência Anarco-Liberal na Organização do Trabalho de Direcção" (1960), critica dirigentes do partido e o jornal Avante! por não lhe prestarem o culto que lhe era devido, seguindo o exemplo de Estaline, Hitler, Salazar ou Mao. Era um típico produto de uma mentalidade autoritária, conservadora e hierárquica que desta forma contribuiu para consolidar uma das mais longas ditaduras da Europa.

Havia todavia uma realidade que não podia ser negada nos anos cinquenta: após décadas de Ditadura a maioria da população continuava a viver numa miséria chocante, quando se comparava o país com outros na Europa. Em meados da década cinquenta a emigração em massa não tardou a ocorrer, levando alguns membros da própria Igreja a criticarem o regime.

Divisão dos Libertários

Nos anos 50 devido às muitas prisões o movimento anarquista está desarticulado (11), mas isso não impediu a continuação da luta por centenas anarquistas. A questão da colaboração com os "democratas" (republicanos, socialistas e comunistas) dividiu no princípio dos anos cinquenta os anarquistas.

a) Comité Confederal

O grupo que compunha o Comité Confederal mantinha uma posição de independência de outras forças políticas, acabando cada vez mais reduzido na sua ação. Apesar desta situação, este Comité não deixou de apoiar os camaradas presos e as suas familias ao longo dos anos.

Em finais dos anos cinquenta estava reduzido a dois elementos efectivos: Vivaldo Fagundes e Adriano Botelho. O primeiro, nos anos sessenta estava profundamente desiludido com o marasmo da sociedade portuguesa e acabou por regressar a Barcelona onde faleceu em 1968 (27).

b) Intervencionistas

A maioria dos anarquistas, nomeadamente os que haviam passado longo anos na prisão, como Emídio Santana, Germinal de Sousa, José Francisco, Acácio Tomas Aquino ou Manuel Henriques Rijo passaram a defender a colaboração ativa com outras forças politicas no derrube da ditadura. Tratou-se de uma posição que contribuiu para diluir o movimento anarquista entre os oposicionistas ao regime. Em Lisboa, marcaram presença no Ateneu Cooperativo e na Associação dos Inquilinos Lisbonenses.

Cooperativismo Libertário

O ideário cooperativo de Proudhon tornou-se no século XIX também uma bandeira dos Socialistas. Quando em 1933 resolvem dissolver o Partido, numa conferência em Coimbra, sob a direção de Alfredo Franco, decidem transformar as secções do partido em cooperativas. Foi neste contexto que em Lisboa constituiram a cooperativa Fraternidade Operária Lisbonense. Esta organização permaneceu moribunda até finais dos anos 40, quando nela entrou um grupo de anarquistas e comunistas. António Sérgio era a figura tutelar. Nesta altura Emílio Costa edita um "caderno histórico" sobre cooperativismo (1946), onde considera que as associações mutualistas de inspiração proudhoniana nunca passaram de ações de socorro social, depositando nas cooperativas as suas esperanças de transformação social evocando o programa de Charles Gide.

António Sérgio numa concepção mais vasta do mutualismo de Proudhon desde os anos vinte que vinha elaborando a sua visão do "socialismo libertário" (13), onde o cooperativismo assumia um papel destacado. A Fraternidade rapidamente atraiu antigos militantes anarquistas, como Emídio Santana, Germinal de Sousa, Acácio Tomás Aquino, Custódio da Costa, Correia Pires, Carlos Ferreira, Carlos Cruz, José de Brito, Moisés Espírito Santo (1918-2014) e outros. A esmagadora maioria tinham um longo historial de lutas e de prisões pela liberdade. Não omitiam as suas convicções. O Ateneu passou a ter uma nova dinâmica. Em 1951 começou a ser editado o "Boletim Cooperativo", e deoois um boletim interno (Cooperação). Em 1956 houve uma mudança de estatutos adoptou o nome de Ateneu Cooperativo pelo qual passou a ser conhecido, tornando-se num ponto de reunião e de ação de muitos opositores ao regime. Moisés foi o seu primeiro presidente (1956), tomando a iniciativa de realizar uma Reunião Magna das Cooperativas que se traduziu na fundação da UNICOOPE (União das Cooperativas Abastecedoras, em 1955) entre muitas outras ações. As manobras controleiras do PCP foram os responsáveis por constantes conflitos internos (14) que só desapareceram em 1959. Neste ano o Ateneu passou a ter como o presidente José Hipólito Santos (1932-2017) e como vice-presidente Germinal de Sousa. O Ateneu foi fechado em 1972, por se recusar a submeter os seus Estatutos à aprovação da Ditadura. Emídio Santana e Moisés da Silva Ramos salvam a documentação do Ateneu, e outra documentação anarquista que aí estava guardada como o espólio de Manuel Joaquim de Sousa, de congressos operários, etc. Emídio Santana ficou com a chave até ao 25 de Abril de 1974. No prosseguimento desta ação em cooperativas um grupo de anarquistas, entre os quais contava Emídio Santana e Moisés participaram na criação da DECO - Associação de Defesa do Consumidor (1974).

Um pouco por todo o país, muitos outros anarquistas envolveram-se no movimento cooperativo. No Porto, por exemplo, José Augusto de Castro (1904-1982), editor d`O Germinal e director d´ A Vanguarda Operária e mais recentemente do jornal O Progresso da Foz, deu um forte impulso à Cooperativa Operária da Foz e à UNICOOPE.

Habitação

O gravissimo problema da habitação desde a Primeira República era uma das áreas de intervenção do municipalismo libertário, e assim continuou. A habitação não podia ser encarada como um negócio, mas como sim como uma necessidade básica. A verdade é que até ao século XXI os bairros de barracas ou construções precárias abundavam por todo o país.

Não é pois de estranhar, por exemplo, que Emídio Santana quando saiu da prisão em 1953 passasse também a agir na Associação dos Inquilinos Lisbonenses, onde militavam outros anarquistas. Moisés em 1957 foi eleito presidente da Associação dando-lhe uma nova dinâmica, como a organização da Exposição Habitacional no Mundo, na Sociedade Nacional de Belas-Artes. Emídio seguiu-se-lhe na presidência em 1965, continuando com uma série de ações que causavam grande incomodo para a Ditadura. Em Abril de 1974 a AIL contava com mais de 30 mil associados, persistindo na mesma linha de luta em prol da habitação para todos (comício em Junho de 1974). Passou também a apoiar as comissões de moradores que surgiram pelo país (62). Emídio Santana em Janeiro de 1975 foi substituído por Hipólito Santos, na altura ligou-se ao PRP-BR.

Ao longo da Ditadura a falta de habitações não parou de agravar-se, sobre tudo a partir do final dos anos cinquenta com a deslocalização em massa da população dos campos para as cidades. Em 1970, segundo números do próprio governo estimava-se que cerca de dois milhões pessoas viviam em condições precárias de alojamento. Viviam em barracas 34.740 famílias, em regime de sub-locação 66.175 e em fogos superlotados 552.345, sobretudo nos distritos de Lisboa, Porto e Setúbal (29). Os miseráveis ordenados auferidos por centenas de milhares de trabalhadores não lhes permitiam pagar as rendas especulativas praticadas nos grandes centros urbanos. Era neste importante combate que muitos anarquistas continuavam envolvidos (30).

Abertura cultural. No final dos anos quarenta emerge um novo movimento cultural que procura romper com as limitações propagandísticas do neo-realismo. Mário Cesariny (1923-2006) depois do seu encontro em Paris com André Breton (1949) descobre no surrealismo a liberdade criativa que os ideológos comunistas negavam aos artistas, aproximando-o do Anarquismo. Quem o fez também de forma explicita em 1949 foi Mário-Henrique Leiria (1923-1980). Numa carta a Cesariny escreve: "Reduzo-me a tentar, aqui, destruir tudo quanto posso, desde o conceito de família destes gajinhos, até às noções idiotas de arte e literatura que eles possuem. Estou possivelmente a caminho de uma posição anarquista declarada" (10 ). O anarquismo era a fonte de inspiração para aqueles que queriam romper com a cultura fechada da Ditadura ou com a propagandeada pelo comunismo, como António Maria Lisboa. Cesariny, assumindo um claro posicionamento anarquista, em 1962 proclama o "objeccionismo", um apelo à insubmissão no plano artístico (12 ).

A repressão sobre os anarquistas continuou de forma sistemática. A 14 de Fevereiro de 1957 no Porto Manuel Fiuza Junior é espancado até à morte pela policia. Era o antigo diretor do quinzenário anarquista A Voz do Faminto

Os artistas que se haviam ligado ao PCP, criando um arte segundo os ditames dos teóricos soviéticos, nos cinquenta de começam a compreender que estão desfasados dos movimentos artísticos internacionais, e praticam um arte que formalmente pouco se distingue da arte apoiada pela Ditadura. Abraçam então a chamada “arte abstrata” que afronta directamente a arte do regime..

Regresso

No final dos anos cinquenta a oposição à ditadura agrega muitos dos que a ajudaram a implantar - militares e católicos -, desencadeando uma série de ações que irão abalar o regime. Como era de esperar participam ativamente campanha de Humberto Delgado (1958), Movimento da Sé (1959), golpe militar de Botelho Moniz (1961) e no ataque ao quartel de Beja (1962) (23). Um dos dirigentes desta última ação era o capitão Manuel Pedroso Marques, casado com Primavera Acrata das Neves (1933-1981), filha de Roberto das Neves. Tendo falhado a insurreição refugiou-se na Embaixada do Brasil em Lisboa onde só conseguiu sair para o Brasil em Junho de 1963 (O Libertário de S. Paulo, nº. 20-21, Junho-Julho de 1963).

É neste contexto que ganha força a ideia da luta armada contra a ditadura, para a qual muito contribuiu a ação dos exilados no Brasil, Venezuela e depois em França.

Retaguarda Brasileira

Os exilados anarquistas no Brasil, com destaque para Roberto das Neves e Edgar Rodrigues estiveram sempre na linha da frente nas ações contra ditadura em Portugal. Ações que recrudesceram quando em Abril de 1959 chegou ao Brasil Humberto Delgado que se havia exilado na Embaixada deste país em Lisboa, assumindo-se desde logo como chefe do Movimento Nacional Independente, que colaborava com outra organização Movimento Anti-Fascista dos Portugueses do Brasil onde agiam Roberto das Neves e Jaime Cortesão. Neste ano chega também à Argentina Henrique Galvão que se havia exilado na embaixada deste país, mudando pouco depois para a Venezuela onde a comunidade portuguesa era numerosa e os exilados portugueses e espanhóis possuiam activas organizações. A conexão de exilados no Brasil e na Venezuela começou desde logo a funcionar, planeando-se ações armadas para chamar à atenção mundial para as ditaduras em Portugal e Espanha, assim como o seu derrube pelas armas (21).

Desde 1945 que os anarquistas desenvolviam a partir do Brasil uma ativa campanha contra a ditadura em Portugal. O principal ativista era Roberto das Neves. Em 1946 fundou a Editora Germinal que publicou um vasto conjunto de obras que causavam um vivo incómodo ao regime em Portugal. Nos anos sessenta no seu catálogo constavam obras de Humberto Delgado, Henrique Galvão Fernando Quiroga, Tomaz da Fonseca entre outros. A pedido de Humberto Delgado .

Outros anarquistas portugueses exilados procuram denunciar a imprensa internacional os crimes da Ditadura em Portugal, como foi o caso de Pedro Ferreira da Silva, nas páginas do jornal Ação Directa no Rio de Janeiro (1946).

Edgar Rodrigues pseudónimo de António Francisco Correia (1921-2009) chegou ao Brasil em 1951, e de imediato inicia na imprensa local e internacional a denúncia da barbarie da ditadura em Portugal, com base nas informações que recebia de uma rede de contactos clandestinos no país. Procurou também registar as memórias do movimento libertário que a Ditadura procurava apagar. No final dos anos 60 começa publicar obras sobre a história do movimento operário e anarquista no Brasil e depois em Portugal. Na Inquisição de Salazar (1957) foi o seu primeiro livro, seguido de A Fome em Portugal (1958), O Retrato da Ditadura Portuguesa (1962) e mais 59 livros até falecer.

O relacionamento entre Humberto Delgado e Roberto das Neves cedo se mostrou incompatível com o anarquista, dado o feitio autoritário do general. No entanto todo o apoio lhe foi prestado, assim como a Henrique Galvão, em 1961, quando o Paquete Santa Maria sequestrado aportou ao Brasil.

A imprensa anarquista do Brasil, como O Libertário de S. Paulo promoveram de forma sistemática campanhas de denuncia dos crimes das ditaduras em Portugal e Espanha.

Com a instauração da ditadura no Brasil (1964) começa a repressão dos exilados portugueses. No dia 15 de Outubro de 1969 um grupo de 15 anarquistas, entre os quais se contavam Roberto das Neves e Pietro Ferrua são presos acusados de atividades subversivas, como o fabrico de bombas para a guerrilha. A prova desta acusação era um folheto intitulado "Acção Directa" onde se explicava como fabricar explosivos. A sua publicação fora um pedido de Humberto Delgado à Editora Germinal destinada à luta armada em Portugal.

Mar

Nas ações desencadeadas entre 1958 e 1962 destacam-se uma série de individuos sem filiações partidária como Hermínio da Palma Inácio ou Hipólito dos Santos. Lutavam pela Liberdade e pelo derrube da ditadura. No exilio surgiram então várias organizações de luta armada, como o Mar- Movimento de Ação Revolucionária (1962) que Hipólito Santos foi dirigente para as relações externas. O Mar estava filiado na Frente Patriótica de Libertação Nacional com sede na Argélia. Pelo menos um anarquista fez parte desta organização - Moisés Espírito Santo -, que atuou como elemento de ligação com outros no país.

O comité confederal da GGT terá reunido pela última vez em Fevereiro de 1964 (2). Na análise que faz da Ditadura destaca um fenómeno novo: os estudantes começavam a manifestar-se, uma situação que a poderia contribuir para fim do regime. Era uma referência importante tendo em conta o contexto nacional e internacional. Acumulavam-se os sinais evidentes algo estava a mudar na juventude portuguesa despoletada pelo inicio da Guerra Colonial (1961) representou o começo da enorme sangria de jovens, crescente número de fugas do país e aumento dos desertores.

Face à proibição decretada da comemoração do Dia do Estudante, no dia 24 de Março de 1962 na Universidade de Lisboa ocorre uma enorme manifestação estudantil. A policia espanca e prende os estudantes e ocupa as instalações da universidade. A contestação em Lisboa prolonga-se até Junho. Em Coimbra dois meses depois eclode nova greve de estudantes. No dia 27 de Agosto dezenas de estudantes são presos e enviados para Caxias. Entre eles estava Mário Silva (1929-2016), co-fundador da Circulo de Artes Plásticas na Universidade (1958) que sempre se declarou "anarquista". A contestação internacional à guerra do Vietname, sobretudo depois de 1964, funcionou como um poderoso estimulo ao envolvimento político dos jovens em todo o mundo.

O jornal O Libertário de S. Paulo (Janeiro de 1963) denunciava a prisão e tortura de três anarquistas durante as manifestações do 1º. de Maio de 1962: José Marques e os irmãos Alberto e Carlos Simões Januário, filhos de Arnaldo Simões Januário morto no Tarrafal. Foram acusados de andarem a distribuir comunicados apelando à participação nestas manifestações. O mesmo jornal, no número de Agosto-Setembro de 1963, refere que durante a manifestação do 1º. de Maio de 1963 na cidade do Porto, fora assassinado um anarquista - Agostinho Fineza. O jornal afirma que se trata de um militante anarquista, contrariando a versão divulgada pelo PCP que era um militante comunista.

Em Abril de 1964 era libertado na prisão de Peniche - Valentim Adolfo João (1902-1970) -, o último preso anarquista, antigo presidente do sindicato dos mineiros de S. Domingos. Estava preso desde 1949, sob a acusação de ter fornecido o dinamite para o atentado a Salazar (1937).

Em 1968 os anarquistas estão de novo na ribalta continuando a colaborar em ações conjuntas com outros grupos oposicionistas ao regime. Fazem-se representar nos congressos anarquistas internacionais de 1968 e 1971. Aproveitam as eleições de 1969 para atacar a ditadura. Emídio Santana, por exemplo, participa em comícios da CDE e CEUD, no II Congresso Republicano de Aveiro (1969). Exemplos não faltam deste tipo de intervenções políticas quando estava em causa valores fundamentais como a defesa da Liberdade. Internacionalmente, como vimos, falava-se do ressurgimento do anarquismo.

Desarticulado o movimento devido à repressão, o anarquismo continuou a persistir graças á ação individual de algumas centenas de antigos militantes, muitos dos quais contavam com longos anos de prisão.

Contestação Global

Nos anos sessenta em todo mundo volta a ouvir-se falar de anarquismo, sobretudo devido a novos fenómenos sociais, desilusão perante os regimes comunistas, tecnocracia, contestação à guerra, emergência da juventude, questões em torno da sexualidade e da cultura.

Em Portugal apesar do crescimento económico que então se regista, a situação vivida no país era dramática: A guerra colonial entre 1961 e 1974 mobiliza mais de 150 mil jovens por ano. A sua factura pesa no orçamento de estado, impedindo a Ditadura dos investimentos sentidos como necessários em muitas outras áreas, como a saúde, educação, infraestruturas, etc. A pobreza generalizada nos campos leva a uma fuga massiva da população. Em resultado de deslocalizações internas e crónicas carências habitacionais, na região de Lisboa assiste-se à proliferação de enormes bairros de barracas. A maioria dos que fogem das zonas rurais, onde continuava a viver a maior parte da população, segue os habituais caminhos da emigração, assistindo-se a fortes concentrações de portugueses em paises como a França ou a Alemanha Federal e em menor escala a Suiça e Bélgica. Vastas regiões no país são votadas ao abandono. Os principais indicadores sobre as condições da vida da população colocam Portugal entre os piores da Europa.

No final dos anos sessenta assiste-se ao aumento explosivo da contestação que tem 1968 como um marco incontornável.

Nos EUA desde finais dos anos 50 que emergia um forte movimento contestatário contra a tecnocracia e a cultura dominante. Nos anos 60 a contestação à guerra do Vietname faz explodir este movimento. As obras de Marcuse ou de Freud inspiram a revolta da juventude levando-a a procurar vivências alternativas, numa busca de liberdade contrária a modelos autoritários. Um movimento cunhado por Theodore Roszak de "ContraCultura".

As ditaduras do Bloco Comunista deixaram de ser entusiasmante para muitos intelectuais, como o foram nos anos cinquenta. A disputa pela liderança mundial do comunismo entre o PC Chinês e o PC Soviético abre uma forte cisão ideológica no comunismo. Perante o desabar das ilusões comunistas, algumas das ditaduras passam a afirmarem-se como "diferentes" (Jugoslávia, Checoslováquia, Argélia, Cuba, Egipto, etc.) até apregoam novos processos de organização do trabalho, como a "autogestão". O terror acaba por se impor, quando a população procura libertar-se da opressão. Na Checoslováquia a insurreição contra a ditadura comunista, e o posterior esmagamento com a intervenção soviética, deixa os marxistas perante o dilema de continuarem a defenderem a barbárie ou procurarem alternativas.

Muitos marxistas desiludidos procuraram outras vias para a transformação social, tomando agora a liberdade como um valor fundamental. Recusam as "vanguardas", as "vanguardas operárias", a "ditadura do proletariado", o "centralismo democrático", etc. É neste contexto que surgem os "marxistas libertários", "marxistas autogestionários", etc. A aproximação e apropriação de ideias anarquistas torna-se por demais evidente. Alguns, como os membros da "Internationale Situationniste" consideram-se mais "libertários" que os próprios anarquistas, especialmente na organização imediata das lutas e no seu comportamento diário. O caso do Trotskismo em Portugal é exemplificativo deste processo. Surgiu na Universidade de Coimbra em fins de 1968 no seio de um grupo de estudantes revoltados com a situação do país. Não tinham nenhuma ligação partidária, ficaram fascinados com a ideia de uma revolução permanente, global. Em 1971 fundam um Grupo de Ação Comunista em Coimbra, a que se seguiu outros em Lisboa e no Porto. Apesar da sua ligação à Liga Comunista Internacional (1973) a sua aproximação ao anarquismo, nomeadamente na defesa da liberdade e formas de luta foi sempre uma constante, segundo o testemunho dos seus mais destacados militantes (19).

Em Portugal, a Ditadura depois de 1968 deu evidentes sinais de não conseguir conter a crescente contestação social. As expectativas criadas neste ano quando Salazar foi substituido por outro ditador chamado Marcelo Caetano, não tardaram a serem goradas. Os dois baluartes da ditadura desde 1926 começaram a conspirar contra a Ditadura ao perceberem que a mesma estava isolada internacionalmente e sem solução para a guerra nas colónias. Primeiro foram largos sectores da Igreja Católica, depois no princípio dos anos setenta os militares que haviam instaurado a própria Ditadura.

Memórias

Durante a longa Ditadura a memória histórica do anarquismo em Portugal foi silenciada. A transmissão directa, apoiada por testemunhos pessoais foi anulada por uma feroz repressão. Os textos escritos impedidos de circular pela censura. A ideia que se procurou consolidar dos anarquistas era não passavam de bandos de individuos que haviam enveredado pela violência, atentados à bomba, recusando todo o tipo de leis e o sistema parlamentar.

A Ditadura promoveu o PCP ao identificar todas as ações revolucionárias como sendo obra dos comunistas ao serviço da Rússia. Criou-se, como dissemos, o mito que todas as ações de protesto ou reivindicativas dos trabalhadores que ocorriam em Portugal eram controladas pelo PCP. Este discurso perdeu a sua força na segunda metade da década, quando emergiu a comunicação social começou a dar conta de movimentos revolucionários à margem dos partidos comunistas que abalavam os regimes. Em Portugal o mesmo fenómeno ocorreu, assistindo-se áo nascimento de movimentos de contestação católicos, socialistas, republicanos, etc.

As publicações sobre anarquismo eram rarissimas. Alexandre Vieira entre 1950 e 1960 publica três livros sobre a história do sindicalismo (5), num contexto que forte censura. Todas as referências a pessoas vivas foram cuidadosamente pensadas para não as comprometer perante a polícia política.

No anos 60 deu-se alguma atenção a Proudhon: Vitor de Sá escreve sobre Amorim Viana e Proudhon (1960) mas o seu objectivo era outro. A. Petrus entre 1961 e 1965 recolhe e publica textos sobre a influência de Proudhon na cultura portuguesa.

Em meados da década demarcarem-se as diferentes orientações ideológicas dos historiadores sobre o movimento operário em Portugal:

a) ) Os historiadores do regime procuraram durante a Ditadura difundir a ideia que os problemas com que se debatiam os operários durante durante a Primeira República foram resolvidos pelo Estado Novo. Este é o objectivo do livro de Costa Junior - Breve História do Movimento Operário Português (1964).

b) A corrente marxista ligada ao PCP e similares procuraram fabricar uma história que começava com o surgimento das ideias marxistas em Portugal, o impacto da Revolução Russa, formação e evolução do PCP que vem corrigir os erros do anarquismo e do reformismo dos socialistas. O PCP em 1965 produz a história oficial do operariado que será usada como uma cartilha pelos seus militantes (1). Outros marxistas em guerra com o PCP procuravam construir a sua versão dos acontecimentos: a história do PCP está repleta de traições aos trabalhadores, pelo que era necessário fundar um novo partido, aproveitando as lições da revolução chinesa, albanesa, etc. . Entre os historiadores marxistas fieis ao PCP ou em luta como o mesmo destacaram-se Vitor de Sá, Alfredo Margarido, Armando de Castro, Ana Maria Alves ou José Pacheco Pereira. A solução que preconizam para o país é substituir uma ditadura "fascista" por uma "ditadura do proletariado".

c) A corrente herdeira de republicanos e reformismo socialista continuava a resgatar a memória da república, mostrando como nem tudo foi mau para o operariado. Entre os marxistas César de Oliveira foi aquele que maior abertura mostrou ao considerar o papel dos anarquistas nas lutas sociais. Nas suas obras procura reunir vasta documentação sobre o movimento operário: Da Casa Sindical ao Forte de Sacavém de Frutuoso Fermino (1971), O Congresso Sindicalista de 1911 (1971), Operariado e a República Democrática (1910-1914) (1972), O Socialismo em Portugal 1950-1900 (1973), A Criação da União Operária Nacional (1973), uma linha editorial prosseguida depois de 1974. Nesta altura afasta-se do PCP e adere ao PS.

d) A corrente libertária é a mais tardia. Desde meados dos anos sessenta que se regista alguma curiosidade pelas ideias anarquistas. Em 1966, por exemplo, publica-se A Breve História do Anarquismo de Henri Arvon. Em 1970 de James Joll Anarquistas e Anarquismo e no ano seguinte O Anarquismo de George Woodcok, seguiu-se O que é a Propriedade? de Proudhon e Bakunine de Henri Arvon.

Em 1970 de Alexandre Vieira publica-se "Para a História do Sindicalismo em Portugal". Dois anos depois surge uma nova edição de O Movimento Operário em Portugal de Campos Lima - , e em 1974 a 2ª. edição de O Sindicalismo em Portugal, de Manuel Joaquim de Sousa, com prefácio e notas de Emídio Santana.

João Medina em 1972 publica Eça de Queiróz e o Anarquismo, seguidos de dois ou três interessantes artigos ao longo dos anos (6). Em 1973 aparece finalmente um historiador que paulatinamente vai trazendo novos elementos para a história do movimento anarquista em Portugal: Carlos da Fonseca (7). A sua obra - A Origem da 1ª. Internacional em Lisboa - O Centenário da Federação, marca um ruptura com a historiografia marxista que estava a ser produzida em Portugal. O papel histórico dos anarquistas na organização e luta dos trabalhadores voltava a ser relembrado e contextualizado.

Face aos acontecimentos internacionais, sobretudo em França, a imprensa da época interroga-se sobre a história e o ideário anarquista. A revista Vida Mundial dedica-lhe um número com o título: Ressurgimento do Anarquismo (6/02/1970). A revista O Tempo e o Modo no mesmo ano publica "Anti-Autoritarismo, Anarquismo, Sindicalismo" de Luis Matoso (nº. 84), e de Moisés da Silva Ramos (militante anarquista) - "O Socialismo Reformista. A Experiência portuguesa até à 1ª. Guerra Mundial" (nº.82). Na recuperação da história do movimento operário em Portugal descobre-se a intervenção libertária.

Libertários Exilados na Europa

Fugidos à guerra colonial ou emigrantes espalhados pela Europa, sobretudo em França, muitos jovens aderem às ideias libertárias. Os acontecimentos de Maio de 1968 em França parecem ter sido decisivos para esta aproximação. Destacou-se um grupo em volta dos Cadernos de Circunstância (1968-1970, 7 números), editado em Paris que procuram despertar os emigrantes portugueses para uma intervenção social. Entre os seus membros contavam-se João Freire, Jorge Valadas, José Maria Carvalho Ferreira, Carlos da Fonseca e outros. Na sua maioria eram jovens estudantes descontentes com o PCP ou do maoismo, seguidores do "comunismo dos conselhos" (Rosa Luxemburgo) ou da Internacional Situacionista e outros movimentos radicais. Após a vitória que alcançaram em 1970 na CGT, assim como uma melhor compreensão das suas opções ideológicas aproximam-se do anarquismo, e estabelecem contactos com antigos militantes em Portugal

Entre estes libertários destacaram-se Carlos da Fonseca (1940-2017, refractário da tropa, exilado, professor universitário em Paris), João Freire, Jorge Valadas ( Charles Reeve), Júlio Carrapato (1947-2016, em 1968 exilou-se em França, esteve nas barricadas), Julio Henriques e José Maria Carvalho Ferreira. Um caso particular foi João Bernardo que ilustra o percurso de muitos outros jovens. Foi militante do PCP (1964-1966), sempre nas lutas estudantis, saiu para aderir a um grupo maoista (1966). Perseguido pela polícia política exilou-se em Paris (1967) mantendo-se ligado a grupos maoistas. Em 1973 já está a criticar o maoismo e o leninismo e a defender o denominado "marxismo libertário", acabando expulso do grupo maoista. Em 1974 com Rita Delgado e João Crisóstomo funda o jornal Combate (1974-1978) de clara tendência libertária.

É neste contexto que surgem algumas publicações anarquistas como O Clarão (Londres, 1973, por Claude Moreira), Nova Porta (Paris, 1973), Portugal Libertário (Paris, 1973-1974) ou A Ideia (Paris, maio de 1974, João Freire).

A Organisation Révolutionaire Anarchiste (ORA) , fundada em 1968, desenvolveu várias ações junto dos emigrantes portugueses. Na quase totalidade os 750 mil portugueses que em 1973 viviam em França entrou no país clandestinamente. Era muito precária a sua situação nos locais de trabalho, na rua eram vítimas de ataques racistas e xenófobos. As mulheres rotuladas de putas. Tudo isto aparece espelhado nos oito números do Portugal Libertário que se publicaram entre outubro de 1973 e maio de 1974, como suplemento do Front Libertaire. Foi uma notável iniciativa de sete anarquistas da Ora de Meaux (Seine-Marne), entre os quais se contava José Luis de Brito. O jornal noticiava igualmente acções da resistência em Portugal e apelava à independência das colónias.

A maioria regressou a Portugal, e no pós-25 de Abril de 1974, assumiram um papel relevante na difusão das ideias libertárias.

Músicos e Artistas Libertários

Os anos sessenta são marcados eclosão da chamada "música de intervenção" que retoma em Portugal, a antiga tradição do "fado anarquista" muito popular no final da monarquia e durante a Iª. República. Zeca Afonso foi o pioneiro. Na vaga de jovens que seguiram para o estrangeiro alguns músicos foram fortemente influenciados por cantores libertários como Georges Bressens ou León Ferré, como foi caso de Sérgio Godinho (20). Foi para a Suiça em 1963 para estudar Psicologia, mas o seu percurso foi outro ao aderir ao ideário anarquista. Em maio de 1968 está nas lutas que então se travaram. Faz depois parte do Living Theatre, uma companhia libertária nascida no EUA. Os treze membros, incluindo Sérgio em 1970 são presos a mando da Ditadura brasileira durante o Festival de inverno dna cidade de Ouro Preto, um acontecimento de renome mundial. De volta França a partir de em 1971 grava e participa na gravação de importantes obras discográficas marcadas por uma acutilante crítica social. Em Paris encontravam-se desde 1968 outra músico que foi uma referência durante anos no movimento anarquista: Jorge Palma. Por lá andava igualmente Helder Costa, fugido à polícia política (1968) que passa do maoismo ao anarquismo.

Os "Continuadores" dos Anarquistas

O PCP, instrumento da PC União Soviético (PCUS), no final dos anos sessenta estava a ficar isolado. O comunismo internacional ficara fragmentado. Desde 1961 que o PCUS era atacado pelo PC Chinês e Albanês de ser um partido burguês, contra-revolucionário, estar ao serviço do imperialismo mundial e outras acusações similares. O PCP mantém-se fielmente ao serviço do PCUS, apoia o esmagamento das revoltas nos países no leste da Europa, como ocorreu na Checoslováquia (1968). Os acontecimentos em Maio de 1968 provocam um novo sobressalto. Um destacado intelectual do partido, Claude Prévost (Les Etudiants et le Gauchisme, Paris, 1968) (24) descobre que as ideias que movem os estudantes eram iguais às que encontrava nos vários capitulos da obra de Daniel Guérin: L'anarchisme. De la doctrine à l'action (Paris, 1965). A situação era grave: os estudantes atreviam-se a colocar em causa os fundamentos do "socialismo científico", o trabalho dos "revolucionários científicos" como "vanguarda" dos trabalhadores.

É neste contexto que muitos militantes (mais esclarecidos) abandonam o PCP, e procuram outras opções ideológicas onde a Liberdade seja um valor estimável. Outros afastam-se porque o acusam de se ter aburguesado e deixar de lutar pela revolução social, seguem as teses maoistas e albanesas ou guerrilheiras, a que juntam a luta contra a Guerra Colonial. Em 1970 surgem novos grupos marxistas que pretendem reconstituir um novo Partido Comunista (MRPP, PCTP-ML, etc) ou iniciar a luta armada contra a Ditadura (FPLN, Brigadas Revolucionárias, PRP).

A resposta comunista a estes movimentos foi elaborada em Moscovo. O PCUS, pela pena de historiadores como Boris Leibzón (1968), afirma que todos estes movimentos não passam de manifestações anarquistas. Recorda que Trotski era no fundo anarquista. Mao-Tse-Tung fora durante anos anarquista, e a própria "revolução cultural" usava métodos anarquistas (8). Nesta linha, Alvaro Cunhal em 1970 escreve Radicalismo Pequeno Burguês de Fachada Socialista (9) onde repete a mesma argumentação do PCUS, acusando todos aqueles que se manifestavam na sociedade portuguesa à margem do PCP de serem seguidores dos anarquistas.

Continuação

Carlos Fontes

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(Versão mais atualizada e corrigida)

 

Anarquismo (literalmente "sem poder") 

Movimento político que defende uma organização social baseada em consensos e na cooperação de indivíduos livres e autónomos, abolindo entre eles todas as formas de poder. A Anarquia seria assim uma sociedade sem poder, dado que os indivíduos se auto-organizariam de tal forma que garantiriam que cada um teria em todas as circunstâncias a mesma capacidade de decisão. Esta sociedade, objecto de inúmeras configurações, apresenta-se como uma "Utopia" (algo sem tempo ou espaço determinado). É um ideal a atingir. Continuação

Filosofias Anarquistas

Dadas as características do movimento anarquista não deixa de ser impressionante a diversidade de filosofias que tem surgido no campo libertário. Continuação

 

 

Notas

   

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