Carlos Fontes

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Anarquismo em Portugal

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1910-1926: Educação e Sindicalismo

A implantação da República a 5 de Outubro 1910, contou com a participação de muitos anarquistas como José do Valle, José Maria Nunes, Hilário Marques (1878-1949), Hermano Neves, António Rodrigues Pires, João Borges, Sebastião Eugénio (-1926), João Humberto Matias (1893-1977), Raul Magalhães Coutinho (57), José Negrão Buizel ou Policarpo Luis Redondo, colaborador n`A Sementeira que morreu nas barricadas. Constantino Mendes, o "Norte" salientou-se nos combates contra a Guarda Municipal em frente da Redação d´O Mundo e no largo da Abegoaria ao destroçar um piquete da cavalaria da guarda. José Joaquim Teixeira Júnior, farmacêutico no Hospital de S. José e na Escola Médica desviou medicamentos destes estabelecimentos para uma hospital improvisado na Rotunda (50). Bartolomeu Constantino em Cacilhas e Almada mobilizou a população e proclamou como havia prometido a República. Enquanto Machado dos Santos e os seus soldados estavam imobilizados na Rotunda, os trabalhadores atacavam as forças monárquicas, assaltavam esquadras da polícia, erguiam barricadas, sabotavam as vias férreas, cortavam comunicações (51). Não admira que a maioria das vítimas mortais dos que se bateram pela Republica não fossem militares.

A implantação provocou um grande entusiasmo nos meios libertários. Na Universidade de Coimbra registaram-se manifestações de júbilo e estragos nos retratos dos reis que ornavam a sala dos capelos. “O principal papel coube à Falange Demagógica, composta por anarquistas, que tinham como expoentes os escolares de Direito Alfredo Pimenta, Orlando Marçal e Campos Lima, os quais, pela vida adiante, seguiram rumos opostos” (35). Muitos outros anarquistas pelo país participaram no derrube na monarquia esperavam que o novo regime acabasse com a repressão que eram vítimas e cumprisse as promessas que os republicanos haviam feito.

A "aliança estratégica" entre anarquistas e republicanos rapidamente se desfez, assim como a união entre os próprios republicanos que não tardaram a dividir-se em bandos, seguindo cada qual o seu cabecilha. A liberdade foi de imediato cerceada. Como mais tarde reconheceria o grão-mestre da maçonaria Magalhães Lima: “Todo o democrata é republicano, mas nem todo o republicano é democrata” (43).

Manuel Joaquim de Sousa não tardou a advertir que nada de essencial havia mudado (A Aurora, nº15, 30/10/1910). José do Vale chamou à atenção para o carácter burguês da República (Germinal, nº338, 5/11/1911).

Nada disto impediu que alguns anarquistas intervencionistas abandonassem as suas convicções libertárias e aderissem à onda republicana integrando as suas listas eleitorais, como foi o caso de Boto Machado (A Aurora, nº54, 30/097/1911) ou de Ramada Curto (A Aurora, nº83, Fevereiro de 1912). A Sementeira, nº33, Maio de 1911) chegou a falar de uma “debandada” de intelectuais para as hostes republicanas, mas não só. Alguns deles persistiam em reafirmar as suas convicções libertárias. Nesta debandada estavam intelectuais como Leonardo Coimbra (59), Jaime Cortesão, Alvaro Pinto (62), Borbom de Menezes, Alfredo Pimenta ou Homem de Cristo Filho (12).

Alvaro Pinto, fundador e director da revista A Aguia (1910) embarcou com outros na ideia de definir a “alma portuguesa”, caindo numa poeirenta corrente saudosista, messiânica e ruralista que irá alimentar a chamada “filosofia portuguesa”. A perspectiva universalista e libertária fora esquecida.

O Partido Republicano no poder, liderado pelo bando de Afonso Costa procurou por todos os meios controlar o país. As promessas de melhorias sociais feitas durante a monarquia foram rapidamente esquecidas. A maioria da população nunca se sentiu representada na República. As leis eleitorais republicanas limitaram drasticamente o direito de voto. Entre 1913 e 1925 o número de eleitores variou entre 397.038 e 574.206, um número muito inferior ao registado durante a monarquia. O sufrágio universal nunca foi aceite pelos republicanos que desconfiavam da população, em particular dos analfabetos (70%) e das mulheres. O parlamento dominado pelo Partido Democrático não podia ser dissolvido, aprovando leis sem qualquer controlo. O único meio para mudar de governo era frequentemente através de golpes militares, um expediente que acabou por se banalizar. 24 governos foram derrubados por revoluções ou golpes militares.

Machado Santos

Depois da implantação da República este antigo chefe da carbonária fez uma ativo oposição a Afonso Costa, envolvendo-se em várias tentativas de golpes de Estado para concretizar as promessas de uma “república social”, no que contou com a colaboração de libertários. Jaime de Castro (farmacêutico), editor de Terra Livre aparece envolvido em dois dos seus golpes militares, ambos contra Afonso Costa: a 27 de Abril de 1913 e a 13 de Fevereiro de 1916 (53). O Intransigente, jornal que fundou, contou com a colaboração de muitos anarquistas como Adolfo Lima ou Emilio Costa desde 1912 com o cargo de redactor.

Violência Republicana

Os republicanos rapidamente se entrincheiraram no Estado e trataram de se armarem contra a população, os monárquicos e as facções internas do Partido Democrático Republicano. Substituíram a famigerada Polícia Civil do tempo da monarquia, por uma não menos sanguinária Polícia Cívica repleta de delinquentes. Em Lisboa e Porto criaram a Guarda Nacional Republicana, um corpo militarizado, igualmente constituído por facínoras para reprimirem os conflitos sociais, mas que não tardaram a participarem em assassinatos e golpes de estado. Para execuções selectivas de jornalistas e sindicalistas criaram a terrível "Formiga Branca". Pretenderam criar umas forças armadas, segundo o modelo suíço, publicando uma ampla reforma em 1911, mas rapidamente desistiram. A ideia do “povo em armas” era incompatível com um “Império Colonial”. Neste sentido foi mantido um corpo permanente praças e de oficiais que na sua maioria eram monárquicos. A república ficou deste modo nas mãos de um corpo de oficiais conservadores e hostis ao próprio regime (68). No ano seguinte, tropa passou a ser usada em acções contra os trabalhadores, o que contribuiu para o seu descrédito junto da população. Foi montada uma poderosa máquina repressiva que procurou sufocar a revolta, através de prisões e deportações em massa.

Neste contexto de enorme violência as bombas artesanais tornaram-se na principal arma de defesa dos cidadãos contra a repressão do Estado José Maria Nunes, em 1912, edita mesmo um manual dedicado explicar o seu fabrico e emprego: A Bomba Explosiva. Acrescenta testemunhos do seu emprego desde a tentativa de golpe republicano de 28 de Janeiro de 1908 ao de 5 de Outubro de 1910. No Porto, no mesmo ano é lançado o jornal de caricaturas - A Bomba - que tinha na direção artística Cristiano de Carvalho e na literária Alvaro Pinto. Eram publicações de libertários que contribuíram para os associar a bombistas.

O movimento operário foi reprimido de forma violenta pelos republicanos. O primeiro ato de hostilidade foi regulamentação das greves (Dec.- Lei 6/12/1910). O governo exigia que as mesmas fossem comunicadas com 8 a 12 dias de antecedência, e reconhecia aos patrões o direito de fazerem Lock-Out, de forma retirarem qualquer eficácia às greves. A lei acabou por não ser respeitada, o que servia de argumento para a brutal repressão dos grevistas. Em Setúbal durante uma greve, Mariana do Carmo Torres e António Mendes, ambos anarquistas, são assassinados no Largo do Carmo a 13 de Março de 1911 pela GNR, recém constituída.

Estas ações repressivas tem uma resposta imediata. 6 de Agosto organiza-se um grande comício operário no Terreiro do Trigo, onde marcaram presença como oradores destacados anarquistas (O Intransigente, nº265, 7/08/1911). No dia 22 de Agosto em Almada numa ação de protesto pela violência policial foram presos entre outros anarquistas Bartolomeu Constantino, Sá Júnior, Inácio Pereira, Jaime de Castro e Teixeira Barbosa (O Intransigente, nº281, 23/08/1911 e seguintes).

O ano de 1912 é marcado por uma forte agitação dos trabalhadores rurais. Os latifundiários do Alentejo desrespeitaram as tabelas salariais que haviam meses antes acordado com os trabalhadores. Estes protestaram junto do Governo Civil de Évora. A resposta do governo republicano foi imediata: o sindicato dos trabalhadores rurais foi encerrado, e os que se destacaram presos e enviados para Lisboa (Inocêncio Vermelho, Artur Nogueira, Manuel Tomás e José Martins). Declarou-se então uma greve geral dos trabalhadores rurais (12/01/1912). A repressão da GNR foi brutal, registando por todo o distrito de Évora espancamentos, prisões e pelo menos uma vítima mortal. Em Lisboa, a 28 de Janeiro declara-se uma greve geral de solidariedade com os trabalhadores rurais que se estendeu a outras localidades (Setúbal, Barreiro, Moita, Montijo). O governo volta à repressão violenta: No dia 30 de Janeiro a Casa Sindical é cercada e são presas cerca de 700 pessoas que aí se encontravam. As mulheres e crianças forma para os calabouços da Governo Civil. Os homens distribuídos entre o navio "Pero de Alenquer", a Penintenciária e o Forte de Sacavém. Os republicanos manifestavam a firme vontade de esmagar pela força o movimento operário. A 30 de Janeiro numa greve em Aldeia Galega (Montijo) são presos duas dezenas de trabalhadores, entre eles vários anarquistas.

A violência fazia-se sentir no quotidiano, onde frequentes os atos arbitrários da policia. O anarquista Manuel de Azevedo quando em Agosto de 1912 passava junto ao coreto na Avenida tocava nesse momento o hino da República. Não tirou o chapéu e acabou linchado, hospitalizado e preso durante dois meses.

No princípio de 1913 estavam presos 113 operários, muitos dos quais rurais (4). No dia 19 de Janeiro o Dr. José Negrão Buizel por participado numa ação de propaganda sindical em Portimão é preso, e remetido para a cadeia do Limoeiro (/A Revolta, nº. 3, 19/01/1913) em Lisboa, onde permanece durante vários meses encarcerado sem culpa formada. Uma prática habitual durante a monarquia e prosseguida na República. A 23 de Fevereiro foi a enterrar em Almada Alípio Fernando Dinis, operário anarquista corticeira que fora assassinado pela policia (A Revolta, nº8, 23/02/1913). Estiveram presentes largos milhares de pessoas, eis quando começa mais um brutal repressão policial (A Revolta, nº9, 2/03/1913)..

No princípio de 1913 estavam presos 113 operários, muitos dos quais rurais (4). A ruptura dos anarquistas com a República ocorreu neste ano. Durante o Cortejo Camoniano de 10 de Junho, o anarquista Valério Benjamim Ferreira segura uma bandeira negra onde está escrito "Pão ou Trabalho", não tarda a ser agredido mas não larga o estandarte. Na Rua Nova do Almada é lançada uma bomba (3), provocando várias vítimas. O governo liderada por Afonso Costa aproveita o pretexto e desencadeia uma brutal repressão dos anarquistas declarando o movimento sindical inimigo da República. Só no Forte da Graça, em Elvas, terão sido encarcerados cerca de 130 presos políticos, sem culpa formada. Pinto Quartim é expulso para o Brasil e o jornal Terra Livre proibido (27). A Federação Anarquista da Região Sul desmembrada e o seu principal impulsionador Bartolomeu Constantino teve que fugir para Trás-os-Montes e depois para Espanha. Valério Benjamim Ferreira acaba por falecer no Limoeiro. Durante o Congresso do Livre do Pensamento em Lisboa, a 5 de Outubro de 1913, com a presença de delegados de vários países, Aurélio Quintanilha (1892-1891) e a sua esposa Suzana distribuem um manifesto assinado pelos sindicalistas presos denunciando a brutal repressão do governo.

O descontentamento com a República era generalizado. A situação agravou-se como início da Grande Guerra. Cerca de 100 mil soldados sem instrução e equipamento militar considerado adequado foram atirados contra as tropas alemãs, primeiro em África (1914) e depois nos campos da Flandres (1917), e o desastre foi completo. Humilhados os militares revoltaram-se contra o regime. Face à deriva dos republicanos no poder sucedem-se os golpes de Estado promovidos pelos próprios republicanos, a que se junta as tentativas dos monárquicos para restabelecerem a monarquia, no que contavam com o apoio da Igreja Católica. Algumas destas intentonas contaram também com o apoio de alguns anarquistas, numa resposta a perseguições que lhes faziam políticos como Afonso Costa.

Sidonismo. Apesar da desilusão com a República os anarquistas nunca abandonaram a defesa da Liberdade e do próprio regime. O golpe militar de 5 de Dezembro de 1917 que instaurou a Ditadura de Sidónio Pais (1918-1919) foi recebido por alguns anarquistas com certa condescendência e até colaboração (56). A razão imediata era simples, neste dia foram libertados 63 presos políticos, entre eles José Gonçalves Tormenta que estava preso desde Janeiro de 1912, quando assassinou o administrador do concelho da Moita, por ocasião da greve dos trabalhadores rurais. A Batalha (nº1, 23/02/1919) referindo-se a este golpe procura encontrar uma resposta para a questão: “Porque colaborou o operariado no movimento revolucionário de 5 de Dezembro”: o golpe assumiu o “carácter dum movimento de libertação” das violências que, sob a direção de Afonso Costa, vinham sendo cometidas. A verdade é que em pouco tempo as prisões voltaram a ficar cheias. Muitos anarquistas que combateram a nova Ditadura foram presos e barbaramente espancados como António Casimiro da Silva, Francisco Rodrigues Franco (1879-1953), José Artur Quaresma (1875-1957), José dos Reis Couto, Norberto Valido (1883-1960), João Maria Major, etc.

A ditadura de Sidónio, o “presidente-rei”, apoiada por monárquicos, católicos, largos sectores de republicanos e até do PS, colocou rapidamente em prática um vasto programa proto-fascista que será mais tarde consagrado em 1933 na Constituição do “Estado Novo”: Um Estado forte e centralizado, apoiado numa vasta máquina policial e militar de vigilância, repressiva e de propaganda, nomeadamente no culto do próprio Sidónio; Um Estado protector dos grandes latifundiários e proprietários agricolas, apostado no controlo dos sindicatos e na diminuição dos salários reais na industria; Colaborante ativo com a Igreja Católica e na difusão de valores tradicionais (Ordem, Deus, Pátria, Família).

Após a morte do ditador, da qual foram logo acusados os anarquistas (58), ocorreu um golpe militar que, sob o pretexto de resgatar a ditadura de Sidónio, pretendeu restaurar a monarquia. Apesar da desilusão com a República os anarquistas nunca abandonaram a defesa da Liberdade e do próprio regime republicano.

A tentativa foi iniciada no norte, sendo liderada por Paiva Couceiro (19 de Janeiro a 13 de Fevereiro de 1919), seguindo-se dias depois em Lisboa (22 a 24 de Fevereiro de 1919).

Em Lisboa, perante a indecisão do governo republicano, os anarquistas saíram em defesa da República (A Batalha, nº1, 23/02/1919), organizaram manifestações, exigiram armas e com elas atacaram as tropas monárquicas acantonadas no Monsanto. Aurélio Quintanilha, que não quis ser militar, uniformizou-se de alferes de artilharia e foi comandar uma bateria que se instalou na Quintinha e atacou os monárquicos. A recompensa pela ação dos anarquistas foi a libertação de António José de Ávila que se encontrava preso na cadeia do Monsanto desde o tempo da ditadura de Sidónio País. Durante a tentativa de restauração da Monarquia no Norte liderada por Paiva Couceiro (19 de Janeiro a 13 de Fevereiro de 1919) e o cerco ao Forte do Monsanto em Lisboa pelos monárquicos (22 a 24 de Fevereiro de 1919) os anarquistas saíram em defesa da República (A Batalha, nº1, 23/02/1919).

No Porto foi constituído um comité que organizou e armou 13 grupos anarquistas para com os republicanos derrotarem os monárquicos, num combate em que se destacaram militantes como Afonso Guimarães (?-1925) (A Batalha, nº3, 25/02/1919).

Na Cadeia do Limoeiro, Gonçalves Correia não deixa de escrever para O Rebelde (nº13, 14/02/1919), um texto cujo título diz tudo: “Viva a República !”. Apesar do desvario dos republicanos havia que defender República.

Numa altura que o movimento anarquista organizava grandes manifestações de repudio pela condenação à morte de Sacco e Vanzetti, os republicanos realizam em Lisboa uma chacina. No impasse provocado de mais um golpe de estado, na noite de 19 para 20 de outubro de 1921, um bando de militares assassina cinco pessoas: António Granjo (primeiro ministro), Machado dos Santos e Carlos da Maia (heróis republicanos do 5 de Outubro), Freitas da Silva e Botelho de Vasconcelos, tendo fracassado noutras tentativas de assassinato. A república entrara num processo de auto-destruição, a que ninguém escapava. No dia 10 de Março de 1922, mais de uma centena de jovens libertários são enviados presos para os fortes de Sacavém e S. Julião da Barra sem culpa formada, um processo que se tornou habitual.

Apesar disto, quando os republicanos resolveram substituir a Primeira República por uma Ditadura, em 1926, os anarquistas uma vez mais vieram para a rua para a defenderem.

Sindicalismo

A implantação da República, marcou o predomínio do sindicalismo no movimento anarquista. A maioria dos militantes concentra a sua acção nos sindicatos operários, concebendo-os com embriões de uma futura organização (sindicalismo revolucionário). Ideia já apontada por Bakunine e depois desenvolvida por outros teóricos sindicalistas. A acção dos sindicatos ultrapassa o domínio das questões laborais, assumiam uma relevante actuação na promoção da cultura e da educação do operariado.

Desde o inicio do século que se prosseguia o objectivo de fundar em Portugal uma confederação geral de sindicatos. A cisão ocorrida entre anarquista e socialista no Congresso Nacional Operário de 1909 impôs a necessidade de um novo congresso apartidário, sendo eleita para o efeito uma “comissão executiva”. Em simultâneo a imprensa anarquista desenvolvia uma intensa propaganda sobre o “sindicalismo revolucionário”. A 13/11/1910 era lançado o jornal O Sindicalista (40), semanário defensor da classe trabalhadora.

A 13/11/1910 era lançado o jornal O Sindicalista (40), semanário defensor da classe trabalhadora. Uma muito dinâmica imprensa sindical informava e formava os trabalhadores.

Apenas a 7 de Maio de 1911 foi possível realizar um congresso de sindicatos, na sala da Associação dos Compositores Tipográficos, na Rua de S. Bento, contando com a representação de 91 sindicatos, abrangendo 35 mil associados. Devido à repressão policial reconheceu-se que não havia condições decidir sobre a confederação sindical, sendo eleita uma nova “comissão executiva para preparar um congresso constitutivo. No Porto não se esperou e constitui-se a União Geral dos Trabalhadores da Região Norte (1911-1913), com uma orientação sindicalista revolucionária.

O Partido Socialista (PS), por intermédio do seu deputado, juntava-se ao governo no ataque aos sindicalistas e condenação das greves (Lumem, Outubro de 1912). Acusam os trabalhadores rurais de Évora de na greve de Janeiro de 1912, que “atingiu extraordinárias proporções devido ao carácter revolucionário que foi revistada” de terem seguido os “elementos sindicalistas” e não as ordens do Partido (A Batalha Socialista, nº. 8, 20/06/1913). A onda repressiva atingiu na altura dimensões nunca vistas. Todos os membros da “comissão executiva” estavam presos em 1913. O PS tentou tirar partido destas prisões e avançou para a realização de um congresso operário nacional sob o seu controlo (O Socialista, 25 e 26 de Setembro de 1913). A Federação Operária de Lisboa ligada a este partido marcou a data do congresso de 30 de Janeiro a 2 de Fevereiro de 1914, na cidade de Tomar. A maioria das associações e a imprensa operária defendia o adiamento. “Na verdade, estando encerradas mais de 20 associações proletárias e presos no Forte de Elvas os mais inteligentes e dedicados propagandistas da organização dos trabalhadores, não achamos oportuna a realização desse Congresso enquanto essas associações não estiverem funcionando novamente. A não ser que haja ocultos motivos políticos, que tendem a desorganizar aqueles operários que não são partidários da desacreditada acção parlamentar, não atinamos com o motivo porque não é adiado para o 1º. de maio, como já foi alvitrado, o Congressso Operário (O Despertar, nº2, 18 de Janeiro de 1914). Apesar de desmascarado o PS insistia na data. Entretanto ocorrem duas greves de ferroviários (Janeiro e Fevereiro) que obrigaram ao adiamento do congresso e o governo libertou os sindicalistas presos, muitos deles sem culpa formada. A manobra do PS caiu por terra.

No Iº. Congresso Sindical de Tomar (14 a 17 de Março de 1914) deu-se mais um passo com a fundação da União Operária Nacional, onde estiveram presentes 103 sindicatos e 7 federações. O passo seguinte foi a realização de duas conferências da UON, uma no norte e outra no sul que uniu os sindicatos do país e reforçou a organização (1917)

A UON surgiu contexto de enorme desilusão, como dissemos, sobre as grandes centrais sindicais europeias. A esperada greve geral revolucionária não ocorreu. Clemente Vieira dos Santos escrevia a este respeito: “Quando o governo alemão falou na guerra, o povo alemão devia marchar não para a fronteira, mas sobre Berlim” (A Aurora, 17/09/1916). Por outro lado, a UON devido às sucessivas manobras do Partido Socialista acabou por assentar numa série de compromissos que limitaram a sua capacidade de ação. Por último, atravessou um período histórico terrível que se salientam duas Ditaduras (Pimenta de Castro e Sidónio Pais), a Grande Guerra e a Pneumónica. O governo nunca reconheceu a sua existência.

A UON em Maio de 1918 inicia a mobilização dos trabalhadores para uma Greve Geral de contra a carestia de vida. Foi brutal a repressão que logo se abateu sobre o movimento operário. Apesar disto nada disso a impediu de marcar, por exemplo, mais de 40 comícios de protesto, mas que logo foram proibidos pelo governo (16/09/1918). A Greve Geral que ocorreu a 18 de Novembro, acabou por coincidir com o pico da Pneumonia e o armistício da Guerra, retirando-lhe algum impacto. A repressão policial e militar foi de extrema violência, nomeadamente no Alentejo. A UON, em Dezembro de 1918 apresentou ao governo de Sidónio Pais uma série de reivindicações, comprometendo-se a abrandar as lutas operárias se as mesmas fossem satisfeitas (A Batalha, nº98, 2/06/1919), o governo ignorou-as.

Face à gravidade que se vivia no país, marcado pelo aumento da miséria e da violência, em Janeiro de 1919, uma comissão composta por Pinto Quartim, Raul Neves Dias, Francisco Cristo, José António de Almeida, Eduardo Freitas, Joaquim Cardoso e Hilário Marques propõe ao Conselho da UON a edição de um jornal diário orgão do movimento sindical. A 23 de Fevereiro saía o primeiro número, reflexo da extraordinária capacidade de decisão e realização que o mesmo dava mostras..

No IIº. Congresso da UON que ocorreu entre 13 e 15 de Setembro de 1919 foi finalmente criada a Confederação Geral do Trabalho (1919-1964 ?) (46). Neste congresso fizeram-se representar 119 sindicatos com mais de 130 mil filiados, tendo nele sido aprovadas as teses do ideário anarquista para os sindicatos também designadas por "sindicalismo revolucionário".

Os sindicatos até 1919 assentavam numa estrutura essencialmente local: os trabalhadores organizavam-se numa dada cidade ou vila em sindicatos de oficios, o que dificultava a sua união devido à sua excessiva pulverização. A CGT trouxe uma nova organização sindical: os trabalhadores passaram a organizarem-se em sindicatos únicos por industria, o que aumentou o seu poder reivindicativo. Por outro lado, como explicava Adolfo Morais (pseudónimo de J. Carlos Rates) n´A Batalha (nº37, 1/04/1919) era pensada tendo em vista uma futura organização social. Nesta organização sindical que seguia o modelo da CGT francesa, continuava a faltar as organizações de base, como as Câmaras Sindicais que integraram elementos assalariados e não assalariados para intervirem nos problemas locais (habitação, educação, cultura, alimentação, preços, etc). Estas uniões locais de sindicatos seriam os embriões de uma municipalidade futura (A Batalha, nº137, 13/07/1919). Questão foi retomada em 1923.

A 23 de Fevereiro de 1919 começa a publicar-se o diário A Batalha, inicialmente como orgão da UOP e depois da CGT. A intensa atividade de publicações do jornal e dos meios anarquistas (13), secundava uma ativa ação contra o patronato e as crescentes inclinações ditatoriais na República, a que aderiam largos sectores republicanos, católicos e monárquicos.

A Batalha foi várias vezes proibida e logo de seguida se procurava encontrar publicações alternativas, como: Avante ! , diário de tarde, que saiu em 1919, sob a direcção Carlos José de Sousa; Imprensa de Lisboa (1921), orgão dos trabalhadores dos jornais, director Campos Lima. Tinha duas edições - manhã e tarde.

No principio dos anos vinte o movimento sindical somava muitas conquistas, mas que continuavam a exigir lutas permanentes para serem aplicadas, tais como: As compensações por acidentes de trabalho regulamentadas em 1913 (Lei 83, Junho de 1913) eram frequentemente recusadas por juizes corruptos; O horário de trabalho de 8 horas diárias foi consagrado em 1919 (Dec. 5516, 7/05/1919), mas as greves para o cumprir continuaram; Os seguros sociais que visavam abranger todos os trabalhadores, embora fossem regulamentados em maio de 1919, estavam longe de serem generalizados. Fruto da constante pressão deram-se alguns passos na construção de bairros operários. A ação sindical não se limitava à esfera reivindicativa, nomeadamente de aumentos salariais ou melhores condições de trabalho, prosseguia numa intensa obra da alfabetização e formação cultural dos trabalhadores.

As Juventudes Sindicalistas (JS) são criadas em Janeiro de 1913, resultantes de anteriores organizações como a Juventude Libertária (1912). Em pouco tempo atinge uma dimensão nacional, embora o seu apogeu ocorre depois de 1919. A repressão policial procurava de forma sistemática aniquilá-la através de prisões e deportações. A 30 de Setembro de 1919, por exemplo, um comício das JS contra a Carestia de Vida é disperso pela policia. Entre os que se refugiam na sede da CGT 83 são presos. A 18 de Janeiro de 1920 é publicado o primeiro número do jornal O Despertar , orgão da JS que declaravam que a maioria dos seus membros eram filiados na CGT.

Em 1921 realiza o seu primeiro congresso e em 1926 o segundo. Entre 25 e 27 de Outubro de 1924 realizaram no Porto uma importante “Conferência Juvenil”. A sua atividade sem paralelo na Europa foi muito intensa e diversificada.Manuel Viegas Carrascalão secretário das JS, por exemplo, em Outubro de 1926 é preso e deportado para Timor.

Pluralidade de Correntes

Dentro do movimento anarquista a estratégia do sindicalismo revolucionário embora fosse predominante não era limitativa. O Congresso Anarquista de Amesterdão em 1907 já tinha colocado em confronto as posições de Pierre Monatte e Malatesta.

Monatte defendia que os anarquistas se deviam diluir nas organizações sindicais, onde seriam criadas as estruturas necessárias à emancipação dos trabalhadores. Após a Revolução Social o Estado atual seria substituido, na excelente expressão de Campo Lima, por um "Estado Sindicalista" dirigido por sindicalistas, e nesse sentido deviam prepara-se para essa magna tarefa política. Uma "greve geral revolucionária" marcaria o fim do capitalismo e o princípio de um novo mundo. Os sindicatos eram um meio e um fim em si mesmo.

Malatesta defendia pelo contrário que a construção da Anarquia ultrapassava as lutas sindicais, enquadradas por um quadro legal e centradas em reivindicações laborais (contratos, salários, horários e condições de trabalho). Importantes lutas para a transformação social nem sequer convinham que o fossem assumidas pelos sindicatos, pois podiam enfraquecê-los. Era sabido que quando os sindicatos decidiam lutar contra o parlamentarismo, militarismo ou nacionalismo afastavam muitos trabalhadores, pelo que optavam por manter uma posição "neutral" sobre estas questões. Eram combates que só podiam ser travados por organizações anarquistas fora dos sindicatos, embora neles pudessem e devessem ser discutidos. Eram questões que implicavam uma profunda mudança de mentalidades, e entendimento sobre a natureza do poder, etc. Os sindicatos eram um meio privilegiado onde se exercia a ação revolucionária, mas não exclusivo. A revolução social era mais complexa que os "sindicalistas revolucionários" conjeturavam. A Insurreição armada era, por exemplo, indispensável.

Em Portugal a alegada divisão entre anarquismo e sindicalismo revolucionário era essencialmente tática, o que não impediu que durante décadas a questão fosse amplamente debatida (28). Um número considerável de obras foram publicadas sobre este assunto. De forma mais ou menos consistente podemos identificar alguns protagonistas destas duas posições.

Seguindo as teses de Monatte destaca-se Manuel Ribeiro incansável tradutor de obras como "O Sindicalismo" de F. Challaye (1912) onde defende a ideia que o sindicalismo se bastava a si próprio. José Carlos Rates chega ao ponto de em 1920, defender a "Ditadura do Proletariado" pela CGT!. Adolfo Lima consagra a tese da suficiência do sindicalismno nos Congressos da CGT na Covilhã e Santarém.

Seguindo Malatesta sobressaia Neno Vasco que desde 1911 divulgava as suas ideias em Portugal, tentando conciliar o anarquismo com o sindicalismo. Pouco antes de falecer escreve um das obras mais consistentes do anarquismo em Portugal: Concepção Anarquista do Sindicalismo, publicada em 1923 pela Editorial A Batalha. Na mesma linha temos Manuel Joaquim de Sousa, Emílio Costa, Adriano Botellho ou Campos Lima.

Para além do sindicalismo muitas outras causas continuaram a serem abraçadas pelos anarquistas.

Educação

A educação ocupava uma posição central no pensamento e ação dos anarquistas na construção de uma nova sociedade, alicerçada sobre o esforço e aperfeiçoamento individual. Acreditavam que mudando os métodos e conteúdos de ensino podia-se criar pessoas mais livres e conscientes, verdadeiros cidadãos de um mundo novo. Deixaram a sua marca na Escola Oficina nº1 de Lisboa, em Universidades Populares (6), numa rede de escolas operárias, bibliotecas e em inúmeras iniciativas promotoras de uma cultura libertária. Entre 1917 e 1925 contabilizavam-se 41 escolas operárias no país, situadas sobretudo em Lisboa e no sul do país, sem contar com as da Voz do Operário (29).

Os Sindicatos ligados aos movimento anarquista desenvolviam um intenso programa de alfabetização e cultural para os seus membros, criando cursos, escolas, bibliotecas, editando jornais, revistas, livros numa ação cuja verdadeira dimensão ainda está por estudar.

Entre os muitos anarquistas envolvidos nesta campo de ação destacaram-se Adolfo Lima (1874-1943), Campos Lima (1877-1956), César Porto, Faria de Vasconcelos, Mário de Oliveira (1892-1970), Deolinda Lopes Vieira (1988-1993)(8), Lucinda Tavares, Augusto Carlos Rodrigues (1881-1956), Aurelio Quintanilha (1892-1987), António Manaças (25), Virgílio Santos, Francisco Quintal (1898-1987), João Vieira Alves (1904-1971),Severiano de Carvalho, Carlos José de Sousa entre muitos outros. Não se limitaram a organizar escolas e ensinar, produziram uma apreciável quantidade de publicações que neste periodo salientamos as seguintes: Revista Lumen (1911-1912), Revista A Educação Social. Revista de Pedagogia e Sociologia (1924-1927), Direção de Adolfo Lima;.

Reclus nas suas notas sobre Portugal não deixou de registar que ficara surpreendido com a dimensão do analfabetismo em Portugal. No início do século XX atingia os 80%. Implantada a República os republicanos não tardaram a esquecer o que haviam prometido. Em 1926 haviam mais analfabetos que em 1909. Eram factos que justificavam a ativa militância anarquista neste domínio. O combate pela Liberdade, como afirmava Proudhon, passa também pela luta contra a ignorância.

Não se limitaram a organizar escolas e ensinar, produziram uma apreciável quantidade de publicações e traduções: Heaford, William (1910). A Escola Moderna de Barcelona. Lisboa: Guimarães & Ca, Editores; Revista Lumen (1911-1912), Educação, Lisboa, nº1, 1913, revista da Escola-Oficina, e em 1918 saiu o Boletim; Escola Moderna, Aveiro, 1914; Lima, Adolfo (1914). Educação e Ensino – Educação Integral. Lisboa: Guimarães & Ca. Editores; Lima, Adolfo (1916). Orientação Geral da Educação. Educação Geral e Especial: Educação Técnica. Separata da “Revista de Educação Geral e Técnica”. Lisboa: Casa Portuguêsa; Revista A Educação Social. Revista de Pedagogia e Sociologia (1924-1927), Direção de Adolfo Lima; revista Escola Nova (1924, Coimbra), orgão da Associação dos Professores de Portugal.Director: Almeida Costa.

Feminismo

Muitas mulheres anarquistas sempre se evidenciaram-se na luta, mas a sua ação está ainda pouco estudada. A imprensa libertária dava uma especial atenção à condição das mulheres trabalhadoras, igualdade de género, mortalidade infantil e das mulheres nos partos, contracepção, etc. Muitas das temáticas abordadas nas imprensa libertária só voltaram a ser tratados depois de 1974 quando ainda provocavam grande escândalo social… Combates em que se destacaram muitos jornais, como O Germinal de Setúbal, fundado em 1903.

Numa análise sistemática a três publicações anarquistas entre 1908 e 1919, foram identificados os tópicos desta abordagem: a) A denúncia dos esteriótipos de género e a sua submissão à moral vigente; b) a crítica às diferentes condições de vida das mulheres trabalhadoras e das burguesas; c) A intima relação entre a dominação de género e a dominação de classe; d) a necessidade de uma emancipação feminina, constatando-se todavia que a mesma estava muito dependente da libertação de outras formas de domínio: política, social, religiosa, simbólica, etc. (5).

Como expressão deste movimento surgiram várias organizações como a União das Mulheres Anarquista formada em Lisboa (1912-1915) que desenvolveu uma intensa propaganda emancipadora, onde se distinguiram Júlia Cruz (companheira de Bartolomeu Constantino) e Margarida Paulo. Federou-se na Federação Anarquista da Região Sul (1913-1914) e depois na União Anarquista-Comunista (1915). No Porto destacaram-se os Grupos Femininos Anarquistas Luisa Michel (1924-1926) e Carolina Micaelis composto exclusivamente por mulheres, a maioria das quais casadas com anarquistas e com militância nas Juventudes sindicalistas. Muitas outras mulheres anarquistas destacaram-se nomeadamente na organização sindical das trabalhadores ou no apoio que deram a presos, como Laura Arrábida de Sousa ou Luisa do Carmo Franco.

Era uma ação vista com enorme desconfiança pelos republicanos que temiam a intervenção politica das mulheres, dado as considerarem facilmente manipuláveis, nomeadamente pelos padres. A maioria (analfabetas) eram encaradas como potencialmente inimigas da Liberdade, dai a oposição que faziam ao sufrágio universal. A grande prioridade das próprias feministas republicanas era no adultério equiparar mulheres e homens (49)..

Ateísmo e Sexualidade

A crítica à moral vigente, como vimos, foi sempre um importante campo de batalha dois anarquistas. A religião e a libertação sexual estavam neste domínio interligadas que originaram a produção de uma extensa literatura de vários anarquistas: Neno Vasco: O Pecado da Simonia, 1920, comédia anticlerical; José Carlos de Sousa: Missionários do Erro; etc. Jornais anti-clericais como A Lanterna (1911), contavam com uma empenhada colaboração de anarquistas como Neno Vasco.

A religião católica até 1910 era a religião do Estado português. Apesar de proclamada a liberdade religiosa a verdade é que todo o sistema que estava montado negava esta liberdade. A custo, como vimos, foi possível o registo civil e os enterros civis para os não religiosos. A separação da Igreja do Estado, conduzida de forma brutal pelos republicanos foi um importante passo no sentido de uma maior liberdade

O fenómeno de Fátima que emerge a partir de 1917 e à volta do qual se vai agregar a Igreja Católica em Portugal, não parece ter interessado aos anarquistas. Remeteram-no para o campo da religiosidade popular com a qual eram condescendentes.

O fenómeno de Fátima que emerge a partir de 1917 e à volta do qual se vai agregar a Igreja Católica em Portugal, não parece ter interessado no inicio os anarquistas que o remeteram para o campo da religiosidade popular com a qual eram condescendentes. Não deixa de ser curioso referir que um dos primeiros negociantes a explorar o fenómeno de Fátima - Gilberto Fernandes dos Santos foi tido como “anarquista”. Foi ele que mandou fazer e ofereceu a imagem de Fátima (1920), dedicando-se durante anos a explorar a crendice popular. Na panóplia do seus produtos não faltava a “´Água de Fátima”, postais e santinhos cuja aquisição garantia milagrosos resultados. No auge desta exploração política pela Igreja e a Ditadura de Salazar, Tomás da Fonseca, em 1955, publica na editora libertária Germinal, no Rio de Janeiro, a sua conhecida obra: Fátima. Cartas ao Patriarca de Lisboa.

A moral religiosa vigente era profundamente conservadora dos costumes, castradora da sexualidade. Aquilo que os anarquistas propunham era uma rutura profundada nas crenças e na sexualidade dos portugueses.

O combate pela libertação sexualidade, como vimos, desenvolvia-se em torno das teorias neomalthusianistas, mas também do amor livre. Ideias que afrontavam a moral religiosa, mas também a visão republicana da mulher: mãe e procriadora. Um combate em que se distinguiu Jaime Brasil (1896-1966), com vários livros editados entre 1931 e 1933 sobre sexualidade que o forçaram a exilar-se em Espanha e França.

Edições: A Emancipação da Mulher (1910), J. Novicow; Mulheres, não procreeis ! (1911), de José Teixeira Junior; O Amor Livre (1915), de Charles Albert, numa tradução de Manuel Ribeiro; Calvário da Mulher, de Maria Feyo (1915); Procreação Consciente, ed. A Sementeira (1920); etc.

Antimilitarismo e a questão da Grande Guerra

Desde o principio do século XX que se esperava uma grande guerra na Europa, daí a intensa propaganda antimilitarista. Em Portugal, a mentalidade autoritária de monárquicos e republicanos era profundamente belicista. Não admira que dias depois da implantação da República já o primeiro governo provisório encomendava ao Ministério da Guerra a organização da instrução militar nas escolas públicas e privadas. Contra esta medida insurge-se a imprensa libertaria. A Sementeira (Dezembro de 1910) adverte que a mesma criaria uma mentalidade conservadora, o “fanatismo religioso”, a“ deificação militarista” e o “patriotismos patético”, abrindo o caminho a “qualquer aventureiro militar cezarista, ignobilmente ambicioso, ligando-se ao padre, à cruz, explore o filão sempre fecundo do misticismo guerreiro, patriótico e e deista”, destruindo a própria República, o que veio à acontecer.

Quando em 1912 rebentou a guerra nos Balcãs, era evidente que se caminhava a passos largos para uma nova guerra. Multiplicaram-se as iniciativas dos anarquistas a favor da Paz, realizando-se comícios em Lisboa, Porto, Setúbal e Évora. No dia 15 de Dezembro de 1912, por exemplo, foi organizado um grande comício no Terreiro do Trigo em Lisboa, onde foi aprovado uma moção se declarava: “O povo operário português resolve… impedir a mobilização do exército português se por acaso os nossos governantes tiverem a valeidade de pretender que Portugal tome parte da conflagração europeia”. Sucederam-se também as prisões. Raul Magalhães Coutinho é preso por afixar placares anti-militaristas (A Revolta, 9/03/1913).

Entre os libertários havia uma total unanimidade nesta condenação da guerra. Após a sua eclosão, a 1 de Agosto de 1914, cria-se uma ruptura no movimento anarquista internacional. Kropotkine, James Guillaume, Charles Malato, Jean Grave, Cornelissen entre muitos outros assumem abertamente uma posição belicista contra a Alemanha. Esperava-se também que as grandes centrais sindicais operárias europeias proclamassem um greve geral revolucionária, o que não aconteceu. Foi uma desilusão marcada por acusações de traição.

Em Portugal cavou uma enorme divisão entre os que defendiam a intervenção contra a Alemanha e os que condenavam a própria guerra e persistiram neste combate. Entre os primeiros estavam Emílio Costa, Augusto Machado, Lopes de Oliveira, Manuel Ribeiro, Campo Lima, Severiano de Carvalho, Bernardo Sá, Adolfo Lima e Sebastião Eugénio, contando na impressa libertária com o jornal Germinal. Entre os segundos sobressaiam Neno Vasco, Aurélio Quintanilha, Clemente Vieira dos Santos, Manuel Joaquim de Sousa, C. Rodrigues, Giordano Bruno, Magalhães Júnior e José Franco tendo como principal orgão de combate A Aurora. As acusações mútuas acabaram por ter reflexos negativos, como veremos, no desenvolvimento das organizações acratas.

As Juventudes Sindicalistas, criadas em 1914, à semelhança da sua congénere francesa, assumiu desde o inicio uma firme posição contra a guerra e o militarismo (O Despertar, “Em Tempo de Guerra, nº. 5, janeiro de 1915; idem, números 9 e 10, Setembro e Outubro de 1915), no que era secundada pela Juventudes Libertárias, distribuindo comunicados dentro dos quartéis apelando à revolta e deserção.

No Congresso Internacional da Paz, em El Ferrol (Abril-Maio de 1915), os anarquistas portugueses fazem-se representar: Manuel Joaquim de Sousa e Mário Nogueira pela União Operária Nacional, acompanhados de Serafim Cardoso Lucena, Ernesto da Costa Cardoso, António Alves Pereira (1885-1954) da revista A Aurora, e Aurélio Quintanilha em representação das Juventudes Sindicalistas de Portugal e de França. Foram todos presos e postos na fronteira. No regresso esta delegação inicia uma série de conferências pelo país, e em Viana do Castelo Quintanilha é preso. Em Lisboa constitui-se um secretariado para elaborar e difundir comunicados anti-militaristas em várias línguas.

As consequências do inicio da guerra em 1914 rapidamente se fizeram sentir. Disparou a especulação dos preços dos bens alimentares, registando-se os primeiros assaltos a estabelecimentos comerciais. O aumento do preço do pão provocou o assalto às padarias em março de 1915. A luta contra o militarismo associa-se à luta contra a especulação. Aumento da miséria, revolta social e repressão policial passam a andar juntas. No dia 9 de março, quando discursava é preso em Faro José Francisco. Num Comício no Barreiro, a dia 17 de Outubro, promovido por uma “comissão de operários”, a União Anarquista Comunista faz-se representar por Bartolomeu Constantino e Alfredo da Cruz, em mais um protesto contra a fome que se generaliza. Em fins de Outubro ocorre um motim das peixeiras de Lisboa, e na outra banda, em Cacilhas são assaltados depósitos de azeite, segue a repressão com novas prisões, incluindo de anarquistas. Face à barbárie, na Comuna Livre, Bernardino dos Santos, escreve sobre “A Bomba ao serviço de uma causa” (nº3, 29/11/1915). O apelo ao uso da bomba é claro.

Os apelos à revolta eram constantes. No dia 28 de Janeiro de 1916 é distribuído em Lisboa, um manifesto que apelava à insurreição e formação da “comuna portuguesa” (A Aurora do Porto, transcreve-o). No dia seguinte desencadeia-se em Lisboa, sobretudo em campo de Ourique e Alcantara uma onda de assaltos e confrontos sangrentos com a polícia, com dezenas de presos. Segundo o director da policia de investigação, a 9 de Fevereiro tratava-se de um insurreição organizada pelos anarquistas (Germinal, nº2, Março de 1916). A Casa Sindical de Lisboa e sedes de sindicatos são assaltados pela polícia.

Após a entrada de Portugal na guerra (9 de março de 1916) sucederam-se as prisões dos opositores anarquistas à intervenção como Emílio Freitas da Silva, António Casimiro da Silva, José dos Reis Couto ou Sabina Lopes Condeça (1888-1977).

Perante os protestos contra a guerra, a 4 de maio de 1916 é publicado um decreto que sujeita à jurisdição militar actos e factos de natureza civil que “por qualquer meio de propaganda subversiva verbal ou escrita, publica ou clandestina, aconselhem, instiguem ou provoquem os cidadãos portugueses ao não cumprimento dos seus deveres militares , ou ao cometimento de actos atentatórios da integridade e independência da Pátria”. Os anarquistas eram os visados. Apesar das proibições a luta prosseguiu contra a guerra-especulação-miséria. No dia 18 de Setembro os mineiros de S. Pedro da Cova invadem a cidade do Porto , no “Cortejo da Fome”. Um jovem anarquista - Alves da Silva que liderava o protesto acaba morto pela polícia. (Luta Social, nº.1, 20/03/10917). Ainda no Porto, 9 de Outubro de 1916 são assaltadas esquadras da policias, registando-se muitas prisões e alguns mortos. A partir de Setembro de 1916 sucedem-se a luta dentro dos quartéis (levantamentos de rancho, insubordinações, deserções..), assim como greves em estabelecimentos militares, incêndios, recusas de embarques.

As lutas no ano de 1917 não forem menores do que no ano anterior. A revolta estendeu-se ao “Corpo Expedicionário “ em França.

Desde 1914 que a fome começou a alastrar pelo país. Neste ano, assistiu-se no Porto, em Setembro, aos primeiros assaltos a estabelecimentos de viveres. Depois de 1916, este movimento adquiriu uma dimensão nacional, acompanhado do uso de bombas e confrontos com a policia. O Governo em março de 1916 desencadeia uma feroz repressão contra a UON. Em Lisboa, no ano seguinte, disparam os assaltos a armazéns de alimentos (12 a 20 de Julho) assim como a ferocidade da repressão. A UON finalmente a 18 de Novembro de 1918, resolve promover uma greve geral de protesto

Depois o armistício prosseguiu a propaganda anti-militarista. Era evidente que uma nova guerra mundial iria acabar por surgir. Em 1919 o soldado Roque é preso por durante a greve geral dos ferroviários andar a distribuir panfletos anti-militaristas ( A Batalha, nº148, 24/07/1919). António M. Peixe era preso em Almada pela mesma razão. O mesmo motivo justificou em Setembro a prisão de mais de cem jovens da Juventudes Sindicalistas..

O antimilitarismo afrontava directamente dois valores centrais dos republicanos: nacionalismo e militarismo.

Durante a Primeira República deram um enorme poder aos militares acabando por cair nas suas mãos. Nos dezasseis anos que durou tentaram resolver os problemas sociais do país através de intervenções militares, os quais não tardaram a banalizar-se. Neste período ocorreram 42 golpes militares, incluindo as incursões monárquicas. O golpismo acentuou-se depois da primeira guerra. O impacto deste conflito mundial foi enorme na militarização da sociedade: a mobilização atingiu um terço da população masculina com idade para combater. A administração das colónias foi entregue a militares. O medo de perderem as colónias aumentou a onda nacionalista ganhando crescente apoio os discursos nacionalistas, xenófobos e racistas.

O nacionalismo republicano apoiava-se também numa alegada missão transcende que o país possuía: a criação de um "Império Espiritual", ideia cara à maçonaria e que irá ser prosseguida pela chamada "filosofia portuguesa". Tratava-se no discurso ideológico que negava uma abordagem frontal dos atrasos estruturais do país. O internacionalismo e antimilitarismo dos anarquistas ao combater abertamente estes valores despertava o ódio dos republicanos e outras forças conservadoras. O medo de perder as colónias aumentou a onda nacionalista ganhando crescente apoio os discursos patrioteiros, xenófobos e racistas. Algumas publicações antimilitaristas: A Guerra, S. Pinho (1912)

A Primeira República deu aos militares um enorme poder, através da militarização da sociedade, para o qual contribuiu o estabelecimento das serviço militar obrigatório, que durante a Grande Guerra levou à mobilização de um terço da população masculina com idade para combater. Durante os dezasseis anos que durou o regime tentaram também resolver os problemas sociais através de intervenções militares que não tardaram a banalizar-se. Neste período ocorreram 42 golpes militares, incluindo as incursões monárquicas. O golpismo acentuou-se depois da Grande Guerra. Entregaram a administração das colónias aos militares. Depois de 1918 a sua presença nos diversos governos foi-se acentuando. Até 1926 doze dos vinte e seis Ministérios (46%) eram presididos por militares, no período anterior (1910-1918) o seu número foi muito inferior (15%) (69). A 28 de maio de 1926, como veremos, instauraram durante sete anos uma Ditadura Militar.

Anticolonialismo

Em Portugal os anarquistas não apenas denunciaram desde a barbárie cometida pelos europeus nas colónias, como também defenderem a sua independência. Emílio Costa, por exemplo, em 1902 num jornal anarquista de Portalegre, O Amigo do Povo desmonta a argumentação patriótica e civilizadora da posse destes territórios. Neste domínio a rutura dos anarquistas com os socialistas e republicanos era completa que assumiam uma posição colonialista.

Em Moçambique os anarquistas organizaram os operários do porto e caminhos de ferro, de forma lutarem por melhores condições de vida, preparando-os para a sua emancipação e independência do território.

Em 1917, por exemplo, a 2ª. Conferência Socialista Interaliada em Londres, contou com a presença de representantes do Partido Socialista (PS). Um dos temas em debate era a questão das colónias. O representante do PS que estivera em Londres, numa reunião em Lisboa relatou a forma empenhada como o partido havia defendido as colónias de Portugal (15). A Sementeira arrasa esta posição hipócrita dos socialistas, num artigo intitulado “Liberdade dos Povos”:

“Independência dos povos, direito dos mesmos a disporem de si próprios, guerra pela liberdade, pela democracia… Isto, porém, não se aplica às colónias, ao “império além-mar”, ao “património colonial”, cujos povos ainda menores e incapazes de se governar, devem continuar sujeitos à autoridade paternal… que não tem pressa de os emancipar, nem de os habilitar a isso.” Prossegue a revista anarquista: nesta conferência, a delegação portuguesa esqueceu-se da democracia, do socialismo, da independência dos povos. “Foi (a Londres) para defender o que é “nosso”, a “herança dos nossos maiores”, a nossa propriedade…”, A Sementeira, Novembro de 1917. .

Carlos Rates, primeiro-secretário do PCP, num dos seus decretos para a Ditadura do Proletariado em Portugal, aceita a escravatura dos povos da colónias e a possibilidade das mesmas serem vendidas para saldar a dívida pública portuguesa. A posição anticolonialista dos anarquistas nunca vacilou. Não era caso único entre os comunistas: o Comité Executivo dos partidários da ISV” acusa a CGT de descurar a perda das colónias (A Internacional, nº53, 28/11/1925). A posição anticolonialista dos anarquistas nunca vacilou.

Mário DominguesA Batalha, em 1922, lançam uma campanha contra o colonialismo em defesa da independência de Angola, Moçambique e outras colónias portuguesas (7). Funda em Lisboa uma organização de jovens para pugnar por esse objectivo. No Congresso da CGT, em 1925, a questão da escravatura em África, a necessidade de uma organização dos negros para a sua libertação é amplamente discutida, sendo aprovada uma revolucionária moção estratégica para a revolta nas colónias portuguesas.

Mário Castelhano nos três anos que viveu deportado em Angola (1927 - 1930) deixou-nos um retrato que tem sido injustamente ignorado sobre a condição dos negros neste território, e o que devia ser feito para a sua emancipação e independência (cfr. Quatro Anos de Deportação). Arnaldo Simões Januário, em plena Ditadura Militar conseguiu publicar na revista Aurora (1930) uma série artigos sobre a brutalidade do colonialismo neste território, os quais infelizmente não puderam ter continuidade. A revista foi proibida e as suas instalações assaltadas pela policia.

Esperanto

As posições cosmopolitas e pacifistas dos anarquistas leva-os a abraçarem desde muito uma lingua universal que se dá a conhecer em 1887. Em 1909 surge no Porto a primeira publicação esperantista Portugala Revuo, e logo de seguida o Grupo Novos Horizontes de Algés, dinamizado por Augusto Machado estava a editar a revista Universal em lingua de Zamenhof. O crescimento do movimento após a implantação da Republica é acompanhado de um enorme entusiasmo pela difusão do esperantismo. Multiplicam-se os cursos e os meios de aprendizagem. A. Pimentel e Alberto Pedro da Silva editaram uma livro para destinado à aprendizagem desta língua. Em 1919 é criada a Federação Esperantista Operária (Portugala Laborista Esperanto- Federacio), cujo orgão "Laboro" (Lisboa, 1920) era animado entre outros por Abílio Ribeiro e Adolfo Nunes. Entre os muitos grupos anarquistas esperantistas por todo o país, registamos "La Vero" que procurava difundir esta lingua no meio operário, publicou o jornal La Vero (nº1, janeiro de 1922).

A neutralidade assumida pelo esperantismo foi cedendo lugar a movimentos comprometidos com a luta contra os nacionalismo e a emergência de regimes ditatoriais. O Partido Comunista da União Soviética não tardou também a procurar controlar as organizações esperantistas. Em 1923 surgia na Russia um planfleto onde se afirmava que os anarquistas e os sociais-democratas eram mais perigosos que a burguesia declarada (30). As divisões entre os esperantistas não tardaram a acentuarem-se, contribuindo para o crescente declinio. Dado o carácter internacionalista, mas também anti-militarista deste movimento tornou-se um alvo a abater. A Associação Esperantista foi oficialmente proibida em 1936. Apesar da proibição, o ensino do esperanto continuou na clandestinidade e ainda nos anos quarenta os anarquistas editaram um jornal esperantista clandestino.

Vegetarianismo, Naturismo

Defensores de uma relação harmoniosa com a natureza, muitos foram os que se envolveram na propaganda por novos hábitos alimentares e estilos de vida saudáveis, prefiguradoras de uma sociedade mais livre. Entre os militantes que abraçaram a causa do vegetarianismo destacou-se Ângelo Jorge, diretor de O Vegetariano (1909-1935), Amilcar de Sousa e Luciano Silva. Entre os militantes defensores do Naturismo, destacaram-se Celso Ferreira Xavier, José Peralta e Gonçalves Correia que participou no I Congresso Vegetariano e Naturista da Península, que ocorreu em Lisboa em Junho de 1919, com a comunicação "Naturismo e Comunismo: uma aliança sagrada". A Costa da Caparica até ao final dos anos quarenta era um dos locais de eleição de encontro de libertários e da prática de nudismo. Pugnando por uma vida saudável não é de estranhar que no edificio da sede da CGT funcionasse a Associação Anti-Alcoolica Operária.

Defesa dos Animais

Apostado numa mudança de mentalidade advogavam não apenas uma outra relação com a natureza, incluindo com os animais. Neste sentido opunham-se também ao sacrificio e morte de animais para diversão, como as touradas. Prova disso foi a publicação do texto da conferência em 1925 na Associação de Classe de Empregados de Escritório de Vitória Pais Freire de Andrade intitulada A Acção Dissolvente das Touradas. Um vasto número de apoiantes (grupos anarquistas, CGT, sindicatos, universidades populares) apelaram à sua ampla difusão, como veio a acontecer.

Urbanismo e Inquilinato

As críticas de Élisée Reclus e P. Kropotkine na esteira de Pierre Joseph Proudhon criticam as condições degradantes em que os os trabalhadores viviam nas cidades e a destruição da natureza que a expansão desordenada das cidades estava a provocar. Preconizam uma nova concepção urbanistica, assim como uma mudança na relação dos seres humanos com a natureza. Estão na base da chamada cidade-jardim defendida por Ebenzer Howars (9), cujos discipulos tiveram uma enorme influência sobre os primeiros urbanistas portugueses como Faria da Costa.

Um dos principais problemas que os operários se debatiam eram com as degradantes condições de habitação, cujas rendas eram elevadissimas para os salários que recebiam. A situação agravou-se depois da primeira mundial com o aumento da migração dos camponeses para as cidades.

A especulação imobiliária levava a violentos atos de revolta contra os especuladores, como foi o caso praticado pelo corticeiro José Manuel, autor em 1922 de um atentado contra o proprietário das barracas da Rua Tomás Ribeiro, em Lisboa. Homem solidário acolhia na sua modesta casa um dos filhos dos mineiros grevistas de Aljustrel. Não suportou assistir à expulsão de cento e cinquenta inquilinos por um senhorio que usava mandatos falsos para o fazer. Uma indignidade que o Estado não punia, mas para a sua consciência de anarquista era insuportável (23).

Esta questão era uma das preocupações dos anarquistas e do movimento sindical estando envolvidos na organização e na luta dos inquilinos, nomeadamente na criação da Associação dos Inquilinos Lisbonenses (1924).

Cooperativismo

A criação de cooperativas, nomeadamente de consumo, esteve sempre nas preocupações dos anarquistas desde os seus primórdios em Portugal. Desde o XIX que as cooperativas eram encaradas como meios de libertação dos trabalhadores, ao criarem na economia de mercado formas alternativas de crédito, consumo e produção. Charles Gide sistematizou em 1889 no programa das três etapas (11) as ideias de transformação social pacifica através das cooperativas, concepção que terá a sua expressão na "república de cooperativas" (Ernest Poisson,1920). Ideias que foram adoptadas e difundidas por anarquistas como Daudé-Bancel (Antoine Doudé Achile, 1870-1963). A verdade é que o cooperativas raramente saíam da esfera reformista, forçadas a adoptar métodos de gestão próprios de empresas capitalistas para puderem sobreviver. O número de cooperativas rondava as quatro centenas, quando em Lisboa se formou a Federação Nacional de Cooperativas (1920) que editou o jornal Ação Cooperativa (1922-1925). No Porto criou-se a Sociedade Cooperativa União Central de Abastecimentos (1922). Socialistas mais do que os anarquistas estavam envolvidos neste movimento.

No entanto, a difusão da ideia que a organização sindical (vertical e horizontal) poderia gerir todo o consumo e produção numa sociedade futura acabou por secundarizar o papel revolucionário atribuido às cooperativas.

A sua função para uma transformação social é abordada na obra de Campo Lima - A Revolução em Portugal (1925), onde repete as criticas que eram feitas às cooperativas: a maioria não se distingue no seu funcionamento de empresas capitalistas, nomeadamente na distribuição desigual dos dividendos entre os associados, etc. Apesar destas e outras críticas não deixa de atribuir às cooperativas um papel importante, nomeadamente numa fase transitória de um processo revolucionário.

Comunas Anarquistas

As primeiras experiências de criação de comunidades livres de preconceitos e segundo principios libertários remonta ao século XIX. Giovanni Rossi entre 1878 e 1891 publica cinco livros intitulados  Une commune socialiste , nos quais descreve uma imaginária comunidade libertária e coletivista. Em Itália funda em 1887 um Colónia Agricola, mas a sua principal realização foi a célebre colónia Cecília (1890-1894) na cidade de Palmeira, estado do Paraná no Brasil. Theodor Hertzaka (1845-1924), numa altura que o anti-semitismo estava em crescendo na Austria sonha criar em Africa um colónia (1890). William Lane da Austrália partiu para o Paraguai para fundar uma comunidade denominada Nova Austrália (1896)

Em Portugal o primeiro anuncio para a criação de uma comuna anarquista data de 1911, a instalar no sul de Angola (Germinal, 349, 4/02/1911). A primeira tentativa foi uma "Colónia Anarquista Agricola" fundada em 1913 por grupos de Chaves e de Vidago (1913) cujo principal dinamizador foi Carlos Nobre.
Pouco depois com António Gonçalves Correia (1886-1967)(2) funda a Comuna da Luz (1917-1918), numa área de 3km2 no Vale de Santiago, em Odemira. No jornal A Questão Social de Cuba, em 1916 revela que a mesma contava com “cinco dezenas de comunistas, entre mulheres, homens e crianças”. Possuía uma só cozinha, um grande refeitório, onde ele próprio era o cozinheiro (nº6, 6/02/1916). Face a criticas que lhe são colocadas por Miguel Correia sobre as “comunas livres” nesta sociedade, responde que se trava de uma forma de “comunismo prático” e “como não há possibilidade de viver sem ideal, eu farei o que poder, dentro do campo que escolher para que esse ideal se realize.,” (nº8, 20/02/1916). A polémica persiste: Comuna ou Cooperativa? O Rebelde de Beja (nº.8,10/10/1918) afirma que era a segunda, n`A Sementeira Gonçalves Correia diz o contrário, acrescentando nela já nascera um “homem novo”: um filho.

Os latifundiários alentejano acusavam a Comuna de ser um esconderijo de bandidos, uma campanha difundida pelo jornal A Folha de Beja. A partir de 1918, como veremos, foi acusada de ser um covil de bolchevistas. A comuna foi extinta neste ano e Gonçalves Correia preso..

Quando saiu da prisão com Jorge Campelo envolveu-se na aquisição de um vasto terreno em Albarraque (Sintra) para a criação da Comuna Clarão (1922). O projecto que fora idealizado falhou, mas no local manteve-se até aos anos quarenta, sob diversas formas, a ideia de vida comunitária, livre e solidária (47).

Cultura Científica e Artística

A enorme influência de E. Reclus e Kropotkine, dois cientistas, no anarquismo em Portugal traduziu-se na crença que a difusão dos conhecimentos cientificos constituia um importante contributo para a criação de novas mentalidades mais livres e insubmissas. A imprensa anarquista está repleta de biografias de cientistas e textos de divulgação científica. Reflectem uma crença no poder libertador da ciência que irá progressivamente desaparecer depois da Primeira Guerra Mundial quando se constatou que inúmeros cientistas estavam envolvidos no fabrico de armas de destruição em massa. A cultura artística é outro campo que esteve sempre associado ao anarquismo, uma vez mais, encarava-se a arte e a educação artística como um processo libertador do individuo

A figura do anarquista revolucionário (Bakunine), bombista (Ravachol), sábio (Kropotkine) ou pacifista (Toltstoy) inspirou muitos romances, poemas ou canções nas primeiras décadas do século XX. Um livro saiu fora destes esteriótipos: O Banqueiro Anarquista (1922) de Fernando Pessoa (64). Trata-se de um exercício literário que procura explorar imaginárias contradições do anarquismo. Os seus textos sobre anarquismo revelam um observador atento da dupla dimensão universal e individual do anarquismo.

Raul Brandão após ter escrito o artigo “Anarchismo” (Revista D`Hoje, 1894) revelou-se sempre próximo do anarquismo, como uma “forma de sentir” as injustiças sociais, uma “ilusão” inspiradora, como aparece refletido em obras como O Doido e a Morte, Os Pobres, Os Operários, O Gebo e a Sombra, Jesus Cristo em Lisboa (em colaboração com Teixeira de Pascoais) ou quando escreve sobre a Comuna alentejana de Gonçalves Correia (63).

Á semelhança do que acontecera durante o regime monárquico muitos foram os intelectuais e artistas que durante pelo menos numa fase da sua vida defenderam o ideário anarquista, como foi o caso de Lopes Oliveira, Manuel Laranjeira, Manuel António Ribeiro, Ferreira de Castro, Mário Domingues (1899-1977), Ângelo Jorge, João Vieira Alves (1904-1971), Aquilino Ribeiro, José Soares Lopes (1912-1962), etc.

A implantação da ditadura em 1926 leva alguns destes intelectuais e artistas a afastarem-se do movimento anarquista, sobretudo a partir do anos trinta quando a repressão se tornou particularmente sanguinária.

Na pintura e no desenho destacaram-se neste período Christiano de Carvalho (1876-1940), Stuart de Carvalhais (1887-1961) entre outrosA influência do anarquismo não se fez sentir directamente no movimento modernista em Portugal. A explicação que já foi dada reside no facto de artistas como Amadeo de Sousa Cardoso ou Santa Rita Pintor terem apenas “captado as formas e dois estilos” dos movimentos de ruptura internacional, mas não as suas ideias. Apenas Fernando Pessoa que se aproximou dos anarquistas foi capaz de assumir em termos conceptuais um destes movimentos: o futurismo.

Os anarquistas cedo viram no Fado, como expressão urbana e popular, uma meio de luta social dos oprimidos, uma posição defendida por Avelino de Sousa, tipografo anarquista, na sua obra "O Fado e os seus Censores" (Lisboa, 1912). Entre os fadistas e letristas que se destacaram no chamado "Fado Anarquista" contam-se João Black (João Salustiano Monteiro, 1872-1955) e Joaquim de Campos (1911-1981).

Teatro. Este movimento teatral libertário expandiu-se enormemente depois da implantação da República graças ao empenho das organizações sindicais. Em parceria com a Escola-Oficina nº1, dirigida Adolfo Lima, registe-se a criação da Escola-Teatro Araújo Pereira (1924-1926) que contou com a colaboração César Porto, tendo-se distinguido entre nós na renovação estética teatral.

Falta uma análise sistemática às peças de dramaturgos anarquistas, tais como: Ernesto da Silva; Adolfo Lima; Campos Lima; Manuel Laranjeira (?-1912), autor do célebre prólogo dramático O Amanhã; Teixeira Jorge Fernandes (1898-1975), autor das peças Gatunos de Luva Branca e A Escumalha (1923), etc.

Imprensa: Cultura Popular (Março de 1919), boletim do Ateneu Popular em Lisboa.,


Stirner - Nietzsche. Os ecos das ideias de Nietzsche aparecem em Portugal , a partir do inicio dos anos noventa do século XIX. É desde logo associado ao anarquismo e depois a Max Stirner (65). O seu primeiro texto publicado no país apareceu numa revista anarquista: A Vida em 1907, era um extracto de O Anticristo. O vasto grupo de intelectuais em finais da monarquia fizeram nesta corrente o seu “tirocínio revolucionário”, como Sampaio Bruno, Ângelo Jorge (1883-1922), Alfredo Pimenta(1882-1950), Leonardo Coimbra (1883-1936), Jaime Cortesão (1884-1960), Manuel Laranjeira (1877-1912… e divulgaram-no no seio do anarquismo individualista. O seu discurso era particularmente sedutor para os meios libertários pela sua apologia do individuo e sobretudo pela negação radical dos valores sociais, da moral tradicional, do Estado e de tudo o que o impede o individuo de manifestar a sua energia vital.


Apesar de um melhor conhecimento que foi sendo adquirido da obra de Nietzsche, manteve-se ligação ao anarquismo individualista, Stirner. Em 1921 surge no Porto o primeiro jornal desta corrente que se reclama de Stirner e Nietzsche: Refractários ( nº1, 12/11/1921) (66), quinzenário individualista - anarquista, com o lema “fora da lei de deus e de leis dos omens." Era animado por José Franco (-1951), Juliano José Ribeiro, Délio Vouga, Luciano do Rio, indicam-se outros colaboradores: Luiz Casanova (Dr.), Costa Iscar, Cristiano de Carvalho, André Lorulot (1885-1863, francês) e Henry Zisley (francês). O jornal contrariando o discurso habitual nos jornais libertários, ataca as multidões, embrutecidas e gregárias, onde afirma “os reacionários encontrarão as suas maiores energias” para a ascensão dos ditadores. Acusa o comunismo “bolchevista” ou o da “Batalha” de ser uma “nova escravidão”, ao prometer impor uma igualdade económica, um modelo estático. O único principio aceitável é a defesa da liberdade individual. Apoiando-se em Nietzsche, os seus redactores, recusam que estejam a defender uma nova “aristocracia”. O “super-homem” nietzscheano era somente aquilo que a que todos os homens deviam aspirar: superarem-se si próprios, ultrapassarem tudo aquilo que os impede de serem únicos, plenamente livres. O individualismo de Proudhon foi acrescentado a um discurso inspirado em Nietzsche e Stirner. O movimento libertário recebeu com indiferença este jornal.

 

Direitos Humanos

A afirmação que todos que todos os seus humanos possuem um conjunto de direitos naturais invioláveis está na base do anarquismo. John Locke raramente é citado nos textos anarquistas, o que não acontece com os principios da Liberdade, Igualdade e Fraternidade da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), que se tornaram em referências fundamentais nos textos teóricos. Bakunine, como vimos, procurou fundamentar os direitos na natureza dos seres humanos retirando-lhe toda a carga mística. Eram armas na luta contra a tirania e arbitrariedades dos governos.

Os principios na concepção anarquista foram adquirindo uma dimensão de universalidade e radicalidade que ultrapassava o quadro juridico dos diferentes estados. Contra esta expansão se insurgiam as forças conservadoras. No Congresso da Juventude Católica no, um jovem e futuro ditador - Oliveira Salazar - proferiu a 22 de Abril de 1914, uma conferência sobre “A Democracia e a Liberdade”, convertendo-se foi lider dos estudantes católicos (41). Considerou que os Direitos Humanos estavam “falidos, eram inúteis e ultrapassados. A “Liberdade” era definida por cada Estado e ao mesmo subordinada. A “Igualdade” devia ser substituída pela “Desigualdade” porque esta estimulava a competição, a luta. A “Fraternidade” um vago sentimento religioso e pouco mais. Um ataque aos direito humanos idêntico ao que será feito nos anos vinte, como veremos, pelo Partido Comunista Português.

Não é pois de estranhar que os anarquistas em Portugal estivessem ligados à criação da Liga do Portuguesa de Defesa dos Direitos do Homem (1907) e depois à Liga Portuguesa dos Direitos do Homem (Abril de 1921) que contava entre os seus membros Manuel Joaquim de Sousa.

Anarquistas e Socialistas

Desde 1896, como vimos, os socialistas liderados por Azedo Gneco para conseguirem chegarem ao parlamento afastaram-se progressivamente do movimento operário, acabando por condenar as greves. Enquanto nos comícios atacavam os governos monárquicos, nos bastidores andavam com os mesmos conluídos. Azedo Gneco em 1900 foi acusado de receber dinheiro do Conde Burnay. Após a proclamação da República foram encontradas cartas Alfredo Aquiles Monteverde no Palácio Real onde relatava encontros de conluio com Azedo Gneco.

Depois da implantação da República, o PSP procurando algum reconhecimento internacional passou a cumprir ordens vindas do Partido Social-Democrata Alemão. Quando em Fevereiro de 1912 em Lisboa foi declarada uma greve geral de solidariedade com os trabalhadores de Évora, o PSP atacou os grevistas.O partido receberam ordens de Berlim para o fazer (18). Pouco antes do início da Primeira Mundial o partido alemão reforçou o seu controlo do PS, com a presença de destacados dirigentes em Lisboa. Financiou a campanha eleitoral de 13 de Junho de 1915, na qual conseguiu eleger um deputado pelo círculo do Porto (19). A participação de Portugal na guerra contra a Alemanha quebrou a ligação à Alemanha. Procurando arduamente lugares para as suas clientelas, em 1918, os socialistas passam a fazer parte de um governo burguês. Uma participação que contrariava o regulamento interno do partido, provocando a saída de muitos militantes. Num completo desnorte, no Congresso da Figueira da Foz (1919) e no congresso extraordinário (1920) consagrou a participação nos governos burgueses, aprovou também a adesão à IIIª. Internacional para se colocar às ordens de Moscovo. Uma posição servilista se apressou a tomar o PCP (1921), para se assumir durante décadas como o mais fiel dos partidos às ordens do Partido Comunista da União Soviética.

A estratégia do PSP depois da criação da CGT foi aliar-se a outros partidos políticos, como o PCP ou o PRP para destruir esta central sindical criando outra sob o seu controlo. Um objectivo que aumentou a sua irrelevância.

Não era fácil o combate travado pelos anarquistas dada a confusão provocado pelos socialistas no movimento operário, conduzindo ao descrédito das ideias socialistas e à apatia.

Anarquistas e Comunistas

A revolução Russa de Outubro de 1917 (45) foi saudada com grande entusiasmo pelos anarquistas, um grande número parece todavia equivocada sobre a natureza do novo regime. Os "sovietes" eram entendidos como unidades autónomas autogestionárias, livres e igualitárias. Um equivoco que durou alguns anos. Foram muitas as manifestações de solidariedade até à rotura definitiva em 1922 (48).

Os governos, o patronato e a Igreja Católica rapidamente perceberam que podiam usar usar o pretexto dos sovietes para reprimirem os anarquistas e o movimento sindical. Tratava-se de impedir a sua reedição no país.

A Folha de Beja, a 19/12/1918, num artigo intitulado "Os Sovietes do Vale" descrevia e apoiava a brutal repressão dos trabalhadores rurais do concelho de Odemira, por parte de milicias armadas de latifundiários com militares. Os trabalhadores haviam aderido à greve geral decretada pela UON a 18/11/1918 contra carestia de vida. Por todo o concelho os trabalhadores e os seus familiares foram espancados, presos e 30 dos mais ativos degredados para Angola, sem culpa formada: 12 de Odemira, 18 da Aldeia do Vale de Santiago e do lugar da Parreira, o seu regresso só ocorreu a 8/09/1919, tendo falecido Romão Farrapo (22). Gonçalves Correia embora estivesse em Beja também foi preso na estação dos caminhos de ferro. O jornal O Rebelde de Beja (nº11, 0/12/1918), amplamente censurado sobre esta prisão escreve: “Enfim, seja tudo levado em conta da sua paciência evangélica e santa” ( 34 ).

A Igreja Católica não tardou também a difundir a ideia que os anarquista eram no fundo "bolchevistas" e pretendiam fazer em Portugal aquilo que estes faziam na Rússia. Em Braga, a cidade dos arcebispos, em 1919 ocorre a primeira "caça" aos "bolchevistas". O operário Manuel Martins por falar em greves acabou preso durante 32 dias, sem nenhuma outra acusação que não fosse a de ser bolchevista. A "caça " era praticada pelo padres nas homilias durante as missas, fomentando o ódio contra as ideias revolucionárias (20). Na greve de 1921 de jornalistas, tipógrafos e distribuidores de jornais que ocorreu em Lisboa, a imprensa de direita sustentou o mesmo tipo de associação: os anarquistas eram bolcheviques. A greve pretendia acabar em Portugal com a Liberdade de imprensa como os bolcheviques haviam feito na Rússia. Para provocar divisões no movimento libertário relatavam a execução de anarquistas na Rússia pelo Partido Comunista Soviético. Argumentos que justificavam a repressão dos grevistas (21).

Federação Maximalista Portuguesa. É neste contexto de confusão ideológica que um grupo de anarquistas entusiasmados pela Revolução Russa, entre os quais se destacavam Manuel António Ribeiro (1878-1941) e António M. Peixe, fundaram em 1919 a Federação Maximalista Portuguesa (FMP), “dentro dos princípios anarquistas e sindicalistas que nos seus militantes sempre professaram e continuam a professar”, como declaram no número 1 no jornal A Bandeira Vermelha (5/10/1919-19/06/1921) (27), orgão da FMP. Defendem que não existe diferenças entre o sindicalismo revolucionário e o sovietismo (A Bandeira Vermelha, 1/11/19019). A futura organização social após a tomada do poder assentaria no republica federativa de conselhos operários e camponeses. A FMP a par da propaganda sobre a Rússia dos sovietes divulgava igualmente as ideias anarquistas. A Bandeira Vermelha era distribuída e vendida por todo o país por militantes anarquistas. Muitos foram presos, como foi o caso de Pedro de Assunção, José de Almeida do Núcleo Anarquista de Coimbra quando distribuíam nesta cidade o jornal (A Bandeira Vermelha, 7/10/1919). Organizavam festas e reuniões para angariar dinheiro para publicar o jornal (32). O Esta confusão era alimentada por artigos traduzidos de jornais como o Pravda, onde se afirmava que na Rússia “o comunismo-anarquista realizava-se à sombra das instituições sovietistas” (A Bandeira Vermelha, 1/02/1920).

A FMP através do seu orgão de imprensa cumpria a missão de divulgar e defender a revolução russa e outras revoltas como a espartaquista (5/01/1919), na qual entre outros foram mortos Rosa Luxemburgo e Karl Liebjknecht.

Este jornal não tardou em Maio de 1920 a reflectir a separação de águas entre anarquistas e comunistas, quando começou a publicar uma série de artigos traduzidos da imprensa comunistas internacional em que se atacava o anarquismo. O apoio prestado ao jornal pelos anarquistas desapareceu. O grande ponto de discórdia era a Ditadura do Proletariado. Os acontecimentos da Rússia mostravam que não passava de uma nova tirania exercida por um partido politico em nome dos operários e camponeses. Carlos Rates ainda publica nesta ano a sua conhecida obra "Ditadura do Proletariado" , na qual sustenta que a Ditadura do Proletariado seria dirigida pela CGT ! Uma Ideia não tardou a abandonar depois da fundação do PCP.

Revolução Imediata.O exemplo da Revolução Russa em que ocorreu uma rápida mudança de poder, entusiasmou a maioria dos membros da FMP a defenderem uma “revolução imediata” em Portugal. Estaria a CGT à altura de a fazer? De organizar uma greve geral revolucionária capa de operar uma mudança social tão imediata como a que ocorrera na Rússia ? A experiência da CGT em França mostrava que estas centrais sindicais se revelavam insuficientes para esta tarefa.

A questão de fundo era todavia outra: Poderia ocorrer em Portugal uma revolução independente do contexto internacional?. A antiga concepção apoiada em Kropotkine é que a revolução social teria que começar num país de grande dimensão, e a partir deste alastraria a outros de menor dimensão. Caso contrário as insurreições estariam condenadas ao fracasso.

Os membros da FMP, pelo contrário, defendiam a ideia que era possível fazer uma “revolução imediata” Portugal. Sobral de Campos, em 1919, critica aqueles que sustentavam que se devia apenas preparar os trabalhadores para darem continuidade à grande revolução que um dia chegaria ao país vinda do exterior. E se em Portugal houvesse uma insurreição movida pela fome e a miséria? Teriam que esperar ? (artigo A Revolução da Fome, A Batalha, nº57, 21/04/1919. António Peixe responde aos cépticos advogando uma revolução ibérica (A Bandeira Vermelha, 23/11/1919), procurando ultrapassar a questão da pequena dimensão do país. Clemente Vieira dos Santos, ataca todos os que não acreditam numa revolução imediata: “Não é verdade que há revolucionários que discordam da revolução em Portugal, só porque ele é pequeno e corre os riscos dum bombardeamento da esquadra inglesa e d`uma invasão das tropas espanholas? Nem que o revolucionário estivesse a discutir esses assuntos. O revolucionário, quando se lança na luta, é com fé e com a esperança de que ganhe a partida, de que alcance a vitória; é com a fé e com a esperança de que o povo o secunde, de que seus exemplos sejam apoiados pelos nacionais e pelos internacionais. Em 93, a França fez a revolução na esperança de que o mundo a seguisse. Nos nossos dias, a Rússia faz a revolução, na esperança de que a Europa a secundam, para quem apelou” (A Bandeira Vermelha, nº34, 20/06/1920). No ano seguinte, o jornal nega o “preconceito do figurino exterior”, isto é, que a revolução em Portugal tinha que vir de fora (A Bandeira Vermelha, nº55, 17/04/1920).

A questão prosseguiu mas num outro contexto. Após um período interregno, A Bandeira Vermelha ressurge a 17/04/1921 (nº55), e noticia a constituição do Partido Comunista Português que desde logo desencadeia um combate feroz contra os anarquistas e a CGT.

O Partido Comunista Português (PCP) foi fundado a 6 de Março de 1921 na sua maioria por ex-militantes anarquistas que continuavam entusiasmados com a revolução russa. O comunismo-marxista continuava a ser apresentado era uma nova versão atualizada do anarquismo corrigido nas suas “insuficiências”, como os acontecimentos na Rússia, na Ucrânia e em Berlim mostrara ser necessário. A Ditadura do Proletariado uma necessidade histórica. Na sua fundação foi beneficiado por uma cisão no Partido Socialista, liderada por José Pires Barreira que trouxe para o PCP toda a Juventude Socialista da qual era dirigente. José de Sousa, secretário das Juventudes Sindicalista, aderiu também ao PCP levando consigo muitos jovens adeptos da “Revolução Imediata”.

A questão da revolução em Portugal continuou a estar no centro dos debates. Era possível ? Teria que vir de fora? José de Sousa (31) sem hesitações defendia a revolução imediata num só país, como Portugal, evocando em sua defesa Bakunine (O Comunista, 13/11/1921). Neste debate que se arrastou por vários anos, interveio também o secretário-geral do PCE R. Marino Gracia. Defendeu todavia que para a revolução vitoriosa a mesma teria que ser ibérica, nem Espanha vou Portugal isoladamente o poderia fazer com êxito, daí propor a formação de um Partido Comunista Ibérico (A Bandeira Vermelha, nº 55, 24/04/1921).

Carlos Rates que aderira ao PCP, como membro fundador, opunha-se à ideia da revolução em Portugal isolada de um contexto internacional, defendendo que seria um “desastre”, uma “quimera” (A Bandeira Vermelha, 55, 24/04/1921). Afasta esta hipótese de forma ainda mais explicita: “A questão duma revolução isolada de carácter proletariano em Portugal, deve ser posta absolutamente de parte por insustentável. Porém, o Estado de agitação crescente da Europa, tornam perfeitamente viável uma ação combinada com os camaradas espanhóis” (O Comunista, 2, 10/06/1923).

O PCP afastava-se assim das posições defendidas pela FMP e adopta a posição da maioria dos anarquistas. A maioria dos anarquista continuava a defender que a revolução em Portugal só seria possível num contexto revolucionário internacional favorável. Uma posição sustentada por Campos Lima na sua obra A Revolução em Portugal (1920, 1925).

No Iº. Congresso do PCP, em Novembro de 1923, Humbert-Droz, delegado da IIIª. Internacional veio a Portugal impor a direção de Carlos Rates (1922 - 1925) e recordar duas diferenças essenciais entre os comunistas e anarquistas:
- Os sindicatos para os comunistas são meros instrumentos na luta económica conduzida pelo partido, e uma vez conquistado o poder político nem para isso servem.

- A estratégia comunista só funcionava se for criado um corpo disciplinado de militantes às ordens do partido, suprimindo-se toda a individualidade (O Comunista, nº. 7, novembro de 1923). Os termos que utiliza para caracterizar a disciplina necessária eram idênticos aos aplicados na instrução militar. A disciplina partidária no PCP não foi uma tarefa fácil, um processo que exigiu a constituição de um corpo de funcionários pagos pelo partido e dele dependentes para subsistirem (revolucionários profissionais).

Estatismo, Frentismo e Parlamentarismo. O PCP sob a liderança de Carlos Rates, definem-se algumas mudanças essenciais:

A futura organização social seria baseada no capitalismo de Estado, e não como Carlos Rates advogara em 1920, numa estrutura sindical. No nº1 d`O Comunista (Maio de 1923) é publicado um artigo de Lenine intitulado: “O Que é o Capitalismo de Estado!”. Para que não restem dúvidas esclarece-se: “Sem a técnica do grande capitalismo todo o socialismo é impraticável”. Concluindo sobre a superioridade do mesmo dado que nada tinha de perigoso, pois “no Estado Sovietista, o poder se encontra nas mãos dos operários e dos camponeses.” Nesta linha, no nº.4 (15/07/1923), no programa de “um governo operário e camponeses” defende-se a estatização de toda a sociedade (através de uma completa nacionalização em todos os sectores). O objectivo passava a ser o crescente reforço do poder do Estado através de nacionalizações, colocando-se numa posição nas antípodas dos anarquistas mas em sintonia com os regimes totalitários que emergiam na Europa.

Dada reduzida dimensão do PCP impulsionar estas mudanças na direção do capitalismo de estado, devia concentrar-se na constituição de frentes políticas com outros partidos apostados no reforço do Estado. Carlos Rates elege o Partido Republicano Radical, embora considere que é uma força “conservadora”, nada o impedia de afirmar que “com muito prazer veríamos o PRP no poder e não o há de ser pela nossa oposição” ( O Comunista, nº22, 12/07/1924). Ideias repetidas na primeira página d`O Comunista, nº23 (27/07/1924). O PCP, como veremos, irá participar nas intentonas deste partido no derrube a Democracia e instauração de uma ditadura em Portugal.
Sem revolução no horizonte o PCP não descartava a luta eleitoral. Afirma Carlos Rates: “Declarou o Partido Comunista ao constituir-se o seu anti-parlamentarismo. É um disparate que precisa de ser emendado” (A Bandeira Vermelha, 55, 24/04/1921).

O PCP não descartava a luta eleitoral. Afirma Carlos Rates: “Declarou o Partido Comunista ao constituir-se o seu anti-parlamentarismo. É um disparate que precisa de emendado” (A Bandeira Vermelha, 55, 24/04/1921).

Legião Vermelha. A concepção revolucionária da FMP e depois do PCP assentava em ações violentas contra a burguesia e os seus defensores. Um guerra social que haveria de conduzir um dia à conquista do poder e instauração de uma "ditadura do proletariado". Estas ações que marcaram a história do PCP até 1939, não deixaram de atrair muitos anarquistas seguidores de Bakunine ou Malatesta.

A própria ideia de "revolução social" anarquista era para muitos insatisfatória porque exigia um longo processo preparatório: a nova sociedade era construída de baixo para cima, no qual os trabalhadores íam adquirindo uma nova consciência e se auto-organizavam para a gerir. A transformação social implicava uma mudança de mentalidade dos oprimidos e explorados, condição essencial para o êxito da revolução internacional.

Acontecimentos internos mostravam a necessidade de uma organização armada dos anarquistas. O golpe militar de Paiva Couceiro no Porto, em 1919, quando restaurou durante 25 dias a monarquia mostrou que os anarquistas tinham que se armar para defenderem a República e se defenderem os republicanos. As Juventudes Sindicalistas neste ano criam os chamados Comités de Defesa Sindical. Em França também se defendia a formação de uma "legião popular" para os trabalhadores responderem a todo o tipo de ameaças (cfr. A Batalha, nº.255, 10/11/1919).

Algumas explosões foram atribuídas às Juventudes Sindicalistas, mas nem todas foram assumidas. Com excepção de uma em 1920. Neste ano o país foi varrido por uma sucessão de greves de fome, assaltos a estabelecimentos, violência policial e petardos. A explosão de um deles ocorreu a 29 de Dezembro de 1920 no edifício da CGT e matou 3 camaradas - Jaime de Figueiredo, Joaquim Estrela e Armando Santos, dois dos quais sindicalistas. Ficaram feridos 4 jovens: Raul dos Santos, Castro Simões, José Agostinho e Matias Sequeira que ocasionalmente haviam ido ao local, pois constava que nessa noite ocorreria um novo golpe de Estado (O Despertar, nº13, 24/02/1923).

A 19 de Março de 1920 explodiram alguns petardos em Lisboa e logo se seguiu a prisão de jovens sindicalistas e vários jornais são proibidos como Luz ao Povo de Coimbra, A Batalha, A Bandeira Vermelha de Lisboa, A Vida do Porto, etc. Na vaga prisões são encarcerados entre outros José de Almeida (Coimbra), Costa Coelho e Julião Ribeiro no Porto.

A “imprensa burguesa” fazia então uma campanha para a eliminação das Juventudes sindicalistas e da própria CGT, acusando os sindicalistas de bombistas.

Foi neste contexto que em 1920 foi criada a Legião Vermelha por membros da FMP, contando no inicio com a participação de vários anarquistas. Para a sua fundação terá contribuído a passagem de José de Sousa das Juventudes Sindicalistas para a Federação Maximalista Portuguesa (37). A Legião tinha como objectivo através de ações diretas (atentados) destruir os inimigos de um revolução social semelhante à que ocorrera na Rússia. Manteve-se muito ativa até final da década de vinte.

O primeiro atentado foi a 18 de Fevereiro de 1920, quando foi lançado um petardo contra a porta da residência do director da companhia dos telefones, na Calçada das Necessidades, 4 c/v. O governo reage e cria em Maio um Tribunal de Delitos Sociais para julgar criminosos e bombistas. A 4 de Junho é assassinado o primeiro juiz (Pedro de Matos) e a 20 de Agosto regista-se o atentado ao segundo (Félix Horta).Não faltaram verdadeiras encenações. No Porto inventam uma “fabrica de bombas” o que serviu de pretexto para a prisão de David de Sousa Ramos ( A Batalha, nº757, 13/05/1921). Os núcleos das Juventudes Sindicalistas estavam disseminados por todo o país. O seu ideário libertário deixava inquieto os governos republicanos: “A Federação agrupa cerca de 4 mil jovens, que combatem tenazmente o príncipio da Autoridade, não excluindo o Partido Comunista” ( O Despertar, nº17, 21/04/1923). A 12 de Setembro a sede da CGT é ocupada pela policia.

As Juventudes Sindicalistas desde 1921 condenam estes atentados e atribuem-nos à LV que persistia na mesma prática bombista. Registe-se o atentado de 9 de Setembro de 1922, em Lisboa, contra o presidente da Confederação Patronal (Sérgio Principe, um antigo anarquista). No Porto, a 22 de Outubro de 1922 ocorre um atentado contra a Companhia Industrial Portugal & Colónias foram acusados três “anarquistas”: António Augusto Guedes Pinto (ourives), Américo Pereira Dias (Padeiro), e Luis Fernandes Laranjeira (Pasteleiro, 1903-1983) antigo militante das Juventudes Sindicalistas. Foram condenados no Tribunal de Defesa Social em Lisboa e deportados em 1924 para Angola. Luis Laranjeira foi preso em setembro de 1920 por fazer parte do Comité Niilista do Norte tendo-se ligado à LV, que não tardou a abandonar, em 1925 participou na fundação da UAP.

A policia continuou a insistir que a Legião Vermelha pertencia às Juventudes Sindicalistas..

Em Maio de 1923 aquando da explosão de uma bomba na Rua da Imprensa morria um elemento destacado da Legião Vermelha - António Alves Monteiro, que em fins de 1920 saira da Juventudes Sindicalistas com José de Sousa para ingressar na Federação Maximalista Portuguesa. Era um defensor da "Revolução Imediata". O jornal O Despertar (19/05/1923), afirmava que a LV era uma organização comunista e recordava vítimas deste tipo de ações, como as de Jaime de Figueiredo, Armando Santos, Estrela, Vilaça, José Manuel…(54)

Sobre uma cilada policial nos Olivais para apanhar membros da Legião, o jornal O Comunista (nº20, 7/06/1924) escrevia sobre os três jovens assassinados: "Um deles Domingos Silva, o único filiado no PCP, teve baixa em combate, morreu matando". Os dois outros que o acompanharam Jorge Pinheiro e Ezequiel Seigo foram friamente assassinados pela policia. O Correio da Noite, a 31/05/1924, entrevista um comunista da legião. O atentado a 15 de Maio de 1925 contra o comandante da polícia João Maria Ferreira do Amaral foi o pretexto que as forças policiais esperavam para lançarem uma onda de prisões e deportações. Em Junho de 1925 era assassinado pela polícia Domingos Pereira, manipulador do pão, membro do PCP e chefe da Legião (cfr. O Comunista, nº25, 20/06/1925). Em Agosto de 1925 morria na Guiné Manuel Tavares, barbeiro, filiado no PCP era da Legião (O Comunista, nº38, 15/08/1925). Em 1926 estava refugiado em França Paulo da Silva, o governo português pedia a sua extradição. Era membro do PCP e segundo a polícia participara no atentado ao comandante da policia (O Comunista, nº46, 1/05/1926). A maioria dos membros da Legião eram do PCP. O orgão das Juventudes Sindicalistas - O Despertar (nº8) não tem dúvidas em afirmá-lo. A simples acusação de legionário feita pela polícia permitia-lhe perseguir, prender e deportar todos os anarquistas e sindicalistas. Foi o caso de José Marques da Costa preso em 1924 e deportado para Timor, como "legionário vermelho”..

Nas prisões que ao longo dos anos ocorram, muitos dos presos eram destacados militantes anarquistas como José Marques da Costa preso em 1924 e deportado para Timor, como "legionário vermelho"

Confrontos
A relação entre anarquistas e comunistas alterou-se profundamente quando em Março de 1921 foi criado o PCP. Os confrontos violentos não tardaram entre os defensores do “comunismo libertário” e os do “comunismo marxista”.

A Batalha, a 31 de Janeiro de 1922, publicava as resoluções do Congresso Anarquista Internacional em Berlim em que foi refundada a AIT. Declarou-se “contra toda a ditadura quer seja ela exercida pelos de “Direita” quer pelos de “Esquerda”, manifestava-se a favor de um sindicalismo livre e independente e denunciava a Internacional Sindical Vermelha (ISV) como uma fachada da Internacional Comunista. A confusão terminara.

Um grupo de 51 defensores do comunismo libertário, presos políticos na Cadeia do Limoeiro, no dia 1 de Novembro de 1922, pública um “Manifesto Aos Trabalhadores Conscientes”, dando conta do forma sectária de funcionamento do PCP. Manuel Maria, um camarada “incauto” iludido pela propaganda comunista filiou-se neste partido. Ao constatar o erro quis regressar ao “campo sindicalista revolucionário” o que ocasionou o seu assassinato. Tratavam-se de um “procedimento ignóbil se assemelha aos “fascistas” italianos, pois o seu fito não é outro senão o desmantelamento da organização operária”. De acordo com os signatários, o PCP estava repleto de “indivíduos de caracter duvidoso” que se caracterizavam pelo seu sectarismo e propensão para a violência. Os comunistas ripostavam acusando as juventudes sindicalistas do Porto e Gaia, por exemplo, de os difamarem ao andarem a distribuir manifestos que concluiam : “Fascismo e Bolchevismo são as duas maiores calamidades sociais existentes, contra elas cumpre agir” ( O Comunista, nº2, 10/06/1923).

À medida que aumentou o conhecimento do que se passava na União Soviética dirigentes do PCP com um passado anarquista também acabaram por abandonar o PCP ou foram expulsos, como foi o caso de Manuel Ribeiro ou Carlos Rates..

Ofensiva contra a CGT. O PCP nos anos vinte e trinta concentrou grande parte da sua ação a enfraquecer o CGT, criando uma organização sindical paralela. Quando sentiu que não o podia fazer, apostou nas "frentes antifascistas" e na delação à policia dos militantes anarquistas.

A primeira manobra do PCP ocorreu em 1921, quando de forma fraudulenta, através da CNT enviam um convite à CGT para se fazer representar em Moscovo no Congresso a Internacional Sindical Vermelha (ISV). A CGT enviou então um delegado que não chegou a tempo de assistir às sessões. Este sindicalista (Perfeito de Carvalho) (24) não apresentou depois o relatório que ficara incumbido de realizar, e publicou depois uma cópia das conclusões do Congresso feitas pelo delegado do PC Francês.

No IIIº. Congresso Operário Nacional (IIº. da CGT) na Covilhã, em Outubro de 1922, a questão da adesão à ISV volta a colocar-se e é amplamente rejeitada. Perante as insistentes manobras e propaganda do PCP para a subordinação movimento operário às ordens de Moscovo, a CGT a 28 de Setembro de 1924 realiza um referendum a 28 de Setembro de 1924 sobre a adesão à AIT ou ISV. 104 sindicatos pronunciaram-se a favor da AIT e 6 pela ISV, 5 abstiveram-se.

Face à necessidade de clarificar o posicionamento internacional da CGT, em 1925, no IIº. Congresso da CGT em Santarém a esmagadora maioria dos delegados presentes aprova a adesão da CGT à AIT. Os comunistas conseguem que alguns sindicatos e as associações de classe dos alfaiates de Lisboa e Porto abandonassem a CGT para ingressar na Internacional Sindical Vermelha, antecessora da Intersindical (1929). A partir daqui estava consumada a ruptura entre o PCP e os seus apendices sindicais e a CGT

O Partido Socialista Português (PSP) depois de 1919 abre uma guerra aberta contra os anarquistas. Ramada Curto, lider do PSP, em 1922 inscrevia no programa do partido o combate aos anarquistas e a substituição da CGT pelas “Trade Unions” inglesas, num completo delírio (República Social, IIª série, nº52, 24/12/1922). Impotentes resolvem em 1923 formar uma frente com o PCP para desarticular a CGT. Neste ano, anuncia que estava em marcha a constituição de uma nova central - Fraternidade Operária. Associação dos Trabalhadores da Região Portuguesa -, inspirada numa congénere belga (, apresentando a sua receita para as lutas sindicais: “Ter Dinheiro equivale a ter força, ter força equivale a ter vitória, mesmo antes de estabelecer luta” (Republica Social, nº84, 12/08/1923). Promete grandes somas de dinheiro Esta frente PCP-PSP alargou-se às juventudes de ambos os partidos, tendo as juventudes socialistas logo desaparecido.

O PSP com grande entusiasmo, em 1925, afirmava que estava em marcha a organização de um congresso ou conferência dos sindicatos dissidentes da CGT (República Social, nº196, 18/10/1925). Se a conferência nunca se realizou, as manobras essas continuaram.

A frente do PSP com o PCP, virá a reconhecer este partido só serviu para fortalecer este partido. Tensão mantinha entre anarquista e comunistas.`A medida que aumentava o conhecimento do que se passava na União Soviética muitos dos militantes comunistas com um passado anarquista acabam por abandonar o PCP ou são expulsos, como foi o caso de Manuel Ribeiro ou Carlos Rates. Luís Fernandes Laranjeira (pasteleiro), entre 1913 e 1923 militou nas juventudes Sindicalistas, ingressando depois nas juventudes comunistas. Não tardou a abandonar o PCP, pois em 1927 já militava na UAP actuando ao longo dos anos em Setúbal, Porto, Chaves e Vila Real

A CGT, no meio destes ataques lança em 1925 uma importante publicação: Renovação, revista quinzenal de Arte, Literatura e Atualidades (59). Foi proibida depois do golpe militar de maio de 1926. Era uma das muitas iniciativas para abranger um público mais vasto, nomeadamente muitos intelectuais fascinados que estavam com o fascismo. .

Transformação do Estado

O combate contra o “Capitalismo de Estado” implicou uma revisão do posicionamento dos anarquistas sobre o próprio Estado. É profundamente redutora a ideia que os anarquistas apenas queriam destruir o Estado. Na verdade estavam atentos à sua transformação e atuavam no sentido da sua "transformação socializante". Campos Lima, em duas obras - A Revolução em Portugal ( 1925) e Teoria Libertária ou Anarquismo (1926) sistematizou inclusive um programa mínimo para a sua transformação, nomeadamente em colaboração com outras forças políticas.

Para os anarquistas, em termos gerais, o "Estado (como existe) é uma instituição de opressão para manter a exploração exercida pela classe dominante" (Teoria, p.33), nesse sentido deve ser abolido. O Estado todavia é constituido não por uma mas muitas instituições, e algumas das quais são absolutamente necessárias ao bom funcionamento de uma sociedade. A questão é saber quais devem eliminadas ou transformadas de modo a acabar com a sua função autoritária e reprodutora de relações de poder e privilégios.

Para os anarquistas, segundo Campos Lima há dois princípios essenciais na organização social, e a que dever obedecer qualquer a transformação do Estado:

a) Um Estado só é tolerável desde que garanta a maior liberdade e autonomia individual (Revolução, p.19), assegurando as liberdades básicas (expressão, reunião, associação, etc) incluindo o direito à greve .

b) Um Estado só era tolerável se evoluir no sentido da maior autonomia dos corpos administrativos, descentralização dos serviços, do municipalismo segundo uma estrutura federativa. Cada mudança no Estado deve ter reflexos na descentralização das decisões colectivas, de modo a conferir crescente poder aos cidadãos. Esta evolução no sentido da desagregação da autoridade do Estado Central, implica a responsabilização dos políticos, dirigentes e funcionários do Estado de modo a acabar com as arbitrariedades e a falta de transparência da coisa pública.

Nesta luta em multiplas frentes, atribui um papel central à ação revolucionária sindical, e em particular do sindicalismo dos funcionários públicos. Destaca a importância das lutas locais, a criação de formas alternativas de produção e gestão económica, a força da opinião pública incluindo a dos consumidores.

Os grandes inimigos desta luta de libertação eram as forças políticas e económicas que apostavam no centralismo, reforço do poder do Estado e na acumulação da propriedade. Embora optimista em relação ao futuro, apontava o centralismo que estava a ser instaurado na Rússia como a negação do movimento de emancipação dos trabalhadores. Era uma perigosa ilusão que contrariava a evolução histórica procurava fundamentar no sentido na descentralização, na qual os cidadãos vinham progressivamente a adquirir maior liberdade e capacidade de intervenção política.

Implantação no país

Os anarquistas estavam difundidos por todo o país, embora naturalmente a sua presença se faça mais sentir nas regiões urbanas e de trabalhadores assalariados, como a região de Lisboa, Porto, Coimbra, Aveiro, Setúbal e no Alentejo e Algarve. Cada uma das publicações existe frequentemente uma história de repressão policial e censura, num período de alegadas liberdades democráticas

Vidago (Chaves): Imprensa: Agitador (1914), directora Júlia da Cruz, companheira de Bartolomeu Constantino. Editor José Bernardino Oliveira e gerente José Augusto Ferreira.

Viana do Castelo. Imprensa: A Voz do Faminto (1914-1916), director Jerónimo Pinto Moreira e editor António J. M.Vidal; A Voz do Produtor, saiu a 11 de Janeiro de 1917, cujo primeiro número foi dedicado a Bartolomeu Constantino. Director Manuel F. Jr, editor José R. Reboredo.

Vila do Conde. Imprensa: A Plebe (1924-1925), Manuel Candido Machado era o redator e administrador.
Braga. Imprensa: Luta Social, saiu em Março de 1917, tendo como director Julio Cruz e editor José Gomes da Rocha Amorim

Porto
No Porto, alguns centros de estudos ficaram celebrizados pela sua atividade não apenas como pontos de encontro de anarquistas, mas também como promotores de uma cultura libertária: Centro e Biblioteca de Estudos Sociais (Rua das Antas, 218) fundado em 1908 manteve uma atividade regular até 1924; Núcleo da Juventude Sindicalista do Porto, criado em 1914 funcionou até 1926; Centro Comunista Libertário, fundado em 1919 funcionou pelo menos até 1927; Centro e Biblioteca de Estudos Sociais "Filhos de Visco" de Gaia, fundado em 1920 funcionou até 1927; Escola e Biblioteca de Estudos Sociais (Rua dos Vanzelleres, nº28) fundado em 1923 funcionou até 1927; Escola e Biblioteca da Foz, fundada em 1927 funcionou até 1929. Muitos outros foram fundados pelo país mantendo uma importante atividade cultural.
Destacamos na imprensa libertária: A Voz do Proletário (1910); A Aurora (Porto, 1910-1919 e 1922-1923, António Alves Pereira, Manuel Joaquim de Sousa, Anthero de Brito, Leopoldo Banafulla); Os Tempos Novos (1911, Joaquim A. Ferreira, Anibal Moreira, Anselmo Martins de Oliveira, Amadeu Santos); A Luz do Provir (1911, Manuel Joaquim de Sousa); Comuna Livre (1915-1916), A Comuna (Porto, 1920-1927, Serafim Cardoso Lucena, António Teixeira); Refractários (1921, José França), individualista; Aurora (Porto, 1929-1930); etc.

Rio Tinto: O Clarão (1913, Carlos Nobre, Maria Damasceno).

Aveiro. Imprensa: O Grito do Povo (1913).

Viseu. A Oficina (maio de 1922), periódico libertário

Coimbra
Imprensa: O Clarão (1910, Ruy Delphim Gomes, Augusto Luiz d`Albuquerque); A Conquista do Bem (1910); Vida Livre (1911, Alexandre Sobral de Campos, Narciso de Azevedo); A Revolução Social (1911); A Anarquia (1913), orgão das Juventudes Anarquistas, direção de Miguel Martins; O Rebelde (1913), diretor Augusto Quintas e editor José de Azevedo; A Revolta publica-se nesta cidade a 11 de Outubro de 1913. No ano seguinte surge como propriedade da Aliança Libertária, tendo como director J. Teixeira, editor António Tavares e administrador A. da Silva; A Batalha Anarquista (1914), propriedade das Juventudes libertarias tinha como redator principal Oscar Mausdslay, administrador Virgilio Marques e editor António Tavares; Anarquista (1920), publicação do Núcleo Juventude Anarquista de Coimbra e do grupo libertários “Novos Tempos” do Porto. Amadeu das Neves era o director e José de Almeida o editor; Luz ao Povo (1920-1921), orgão do Núcleo da Juventude Anarquista.

Leiria. Imprensa: O Rebelde (Novembro de 1910) homenageia Tolstoi.

Lisboa
A imprensa anarquista era muito diversificada, plural, tendo as publicações durações muito diferenciadas. Pelas suas caracteristicas libertárias, onde se apelava à formação consciência critica individual, foi sempre uma verdadeira escola de jornalistas e escritores. A censura e a repressão policial levou os seus promotores a mudarem muitas vezes o nome das publicações para continuarem a sua ação social. Na imprensa libertária destacamos: A Sementeira (1908-1919, Hilário Marques, Ismael Pimentel, Neno Vasco); O Agitador (1911, Virgilio de Sá, Silva Junior, José Teixeira Junior, João Martins do Rego, Santos e Silva), como muitas outras publicações libertárias foi vitima da repressão policial (O Porto, 3/09/1911); Lumen (Lisboa, 1911-1913, Adolfo Lima, Severino de Carvalho); O Anarquista (1913, Silva Junior, Martins do Rego); A Terra Livre (1913, Pinto Quartim); Germinal (Lisboa, 1915-1917, Emílio Costa); A Regeneração (1915, Artur Figueiredo, Adolfo Nunes, Joaquim Nogueira); A Voz da Razão (1915); Germinal (1916-1917, Emilio da Costa); A Revolta (1918, Alfredo Cruz, Ferreira d`Almeida); A Nova Aurora (1919, Manuel da Silva, José dos Santos); A Anarquia (1919, José Franco), mensário individualista; Amanhã (1922, Campos Lima), “revista quinzenal de intuitos sociais para Portugal, Colonias e Brasil”; etc

Setubal.
Para além dos centros libertários, alguns locais eram especialmente conhecidos pela presença de anarquistas e os debates que neles ocorriam como lojas, oficinas, cafés ou até residências. Um dos casos mais celebrizados foi a barbearia de José Artur Quaresma (1876-1957) em Setubal, onde se vendia a imprensa libertaria e marcava presença muitos militantes e a polícia em frequentes rusgas.
Imprensa: O Semeador (nº1, maio de 1915), boletim do Centro de Recreio e Propaganda Livre, tendo como colaboradores Emilio Costa e Nobre Cid; O Indivíduo Livre (1918), pugnava pelo anarquismo individualista

Alentejo
É notável a ação dos grupos anarquista nas organização dos trabalhadores rurais alentejanos. Ao longo de todo o século XIX as lutas dos assalariados passavam quase despercebidas, eram essencialmente de origem individual, ameaças, roubos, fogo posto e outras ações de banditismo (39). A ação anarquista foi a de associar estes trabalhadores e traçar objectivos comuns. Nesta notável ação destacou-se o Grupo Anarquista "Avante!", fundado em Évora (1908) e editor de um jornal com o mesmo nome (1909). Participou nesta cidade no derrube da monarquia, promoveu e coordenou a criação de dezenas de sindicatos de trabalhadores rurais no Alentejo e na constituição da sua federação, numa ação impressionante. Em 1910 não existia nenhuma associação, as únicas que existiam de eram de pequenos e médios proprietários rurais. Em 1912 já existiam 32 sindicatos rurais, no ano seguinte 94, e em 1914 eram 110. A Federação Nacional dos Trabalhadores Rurais constituiu-se em 1912, quando se formou também a Casa Sindical de Évora (1912) e se organizou o Iº. Congresso Sindical dos Trabalhadores Rurais de Évora, e outros congressos se seguiram (1913, 1918, 1920, 1922, 1925). Criaram cooperativas de consumo (S. Tiago do Escoural), possuíam tipografias, etc. Apesar de todos os esforços este movimento organizativo dos trabalhadores rurais não conseguiu ultrapassar as regiões a norte de Santarém e Castelo Branco.

Os anarquistas estiveram na linha da frente das movimentos grevistas, como o de 1911, 1912, 1918 e outros. Na luta por melhores condições de vida centenas de trabalhadores foram presos e muitos deportados para as antigas colónias (10). Curiosamente até aos anos quarenta foram raros os trabalhadores alentejanos a aderirem ao PCP.

Gonçalves Correia tornou-se numa figura lendária destas lutas. Em 1916 editou em Cuba o jornal A Questão Social cujo primeiro numero mostra a sua crença: “Somos libertários (…) Somos naturistas, queremos dizer: amamos a natureza, mãe duma sublimidade encantadora, senhora absoluta de tudo que se creou”. Os redatores e proprietários Gonçalves Correia e Luis Godinho, editores J. F. Borralho Lucas, Luis Godinho e Alves Jorge, e colaboradores Fazenda Jorge e Neves Anacleto.

Destacaram-se igualmente na organização e nas lutas dos mineiros (61) . Nas Minas de S. Domingos o baixo Alentejo a sua influencia manteve-se muito ativa até ao anos quarenta, apesar das constantes prisões de militantes. Imprensa: A Federação, orgão defensor do povo trabalhador em geral (Estremoz, 1911, João Maria Farinha); Avante ! (Evora, 1911); O Rebelde (Beja, 1916 -1920, Mário A. Correia, Pedro Joaquim da Luz, F. Perpétua, Gonçalves Correia); O Homem Livre (Evora, 1918, Alvaro J. Dinis, Joaquim Candieira); Aurora (Cercal do Alentejo, 1925), orgão da Federação Anarquista da Região Sul (?).

Em Portalegre, alto Alentejo, publicou-se O Semeador (1912-1914), tendo como director Fernando Costa, e diversos colaboradores, como Emílio Costa, Manuel Maria Ceia ou Luís Gomes

Algarve
Imprensa: semanário O Libertário (Faro, 1912- 1913), orgão da União Anarquista do Algarve, tendo como director António de Sousa Palma e editor António Pedro da Cruz; A Ideia (Faro, 1916), director Raul Duarte, editor António Pedro Cabeleira, administrador Neves Anacleto, e secretaria Rita Seixas.

Madeira
Imprensa: O Rebelde, o numero 1 saiu a 30 de maio de 1910 e o número 2 a 15 de setembro, com morada no Campo da Barca, 8, no Funchal. Era propriedade de uma futura denominada “Tipografia Ferrer”. Foi impresso na tipografia Minerva Comercial em Évora, mas a policia atenta intimou o dono da tipografia a deixar de o fazer. Dificultava-se deste modo a difusão do vírus anarquista na Madeira. Nos anos vinte será aqui publicado jornal A Batalha

Açores
Imprensa: A Lanterna, o número 1 saiu a 10 de Julho de 1915, na Ilha Terceira, tendo como redactor principal Aurélio Quintanilha e editor João Ávila ( 55)..

Organização

A base da organização anarquista eram os "grupos de afinidade", em geral constituídos por dez elementos, que se federavam entre si para criarem organizações mais amplas. Cada grupo tinha o seu próprio programa de ação e sempre que possível meios de propaganda. Após a implantação da República acelerou-se a criação destes grupos, como tem sido assinalado, assim como o crescimento da imprensa especificamente anarquista.

Aproveitando a liberdade que passaram a dispor no regime republicano rapidamente iniciaram um amplo processo federativo. O jornal O Corticeiro foi dos primeiros a defender a necessidade da criação de uma organização anarquista (A Sementeira, nº29, Janeiro de 1911)A base da organização anarquista são os "grupos de afinidade", em geral constituídos por dez elementos, os quais se federam entre si para criarem organizações mais ampla. Após a implantação da República o jornal O Corticeiro defendia a necessidade da criação de uma organização anarquista (A Sementeira, nº29, Janeiro de 1911). Aproveitando a liberdade no novo regime formou-se um amplo processo federativo.

Entre 11 e 13 de Novembro de 1911 decorreu em Lisboa um congresso anarquista que contou com a presença de 37 grupos, tendo sido constituída a Federação Anarquista do Sul (1911), seguindo-se formação de federações a norte (1912) e da União Anarquista do Algarve (1912). A Federação do Sul desde 1 de Janeiro de 1913 editava o jornal A Revolta (36), no qual a 26 deste mês publicou as bases desta federação.

Nesta altura foram igualmente constituidas as Juventudes Libertarias, as quais depois de 1914 começou a dissolver-se nas Juventudes Sindicalistas. Tinha a sua sede na Travessa d´Agua da Flor, 55, 1º. Em 1915 surge A Voz da Razão, quinzenário da Juventude Libertária, Carlos José de Sousa era o redactor principal, Manuel Soares Andrade Cadete o editor. Na cidade de Coimbra persistiu até inícios dos anos vinte elementos muito ativos desta organização juvenil.

O crescente envolvimento dos anarquistas nos sindicatos voltou a colocar a questão se o sindicalismo revolucionário se bastava a si próprio. Em Espanha, após a formação da CNT (1910) gerou-se um forte movimento que defendia a exclusividade da ação anarquista nos sindicatos. Em 1913 nas páginas do semanário Terra Livre (38) Emílio Costa nega esta concepção, sustentada por Manuel Ribeiro n`O Sindicalista (40), Carlos Rates, Neno Vasco entre outros. A estratégia sindicalista colhe apesar das críticas maior adesão entre os participantes no debate. .

Em 1914 organizaram-se quatro importantes conferências regionais: Lisboa - 27-28/06, Algarve -21/06, Coimbra -14/06 e Porto - 21/06

A questão da intervenção na Guerra provocou, como vimos, uma profunda divisão no movimento, o que se reflectiu logo na dificuldade de escolher um delegado para enviar ao Congresso Anarquista Internacional que se pretendia a realizar em Londres. .

Procurando superar as divergências em 1915 procurou-se reorganizar o movimento. Em Fevereiro de 1915 constituiu-se a União Anarquista Comunista da Região Sul, cuja sede ficou instalada na Travessa d`Agua da Flor, 55, 1º. O comité era constituido pelos seguintes elementos: Bernardino Santos (secretário geral), Augusto Valdez (adjunto), Adolfo Nunes ( Externo), Manuel campos (arquivista), Alberto Júlio das Neves (tesoureiro) cujo objectivo era unir a “família anarquista” (Germinal, nº5, 7/02/1915).

O movimento anarquista em 1917 é agitado pela ideia da criação de um “partido avançado” centrado na defesa do “municipalismo revolucionário”. Dois jornais republicanos - O Primeiro de Janeiro e o jornal Portugal trataram de dar grande destaque á ideia, promovida por dois anarquistas: Campos Lima e Sobral de Campos. A reacção negativa não se fez esperar e a ideia foi abandonada (A Aurora, nº19, 29/07/1917).

A criação da CGT, em 1919, provocou um refluxo das organizações e publicações especificamente anarquistas. A prioridade passou a ser a militância sindical. Não plano dos princípios discutiu-se a questão se os anarquistas nos sindicatos deviam ou não afirmarem as suas convicções e ocupar cargos de direcção.

Contra esta ação centrada nos sindicatos surgiam constantes criticas. O reformismo era inevitável, como constata o jornal Luz ao Povo, publicação do Núcleo da Juventude Anarquista de Coimbra (nº1, Março de 1920) que tinha como diretor Amadeu das Neves e editor José de Almeida.

Na Iª. Conferência Anarquista da Região Portuguesa, a 18 de Março de 1923, em Alenquer, foi criada a União Anarquista Portuguesa (UAP). Devido à repressão policial a conferência decorreu de forma discreta. Nela estiveram presentes representantes de 45 grupos e muitos a título individual. Entre os participantes conhecemos os nomes de Jorge Campelo que cedeu a casa (grupo O Semeador), António José Ávila, José Carlos Sousa, Augusto Carlos Rodrigues, Virgilio de Sousa, Alfredo Marques, Francisco Quintal, Manuel Perez (espanhol), Manuel Joaquim de Sousa, António Altavila, Luna de Carvalho, Francisco Costa, António Barreira, José Agostinho das Neves entre outrosUma das medidas aprovadas foi o reforço das relações com os anarquistas em Espanha. A situação política assim o exigia para fazer face à repressão. Em junho realiza-se um encontro em Evora, entre uma delegação Portuguesa (Santos Arranha-CGT, Manuel Joaquim de Sousa -UAP) e uma delegação espanhola ( Sebastian Clarà -CNT e outro), e em Dezembro um novo encontro em Sevilha (Manuel Joaquim de Sousa-UAP, Silva Campos-CGT) interceptado pela policia que prende os negociadores portugueses. Apesar disto os contactos mantiveram-se..

Em abril de 1924 realiza-se em Lisboa uma conferência regional na qual é constituída a Federação Regional do Centro da UAP, durante a qual é colocada a questão de uma Federação Anarquista Ibérica. Em Coimbra surgia a revista Claridade, ocupando o espaço da Luz ao Povo proibida. A UAP publica uma brochura de Elissé Reclus intitulada “A Anarquia e a Igreja”, num altura que se fazia sentir a propaganda da Igreja Católica a favor de uma Ditadura.

Em 1925 é lançado o jornal Aurora, mensário da Federação Anarquista da Região Sul de Portugal, na sequência de um decisão tomada na Conferência Anarquista de Aljustrel (57).

Em 1926 é decido criar um orgão da UAP- O Anarquista (28/2/1926 -8/8/1926) (33), onde se debatem: o fim da República e o Sindicalismo RevolucionárioManuel Joaquim de Sousa depois participar em Paris numa conferência da AIT, desloca-se a Marselha para representar este organismo no Congresso que a Federação Grupos Anarquistas de Língua Espanhola em França realizava neste país. A difusão das ideias fascistas e os apelos a um ditadura eram tais que, uma vez mais a República implantada em 1910 estava em perigo. O Anarquista no nº.1 (28/02/1926), interroga-se o que os anarquistas deviam fazer quando estava em causa a implantação de um Ditadura de modelo Rivera ou Mussoliano. Deviam ou não socorrer a República como o haviam feito no passado? Recordavam os deportados que continuavam na Guiné e os presos que enchiam as prisões em Portugal. A paga foi sempre novas prisões, como acontecera no combate ao golpe militar de 18 de Abril de 1925. Os golpistas foram amnistiados e integrados, os que os combateram foram reprimidos. A posição era “Não!” O nº. 3 (28/03/1926) escrevia que os anarquistas estavam face a um graves dilema: Apoiarem um governo que os reprime de forma tirânica ou reunirem todas as forças contra o fascismo que um vez no poder os irá igualmente reprimir.

A UAP interroga-se sobre o “sindicalismo revolucionário”. Um grupo onde sobressaia Francisco Quintal e Fernando Almeida Marques criticam abertamente a “Ideologia Sindicalista” (nº1). O sindicalismo não se podia assumir como o embrião de um “futuro Estado proletariano, com um comité confederal a fazer o papel de presidente da República”. O movimento geral revolucionário não podia esquecer outras lutas sociais, como a dos estudantes e o feminismo. Criticam abertamente a posição de Diego Abad de Santillán (1897-1983) e Emilio López Arango que defendiam que os anarquistas deviam militar exclusivamente nos sindicatos. Mais tarde, Luis Fernandes Laranjeira, no artigo “O Anarquismo na Luta Sindical - Um Esforço Inútil” (Germinal,nº1, 5/08/1929), resume a posição que muitos manifestavam em relação ao sindicalismo.

Após o esperado golpe militar de 28 de maio de 1926, O Anarquista acusa a CGT de não ter dado a resposta devido aos golpistasDepois da Espanha instaurou-se também em Portugal uma ditadura militar.

Em Janeiro de 1927 realizou-se o seu primeiro congresso, registando na altura 50 grupos e 30 aderentes individuais. Neste ano, Francisco Quintal em representação da UAP participa em Julho, na conferência anarquista de Valência onde foi criada a FAI - Federação Anarquista Ibérica. No regresso a Portugal é preso (Setembro) e deportado para Angola, onde se encontrava outros anarquistas igualmente deportados (Arnaldo Simões Junior, Álvaro Ramos e outros).

Editoras. Durante a primeira Republica foram muitas as editoras libertárias. O aparecimento do jornal A Batalha provocou uma mudança no campo editorial libertário. A editorial A Batalha desenvolveu um vasto programa de publicações como livros, brochuras, a série Novela Vermelha, periódicos como o Suplemento Literário e Ilustrada A Batalha (1923-1926), a revista Renovação (1925-1926) e o Almanaque de A Batalha (1926). Esta dinâmica editorial associada a difusão do jornal acabaram por levar a uma redução de novos jornais e editoras libertárias. A Sementeira deixou de publicar a revista com o mesmo nome (1919), para se dedicar à edição de brochuras. A editora Spartacus, fundada em 1924 por Campos Lima, onde editou obras suas e de Ferreira de Castro.

Grandes editoras mostraram igualmente interesse em editarem obras sobre temáticas e anaquistas. Augustin Hamon (1862-1945) neste período reuniu a preferência de varias editoras, como se constata pelas obras publicadas: Determinismo e Responsabilidade (1910), Socialismo e Anarquismo (19 ), As Lições da Guerra Mundial (1918), O Movimento Operário na Grã-Bretanha seguido do Socialismo em França (1920), A Crise do Socialismo (1921) e Psicologia do Anarquista-Socialista (1925).

Ligações Internacionais. Desde o século XIX que a principal referência dos anarquistas em Portugal era o movimento em França. No entanto, durante a República aumentaram os contactos com os anarquistas espanhóis. Em 1915 no Congresso Internacional Pro-Paz em Ferrol (Espanha) participaram e acabaram presos Manuel Joaquim de Sousa, Serafim Cardoso Lucena (1872-1943) ou António Alves Pereira (1885-1954). No Congresso da CNT, em Dezembro de 1919, a CGT fez-se representar através de Manuel Joaquim de Sousa.

A situação começa a alterar-se depois da Primeira Guerra Mundial, sobretudo quando se instala em Espanha a ditadura do General Primo Rivera (1923). A CNT é proibida e assiste-se a uma feroz repressão dos anarquistas. A situação é olhada com grande preocupação pelos anarquistas em Portugal, o que está bem reflectido nas páginas do jornal A Batalha. Neste ano, realiza-se em Évora uma conferência das organizações operárias de Portugal e Espanha, com a presença de Manuel Joaquim de Sousa (CGT) e Manuel Perez (CNT) perante a situação política no dois países, marcados pela ascensão das forças autoritárias coloca-se a questão de ações conjuntas das duas organizações confederais. Em Dezembro uma delegação da CGT constituida por Manuel Joaquim de Sousa e Manuel da Silva Campos desloca-se a Sevilha para conversar com elementos da CNT tendo em vista coordenarem as suas ações, sendo então presos.

No Congresso da CGT em 1925 fizeram-se representar a AIT através de Armando Borghi e a CNT através de Avelino Gonzalez e Segundo Blanco. Neste ano, ocorre em Barcelona um encontro clandestino de anarquistas portugueses e espanhóis para debaterem a questão de ações conjuntas contra a crescente onda repressiva.

Com a instauração também de uma ditadura militar em Portugal (1926) aumentaram os contactos, ações de solidariedade e coordenação mútua para enfrentarem as ditaduras nos dois países.

Registe-se o facto da participação de anarquistas de renome internacional como Jean Grave em publicações editadas em Portugal.

Anarquistas Portugueses no Brasil.

Durante os 16 anos que durou a Primeira República largas centenas de anarquistas foram presos, deportados ou mortos. Muitos fugirem de Portugal, nomeadamente para o Brasil onde prosseguiram a sua atividade revolucionária. Com os anarquistas italianos e espanhóis constituiam a maioria dos dirigentes sindicais neste país, onde tiveram uma ação relevante na Grande Greve Geral de 1917 e a greve insurrecional de 1918. O primeiro anarquista expulso foi António da Costa Borlindo, em 1901, acusado de estar envolvido na greve dos condutores de veiculos no Rio de Janeiro. Dada a dificuldades legais foi embarcado secretamente para Itália como um "perigoso" anarquista (17).

No Rio de Janeiro eram maioritários. Entre 1909 e 1930 devido ao seu envolvimento nas lutas operárias dezenas foram expulsos do Brasil, como foi o caso dos seguintes: Abel Ribeiro dos Santos ( natural de Trás-os-Montes, expulso 1921), Albino Silva (1921),Alexandrino Valente Coutinho (Beira Alta, expulso duas vezes 1921 e 1924), Alvaro Duarte Cerdeira ( Castelo de Paiva, 1920), António Alves Pereira Junior (Porto, 1920), António da Costa Coelho (1920), António Fernandes Leite (Ovar, 1920), António Francisco Lopes (Viseu, 1927), António Inácio Barbosa (Almeida, 1921), António Pereira Magalhães (Vila Real, 1930), António Ramos (Vila do Conde,1919), Armindo de Assunção Ferreira (Guarda, 1921), Artur António da Silva (Beja, 1920), Augusto Frias (Mochagata, 1920), Bento Santos ou Bento Pinto (Figueira da Foz, 1920), Herculano Correia (Caminha, 1920), João Oliveira (Pedrogão Grande, 1921), João Marques Melo (Figueira, 1920), Joaquim José Rodrigues (Vila da Feira, 1924), Joaquim Monteiro (1911), Joaquim Morais (1920), Jorge de Almeida (Aveiro, 1920), José Chaves (Gaia, 1921), José Fernandes Figueiredo (Guarda, 1921), José Gonçalves Brito (Ilha da madeira, 1921), José Maria Esteves (viseu, 1919), José Martins Ruas (Viana do Castelo, 1921), José Rosa da Silva (Beira Alta, 1919), José Maria de Carvalho (duas expulsões 1918 e 1927), José Urbano de Paiva ou Joaquim Rodrigues (1924), Júlio César Leitão (Vila Nova de Foz Coa, 1927), Luiz Lourenço (1921), Manuel Barbosa (1921), Manuel da Rocha Pires (Trás-os-Montes, 1927), Manuel Fernandes Gomes Amorim ou Manuel Fernandes Santa`Anna (Porto, 1919), Manuel Rocha (1921), Sebastião Lourenço (Viseu, 1920), António José Vaz (1924), Elisio do Nascimento (1924), José Marques da Costa (Joaquim, Rodolfo..)(1924), José Madeira (1919), Ricardo Correia Perpetuo (1919), Adriano pinto da Costa (1919), Galiano Testões (1919) (16).

Em São Paulo, por exemplo, as expulsões de anarquistas foram igualmente significativas, dado o seu ativismo sindical, como foi o caso de António Candeias Duarte (Coimbra 1881-?) na greve de 1917. Foi preso diversas vezes (1917, 1931, 1939 e 1947). Participou na fundação do PC do Brasil na sua feição anarquista.

Em Pará, José Marques da Costa (Matosinhos,1898-Lisboa, 1964) funda em 1919 o jornal A Revolta e O Trabalhador, orgãos das Federação Operária, e no ano seguinte O Semeador, jornal de propaganda sindicalista. Fixa-se neste ano no Rio de Janeiro, onde ingressa no diário anarquista Voz do Povo, para além de colaborar para vários jornais locais anarquistas, mas não só. Funda o semanário O Trabalhador e a revista mensal Renovação. Contrariando ordens da policia discursa no comício do 1º. de Maio e é expulso para Lisboa, onde e de novo preso. Integra-se rapidamente no movimento sindical.

Um grande número destes anarquistas mal chegavam a Portugal eram presos, sendo a policia informada das suas atividades revolucionárias (14). Em Setembro de 1919, um grupo de 11 anarquistas expulsos do Brasil assim que chegaram a Lisboa foram logo presos na esquadra do Caminho Novo. Em Outubro com mais 4 também expulsos do Brasil estavam a caminho de Cabo Verde para onde foram deportados (A Bandeira Vermelha, 10/1919). As prisões não pararam. A CGT realizou continuas ações de solidariedade e protesto.

Á semelhança do que aconteceu em Portugal os marxistas no Brasil ignoram ou omitem a ação dos anarquistas nomeadamente os vindos de Portugal, a maioria dos revolucionários estrangeiros.

Continuação

Carlos Fontes

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Anarquismo (literalmente "sem poder") 

Movimento político que defende uma organização social baseada em consensos e na cooperação de indivíduos livres e autónomos, abolindo entre eles todas as formas de poder. A Anarquia seria assim uma sociedade sem poder, dado que os indivíduos se auto-organizariam de tal forma que garantiriam que cada um teria em todas as circunstâncias a mesma capacidade de decisão. Esta sociedade, objecto de inúmeras configurações, apresenta-se como uma "Utopia" (algo sem tempo ou espaço determinado). É um ideal a atingir. Continuação

Filosofias Anarquistas

Dadas as características do movimento anarquista não deixa de ser impressionante a diversidade de filosofias que tem surgido no campo libertário. Continuação

 

 

Notas

   

 

 

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