Carlos Fontes
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Anarquismo em Portugal

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1886-1910: Movimento Anarquista. Kropotkin

No princípio da década de 80, as ideias anarquistas surgem já amplamente difundidas em Portugal. Atribui-se a Elisée Reclus a sua difusão o que é manifestamente um exagero (2). Nas duas visitas que realizou a Portugal, na primeira em Abril de 1886 visitou Lisboa e o Porto e manteve encontros com José António Cardoso, membro em ruptura do PSOP. Na segunda em 1887 constatava que a difusão do anarquismo era impressionante: "A Anarquia progride em todo o lado (...). O ano passado havia um só (anarquista) em Lisboa. Hoje são já suficientemente numerosos para difundir milhares de brochuras e editar um jornal" (33).

Tudo leva a crer que no começo de 1886, os anarquistas em Portugal já tinham ligações com o o principal jornal anarquista ao tempo - Le Révolté - fundado em 1884 por Kropotkine e Reclus. Este jornal a 28 de Fevereiro de 1886 dá conta de manifestações no país contra a concessão da companhia dos tabacos e a criação em Lisboa de um comité anarquista que anunciava a edição de jornal mensal com o título A Centelha. Indicava também que a correspondência para Portugal devia ser enviada para J. A. Cardoso em Lisboa. Os contactos internacionais estavam estabelecidos.

As ideias anarquistas há muito que estavam implantadas no país, faltava-lhe todavia um impulso para gerar um movimento. Foi isso que então aconteceu. Cardoso e José Martins Gonçalves Viana em dois importantes jornais da época - O Protesto Operário (Orgão do POSP) e A Voz do Operário - desenvolviam uma intensa campanha de propaganda anarquista.

O Protesto Operário, orgão do POSP, publica em 1886 um manifesto abstencionista da secção anarquista-colectivista de Barcelona com duras críticas. Cardoso defende nas páginas do jornal as ideias do manifesto e continua a polémica no jornal A Voz do Operário, onde Gonçalo Viana prosseguia uma ativa campanha de propaganda. Face aos constrangimentos que encontram, resolvem em 1887 lançar orgão próprios de propaganda anarquista.

Num curto espaço de tempo surgem novas publicações anarquistas, com destaque para a A Revolução Social (Porto, maio de 1887), "orgão Comunista-Anarquista", sob a direção de J.M.Gonçalves Viana.

Começa a ser anunciada a criação de grupos anarquistas revelando que o movimento tornara imparável: Em Abril de 1887 Cardoso forma em Lisboa o grupo A Centelha, a declaração de princípios é atribuida ao próprio E. Reclus (34). Com José A. Guedes Quinhones cria o jornal O Revoltado (1887). No Porto, Gonçalves Viana forma outro grupo anarquista-comunista e edita o jornal Revolução Social. Formou-se outro grupo na Figueira da Foz. Na Covilhã, em Dezembro constitui-se o grupo comunista-anarquista Os Vingadores e muitos outros se lhe seguiram.

Falar de anarquismo era agora reportar-se a "uma escola (...) um movimento de ideias e ações preciso" (J.M.Gonçalves Viana - A Evolução Anarquista em Portugal,1894 ). Reclus ao longos dos anos, como veremos, manteve uma ativa correspondência com os anarquistas em Portugal.

Reação do POSP

As cisões de anarquistas no POSP, em 1880 e 1881, obrigaram o partido a definir-se em termos políticos. Os ataques não tardaram. José Ribeiro n`O Protesto Operário, orgão do POSP, em 1883, inicia as hostilidades acusando os anarquistas de serem uma " seita" ("objecto do socialismo", 21/02/1883) que depois do Congresso de Haia apenas quererem lançar a "desordem" e o "ódio" entre os trabalhadores (13/01/1884) (36).

Numa tentativa de travarem as cisões, o POSP convidou-os a apresentarem propostas para reformarem o programa e o regulamento do partido (O Protesto Operário, 9/02/1884). Estes responderam no mesmo jornal com ataques ao eleitoralismo e reformismo do POSP (J.A. Cardoso, 25/4/1886 e 9/05/1886). As greves que sucederam foram encaradas com grande preocupação por parte dos dirigentes do POSP. Em 1890 trataram de expulsar da Associação de Trabalhadores destacados anarquistas, como Bartolomeu Constantino e Manuel Joaquim de Sousa.

Propaganda pelo Facto e Comunismo-Anarquista

O anarquismo em Portugal que irrompe em 1887 mostra seguir as tendências do movimento internacional.

Adopta o princípio um princípio comunista (a cada um segundo as suas necessidades) que desde 1874 em Itália Carlo Cafiero, Corelli, Andrez Costa, Errico Malalesta e outros vinham defendendo a partir da reformulação do colectivismo de Bakunine (a cada uma segundo o seu trabalho).

Segue também outras das ideias desenvolvidas em Itália: a Propaganda pelo Facto, mais tarde denominada Acção Directa (1906). A ideia da ação directa (sem intermediários) está presente desde a origem do anarquismo. Apela a que todos os que se sentem oprimidos e injustiçados, livre e autonomamente se revoltem e não esperem por nenhuma ordem que lhes seja exterior para o fazerem. A novidade introduzida pelos anarquistas italianos, sobretudo Errico Malatesta foi o conceito pedagogia pela ação. Através de ações, como manifestações, motins, sabotagens, levantamentos insurrecionais e uma infinidade de outras mais, os anarquistas destruiam formas de exercício do poder, despertavam os oprimidos para a luta e mostravam a possibilidade de mudanças sociais através de atos concretos. A ideia da propaganda pelo facto formulada em 1876 num artigo do boletim da Federação de Jura escrito por Cafiero e Malatesta. No congresso da AIT em Londres (1881) recomenda-se que os individuos tivessem em conta o estudo das ciências químicas como meio de ataque e defesa, numa alusão ao fabrico de bombas. A partir da década de oitenta sucederam-se os atentados contra reis, presidentes, capitalistas e todos os que corporizavam o domínio e a exploração de seres humanos.

A imprensa libertária em Portugal acompanha estas ideias. N´O Revoltado, nº.1 (Fevereiro de 1887) J. A. Cardoso escreve um elucidativo artigo sobre o conhecido anarquista francês Clément Duval, defensor da propaganda pela ação..

Malatesta ao contrário de Kropokine entendia que a construção do comunismo dependia da vontade dos individuos em se libertarem, não era nenhuma inevitabilidade histórica. O "anarquismo científico" ou o "socialismo científico" eram duas falsidades.

As ideias de Piotr Kropotkine (1842-1921) rapidamente se divulgaram entre os anarquistas em Portugal. A primeira tradução de uma das suas obras surgiu logo em 1887: A Anarquia na Evolução Socialista. Muitas traduções se seguiram com destaque para a sua obra mais difundida - A Conquista do Pão (Porto, 1895), um programa construtivo de uma sociedade comunista libertária (20). Foi durante décadas o mais popular pensador anarquista no país, nomeadamente devido à defesa de uma concepção "científica" do anarquismo, baseada no conceito de "apoio mútuo" o grande motor da natureza e da história da Humanidade. Apoio-mútuo, Justiça e Moral são conceitos indissociáveis na sua filosofia. A sua moral exige o reconhecimento da Igualdade, com base qual deviam ser destruídas as ilusões que oprimem e alienam o ser humano. Recusa a violência e defende uma evolução gradual para a Anarquia.

Kropotkine deu ao anarquismo uma "dimensão de cientificidade" muito ao gosto do século XIX. Mesmo aqueles que combatem o "anarquismo de Ravachol", como o conselheiro A. Serpa Pimentel (O Anarquismo, Lisboa, 1894) ou o visconde de Ouguella (A Questão Social, Lisboa, 1895) ou os evolucionistas como F. Martins de Carvalho ( O Socialismo Científico, Lisboa, 1894) não deixam de apontar para o "outro" anarquismo, civilizado, científico que traçava os caminhos futuros da Humanidade.

Qual o lugar de Proudhon passou a ter no movimento anarquista? O colectivismo de Bakunine ou o comunismo de Kropotkine deixaram pouco espaço para o seu mutualismo. Embora Proudhon fosse sendo esquecido (53), o seu conceito de federalismo foi amplamente assimilado. Passou a ser o princípio anarquista para a estrutura de organizações qualquer que fosse a sua natureza, dado permitir um maior controlo e intervenção directa dos seus membros na tomada de decisões. Era também a base de entendimento de anarquistas e muitos republicanos sobre a organização federalista (municipalista) que preconizavam para o país.

Repressão

As primeiras prisões de anarquistas ocorreram em 1888, na sequência de célebre bengalada de Manuel Joaquim Pinto ao deputado Pinheiro Chagas. Pinto é preso, assim como a sua companheira Júlia Adelaide, Albino Gomes de Morais e Manuel José Martins Vagueiro, José de Sousa (14) e José António Cardoso. Pinto só foi libertado em 1891 e volta a ser preso em julho de 1893 quando realizava em Santiago do Cacém uma conferência na associação de trabalhadores.

Em Fevereiro de 1894 é preso Joaquim Raimundo dos Santos. Em Abril Manuel Silva Mendes é detido em Braga quando distribuía um manifesto anarquista, em Agosto acontece o mesmo a João Marques na cidade de Portalegre.

Em 1895 na sequência dos desacatos a 30 de Junho no Rossio durante a procissão comemorativa do Centenário de Santo António, nas rusgas que se sucederam são presos Reynaldo Brandão, Mateus Rodrigues, Tirso Augusto dos santos, Francisco Augusto Soares, Kader, Augusto da Costa e de novo Raimundo dos Santos. Em setembro seguem para São Tomé, Angola (Luanda), Moçambique e Timor uma leva de desterrados por três anos. Alguns jornais anarquistas são proibidos, como O Libertário no Porto.

Em 1896 o regime monárquico durante a primeira ditadura de João Franco publica a infame lei de 13 de Fevereiro destinada a reprimir o movimento anarquista (1). A imprensa anarquista é proibida.

As noticias internacionais sobre os atentados à bomba protagonizados por anarquistas como Ravachol (1859-1892) ou Emile Henry (1872-1894) assustam a burguesia instalada no poder. Alguns grupos em Portugal afirmam-se também seguidores de Ravachol. O Lutador do Porto, em 1895 proclamava: "Não temais a polícia nem a guarda municipal, porque se janizaros têm sabres e revólveres, nós, os explorados, temos a dinamite." Os nomes de alguns grupos são indicativos da afeição por este meio de luta: G. Casério (Lisboa, 1894), G. Vaillaint (Belém, Lisboa, 1894) ou G. Pallas (Lisboa, 1893). Surgem vários jornais clandestinos como A Sombra de Ravachol que tinha como legenda “Sendo a propriedade um roubo, a expropriação é uma necessidade” (A Revolta, nº31, 4/06/1893), O Agitador (Outubro de 1895), com a divisa “Aparecerá sempre que puder” ou O Anarquista (manuscrito, 1895); A Biblioteca d´A Revolta edita “A Minha Defesa de Jorge Etièvant, com as suas declarações para serem lidas no julgamento a que foi submetido no Tribunal de Versalhes. A Biblioteca Literária do Porto publica Ravachol (1893).

Face à brutal repressão que eram vítimas procuram encontrar novas formas de propaganda, adoptam títulos menos identificáveis pela polícia ou veiculam as suas ideias nas publicações de associações operárias.

No entanto, o que atemoriza mais o poder é a combatividade demonstrada pelos anarquistas, muito distinta do conformismo dos socialistas ou dos subitamente apagados republicanos depois da revolta do 31 de Janeiro de 1891.

O pretexto do governo para a infame lei foram alguns atos isolados na maioria deles fabricados pela própria policia. O primeiro atentado, como referimos, ocorreu a 7 de Fevereiro de 1888, quando Pinheiro Chagas (escritor, ministro, deputado, etc) ridiculariza a anarquista Louise Michel que acabara de ser vítima de mais um atentado em França. No Rossio é-lhe dado um exemplar da Revolução Social e nas escadaria do Parlamento Manuel Joaquim Pinto dá-lhe uma bengalada. A imprensa anuncia que em breve o país entrava no caos. Começa a repressão contra os anarquistas. Segue-se a morte de um industrial Cipriano de Oliveira e Silva (1888). Uma bomba junto do Governo Civil do Porto (Setembro de 1889); Prosseguiu com os tentados contra o administrador do concelho de Setúbal (fevereiro de 1890), uma bomba junto dos edificios do Ministério do Reino e da Câmara Municipal de Lisboa (1891), o Consulado Geral de Espanha como protesto pelas prisões em Jerez (Fevereiro de 1892) e ao Conde de Folgosa (Novembro de 1892). A que se seguiu-se a incursão na procissão de Santo António (1895) e uma pedrada de Luiz de Mattos contra o rei a 26 de Janeiro de 1896 e no dia seguinte uma bomba contra o médico que examinou o autor da pedrada, o Dr. Joyce (37). Estes pretextos justificaram a caça aos anarquistas em Portugal levando à prisão e deportação de centenas. A Monarquia assinava também a sua certidão de óbito.

A lei de 13 de Fevereiro condenava à prisão e deportação para as colónias todo o individuo que tivesse ideias anarquistas ou as divulgasse. A imprensa também ficava proibida de qualquer referência aos seus atos ou doutrinas. Era um violento ataque contra a liberdade da imprensa, o que desencadeou muitos protestos. É na sequência desta lei que Manuel da Silva Mendes (1867-1931) publica - Socialismo Libertário ou Anarquismo (1896). É uma obra singular no pensamento anarquista em Portugal, assente numa ideia fundamental: a crescente complexidade das sociedades humanas conduz à inevitabilidade do anarquismo. A complexidade obrigaria à descentralização e dissolução do próprio poder.

Apesar da repressão o anarquismo tornou-se neste altura numa referência obrigatória em muitos domínios do país: sindicalismo, educação, arte, cidadania, mudança de mentalidades.

O protesto manteve-se ativo até ao fim da monarquia, contribuindo para a sua queda. O movimento anarquista entra numa luta clandestina, contando com a temível solidariedade internacional. Em 1898 ocorreu um dos momentos cruciais desta luta. A 24 de Abril no Monte Aventino às Antas no Porto realiza-se um monumental comicio contra a Lei, contando com uma vasta adesão de associações operárias. A policia e o exercito mobiliza para o local um grande número de elementos. A mesa era formada por Guilherme Gonçalves Baptista, Serafim Cardoso de Lucena, Júlio Gabriel. Um estudante de Belas-Artes Christiano de Carvalho leu uma mensagem de solidariedade dos trabalhadores ingleses. A policia acaba por prender todos e envia-os para o Aljube em Lisboa. Bernardo Lucas, o advogado dos detidos, com excepção de Christiano, elaborou um discurso de defesa dos detidos que foi publicado sob a forma do número programa de uma revista: A Ideia (A Ideia, Periodico Científico, nº. 1, Setembro de 1898).

Disposto a exterminar os anarquistas, o governo fez-se representar entre 24 de Novembro e 21 de Dezembro de 1898 na “Conferência Internacional pela Defesa Social contra os Anarquistas”, promovida pelo governo italiano (51). As conclusões aprovadas pela maioria dos paises europeus, incluindo a Turquia, foram mantidas em segredo, embora fossem seguidas em Portugal com algumas limitações como a aplicação da pena de morte por força da legislação do país (31).

As prisões e deportações de anarquistas e outros que eram acusados de serem seus cumplices tornaram-se uma prática permanente dos monárquicos. O combate pela Liberdade nunca desfaleceu.

Devido ao silencio imposto e à forma sumária como eram aplicadas as penas é dificil quantificar entre 1896 e 1910 o número de deportados anarquistas. Em 1896 segundo fontes oficiais foram deportados 24, dos quais 10 destinados a Moçambique e 14 para Timor (32). Outra fonte oficial afirmou que depois de 1896 em Lisboa fora deportado um anarquista que fizera a apologia do atentado contra a o rei de Itália. Fora de Lisboa mais cinco anarquistas: dois em Seia, dois em S. Tiago do Cacém e um em Olhão. Acrescentou que foram presos dois jornalistas, um a 29/10/1898 e outro a 3/08/1900. A minguada contabilidade oficial referia outras prisões (1899 e 1901) sem que ocorressem deportações (30). Não faltaram os que sabendo que seriam presos, como o caricaturista Leal da Câmara fugiram do país.

Para Timor seguiram entre outros os seguintes: Joaquim Raimundo dos Santos (1896-1911), Luís António Nogueira (1896 a 21 de Julho de 1906); José Miranda ( morreu em 1896); Sebastião (1896 a 1906); Marques (1896 a 1906); Diniz (1896 a 1906); Gilberto Alves dos Santos (morreu em Timor); Cruz (morreu em Timor); Francisco Augusto Soares (1896 a 1905, morreu no regresso a Lisboa); Bernardo Caldas (morre em 1897 no Hospital de Dili em Timor); José Dias de Lourenço (1896 a 1899, morre em Dili); Carlos Augusto da Fonseca (1896-1903, morre em Dili); Rodrigo da Silva (1896-1900, morre em Dili); João Manuel Rodrigues (conseguiu fugir na África do Sul);

Para Macau sabemos que foi deportado José de Carvalho e Manuel Coelho Traficante e aqui tentaram constituir um grupo anarquista. Foram descobertos e deportados para Timor (1908). Neste território ocorreu em 1907 uma situação inesperada: Um grupo de marinheiros da guarnição da canhoeira Rio Lima promoveram a constituição de um grupo anarquista "Alvorada da Liberdade" com militares da Guarnição local. Para além de intensa propaganda através de cartas, bilhetes, dedicatórias em retratos e textos diversos, promoveram uma subscrição destinada a auxiliar a Escola Livre de Campos Lima em Coimbra (8). Como ocorreu em 1855 o anarquismo estava difundido dentro dos quartéis minando o regime monárquico.

Para Moçambique foram deportados entre outros Cruz (1896); Justo (1896); Vieira, Francisco Augusto Soares, por se recusar a ouvir a missa no presidio foi desterrado para Inhambane, onde trabalhou como carpinteiro. Faleceu em São Tomé, a 9 de Junho de 1905, quando regressava a Portugal; José Estevam foi libertado pela Republica mas logo a seguir preso por constituir em Moçambique uma Liga Revolucionária.

Para Angola foram deportados Luiz Bernardo de Mattos cumpria uma pena de 16 anos de degredo; Francisco José Frias; Mateus Rodrigues; Firmino José Faias; João Dias d`Oliveira; Manuel Caldeira Feio foi preso a 22/09/1905 em Vila Viçosa, deportado para Angola onde se evadiu. Regressou a Lisboa e voltou a ser deportado agora para a Guiné ( Germinal, 24/09/1905; O Mundo, 26/09/1905);

Na Guiné entre 1896 e 1905 esteve desterrado Manuel Augusto Oliveira.

Muitos outros foram deportados para partes incertas em África como José Ricardo Osório, Loureiro, Antero, António Domingos. Para S. Miguel nos Açores foi enviado Francisco dos Santos (18) e possivelmente outros

Anarquistas e Republicanos

Esta perseguição aos anarquistas acaba por uni-los no ódio comum à monarquia, levando-os a aderir à carbonária e a uma estreita colaboração (anarquismo intervencionista). Em fins de 1901 é lançado um manifesto em Lisboa, promovido entre outros por Ernesto da Silva, para uma “aliança revolucionária” com os republicanos. É neste contexto que é criada a Federação Socialista Livre - FSL (1902-1906), tendo como orgão o jornal Germinal (nº1, 5/10/1902)(42), fundado José do Valle, Dias da Silva e Bartolomeu Constantino. As “bases” da Federação foi publicadas pel´ O Amigo do Povo (Nº34, 3/08/1902).


A FSL possuía ramificações em Lisboa, Porto, Almada, Setubal, Covilhã, Funchal e outras localidades. Agregava vários orgãos de propaganda, como Germinal (Setubal), O Rebelde, O Amigo do Povo (Portalegre), O Trabalhador, A Propaganda, A Revolta, A Obra ou A Era Nova (Coimbra), assumindo como objectivo lutar contra a Lei do 13 de Fevereiro e significativamente o derrube a monarquia.


Os republicanos passam depois de 1903 a colaborarem ativamente na propaganda contra a lei de 13 de Fevereiro de 1896, denunciando a barbárie e arbitrariedades praticadas pelos monárquicos. Uma hábil estratégia de condenação pública da Monarquia. Na imprensa republicana destacou-se um jornal nesta campanha: O Alarme, diário republicano da tarde no Porto, cujo redator principal era Helidoro Salgado.
Entre as denúncias e iniciativas que promoveu sobressai a campanha nacional contra a lei, cuja adesão foi enorme em todo o país (nº.19, 22 de Novembro de 1904). A Associação de Classe União dos Operários Manipuladores de Tabaco do Porto, por exemplo, na sessão que organizou de protesto contra a lei, denunciava que a repressão era geral: "Considerando que a lei é uma rede para caçar nas suas malhas todos os liberais sem distinção de partidos, quando os governos assim o entenderem e que já o número dos mártires sobe a mais de 1500 de diversas classes e partidos" (O Alarme, nº87, 13 de Fevereiro de 1905). Segundo este jornal (7/12/1904) cinco anarquistas desterrados em Timor haviam até à data falecido. A policia servia-se de todos os pretextos para os prender: Em São Bartolomeu de Messines, em 1904 são presos Gregório, José Jerónimo, Amadeu da Silva e Filipe. Estavam a conversar na beira da estrada quando foram acusados de partirem vidros num comboio (O Alarme, 30/12/1904). Ainda em 1904, a 20 de Dezembro era constituída a “Liga de Combate Contra a Lei do 13 de Fevereiro “ numa altura que Bartolomeu Constantino continuava preso no Limoeiro.

Ao longo dos anos foram realizados muitos comícios e sessões contra a lei sem que o governo cedesse. Um do maiores ocorreu a 29 de Janeiro de 1905 no Porto, a que assistiram cerca de 7 mil pessoas ( O Alarme, nº76, 30/01/1905)..

A Associação de Classe União dos Operários Manipuladores de Tabaco do Porto, por exemplo, na sessão que organizou de protesto contra a lei, denunciando ao mesmo tempo a repressão em geral: "Considerando que a lei é uma rede para caçar nas suas malhas todos os liberais sem distinção de partidos, quando os governos assim o entenderem e que já o número dos mártires sobe a mais de 1500 de diversas classes e partidos" (O Alarme, nº87, 13 de Fevereiro de 1905). Em 1905 numa outra importante leva registamos os seguintes: Em Luanda encontravam-se desterrados Benjamim José Rebelo estava em 1905 desterrado na Guiné.

O jornal A Era Nova, nº15, a 19 de Maio de 1906, contornando a censura publicava o seguinte anúncio: "IMPORTANTE - O Reino de Portugal muda-se para Timor. Continua a receber encomendas e agradece a visita dos seus estimados fregueses ao seu estabelecimento. Toca a preparar as malas."

Era longa a lista dos anarquistas desterrados para Timor, Moçambique, Angola, São Tomé ou Guiné durante a monarquia. A simples acusação de anarquista serve para prender e deportar todos os que pudessem incomodar o poder.

Em 1907 os deportados de Timor, com excepção de Raimundo dos Santos são amnistiados. José Miranda falece em 1907 desterrado. Só em 1911 teve permissão para regressar a Portugal o último anarquista deportado durante o regime monárquico - Raimundo dos Santos, acusado de ter participado no atentado ao Dr. Joyce (1896)

Esta aliança de anarquistas e republicanos não era pacífica, embora, como vimos, tivesse antecedentes históricos. A revolta republicana do 31 de Janeiro de 1891 no Porto, contou com a participação de anarquistas e o jornal Revolução Social foi proibido. A aproximação era facilitada pela existência dentro do movimento republicano de uma corrente federalista e municipalista. Uma propaganda sustentada por republicanos como Magalhães Lima, grão-mestre da maçonaria (1907-1928), uma personalidade querida dos anarquistas (44). O termo federalismo a partir de 1891 passa a designar-se por descentralismo, afastando-se de possíveis associações ao federalismo ibérico (iberismo).

A verdade é que depois de 1903 o Partido Republicano saiu do torpor em que entrara depois de 1891 denunciando os crimes da monarquia. Do lado dos anarquistas temia-se que o movimento fosse arrastado para a luta parlamentar. Emílio Costa publica então a brochura É Preciso a República? definindo as linhas de entendimento entre anarquistas e republicanos (liberdade, municipalismo, descentralização...). Alfredo Pimenta, no jornal da Guarda O Combate (5 de Abril de 1905) escreve também sobre o tema, repetindo igualmente o que da República esperavam: liberdade e descentralização, em síntese uma republica federativa. A separação de águas revelou-se difícil de manter. O jornal Germinal de Setúbal, por exemplo, a 12 de Fevereiro de 1905 apoiava as listas republicanas. José do Vale, o mais conhecido anarquista do tempo promovia as listas republicanas.

A Federação Socialista Livre não registou nenhuma atividade relevante. Em Março de 1902 em aliança com os republicanos organizou uma conferencia Conferência Contra a Guerra Sul-Africana. Em Abril de 1904 participa, através de José do Valle, num protesto anarquista internacional relacionado com a prisão dos trabalhadores rurais envolvidos na insurreição de 1 de Agosto de 1913 em Alcalá del Valle (Espanha). Ter-se-á entretanto dissolvido.


A FSL voltou em 1906 a ser reconstituída em Lisboa, acentuando agora que privilegiava a ação directa e repudiava a agitação politica e parlamentar (A Era Nova, nº1, 3/02/1906). Em fevereiro deste ano com o Partido Republicano lançava um protesto contra o imposto de consumo, o que desmentia a sua proclamada independência. Bartolomeu Constantino aparece como secretário, e elemento de ligação à carbonária. A imprensa anarquista divulgava regularmente comunicados desta organização secreta (cfr. A Era Nova, 5/05/1906).

Face as estas ligações, Campos Lima n`A Era Nova (nº4, 24/02/1906) a respeito do intervencionismo chama à atenção que nos países onde a República foi implantada as promessas estavam longe de serem cumpridas. Noutro artigo (nº16, 26/05/1906) escreve que os republicanos "querem fazer dos anarquistas portugueses uma dependência do Partido Republicano" e acrescenta "A tal não chegaremos nunca felizmente".

A aliança para derrubar a monarquia nunca desapareceu. As ações armadas para a implantar a República passaram contar com anarquistas, como foi o caso da tentativa de golpe de 28 de Janeiro de 1908. Entre os presos implicados no golpe contava-se José do Vale (A Sementeira, nº2, Outubro de 1908).

Muitos republicanos persistiam em assumir que tinham os mesmos objectivos que os anarquistas. Helidoro Salgado, nas páginas d`O Alarme, declara-se militante republicano, anarquista e idealista (nº96, 23 de Fevereiro de 1905). Nas páginas do Germinal - Theofilo de Braga afirma que a meta da República é uma sociedade anarquista (nº221, 17 de Maio de 1908). Uma “aliança revolucionária” que levou bastantes anarquistas a passarem para o campo republicano, como constatava A Sementeira (Nº. 6, Fevereiro de 1909).

José do Valle e Bartolomeu Constantino (1868 ? -1916) eram idolatrados na imprensa republicana, que lhes dedicou longas páginas incluindo poemas. O primeiro acabará afastado em 1911 do movimento anarquista quando se candidatou pelo Partido Republicano às eleições constituintes pelo círculo 38º (não foi eleito). O segundo, manteve-se fiel ao ideário libertário (43).

Carbonária e Maçonaria

A repressão leva muitos anarquistas e republicanos radicais a constituirem Agosto de 1896 uma organização secreta para combater e lei de 13 de Fevereiro e a própria monarquia. Entre os seus fundadores contavam-se Heliodoro Salgado, Benjamim José Rebelo, Júlio Dias, Sebastião Eugénio, José do valle e outros na zona de Alcântara. O primeiro nome era Aliança Revolucionária, seguindo-se Obreiros do Futuro (1899). Ainda em 1896 criam uma organização mais abrangente o Grémio Liberdade, que deu origem à Carbonária Portuguesa (1900), tendo no topo da hierarquia chefes republicanos (17).

Os anarquistas, como dissemos, em 1901 formam a Federação Socialista Livre, com ramificações em Lisboa, Porto, Almada, Setubal, Covilhã, Funchal e outras localidades. Agrega vários orgãos de propaganda, como O Rebelde, O Trabalhador, A Propaganda e A Revolta, assumindo como objectivo lutar contra a Lei do 13 de Fevereiro e significativamente o derrube a monarquia. A imprensa anarquista divulga regularmente comunicados da Carbonária (cfr. A Era Nova, 5/05/1906).

Face às perseguições transformou-se numa organização secreta denominada Bonfim, ligada à carbonária, entre os anarquistas que a compunham destacavam-se José do Valle (jornalista), Bartolomeu Constantino (sapateiro), Francisco Verissimo (serralheiro mecânico), José Jesus Gabriel (torneiro mecânico), Adão Duarte (esteotipador do jornal O Mundo), Brito Benttencourt (professor), Manuel Rebordão (funileiro), Ribeiro Azevedo (jornalista), Jaime Tavares (farmaceutico), José Vidigal (arsenalista), entre outros. Descoberta a associação Bonfim criaram, em 1908, a Carbonária Lusitana, conhecida por Carbonária Anarquista. Outros grupos, como o que participava José Nunes (13) estavam também ligados à carbonária.

Para além da carbonária eram muitos os anarquistas ligados à maçonaria, como era o caso de Manuel Joaquim de Sousa, Campos Lima ou Emílio Costa (46). O que os atraia parece ter sido a ideia de uma fraternidade universal, que na promessa de E. Kant fundaria uma Paz Perpétua. Sobre estas relações (pacificas) a Biblioteca Nova Aurora publicou uma brochura - A maçonaria e o Proletariado (46).

Face à crescente contestação à lei de 13 de Fevereiro de 1896, o governo empreende a sua revisão a 21 de Novembro de 1907, relegando os crimes de difusão das ideias anarquistas para o julgamento do juiz de instrução. A repressão continuou numa crescente escalada

A repressão contra os anarquistas nos últimos anos do regime monárquico foi particularmente violenta, sucedendo-se as perseguições, prisões e assassinatos. Não admira que a reação fosse idêntica: à bomba ! (48) As bombas foram empregues na tentativa de golpe de estado de 28 de Janeiro de 1908, sendo decisivas no golpe de 5 de Outubro de 1910. Não raro ocorriam acidentes no seu fabrico ou manuseamento. Um destes aconteceu a 6 de Agosto de 1907, no bairro da Estrela, rua de Santo António em casa do Manuel Vaz Robordão de que resultou vários feridos graves: o seu irmão Luiz (cabo da marinha de guerra), Britto Bettencourt (professor de línguas), autor do “Catecismo do Ateu”. A polícia apressou-se a falar de “complots” anarquistas, seguindo-se uma onda de prisões e deportações. A imprensa republicana denunciou as arbitrariedades policiais. Numa onda de solidariedade no dia 19 de Dezembro de 1908 foi levado à cena no Teatro do Principe Real, a peça de Manuel Laranjeira “Amanhã” em beneficio de Manuel Robordão que havia perdido uma das mãos.

O caso mais mediático deu-se a 17 de Novembro de 1908 com a explosão num prédio da Rua do Carreão tendo morrido dois carbonários libertários António Gonçalves Lopes (médico) e José Martins Belmonte de Lemos (comerciante), a que seguiu nova vaga de prisões (Germinal, nº212, 1/03/1907). A explosão acorreu no quatro do Aquilino Ribeiro (45).

José do Valle, jornalista, editor dos jornais O Petardo e o Dinamite (50) tornou-se no símbolo do anarquista-bombista pelo emprego que alegadamente delas fazia e pela forma desabrida como justificava o seu emprego (49) .

No dia 1 de Fevereiro de 1908 o rei D. Carlos e o principe herdeiro Luiz Filipe são assassinados no Terreiro do Paço. O dedo foi apontado aos anarquistas e em particular a um - Alfredo da Costa (40). O objectivo era matar o ditador João Franco, mas as circunstâncias ditaram outro desfecho (44). Augusto Machado resumia mais tarde o acto nas seguintes palavras: “A violência provoca a violência, e enquanto a organização social em que vivemos, subsistir , os casos como o de 1 de Fevereiro terão infelizmente de surgir, pois são o reflexo de violências muito mais criminosas e infames” (Guerra Social, nº11, 30 de janeiro de 1911). É muito significativo que no enterro dos regicidas estiveram presentes mais de 20 mil pessoas, revelando a falência do regime monárquico.

A 5 de Fevereiro após a demissão do João Franco, o governo liderado pelo almirante Ferreira do Amaral declarou nulos os decretos de 21 de Novembro de 1907 e de 31 de Janeiro de 1908 mas manteve as leis de 13 de Fevereiro de 1896 e 21 de Julho de 1899. Os anarquistas continuavam a ser o alvo a abater.

Anarquistas e Socialistas

A saída dos anarquistas do POSP, como vimos, não foi pacifica. A situação tornou-se ainda mais dificil a partir de 1896: os socialistas ficaram divididos entre o PSOP (possibilista) e o então criado Partido Socialista Português (PSP) de Azedo Gneco (marxista). Este recusava qualquer entendimento com os anarquistas, embora o programa do PS nada tivesse de marxista. Esteve presente como delegado no Congresso Internacional Socialista em Londres em 1896, onde foi votado a expulsão definitiva dos anarquistas dos Congressos da IIª. Internacional. As lutas internas dos socialistas entre o PSOP e o PSP prolongaram-se até 1907 quando as duas tendências se uniram. Nesta altura contrariados com a subida dos republicanos andavam em negociações com os monárquicos...

A corrente possibilista do PSOP e até do PS, por privilegiar a luta económica à luta eleitoral, estabeleceu vários entendimentos com os anarquistas: Em Junho de 1897 colaboram na organização do Congresso Operário da Região Sul, uma iniciativa da Confederação Metalúrgica. Neste ano, Ernesto de Sousa que havia sido o principal apoiante de Azedo Gneco adere ao anarquisrmo.

A 29 de Janeiro de 1899 reunem-se em Lisboa elementos do PSOP e anarquistas, entre os quais se destacavam Bartolomeu Constantino. A moção então aprovada apelava à união de esforço, mantendo cada qual a sua autonomia. A prática mostrava que o entendimento era impossivel. O grande obstáculo era o reformismo dos socialistas. Minavam as lutas operárias colaborando na sua repressão, como aconteceu em 1903 na Greve Geral do Porto.

1º. de Maio. A luta pelas oito horas de trabalho diárias, em 1886 foi marcada pelo acontecimento trágico em Chicago. Durante uma manifestação em prol desta reivindicação (4/05/1886) ocorreu a explosão de uma bomba. Oito anarquistas foram acusados de estarem envolvidos nesta explosão, quatro dos quais acabariam enforcados a 11 de Novembro de 1887. Nove dias depois a imprensa operária em Portugal protestava contra as execuções (O Protesto Operário, 20/11/1887), seguindo-se manifestações de repudio. O dia 11 de Novembro passou a ser recordado pelo anarquistas como um marco desta luta pela redução do horário de trabalho. No congresso da IIª. Internacional Socialista Internacional reunido em Paris (1889), foi decidido todavia assinalar esta luta no dia 1º. de Maio, como o Dia da "Festa do Trabalhador". Os anarquistas apesar de preferirem assinalar o dia 11 de Novembro, acabaram por aderir à iniciativa. Em 1890 o 1º. de Maio foi pela primeira vez comemorado em Portugal. Em Lisboa os socialistas limitaram-se a seguir instruções dadas pelo policia fazendo uma discreta romagem ao túmulo de José Fontana no cemitério dos Prazeres. No Porto, anarquistas e socialistas entenderam-se e realizaram uma monumental concentração no Monte Aventino em defesa das oito horas e outras reivindicações operárias. Os republicanos através do jornal O Primeiro de Janeiro fizeram circular uma mensagem enganosa que a concentração dos anarquistas seria na Praça D. Pedro, o que gerou alguns contratempos. Em Coimbra, os anarquistas em Outubro deste ano publicaram o primeiro jornal com o título "1º. de Maio", redigido José Monteiro, Luis Teixeira, José Alves, José Pereira da Cruz, João Squilário, António Gurri e José Martins. Foi proibido após a revolta republicana do 31 de Janeiro de 1891 no Porto. A comemoração deste dia era distinta para anarquistas e socialista, os primeiros encaravam-na como uma jornada de luta, os segundos como uma "festa popular" sem conteúdo revolucionário (39). Em Lisboa, por exemplo, passou a ser assinalada por um cortejo alegórico que começava na Praça dos Restauradores e terminava com os discursos alusivos à festa junto ao túmulo de José Fontana.

Sindicalismo Revolucionário

A traição do Partido dos Operários Socialistas de Portugal, em 1879, quando contrariando as decisões de anteriores congressos resolveu concorrer às eleições, desencadeou a revolta dos anarquistas no interior dos sindicatos. Em 1885, a Associação dos Ferreiros e Artes Correlativas de Lisboa, contrariando as orientações do POSP promoveu o Iº. Congresso das Associações de Classe onde foi preconizado que fosse retomada a posição da AIT de 1872, isto é, o abstencionismo. A luta passou por autonomizar os sindicatos dos partidos políticos. O momento decisivo ocorreu no Congresso das Associações de Classe em março de 1892 no Porto. Os representantes das associações do sul abandonaram o congresso e convocaram um outro para Julho no mesmo ano. Neste congresso de Lisboa foi reafirmado a autonomia das associações operárias face aos partidos politicos e discutidos questões que afectavam directamente os trabalhadores. Foi uma importante vitória dos anarquistas.

O sindicalismo revolucionário em Portugal, para além da sua dinâmica própria, não deixava de reflectir o que acontecia no mundo. A ideia de uma Greve Geral era desde 1873 assumida como uma poderosa arma ao serviço da revolução social (Congresso da AIT de Verviers, 14/04/1873 e de Antuerpia (15-16/08/1873) . Em 1887 funda-se em Paris outro importante meio revolucionário: a Câmara de Trabalho, um local de encontro de sindicatos e debate de ideias. Em 1892 constitui-se uma Federação de Câmaras do Trabalho. Em 1894 foi chamado para dirigir a Federação, um novo secretário, Fernand Pelloutier (1867-1901). Graças ao impulso deste anarquista, secundado por outros, estas Câmaras tornam-se poderosos organismos revolucionários em França. Em 1895 deu-se outro passo importante, a constituição da Confédération Général du Travail- CGT, sobre a base programática da greve geral e do sindicalismo revolucionário. Os anarquista em Portugal tinham agora uma estratégia e um modelo de organização revolucionária do sindicalismo.

Entre 1893 e 1895 ocorre uma mudança nos sindicatos quando os anarquistas entram nelas em força. Uma viragem que foi estimulada pelo próprio governo. Em 1895 resolveu expulsar do corpo eleitoral os analfabetos que representavam 80% dos eleitores. Os operários, sem representação social viram na estratégia anarquista o único meio que lhes garantia uma efectiva intervenção social (7).

Apesar da repressão a partir de 1896, o movimento anarquista continuava profundamente envolvido no movimento sindical. Preconizam uma ação independente dos sindicatos dos partidos políticos e a organização de um Confederação Geral do Trabalho como escreve Emílio Costa (O Amigo do Povo, nº28, 22/06/1902), na linha do Congresso de Libertários em Liege.

No início do século XX os anarquistas estão à frente das lutas operárias (11). A greve geral no Porto, em 1903 (26), com forte impacto em todo o país, reforçou a ideia que havia necessidade de uma organização sindical nacional.

Em 1906 a concepção de um sindicalismo revolucionário, base da organização de uma futura sociedade está já claramente assimilada na imprensa anarquista (A Era Nova, Coimbra, 10/02/1906). As conclusões do Congresso de Amiens (setembro de 1906) veio consagrar esta estrategia. São organizadas tournés para divulgar pelo país esta concepção de sindicalismo revolucionário. Em 1909, por exemplo, uma foi para o Alentejo e Algarve: João Baptista Otero e Acrácio Progresso contaram então com o apoio de grupos anarquistas locais (Guerra Social, nº11, 30/01/1909).

Em Julho de 1909 a Federação Operária de Lisboa, propôs ao Partido Socialista a realização de um congresso operário em duas secções: Lisboa e Porto. Na secção de Lisboa, cujos trabalhos ocorreram na Sociedade de Geografia estavam presentes representantes de 44 organismos diversos, 3 jornais e 119 delegados. Na secção do Norte, reunidos na Casa do Povo Portuense, estavam 130 delegados em representação de 51 associações. As divergências entre anarquistas e socialistas em Lisboa não tardaram. O que os dividia era muito, desde a questão da República aos participantes não sindicais com direito a voto que foram inscritos pelo PS para controlarem as decisões.

Perante estas manobras, os anarquistas em Lisboa abandonaram o congresso e foram-se reunir na sede da Caixa económica, onde realizaram um novo congresso com 31 sindicatos. Entre eles estavam José do Vale, Constantino Martins, Dinis Morais, Alfredo Ladeira entre outros. Neste congresso foi nomeada uma comissão executiva para a realização de outro congresso que visaria objectivos mais vastos: a constituição de uma confederação sindical. Uma das suas subsecções destinadas à propaganda sindicalista mandou vir de França folhetos, estatutos de sindicatos, de federações, de uniões e da Confederação Geral do Trabalho em França (CGTF), jornais, brochuras (38). Foi também aprovada a tese "Organização Social Sindicalista" que consagrava os princípios do sindicalismo revolucionário. A rotura estava consumada.

Propaganda Sindicalista

O avanço dos anarquistas nos sindicatos foi acompanhado de uma persistente divulgação das novas ideias que agitavam o sindicalismo revolucionário, sobretudo na CGTF. Em 1908 um grupo de tipógrafos toma a iniciativa de propor a anarquistas e socialistas a edição de um jornal para difundir as novas ideias. É deste modo que surge A Greve, o primeiro diário sindical em Portugal. O jornal como diário não vingou, mas a julgar pelo número de associações de classe e cooperativas assinantes a adesão foi sempre num crescendo.

Apesar do conteúdo do jornal estar ainda marcado pelo reformismo dos socialistas, era crescente o entusiasmos pelas novas ideias. Os anarquistas, como refere Alexandre Vieira (9), aproveitaram a ocasião e começaram editar uma série de brochuras sobre o sindicalismo revolucionário: Acção Sindicalista de Victor Griffuelhes; A Confederação Geral do Trabalho, de Emile Pouget; O Sindicalismo de H. Lagardelle, A. Labriola, B. Kritchewsky, R. Michels e Griffuelhes. As traduções eram de Emílio Costa que nesta altura exerce uma ação de enorme relevo dados os seus contactos com o movimento anarquista e sindicalista em França. Para além destas brochuras foram editadas outras da autoria de Adolfo Lima (O Contrato de Trabalho), João Campos Lima (O Movimento Operário em Portugal) e do socialista Augusto César dos Santos ( A Questão Operária e o Sindicalismo).

O ambiente era efervescente. No Porto, o Centro Biblioteca de Estudos Sociais inicia uma série de conferências e edita o jornal O Libertador (1908) de propaganda sindicalista. O movimento contamina a imprensa reformista: um grupo de manipuladores do tabaco rompe com A Voz do Operário e inicia a publicação do jornal A Defesa do Operário (1909) apelando a uma mudança. A Biblioteca de A Sementeira publica de Paul Delessaule A Confederação Geral do Trabalho. Edições que ganham uma nova dimensão após a implantação da República.

Educação

Os anarquistas cedo perceberam que o seu ideal de sociedade só podia ser atingido com individuos capazes de livremente pensarem de forma consciente pelas suas próprias cabeças. Uma condição que exigia uma educação livre de todos os preconceitos. No final dos século XIX multiplicam-se as iniciativas pedagógicas de anarquistas. O trabalho pedagógico de Paul Robin entre 1880 e 1894 no orfanato Prévost, em Cempuis foi um marco nesta pedagogia. Um trabalho prosseguido por Luigi Molinari (1866-1918) com a revista L`Universita Popolare (1901), a escola moderna de Francesc Ferrer em Barcelona (1906) e outras.

Em Portugal desde o inicio do século XX que os anarquistas estão envolvidos na criação de projectos educativos: bibliotecas, grupos de teatro, escolas, cursos, etc. No Porto, por exemplo, em 1902 funda-se um Comité-Operário anarquista tendo como objectivo a criação de escolas. Uma ação que os sindicatos de influência anarquista também participam ativamente.

A renovação em 1905 do corpo docente e a orientação da Escola Oficina nº. 1, no Largo da Graça em Lisboa constitui um marco neste processo. Os métodos pedagógicos de professores anarquistas aqui aplicarem e desenvolveram irão tornar depois de 1910 esta escola numa referência internacional.

Campos Lima em 1906 desloca-se a Paris onde contacta com a Comuna Escolar "La Ruche", em Rambouillet, dirigida pelo anarquista Sébastien Faure. No regresso funda em Coimbra um grupo de propaganda da Escola Livre de Ensino Integral em Coimbra, cujo primeiro boletim surge em Abril de 1907. O Núcleo de Educação Nova, nesta cidade, edita o jornal A Era Nova, no qual participam para além de Campos Lima um vasto número de entusiastas pela difusão de uma educação libertária.

Emílio Costa, em 1908 na cidade de Paris, entra em contacto com o grupo de fundadores da Liga Internacional de Educação que editiva L`École Renovée onde se destacavam Francisco Ferrer, Charles Laisant, Max Nordeau, Alfred Naquet e outros. Em Portugal com idênticos propósitos constituiu-se a Liga de Educação Racional que editou A Escola Nova (16), e o Grémio de Educação Racional à frente do qual surgia Raul Pires e José Simões Coelho autor do folheto - “Quem é Ferrer”.

Grupos anarquistas por todo o país promoviam também cursos de alfabetização. Em Elvas António José d´Avila e outros organizava cursos noturnos, segundo o método de João de Deus. Acabou na prisão do Limoeiro em Lisboa, pois usava como livro de leitura A Anarquia de Malatesta. Em Coimbrões, Gaia, na sede do Grupo Verdade e Luz, em 1909, António Teixeira Araújo (1888-1965), Serafim Cardoso Lucena, Clemente Vieira dos Santos, Viriato Alves Rente e António Alves Pereira mantinham uma escola de ensino livre.

Entre muitas iniciativas que então ocorrem, destacamos o lançamento a 1 de Junho de 1909, em Lisboa, da revista Amanhã - “ Revista Popular de Orientação Racional” dirigida por Grácio Ramos e Pinto Quartim, virada para a intervenção no campo da pedagogia libertária (52). Entre o seu vasto leque de colaboradores destacamos Angelo Jorge, José Bacelar, Deolinda Lopes Vieira, Manuel Ribeiro, Emílio Costa, António da Costa Oliveira, José Carlos de Sousa, Lucinda Tavares entre outros.

A execução a 13 de Outubro de 1909 de Francesc Ferrer i Guàrdia (1859-1909), em Barcelona gerou uma onda de protesto pelo país e despertou muitos professores para a importância social da sua profissão. Este pensador e pedagogo anarquista, criador da Escola Moderna (1901) e da Liga Internacional para a Educação Racional da Infância (1907) foi acusado de instigar a revolta anti-militarista que se opôs à mobilização de tropas espanholas reservistas para conquistar o norte de Marrocos (26 de Julho a 2 de Agosto de 1909). Esteve em Lisboa no mês de Março, tendo visitado a Escola Oficina nº. 1 na Graça. Foi preso e expulso para Espanha. Após a sua prisão, em Setembro ocorrem em Lisboa grandes manifestações de solidariedade, numa ampla campanha que chega inclusive às colónias em África. Em Moçambique (Lourenço Marques) os anarquistas editam ainda em 1909 o jornal “Pró-Martir”, com uma dedicatória “A Francisco Ferrer, sublime apostolo da Luz, fuzilado em Montjuich”. O produto da venda do jornal destinava-se às “ Escolas Racionais de Lisboa”. No Porto, o jornal da “A Vida” que já apelara à libertação de Ferrer e José Nakens Pérez (1841-1926) foi processado e o seu director levado a tribunal, e condenado a pagar uma elevada multa e as custas do processo. O jornal viu-se obrigado a suspender a publicação, após 117 números. A imprensa republicana acompanhou as manifestações de repúdio pelo fuzilamento de Ferrer. O Norte, diário republicano dedica 4 páginas ao assunto, com um artigo do então anarquista Alfredo Pimenta (nº2572, 14/10/1909). A imprensa monarquica pelo contrário apressou-se a repudiar as manifestações de solidariedade, caluniando o pedagogo libertário (A Barricada, Mealhada, nº186, 30/10/1909).

Universidades Populares e Livres. A instrução dos operários em termos culturais e científicos gerou a partir de finais do século XIX várias iniciativas. Em Lisboa surgiu em 1889 a Academia de Estudos Livres, que em 1904 passou a denominar-se Universidade Popular, ligada ao republicanismo e maçonaria. Manteve-se em atividade até 1925. No Porto foram os anarquistas a promoverem a segunda iniciativa deste género: a Universidade Livre em 1902, pelo Comité Académico-Operário do qual faziam parte entre outros Pádua Correia (1873-1913) e Campos Lima. As suas sessões eram muito concorridas pelos trabalhadores. As divergências internas ditaram o seu fim mas o exemplo ficou. Em 1911, coimo veremos, ainda no Porto grupo de intelectuais com um passado anarquista irá criar a Universidade Popular do Porto (35).

Ateísmo

Ao contrário dos republicanos cujo ataques se dirigem contra os clérigos e em particular os jesuitas, os anarquistas criticam a própria religião. Neste sentido as suas publicações são frequentemente estudos sobre a formação histórica de tradições, ritos, crenças de modo a mostrar como as mesmas não passavam de invenções de dominio. O anticlericalismo emerge em força a partir das Conferências Democráticas no Casino Lisbonense (1871), nas quais Antero acusa a Igreja Católica de promover a decadência dos povos peninsulares e Adolfo Coelho advogar a separação do Estado da Igreja. O movimento que então se cria assume como objectivo a secularização do Estado e da vida pública. Eduardo Maia participa neste combate. Em 1876 integra o grupo que funda a Associação Promotora do Registo Civil cujo objectivo era retirar à Igreja Católica esta importante função

Estão na origem da Associação Propagadora do Livre Pensamento, assumidamente anti-clerical, em cujo periódico - O Livre Exame são do divulgados textos de Bakunine por Helidoro Salgado: "A Religião" (nº1) e "Ou Deus, ou a Liberdade" (nº2). Mantém uma de textos, como: Bel-Adam traduz A Peste Religiosa de John Most (1885), A Monja e os Católicos, Campos Lima (1899), Os Reis Magos, Campos Lima (1900), etc .

A primeira ação pública anticlerical ocorreu durante o cortejo das Comemorações Antoneanas (28/06/1895). Um grupo de anarquistas ligado ao jornal Propaganda, liderado por Bartolomeu Constantino foi acusado de provocar distúrbios e lançar panfletos anticlericais onde apelava à revolta (Cfr. A vanguarda, 29/06/1895). Este movimento conduziu à criação da Liga dos Livres Pensadores (1899), onde se destaca o temível anarquista José do Valle. Em 1900 está presente com outros companheiros no Congresso Anticlerical (29 a 31 de Julho de 1900), no qual foi aprovada uma mensagem ao Congresso Internacional do Livre Pensamento que se realizava em Paris. Nesta afirmava-se: "(...) Deus foi sempre o fundamento de toda a tirania, como o proclamou e provou Proudhon em face da História, nós julgamos que as noções religiosas são também incompativeis, tanto tanto com a ciência como com a Liberdade"..

Em Setúbal surge o jornal O Germinal de Setúbal (1903), dirigido por Martins dos Santos, assumindo desde logo uma linha anticlerical e intervencionista. Os textos que publica de Bakunine são peças fundamentais nesta campanha que continua a advogar a separação do Estado da Igreja.
Muitos outros autores foram divulgados pelos anarquistas, como Elisée Reclus, Sébastien Faure, Max Nordau, Félix Le Dantec, Emilio Bossi, Pi y Margall, Émile Chapellier. Entre os portugueses: Tomás da Fonseca (1877-1969) depois da correspondência com Elisee Reclus (1902-1903) ao longo da sua vida concebe e concretiza um programa anticlerical (15). Artigos em jornais e revistas, livros e peças de teatro foram produzidos com esta finalidade; Fernão Botto Machado (1865-1924) publica A Confissão (1908); Campos Lima entra neste combate e publica A Monja e os Católicos (1899), Os Reis Magos (1900), etc; Helidoro Salgado, Benjamim Mota, Francisco Bettencourt, José Carlos de Sousa e Faustino Bretes prosseguiram neste combate (46)
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Anti-Militarismo

A propaganda anti-militarista em Portugal remontava aos primórdios do anarquismo. Sousa Brandão, em 1850, defendeu a extinção do Exército. Era inconcebível que um país com tão grandes carências canalizasse tão importantes recursos humanos e financeiros para as forças armadas. As críticas posteriores alargaram-se à propaganda nacionalista, guerreira e colonialista.

Eduardo Maia prosseguiu o mesmo combate. O jornal republicano O Rebate (nº.5, 24/02/1889) publica-lhe uma recolha de textos com o título: “Guerra às Instituições que Tornam Impossível a Paz aos Homens” sobre a “História de um Recruta”. Depois de 1887 a imprensa anarquista passou a publicar regularmente textos anti-militaristas, a que juntava a edição de brochuras e livros, como: De A. Hamon publicam A Psicologia do Militar Profissional (1896), com prefácio do autor expressamente para a edição em Português, e Pátria e Internacionalismo (1900); A Guerra não Findará?, César Porto (1902), conferência na Liga Portuguesa da Paz; O Que Penso da Guerra (Guerra Russo-Japoneza), Leão Tolstoi (1905);Vítimas da Guerra, Pinto Quartim (1906); Carta a um Soldado de Emílio Costa (1907), impressa em Liége (Bélgica), grande número de exemplares foram levados para Curitiba (Brasil) por um jovem polaco; Perigo Militar, José do Valle (1907) entre outros títulos.

Dentro dos quartéis constitui-se em Abril de 1895 o grupo A Luz Militar que reune militares anarquistas. Ao longo dos tempos muitos outros grupos idênticos se irão formar.

Era uma propaganda sistemática num país, onde a guerras nas colónias era permanente assim como os discursos belicistas. A ameaça de uma grande guerra na Europa era uma ameaça constante. Não admira que assim que foi constituida a Associação Internacional Antimilitarista, em 1904, tenha surgido logo uma secção portuguesa. Em Julho de 1909 aparece a revista antimilitarista Paz e Liberdade (1) da qual fazia o refratário António da Silva, tendo sido logo perseguida. Em agosto surge o nº. 2 que proclama: “Nem soldados que nos fuzilem ! Nem pátrias que nos dividam! Queremos a Paz; Não a Paz com canhões e Mauser, com navios e casernas, mas a Paz sem exércitos, nem armadas, nem fronteiras; a reconciliação da Humanidade banhada, então, pelo ardente sol da Liberdade”. António da Silva, animador do Grupo de Camponeses Rebeldes de Carnaxide, participa num comité anti-militarista de Lisboa que reúne militares e civis, acaba preso em Março de 1911, dando entrada no quartel de Mafra “entre baionetas”. Mantinha um intercâmbio epistolar com Henry Zisley (1872-1945), anarquista individualista e naturista, colaborador das publicações La Nouvelle Humanité e La Vie Naturelle.

Sexualidade

Amor livre, métodos anticonceptivos e propaganda neomathusiana eram bandeiras anarquistas desde o século XIX. A impressionante mortalidade infantil e de mulheres que morriam no parto de criança, mas também as que eram abandonadas ou se amontoavam nos orfanatos eram uma realidade incontornável. Era combate polémico pois colocava em causa a moral religiosa, separava o prazer da procriação, mas também o capitalismo e o militarismo ao diminuir a mão-de-obra disponível e a carne para canhão. (19). Situações que haviam levado o anarquista Paul Robin (1837-1912) a criar em 1896 a Liga de Regeneração Humana influenciado pela teoria de Malthus. Um combate a que se juntará Emma Goldman. Em Portugal a propaganda inicia-se a partir de 1902, quando Angelo Vaz defende a sua tese na Escola Médico-Cirurgica do Porto, e prossegue depois pela imprensa anarquista ao longo dos anos. Ideias que foram desenvolvidas pelo jornal A Vida (1906-1907) no Porto, estabelecendo uma ativa colaboração internacional, que levou à criação da Secção Portuguesa da Federação Internacional de Regeneração Humana, da qual foi o primeiro secretário Amadeu Cardoso da Silva. Em 1909 já se destacava nesta propaganda a revista Paz e Liberdade, em Carnaxide, animada por António da Silva Junior, a que se seguiu na República O Agitador (1911) e outras publicações anarquistas. Entre as muitas publicações que editaram destaca-se "Greve dos Ventres" de Luis Bulffi (Porto, 1906) e "Mulheres, Não Procreéis!" de José Joaquim Teixeira Júnior (1911) e mais tarde "Procreação Consciente" (Lisboa, 1922). A propaganda, venda e distribuição de anticonceptivos integrava esta ação libertadora que foi duramente reprimida pelo regime republicano

Esta propaganda devemos associar a que era feita com maior abundância para a libertação das mulheres. Uma questão constante na imprensa libertária, tendo sido editadas diversos livros e brochuras, como as seguintes: “As Filhas do Povo”, Ana Maria Manzoni (1897); “Libertai-vos!”, Pinto Quartim ou da conhecida feminista anarquista Soledad Gustavo (1865-1939): À Mulher (1900)..

Artistas e escritores

A ação revolucionaria dos anarquistas em defesa de uma sociedade de seres humanos livres e iguais suscitou desde 1850 a simpatia e mesmo a adesão de muitos intelectuais, tais como Antero de Quental, Eça de Queirós, Afonso Lopes Vieira, Raul Brandão, Sampaio, Alfredo Pimenta, Aquilo Ribeiro, Gomes Leal, Angelina Vidal, Teixeira de Pascoaes, Tomás da Fonseca, Cristiano de Carvalho (pintor), Leal da Câmara (desenhador e caricaturista), etc.. A maioria acabou por acomodar-se ou seguir um caminho contrário ao seu passado anarquista.

Teatro. Desde o inicio do século XX que muitos anarquistas estavam envolvidos na criação de grupos de teatro, mas também na escrita de peças.Era uma forma muito popular de convívio, entretimento e abordagem de temas sociais. Em Lisboa, por exemplo, estiveram na criação do Teatro Livre (1904), cujo orientação social se vincou em 1905 com a direção de César Porto, Luís da Mota, Adolfo Lima (1874-1943) e Severiano de Carvalho (28). Entre os primeiros dramaturgos anarquistas sobressai Ernesto da Silva (1868-1903), tipógrafo, destacado militante do Partido Socialista e redator de A Federação.Em 1896 abandona o partido para assumir publicamente um anarquismo de raiz proudhoneana (27). Para que não restassem dúvidas publica neste ano A Ideia Federativa. Dirigiu um grupo de teatro e escreveu várias peças: A Capital (1895), Os Que Trabalham (1896), A Vítima (1897), Nova Aurora (1900), Os Vencidos (1902) e Em Ruínas (1902). Outro anarquista que surgiu neste período foi Araújo Pereira (1871-1945), co-fundador do Teatro Livre e do Teatro Moderno (1905), divulgador do teatro naturalista de feição social. Foi ator, encenador e autor de várias peças: Um Pai e Alucinação (1916), Um Conto de Gorky (1914); Amor e Economia (1914); O Lápis Negro (1927) , etc. José Simões Coelho (1880-1946), co-fundador do Teatro Moderno renovou e reflectiu sobre a encenação teatral. Não faltaram compositores de músicas para peças no teatro amador como foi o caso de António da Fonseca Alves (1892-1953).

Este movimento teatral expandiu-se enormemente depois da implantação da República graças ao empenho das organizações sindicais. Em parceria com a Escola-Oficina nº1, dirigida Adolfo Lima, registe-se a criação da Escola-Teatro Araújo Pereira (1924-1926) que contou com a colaboração César Porto, tendo-se distinguido entre nós na renovação estética teatral.

Na literatura portuguesa muitas são as referências a anarquistas. Um desses romances deve ser citado - Amanhã (1901) de Abel Botelho que no quadro de uma "patologia social" descreve os trágicos acontecimentos que envolveram entre Novembro de 1894 e Junho de 1895 as comemorações do sétimo centenário de Santo António.

Mentalidade Libertária

O combate pela mudança de mentalidades era dos mais importantes que os anarquistas travaram em Portugal. O país no inicio do século XX continuava a ser marcado por uma mentalidade fechada, onde as distâncias sociais entre ricos e pobres, patrões e trabalhadores eram enormes e assumidas como naturais.

Quando em Novembro de 1887 foi publicado, no Porto, o número-Programa d´A Revolução Social (1887-1891) a reação da imprensa foi imediata. O jornal foi acusado de estar a contaminar os trabalhadores com uma “terrível epidemia” (nº1, 15/01/1888). Para além dos exposição doutrinária do “comunismo anarquista”, o que este jornal evidenciava em várias notícias era falta de dignidade dos trabalhadores. Aceitam passivamente serem humilhados, castigados e espancados pelos patrões, arriscavam trabalhar em perigosas condições que todos os dias aumentavam “uma legião de aleijados, de viúvas e órfãos por desastres” (Nº2, 22/01/1888), e maltravam os aprendizes. Eram alimentados por uma imprensa que os transformava em “cretinos em vez de homens”. Sem dignidade e coragem, numa prova de submissão ao patronato contribuíam com os seus magros salários para pôr flores nas campas das famílias dos patrões. O governo carrega-os de contribuições, obriga-os a pagarem uma licença para trabalharem, e quando reclamavam pão para comer, o que recebiam eram balas (nº5, 12/02/1888). Era contra a mentalidade submissa dos próprios trabalhadores e do povo “indiferente” e “apático” que se propunha lutar este jornal, o primeiro assumidamente anarquista.

As concepções antropológicas, psicológicas e sociológicas, muito em voga no final do século XIX, davam uma cobertura "científica" à hierarquização social. A mentalidade e comportamento de cada individuo era definido pelo seu grupo de pertença, com base no qual se elaboravam um conjunto de esteriótipos identitários. Depois do “Ultimatum Inglês” (1890), em plena crise económica e financeira, emerge uma nova vaga de intelectuais que procura encontrar os “culpados” das crises e dos atrasos do país em relação à Europa. A novidade do diagnóstico estava na forma “filosófica” e “cientifica” que a maioria se auto-proclamava. O resultado era sempre o mesmo tendo em conta as características que atribuíam ao povo. Guerra Junqueiro, no seu conhecido poema Pátria (1894) e nas anotações finais, afirma que Portugal não passava de um cadáver de um louco sem alma, aguardando uma messiânica salvação. Pouco se podia esperar do povo português: “Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora…”, os muitos qualificativos que inúmera deixam perceber que nada se podia dele esperar. António Nobre, também nada espera deste desgraçado país, cuja única esperança estava no regresso de D. Sebastião ! Sampaio Bruno que chegou a assumir-se como anarquista (47) , prossegue adjectivação do povo português: um povo cruel, feroz e fanatizado por uma religiosidade sem contemplação. A salvação da demência colectiva que afectava o povo estava numa evolução cósmica que inevitavelmente o havia um dia de arrastar para a transcendência ( O Encoberto). O retrato psicológico traçado por Augusto Fuschini é também pouco animador: “ A sociedade portuguesa parece uma bando de escravos que, indiferentes, inertes e semi-nus, assistem a discussões do preço por que devem ser vendidos, pouco lhes importando ser propriedade deste ou daquele senhor, esperando apenas humildemente que lhes seja garantida a mínguada subsistência” ( O Presente e o Futuro de Portugal, 1899). Basílio Teles reduz os portugueses à mediocridade: fracos, imprevidentes, privados de faculdades superiores, incapazes de produzirem filósofo. (Do Ultimato ao 31 de Janeiro , 1905). Adolfo Coelho descobre no povo português elementos semítico negativos que combinados com outros resultam num povo onde falta quase tudo, como iniciativa, individualidade ou educação. O que provoca “retrocesso aos instintos gregários das sociedades animais, revelado na sujeição servil aos chefes que se impõem por um pouco de audácia e na convicção que se ouve exprimir tantas vezes de que só um despotismo pode salvar a nação” (Obra Etnográfica).

Nas artes figurativas muitos artistas procuram fixar estas imagens do povo português. Rafael Bordalo Pinheiro deu expressão identitária ao povo português na figura pouco dignificante do "Zé Povinho", ignorante, atrasado e submisso ao poder instituído. O "Saloio", outra figura identitária muito popular, traduzia o que se poderia esperar dos camponeses dos arredores de Lisboa: estupidez, grossaria, próprios de uma raça inferior. O pintor José Malhoa, o mais apreciado por monárquicos e republicanos, procurou fixar os traços traços identitários de camadas mais pobres da sociedade portuguesa, para mostrar como assentavam na crendice e boçalidade. Face a um povo com estas características muitos afirmavam que nenhuma mudança social seria possivel. A “salvação”, segundo muitos estes intelectuais, passava pela recusa do que era estrangeiro (xenofobia), um retorno a tradições e a um passado histórico povoado de heróis, regenerando a perdida “identidade” do país.

O discurso ideológico dos anarquistas, pelo contrário, era cosmopolita, advogava uma ética universalista e uma sociedade aberta e igualitária. Dirige-se a todos os individuos, homens e mulheres, em pé de igualdade, apela à insubmissão, ao fim dos preconceitos. A imprensa anarquista recusava esteriotipos regionalistas e identitários que inferiorizavam as camadas mais pobres da sociedade. Mostra-se mesmo indiferente perante os "jogos de poder" que alimentavam a "choldra" nacional, como a definia Eça de Queiróz, ou a "corja" retratada por Camilo Castelo Branco. Nas publicações anarquistas as imagens do "pitoresco" correntes na imprensa da época dão lugar a imagens que nos remetem para cidades que ao tempo eram referências mundiais de cultura, ciência e tecnologia.

Era um combate que deliberadamente rompia como uma mentalidade fechada que monarquicos e a maioria dos republicanos assumiam como natural e patriótico, e que terá continuidade no discurso ideológico do Estado Novo

Editoras

Para além de um crescente número de jornais, em pouco tempo os anarquistas criam um conjunto de pequenas editoras (bibliotecas) sobre temas dia ideário acrata (21). Era um trabalho articulado com o movimento anarquista internacional. Não está feito o levantamento destas editoras e das brochuras que editaram, pelo que nos limitamos a referir o inicio de algumas delas e de títulos ilustrativos. Como se pode observar a quase totalidade estão situadas no Porto e Lisboa. A lei de 13 de Fevereiro de 1896 impediu o crescimento destas bibliotecas, mas não a edição de obras que passaram a ter os mais variados editores. Campos Lima e Emílio afirmam-se como editores e tradutores.

Em 1887 surge as seguintes: Biblioteca do Revoltado (Lisboa), que edita “Estudos Filosóficos e sociais” de José Llunay Pujcls; a Biblioteca do Trabalhadores (Lisboa e Porto) que se estreia com uma obra de P. Kropotkine - “Anarquia na Evolução Socialista”;
Em 1888 o Grupo Anarquista edita o “Processo dos Anarquistas de Lisboa”;
Em 1889 os Operários Comunistas-Anarquistas (Porto) edita “Poesia Profética da Anarquia”;
Em 1891 surge a Biblioteca do Grupo Anarquista Revolução Social (Porto), J.M. Gonçalves Viena publica duas brochuras: O Anátema. Filosofia e Critica Social ( aborda a repressão que se seguiu aos acontecimentos do 31 de Janeiro de 1891) e A Derrocada. Publicou O Crime de Chicago, de Hugo O Pentecost; A que se seguiu: O Governo Revolucionário de P. Kropotkine (1892), Os Direitos Políticos de Kropotkine (1892), Os Mártires do Porvir (1893); A Evolução Anarquista em Portugal (1ª. Parte), J. M. Gonçalves (1894); A Autoridade e a Anarchia, de Eduardo Maia (1894); A Biblioteca Primeiro de Maio (Coimbra) edita A Sociedade Futura de Jehan Levagre;
Em 1892 aparece a Biblioteca do Grupo Anarquista Os Vingadores (Lamego) edita 11 de Novembro (Aos Mártires de Chicago), Ricardo Mello, a que se seguiu: 10 de Fevereiro (Aos Garrotados do Gerez) em 1893; A Revolta (Porto) publica A Minha Defesa, de Jorge Etiévant, seguiu-se O Salariato, de P. Kropotkine (1893), A Lei e a Autoridade (1893); A Biblioteca O Novo Mundo (Porto) edita O Livro dos Rotos de Anton Evar/ Bel-Adam;
Em 1893 a Biblioteca Emancipada de Estudos Sociológicos (Porto) edita 11 de Novembro, de Edlitam; A Biblioteca Literária (Porto) edita Ravachol; A Conquista da Pão (1895); A Psicologia do Militar Profissional, A. Hamon(1896); Aos Jovens, Kropotkine (1896); O Socialismo e o Congresso de Londres, A. Hamon (1897); Biblioteca dos Grupos Anarquistas do Porto
Em 1894 surge a Propaganda Anarquista/G.Estudos Sociais (Lisboa) com A Utopia Governamental de P. Kropotkine. Seguiu-se O Sentido em Que Somos Anarquistas, M. Bakunine (1885);
Em 1895 surge a Boa Nova edita O 1º. de maio, de Bel-Adam; As Greves, de Anton Evar. A Anarquia, Malatesta (1895); a Biblioteca Comunista Anarquista do Grupo A Propaganda (Lisboa), edita As Nossas Convicções. Verdades, de J. Illenatenon Elementares.
Em 1897 a Biblioteca Estudos Sociais (Lisboa), editou Às Filhas do Povo, de Maria Anna Mauzoni; A Sociedade Futura. Aos Deserdados de Hoje que comparem e Meditem, Jean Grave (1901), A Anarquia Perante os Tribunais. Defesa de Pedro Gori no Processo dos Anarquistas de Genova(1903); Mentiras Religiosas. Por uma Filosofia sem Deus. Contra um Deus sem Filosofia, Helidoro Salgado. Prefácio de Fernando Boto Machado (1906); Sociedade Moribunda, vol. I., de Jean Grave (1908), O Dia das 8 Horas, CGTF (1909) .
Em 1900 o grupo Humanidade Livre publica Pátria e Internacionalismo, de A. Hamon. Uma conferência realizada em Nantes a 21 de Agosto de 1895.
Em 1904 surgiu Biblioteca Revolucionária (Porto) e editou Um Século de Expectativa (1789/1889), de P. Kropotkine; Biblioteca Amigos do Povo (Lisboa) editou Aos Amigos do Povo, F.T.M.;
Em 1906 o Grupo Ação Directa publica A Propriedade e o Socialismo, de Claudio de Lisle, seguiu-se Em Tempo de Eleições (1906); Biblioteca Geração Nova, O Espírito Revolucionário, Kropotkine;
Em 1908 surgiu as publicações Guerra Social e editou “Como Não Ser Anarquista?, de José Chueca; Edições Novos Horizontes editou A Anarquia e a Igreja, E. Reclus; a
Nos últimos tempos da monarquia surgiram algumas editoras que deram grande destaque a obras sobre anarquismo, tais como Editor Gomes de Carvalho- Livraria Central, Lisboa ( A Próxima Revolução, Leão Tolstoi, 1908; A Anarquia. A sua Filosofia e o seu Ideal, Kropotkine, 1908; A Anarquia. Fim e Meios, João Grave, 1909; ), Editores José Bastos & Cª, Lisboa ( A Confederação Geral do Trabalho, Emile Pouget, 1909; Sindicalismo e Socialismo, H. Lagardelle e outros, 1909; . ), Ed. Almeida e Sá, sucessores, Porto (As Theorias Anarchistas., Estudos Filosóficos-Sociais, Charles Malato e Jean Grave, 1909)

Organização

Os grupos de afinidades com os seus programas próprios, eram a base da organização anarquista. A Aliança da Democracia Socialista de Bakunine não fez história em Portugal, mas a ideia não morreu. O grupo A União Anarquista, em 1895, tenta promover uma “conferência” para discutir, entre outros temas, a questão da organização dos anarquistas (A Aurora, 26/11/1911).

A Federação Socialista Livre (1902-1906), no âmbito do chamado anarquismo intervencionista surgiu como a necessidade de criar uma ampla frente de luta contra a repressão que eram vítimas.

A Aliança Libertária surge a 18 de Agosto de 1908, numa iniciativa de grupos de Lisboa e da “outra banda”, sendo logo acusada de ser mais uma tentativa para “arrebanhar” anarquistas portugueses, “sob a capa de um comité” (A Sementeira, nº5, Janeiro de 1909). A sua vida foi efémera..

Implantação no país

No princípio do século XX o anarquismo estava difundido por todo o país onde exista uma forte concentração de operários ou assalariados. Muitos dos seus militantes demonstravam uma larga experiência na organização e nas lutas do trabalhadores que não raro se tornaram figuras míticas locais.

Lisboa era na geografia anarquista desde 1850 o principal centro a partir do qual irradiavam muitas iniciativas por todo o país. Era no bairros operários que se concentravam a maioria das organizações anarquistas, como Alcântara ou a zona da Graça. As numerosas publicações e editoras ou colecções que aqui existam nesta altura reflectiam esta ação. Publicações: .Publicações: O revoltado (1887); O Rebelde (1889), substituído por A Revolta (1892-1893); A Conquista do Bem (1894),sairam quatro números, os seus redactores foram processados; A Propaganda (1894), publicaram pelos menos 61 números e foi apreendido pela policia; Revista Contemporânea (1894), A Liberdade (1897), Almanaque Cosmopolita para 1900 (1899), Germinal (1902), orgão da Federação Socialista Livre; Amor e Verdade (1904-1905); O Metalúrgico (1904); A Humanidade (1905); A Obra, fundado em 1891, como orgão dos carpinteiros civis, em 1905 sob a direção de Guedes Quinhones adquire uma feição anarquista; Novos Horizontes (revista, 1906-1908); A Sementeira (Revista, Iª. Serie, 1908-1913, IIª. Serie 1916.-1919); O Protesto (1908-1909), substituído pelo Guerra Social (1908); A Boa Nova (Campos Lima, 1908); Paz e Liberdade (revista, 1909); Amor e Liberdade (revista, 1904-1905); O Construtor, orgão das classes de construção civil e do operariado em geral; A Luta (1908); Amanhã (revista, 1909, Grácio Ramos, Pinto Quartim); A Gafanha (Campos Lima, 1909); Paz e Liberdade (Carnaxide, Lisboa); A Revolta (1909); A Ação (1909), com o sugestivo subtítulo: “Não são os tiranos que fazem os escravos, são os escravos que fazem os tiranos”; Nova Luta, dedicado aos empregados do comercio (1909); Grupos: A Centelha (1886/87); Grupo Comunista-Anarquista O Revoltado (1887); Grupo Os Rebeldes (1889); Grupo Anarquista do Poço do Bispo (1892); G. Os Invisiveis (1893); G. Anarquista Pallás (1893); G. Anarquista Sempre Avante (1893, com António Evaristo); G. Anarquista Caserio (1894); G. Comunista-Anarquista Vaillant (Belém, 1894); G. Estudos Sociais (1894); etc.

No Porto o movimento anarquista adquiriu em 1886 uma vertente organizativa, logo marcada por uma forte intervenção sindical, nomeadamente nas greves de 1886-1888. Estão na base da criação da Federação das Associações de Classe do Porto (1892) e lideram a greve geral de 1903, na qual o jornal Despertar desempenhou um papel importante.

Os grupos anarquista desde 1887 foram sempre numerosos. Em 1907 criaram uma estrutura federativa para melhorarem a sua coordenação. Dois anos depois fundam o Comité de Propaganda Sindicalista do Porto que criou um centro e uma Biblioteca de Estudos Sociais e publicou o jornal O Libertador.

No Porto, número de jornais e revistas não parou de aumentar de que são exemplo: : A Revolução Social (1887-1891), A Revolta (1889), O Emancipador (1892), O Grito da Revolta (1895), O Libertário (1895), O Libertador (1897), A Ideia (1890), A Aurora (1900), O Proletario (1991), A Voz do Tanoeiro (Gaia, 1901-1902), O Agitador (1901), O Despertar (1902-1905); A Vida (1905-1909), substituiu O Despertar; Luz e Vida (1905, revista, Angelo Jorge), Livres (1906-1907, revista, Oldomiro César), Nova Silva (1907, revista, Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão); A Cidade Nova (1908); O Libertador (1908); O Clarão (1909-1914, revista, Carlos Nobre) entre outras publicações portuenses.

Em Coimbra, a partir do final do século XIX tem uma forte implantação entre os estudantes mas também no operariado. Os primeiros grupos anarquistas conhecidos surgiram na década de noventa do século XIX com a suas publicações: 1º. de Maio (1890), Os Bárbaros (Revista, 1894), foi substituída pelo periódico A Conquista do Bem de Lisboa; O Caminho (1896-1897), Revista Livre (1902, Campos Lima), A Verdade( 1903); A Plebe (1904); Arte e Vida (revista, 1904-1906), A Amanhã (1905), substituiu A Plebe; A Era Nova (1906); etc. Fruto da influência dos anarquistas no meio operário em 1908 constituiu-se a Federação das Associações Operárias de Coimbra que edita O Despertar.

Na Universidade lideram a greve académica de 1907 contra a ditadura de João Franco, com destaque para António Quartim (expulso) e Campos Lima entre outros (22).

Setúbal no inicio do século XX de uma pacata comunidade rural e piscatória tornou-se num importante centro da industria conserveira, registando desde logo uma forte implantação dos anarquistas (25). Na ação de organização e nas lutas sindicais o jornal O Germinal, fundado em 1903, assumiu uma papel destacado ao abalar os brandos costumes do operariado local e na mudança de mentalidades (24). Associado à corrente intervencionista combateu pela República intervindo em todas as questões ds vida da cidade do Sado.

Grupos em outras povoações: Lamego: Os Vingadores (1887); Barreiro: G. Anarquista (1892); Gaia: G. Solidariedade (1894); Sines: Os invisiveis na luta (1895), etc. Publicações: O Petardo Anarchista (Valença, 1897), Ideal e Verdade (Braga, 1895), O Amigo do Povo (Portalegre, 1901-1903), Alerta (Barcelos, 1905); Agitador (Covilhã, 1905 ), jornal clandestino; A Ideia Nova (Montemor-o-Velho, 1905); A Ideia (Funchal, Madeira); Avante (Évora, 1909); A Barricada (Gouveia), substitui A Evolução.

No Algarve deve ser salientado o importante trabalho em 1903 de Bartolomeu Constantino (1863-1916), sapateiro, destacado militante e brilhante orador. Pertencia à sociedade secreta Bonfim (Carbonária) constituída por grande número de anarquistas. Figura mítica foi o grande organizador dos operários algarvios que regista entre 1902 e 1905 um surto de novas associações em Silves, Olhão, Faro e Portimão, assim como de greves por melhores condições de vida (23). Em 1904 foi preso em Olhão acusado de incitar os marítimos à greve que durou dez dias. O seu julgamento desencadeou uma onda de protestos a nível nacional. Foi libertado em 1905. Contribuiu para dar ao anarquismo um forte impulso na região (A Revolta, nº11, 16/093/1913; nº14, 6/04/1913).

O primeiro grupo anarquista no Algarve surgiu em Faro - Germinal (1893), seguiu-se os invencíveis em Silves (1893), G. Anarquista de Faro (1895), etc.

Nos locais de reunião eram frequentemente nas sedes dos sindicatos, mas também haviam muitos centros libertários espalhados pelo país

Em Paris os anarquistas portugueses que aí residiam fundam, em 1908, um grupo denominado Os poliglotas (A Sementeira, nº1, setembro de 1908). Cerca de 20 depois os anarquistas exilados em França criam uma Federação..

Brasil e Colónias

Brasil. As continuas vagas de anarquistas deportados para as antigas colónias, mas também a massiva emigração para o Brasil deram um forte contributo à expansão do ideário anarquista.

Durante a chamada República Velha (1889-1930) do Brasil assistiu-se à entrada neste país de enormes vaga de emigrantes portugueses, italianos e espanhóis, muitos eram anarquistas, uns iniciaram-se no Brasil, a maioria na Europa (30). Entre os primeiros destaca-se Gregório Nazianzeno Moreira de Queirós Vasconcelos (1878 - 1920), conhecido por Neno Vasco. Foi para o Brasil em 1887. Em 1902 dirige já um jornal anarquista - O Amigo do Povo, lança a revista Aurora, funda e dirige o jornal A Terra Livre (1905) , traduz o hino A Internacional (1909). Em Abril de 1911 fixa definitivamente a sua residência em Portugal, prosseguindo sem desfalecimento a mesma luta.

Outro dos pioneiros do anarquismo no Brasil foi J. Mota Assunção (operário gráfico), com uma ação libertária absolutamente notável (29). Emigrou em 1887 para o Brasil com o pai e dois irmãos, tendo assistido neste país ao fim da escravatura e implantação da república. Não tardou a envolver-se na propaganda anarquista participando ou fundado vários jornais e revistas. No Rio de Janeiro, por exemplo, O Despertar (primeiro jornal anarquista da cidade), O Protesto (fundado por si em 1899) ou A Greve. Em São Paulo, destacamos entre muitas publicações que colaborou O Amigo do Povo e a Terra Livre. Participou na fundação da Confederação Operária Brasileira, e no seu orgão A Voz do Trabalhador de orientação sindicalista revolucionária. Publicou vários livros, traduziu e escreveu peças de teatro numa constante e densa atividade. A chegada de novas vagas de emigrantes portugueses, como veremos, estruturaram uma poderosa corrente anarquista no Brasil, sobretudo no Rio de Janeiro.

Moçambique. Na imprensa nesta antiga colónia portuguesa, o jornal republicano O Progresso, a partir de 1905 começa publicar noticias sobre os anarquistas. Pouco depois da implantação da República surge O Incondidicional (8/11/1910) que afirma se a sua redação composta por anarquistas e republicanos. Os anarquista passam organizar os trabalhadores, afirmando claramente que o seu objectivo é melhorar as condições de vida da população e preparar a sua emancipação (41).

Ligações Internacionais. A partir de Abril de 1986 quando Elisée Reclus estabelece em Lisboa e Portugal contactos com vários anarquistas portugueses que as ligações internacionais passaram a ser constantes. Cristiano de Carvalho (1874-1940), pintor, destacado militante, em 1898, quando se vê forçado a exilar-se em França, contacta diretamente com Kropotkine e E. Reclus, no regresso a Portugal desenvolve uma intensa propaganda anarquista. Tomás da Fonseca, como vimos, em 1902-1903 mantém um contacto permanente com Elisée Reclus. Emílio Costa, quando estudava na Bélgica, inicia em 1905 a sua colaboração no célebre jornal anarquista Les Temps Nouveaux, dirigido por Jean Grave, colaboração que se manteve até 1914. Em 1908 entra para a admnistração do jornal La Revolution, onde colabora com os principais vultos do sindicalismo francês como Georges Evetot, Victor Griuffuelhes, Pierre Monatte e Emile Pouget. A Imprensa anarquista tem nos principais centros operários de Portugal larga difusão

A maior proximidade com Espanha permitia facilitava a ligação ao movimento anarquista neste pais, nomeadamente na circulação da imprensa e literatura libertária, ações conjuntas ou apoio a refugiados. A repressão em Espanha provocava a sua fuga Portugal e vice-versa (17)..

 

Continuação

Carlos Fontes

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Anarquismo (literalmente "sem poder") 

Movimento político que defende uma organização social baseada em consensos e na cooperação de indivíduos livres e autónomos, abolindo entre eles todas as formas de poder. A Anarquia seria assim uma sociedade sem poder, dado que os indivíduos se auto-organizariam de tal forma que garantiriam que cada um teria em todas as circunstâncias a mesma capacidade de decisão. Esta sociedade, objecto de inúmeras configurações, apresenta-se como uma "Utopia" (algo sem tempo ou espaço determinado). É um ideal a atingir. Continuação

Filosofias Anarquistas

Dadas as características do movimento anarquista é impressionante a diversidade de filosofias no campo libertário. Continuação

 

 

 

Notas

   

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