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Anarquismo em Portugal

O Anarquismo em Portugal tem cerca de 170 anos de existência. O seu ideário neste longo período foi sempre discutido e orientou a ação social de incontáveis anarquistas. A sua repercussão social tem variado bastante ao longo da história. Muitas vezes surge sob a forma de um movimento organizado outras dissolve-se em multiplas tendências e ações individuais mas nunca desaparece. Podemos dividir a sua história em sete grandes períodos.

1850-1870: Proudhon e o Mutualismo

As ideias anarquistas no século XIX não encontraram em Portugal um terreno fértil para se desenvolverem. O conceito de individuo autónomo com capacidade e possibilidade de intervir politicamente, base da cidadania, dificilmente podia vingar numa sociedade onde o que predominava eram relações de poder entre senhores e subditos. O acesso à cidadania era negada sob multiplas formas. O que continuava a imperar era a longa tradição do regime monárquico avesso a modelos democráticos, combatidos pela Igreja Católica.

A Revolução Liberal de 1820 e as revoluções democráticas que lhe seguiram limitaram-se a substituir o antigo modelo de soberania-punição pelo da vigilância omnipresente do Estado. Os focos de regionalismo foram desaparecendo impondo-se uma burocracia única no país, administrada a partir de Lisboa. Foi contra este modelo centralista que pugnou Alexandre Herculano (2), abrindo caminho às teses federalistas de cariz social de Henriques Nogueira.

As ideias anarquistas surgiram de forma embrionária ligadas ao "republicanismo federalista" que começou a despertar por volta de 1850 e tem em Henriques Nogueira o seu principal mentor.

As ideias federalistas de Proudhon aparecem em Portugal associadas à nostalgia pelos antigos concelhos extintos pelo liberalismo, e a um gosto romântico pelo regional e local. Segundo os seus defensores, o federalismo permitiria articular as multiplicidade das comunidades locais num ordenamento político que preservaria a identidade de cada comunidade. Ao longo do século as ideias municipalistas acabaram por ser identificadas com o ideário republicano e o centralismo com a monarquia.

A incipiente industrialização pouco se alterou ao longo do século XIX. O país continuava a ser profundamente rural. Os que fugiam dos campos para as zonas urbanas estavam entregues à sua sorte, sem nenhuma protecção. A destruição das "corporações" em 1834 se libertou os trabalhadores dos entraves que as mesmas impunham, aumentou-lhes a precariedade. Foi neste contexto especifico que se impôs o mutualismo de J. Proudhon (7), uma forma de solidariedade operária que rapidamente foi apadrinhada pelos governos e o patronato. Proudhon defendia a constituição de uniões locais (mutualistas) de pequenos produtores independentes.

Os revolucionários portugueses que seguiam Proudhon não procuravam romper com a ordem vigente, mas limitavam-se a denunciar a "escravidão moderna" que ocorria nas fábricas, assim como a promover as associações de apoio mútuo que tinham em vista minorar os problemas económicos e sociais dos trabalhadores. O primeiro estudo sobre a obra de  Proudhon data de 1852: "Análise das "Contradições Económicas" de Proudhon", de Pedro Amorin Viana. A partir desta altura a influência social de Proudhon começa a suplantar todos os outros pensadores. Nas associações operárias discute-se a sua figura e o seu pensamento. É ensinado inclusivamente na própria Universidade de Coimbra, entre 1853 e 1873, na Cadeira de Filosofia do Direito (Teoria da Mutualidade).

O mutualismo de Proudhon pretendia criar uma alternativa às miseráveis condições de vida dos trabalhadores a partir dos seguintes vetores:

a) Perante a crescente proletarização dos trabalhadores gerada pela concentração fabril promovia a a descentralização industrial, as pequenas oficinas;

b) Perante a crescente miséria do proletariado promovia a organização solidária de meios de assistência médica, no desemprego, alimentação, na velhice, etc. A postura era ativa e de entre-ajuda perante a miséria crescente. A solidariedade entre todos os seres humanos livres e autónomos era a chave deste ideário mutualista.

Entre as muitas associações com inspiradas no ideário federalista e mutualistas de Proudhon, destacamos a Associação do Trabalho para Frabricantes de Seda (1852), o Centro Promotor dos Melhoramentos das Classes Laboriosas (1852-1873) em Lisboa que que se expandiu para Porto, publica o jornal Voz do Operário (1853-1873). Entre 1856 e 1866 publica-se em Lisboa o jornal A Federação.

1871- 1885: A Influência de Bakunine

A mudança no panorama desenvolve-se a partir do Centro ponto de encontro e de debate sobre as questões sociais. Apesar do seu caracter conciliador com o regime liberal as ideias do chamado "socialismo utópico" eram aí discutidas por Sousa Brandão (8). A revolução em Espanha de 1868, o Congresso da A.I.T. em Barcelona (1870) ou a Comuna de Paris (1871) tem um forte impacto nas assembleias do Centro. A partir de 1871 uma nova geração rompe com a sua visão conciliadora com o regime liberal: Antero de Quental, José Fontana, José Tedeschi, Azedo Gneco, Eduardo Maia, Felizardo Lima, João Bonança entre outros. As suas ideias federalistas e mutualista de Proudhon continuam a predominar mais torna-se mais reivindicativas, defindo-se os socialistas proudhonianos, os republicanos e monarquicos progressitas.

Antero de Quental, Fontana e outros revolucionários portugueses, em 1871, reúnem-se em Lisboa com delegados da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) (9) - Mora, Lorenzo e Morago -, e são inteirandos das teses em confronto de Karl Marx e M. Bakunine. Este, ao contrário de Marx afirma que após a revolução o Estado deveria ser abolido e a colectivização da propriedade deveria ser confiada às "associações de trabalhadores". As ideias de Bakunine terão agradado mais aos revolucionários em Portugal do que as de Marx.

Este episódio marca o inicio de uma nova fase. As ideias de revolta social preconizadas por Bakunine adquirem cada vez mais adeptos. As associações operárias começam a abandonar a sua orientação mutualista e assumem-se como verdadeiros sindicatos, em luta permanente contra as péssimas as condições de vida dos trabalhadores. As associações operárias passam a ser encaradas com desconfiança pelos governos monarquicos.

Um das ideias do Congresso de Barcelona posta em prática foi a de separar as aspirações socialistas das republicanas, criando uma associação revolucionária destinada a impulsionar a revolução social. Neste sentido em Junho de 1871 foi constituida em Lisboa uma Aliança da Democracia Socialista que faziam parte José Fontana, Nobre França, Eduardo Maia, António Soares Monteiro e outros (5). Na carta que Nobre França escreve a Magalhães Lima em 1892, acrescenta mais os nomes de Tedeschi, Tito Soares e Gonçalves Lopes. Afirmando o seu carácter secreto, os seus estatutos eram moldados por uma organização idêntica criada por Bakunine e existente em vários paises (Espanha, Suiça ou na Bélgica) (6).No ano seguinte já não existia. As diferenças ideológicas marcaram foram decisivas na ruptura.

Paralelamente constituiu-se uma segunda Aliança incentivada por Morago, depois da sua expulsão da do Conselho Espanhol da A.I.T (Agosto de 1871) e organizada porJoão Bonança (4), estava ligada à maçonaria. Em 1873 já estava também extinta.

O "colectivismo" de Bakunine não passava todavia de uma equivoca referência ideológica. Eduardo Maia, um dos raros anarquistas antes de 1886, na sua brochura "Da Propriedade" (Lisboa, 1873), dá ao termo colectivista um sentido diferente de Bakunine. Inspira-se claramente no mutualismo de Proudhon. Sustenta que a concentração da propriedade conduz ao despotismo, fome generalizada e a guerras. Onde ela se acha repartida o luxo é menor, a miséria desaparece, a liberdade aumenta e o bem-estar chega a mais individuos. A doutrina internacional resume-se na colectivização da propriedade, iston é, a propriedade é comum mas a gestão e manutenção seria entregue a grupos de individuos, cooperativas de consumo e produção. Deixa uma nota de esperança: "Por toda a parte o Povo se constitui em sociedades cooperativas de consumo, de produção, de ensino e outras."

As ideias de Proudhon mantém-se bem vivas. Antero no texto que escreve sobre O que é a Internacional ? (1872) propõe que na luta contra o patronato os trabalhadores criem "associações de classe" e "associações mutualistas" sobretudo de consumo. A transformação social seria lenta desempenhado a educação um papel fundamental. No jornal O Pensamento Social (nº16, Junho de 1872) escreve: "O Estado autoritário e capitalista é o nosso inimigo, e desejamos vê-lo destruído. O Estado mutualista, a federação livre do trabalho de todos, esse é o nosso ideal, amamo-lo como a expressão da verdade no seio da sociedade". A sociedade ideial era no fundo constituida por pequenos proprietrários e industrias autonomizados pelo trabalho próprio. É o principio federativio e mutualista de Proudhon e não o colectivo de Bakunine que é seguido. Em 1874 é publicado "O Princípio Federativo" de Proudhon.

Kropotkine, como veremos, retomará esta ideia de apoio-mútuo conferindo-lhe um lugar central na sua filosofia anarquista (3). Quando em 1886 foi realizado o Congresso Social de Lisboa constatava-se que as associações mutualistas estavam difundidas por todo o país.

Paralelamente começou-se a organizar os operários em estruturas de cariz sindical. Em 1872 foi constituida a Associação Fraternidade Operária, ligada à A.I.T. Entre os elementos organizadores destacavam-se Eduardo Maia, Tedeschi, Soares Monteiro, Gonçalo Lopes, Nobre França. Em 1873 já contava com 10 mil filiados em Lisboa e 8 mil no Porto, e muitos outros milhares nos arredores destas cidades, tendo um papel destacado na dinamização das greves de 1872 e 1873. Os operários portugueses fizeram-se representar no Congresso de Haia (1873), através de Paul Lafargue. As teses de Bakunine foram derrotadas neste Congresso. De acordo com as teses aprovadas foi decidido constituir em Portugal um Partido Socialista destinado à luta política e Associação dos Trabalhadores na Região Porrtuguesa para a luta reinvindicativa (sindical).

Com a constituição do Partido Socialista em 1875, as ideias anarquistas foram no mesmo incorporadas. O PS era uma amalgama de correntes. Sobre o seu programa O Protesto Operário nº. 17, em princípios de 1884 escrevia que o corpo de doutrinas que formava o credo dos socialistas portugueses era "a reunião de todas as conclusões positivas, obtidas pelas diferentes escolas socialistas, e portanto, também eles podem pôr á cabeça do seu programa as sacramentais palavras: Atheísmo, Anarchismo e Colectivismo".

No início da década de oitenta não tardou a surgiram dissidentes anarquistas. Pinto Barbosa no Porto cria a "União Democrática Social (1880-1887) e Ermelindo Martins (metalurgico) tenta criar também no Porto a Associação União dos Trabalhadores (1881-1884). A ruptura acabou por se consumar.

1886-1910: O Anarquismo Revolucionário. Kropotkin

No princípio da década de 80, as ideias anarquistas surgem amplamente difundidas em Portugal. Atribui-se esta difusão à visita do geografo-anarquista  Elisée Reclus, em 1886 a Lisboa e Porto e ao seu encontro com José António Cardoso, o que é manifestamente um exagero. Embora n`O Protesto Operário nº213, de 11 de Abril, onde fazia parte da redação faça questão de assinalar que Reclus estava em Lisboa "há oito dias".

As ideias há muito que estavam implantadas no país. O Protesto Operário, orgão do PS, reage e publica um manifesto abstencionista da secção anarquista-colectivista de Barcelona. Cardoso insurge-se contra as críticas que o jornal lhe faz e continua a polémica no jornal A Voz do Operário. Forma então o grupo A Centelha, e com Guedes Quinhones cria o jornal anarquista O Revoltado. Num curto espaço de tempo multiplicam-se as publicações anarquistas, com destaque para a A Revolução Social (Porto,1887). Falar de anarquismo era agora reportar-se a "uma escola (...) um movimento de ideias e ações preciso" (J.M.G Viana -A Evolução Anarquista).

A grande novidade é a divulgação das ideias de Kropotkine, cuja primeira tradução surge logo em 1887: A Anarquia na Evolução Socialista. Kropotkine tornou-se rapidamente no mais popular pensador anarquista, nomeadamente devido à sua defesa de uma concepção "científica" do anarquismo, baseada no conceito de "apoio mútuo" o o grande motor da natureza e da história da Humanidade. Recusa a violência e defende uma evolução gradual para a Anarquia. As suas ideias foram amplamente comentadas

Kropotkine deu ao anarquismo uma "dimensão de cientificidade" muito ao gostos do século XIX. Mesmo aqueles que não sendo anarquistas e combatem o "anarquismo de Ravachol", como o conselheiro A. Serpa Pimentel (O Anarquismo, Lisboa, 1894) ou o visconde de Ouguella (A Questão Social, Lisboa, 1895) ou os evolucionistas como F. Martins de Carvalho ( O Socialismo Científico, Lisboa, 1894) não deixam de apontar para o "outro" anarquismo, civilizado, científico que traçava os caminhos futuros da Humanidade.

Durante esta fase,  contribuem decisivamente para a difusão do  seu ideário não apenas nas antigas colónias em África, mas também no Brasil.

1896. Repressão. Anarquistas e Republicanos. Em 1896 o regime monárquico publica a infame lei de 13 de Fevereiro destinada a reprimir o movimento anarquista (1), durante a primeira ditadura de João Franco e que irá conduzir a uma aliança com os republicanos.

A combatividade demonstrada pelos anarquista em Portugal, as noticias internacionais sobre os atentados e morte de tiranos servem de pretexto para uma brutal repressão. A primeira ação ocorreu a a 7 de Fevereiro de 1888, quando Pinheiro Chagas (escritor, ministro, deputado, etc) ridiculariza a anarquista Louise Michel que acabara de ser vítima de mais um atentado em França. No Rossio é-lhe dado um exemplar da Revolução Social e nas escadaria do Parlamento sofre uma bengalada de Manuel Joaquim Pinto. A imprensa anuncia que em bre o país entrava no caos. Começa a repressão contra os anarquistas. Segue-se a morte de um industrial (1888). Uma bomba junto do Governo Civil do Porto (1889); Atentados contra o administrador do concelho de Setúbal (1890); O Consulado Geral de Espanha e o Conde de Folgosa (1892); Uma pedrada contra o rei a 26 de Janeiro de 1896 e no dia seguinte uma bomba contra o médico que examinou o autor da pedrada; seguiu-se a bomba em casa do Juíz Joyce. Iniciam-se então as deportações: O anarquista Francisco Augusto Soares, por exemplo, é deportado para Maputo (Moçambique) e por se recusar a ouvir a missa no presidio foi desterrado para Inhambane, onde trabalhou como carpinteiro. Faleceu em São Tomé, a 9 de Junho de 1905, quando regressava a Portugal.

É na sequência desta lei que Manuel Silva Mendes publica (- Socialismo Libertário ou Anarquismo (1896). O anarquismo tornou-se neste período numa referência obrigatória em muitos domínios do país: educação, arte, sindicatos, na luta política para a transformação da sociedade.

A sistematica repressão aproxima os anarquista dos republicanos e não tardam a lutar ambos pelo derrube da monarquia. A aproximação era facilitada pela existência dentro do movimento republicano de uma corrente federalista e municipalista. Formada em 1873 encontrou em Teofilo de Braga, Nobre França, Azedo Gneco, Latino Coelho, Cecilio de Sousa, Silva Pinto, Eduardo Maia os seus mais ativos propagandistas. O termo federalismo a partir de 1891 passa a designar-se por descentralismo, afastando-se de possiveis associações ao federalismo ibérico.

O ano decisivo desta aproximação foi 1903, quando o Partido Republicano sai do turpor em que entrara desde 1893. O conhecido anarquista Emílio Costa publica então a brochura É Preciso a República? definindo as linhas de entendimento entre anarquistas e republicanos (liberdade, municipalismo, descentralização...). Alfredo Pimenta, no jornal da Guarda O Combate (5 de Abril de 1905) escreve também sobre o tema, repetindo que esperam liberdade, descentralização, uma republica federativa.

Define-se a corrente dos chamados anarquistas intervencionistas que apelam explicitamente ao apoio à República. O jornal Germinal, por exemplo, a 12 de Fevereiro de 1905 apoio as listas republicanas. Helidoro Salgado, nas páginas d`O Alarme, declara-se militante republicano, anarquista e idealista (nº96, 23 de Fevereiro de 1905). José do Vale, conhecido anarquista faz neste ano propaganda das listas republicanas.

Campos Lima n`A Era Nova (nº4, 24/02/1906) sobre a questão do intervencionismo chama à atenção que nos países onde a República foi implantada as promessas estavam longe de serem cumpridas. Noutro artigo (nº16, 26/05/1906) escreve que os republicanos "querem fazer dos anarquistas portugueses uma dependência do Partido Republicano" e acrecenta "A tal não chegaremos nunca felizmento".

Nas páginas deste jornal Theofilo de Braga afirma que a meta da República é uma sociedade anarquista (nº221, 17 de Maio de 1908). Entre os grupos anarquistas intervencionistass que se constituem mencionamos o de Setúbal (Germinal, nº267, 23 de Abril de 1909).

Este entendimento assustou o regime monárquico. A repressão acentua-se a partir de 1903, levando os republicanos a promoverem uma ativa propaganda contra a lei de 13 de Fevereiro de 1896. O Alarme, diário republicano da tarde, no Porto, cujo redator principal era Helidoro Salgado, no seu nº.19 (22 de Novembro de 1904) propõe campanha nacional contra a lei, cuja adesão foi enorme em todo o país. A Associação de Classe União dos Operários Manipuladores de Tabaco do Porto, por exemplo, na sessão que organizou de protesto contra a lei, denunciava que a repressão era geral: "Considerando que a lei é uma rede para caçar nas suas malhas todos os liberais sem distinção de partidos, quando os governos assim o entenderem e que já o número dos marrtires sobe a mais de 1500 de diversas classes e partidos" (O Alarme, nº87, 13 de Fevereiro de 1905).

Segundo este jornal (7/12/1904) cinco anarquistas desterrados em Timor haviam até à data falecido. A policia servia-se de todos os pretextos para os prender: Em São Barolomeu de Messines, em 1904 são presos Gregório, José Jerónimo, Amadeu da Silva e Filipe. Estavam na estrada e foram acusados de partirem vidros num comboio (O Alarme, 30/12/1904).

O jornal A Era Nova, nº15, a 19 de Maio de 1906, contornando a censura publicava o seguinte anúncio: "IMPORTANTE - O Reino de Portugal muda-se para Timor. Continua a receber encomendas e agradece a visita dos seus estimados fregueses ao seu estabelecimento. Toca a preparar as malas."

É longa a lista dos anarquistas desterrados para Timor, Moçambique, Angola, São Tomé ou Guiné durante a monarquia. A simples acusação de anarquista serve para prender e deportar todos os que pudessem incomodar o poder.

Em 1896 foram desterrados entre outros muitos outros os seguintes anarquistas: Luís António Nogueira desterrado de 1896 a 21 de Julho de 1906 em Timor; Sebastião de 1896 a 1906 desterrado; Marques de 1896 a 1906 desterrado; Diniz de 1896 a 1906 desterrado; Gilberto morreu desterrado em Timor; Cruz morreu em Timor; Manuel Augusto Oliveira deportado de 1896 a 1905 na Guiné; Francisco Augusto Soares desterrado de 1896 a 1905, morreu no regresso a Lisboa; Bernardo Caldas, morre em 1897 desterrado no Hospital de Dili em Timor;

Em 1905 numa outra importante leva registamos os seguintes: Em Luanda encontravam-se desterrados Mateus Rodrigues, Firmino José Faias, João Dias d`Oliveira, Luiz Bernardo de Mattos cumpria uma pena de 16 anos de degredo; Manuel Caldeira Feio a 22/09/1905 é preso em Vila Viçosa e deportado para Angola, evadiu. Regreso a Lisboa e voltou a ser deportado ( Germinal, 24/09/1905; O Mundo, 26/09/1905); Benjamim José Rebelo estava em 1905 desterrado na Guiné;

Em 1907 os deportados de Timor, com excepção de Raimundo dos Santos são aministiados. José Miranda falece em 1907 desterrado.

Carbonária e maçonaria. A repressão dos anarquistas leva muitos deles a ingressaram na carbonária, uma organização secreta que visava derrubar a monarquia através de ações armadas, como virá a ocorrer a 5 de Outubro de 1910. A imprensa anarquista divulga inclusive (cfr. A Era Nova ,. 5/05/1906) comunicados da Carbonária. Entre 1908 e 1910 destacou-se o Grupo Obreiros do Futuro que deu origem à Carbonária Lusitana, conhecido por Carbonária Anarquista, onde militavam José do vale, Jesus Gabriel, Adão Duarte, Ribeiro Azevedo, José Nunes, Constantino Mendes (o norte), António Alcochetano, Carlos Antunes, Benjamim Rebelo, António Simões de Sousa, Verissimo, Júlio Dias, Manuel Hugo Fonseca entre outros. Muitos anarquistas também participavam na maçonaria, como era o caso de Manuel Joaquim de Sousa ou Emílio Costa.

Face à crescente contestação à lei de 13 de Fevereiro de 1896, o governo empreende a sua revisão a 21 de Novembro de 1907, relegando os crimes de difusão das ideias anarquistas para o julgamento do juiz de instrução. A repressão continuou. No dia 1 de Fevereiro de 1908 o rei D. Carlos e o principe herdeiro Luiz Filipe são assassinados no Terreiro do Paço. A 5 de Fevereiro após a demissão do João Franco, o governo liderado pelo almirante Ferreira do Amaral declarou nulos os decretos de 21 de Novembro de 1907 e 31 de Janeiro de 1908 mas manteve as leis de 13 de Fevereiro de 1896 e 21 de Julho de 1899. Os anarquistas continuavam a ser o alvo a abater.

Sindicalismo Revolucionário

Apesar da repressão social o movimento anarquista continuava profundamente envolvido no movimento sindical. Preconizam uma ação independente dos sindicatos dos partidos políticos e a organização de um Confederação Geral do Trabalho como escreve Emílio Costa (O Amigo do Povo, nº28, 22/06/1902), na linha do Congresso de Libertários em Liege.

A greve geral no Porto, em 1903, liderada pelos anarquistas mostrou a necessidade de um salto qualitativo nas organizações operárias. O seu impacto foi enorme no movimento sindical em todo o país.

Em 1906 a concepção de um sindicalismo revolucionário, base da organização de uma futura sociedade está já claramente assimilada na imprensa anarquista (A Era Nova, Coimbra, 10/02/1906). As conclusões do Congresso de Amiens (setembro de 1906) consagram esta estrategia passam a fazer parte do programa de intervenção dos anarquistas nos sindicatos. São organizadas tournés para divulgar pelo país esta concepção de sindicalismo revolucionário. Em 1909, por exemplo, uma foi para o Alentejo e Algarve. A ação foi realizada por João Baptista Otero e Acrácio Progresso, contando com o apoio de grupos anarquistas locais (Guerra Social, nº11, 30/01/1909).

Educação

Os anarquistas cedo perceberam que o seu ideal de sociedade só podia ser atingido com individuos capazes de livremente pensarem de forma consciente pelas suas próprias cabeças. Uma condição que exigia uma educação livre de todos os preconceitos. Neste sentido envolveram-se criação de projectos educativos libertários: bibliotecas, grupos de teatro, escolas, cursos, etc.. Uma ação que os sindicatos de influência anarquista estavam profundamente envolvidos.

Em Portugal um dos mais conhecidos virá a ser a Escola Oficina nº. 1, no Largo ds Graça em Lisboa. Muitos professores como Adolfo Lima foram pioneiros de uma nova pedagogia em Portugal.

Implantação. O anarquismo difundiu-se sobretudo nos meios urbanos onde havia concentração de operários, mas igualmente no sul do país (Alentejo e Algarve).

No Porto o movimento anarquista depois de 1887 adquiriu rapidamente uma vertente organizativa que lhe permite liderar a greve geral de 1903. O número de jornais e revistas não parou de aumentar de que são exemplo: O Rebelde ( 1889), O Emancipador (1892), A Voz do Tanoeiro (1901-1902),O Agitador (1901), A Vida (1905-1909), Luz e Vida (1905, revista, Angelo Jorge), Livres (1906-1907, revista, Oldomiro César), Nova Silva (1907, revista, Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão), O Clarão (1909-1914, revista, Carlos Nobre) entre muitas outras publicações portuenses.

Em Coimbra, a partir do final do século XIX tem uma forte implantação entre os estudantes mas também no operariado. Na Universidade lideram a greve académica de 1907 contra a ditadura de João Franco, com destaque para António Quartim (expulso) e Campos Lima entre outros. Nas publicações destaca-se O Primeiro de Maio (Coimbra, 1890) A Conquista do Bem (1894), Os Barbaros (1894), O Revoltado (1898), Arte e Vida (revista, 1904-1906), etc. Fruto da influência dos anarquistas no meio operário em 1908 constituiu-se a Federação das Associações Operárias de Coimbra que edita O Despertar.

Os locais de reunião eram frequentemente as sedes dos sindicatos, mas também haviam muitos centros libertários espalhados pelo país.

Artistas e escritores

A ação revolucionaria dos anarquistas em defesa de uma sociedade de seres humanos livres e iguais suscitou desde 1850 a simpatia e mesmo a adesão de muitos intelectuais, tais como Antero de Quental, Eça de Queirós, Afonso Lopes Vieira, Raul Brandão, Sampaio, Alfredo Pimenta, Aquilo Ribeiro, Gomes Leal, Angelina Vidal, Teixeira de Pascoaes, Tomás da Fonseca, etc.. A maioria acabou por acomodar-se ou seguir um caminho contrário ao seu passado anarquista.

Continuação

Carlos Fontes

Anarquismo (literalmente "sem poder") 

Movimento político que defende uma organização social baseada em consensos e na cooperação de indivíduos livres e autónomos, abolindo entre eles todas as formas de poder. A Anarquia seria assim uma sociedade sem poder, dado que os indivíduos se auto-organizariam de tal forma que garantiriam que cada um teria em todas as circunstâncias a mesma capacidade de decisão. Esta sociedade, objecto de inúmeras configurações, apresenta-se como uma "Utopia" (algo sem tempo ou espaço determinado). É um ideal a atingir. Continuação

Filosofias Anarquistas

Dadas as características do movimento anarquista é impressionante a diversidade de filosofias no campo libertário. Continuação

 

 

 

Notas:

(1) Zenha, Francisco Salgado - Apontamentos sobre a repressão do anarquismo na monarquia (1896-1910), in Seara Nova, Dez. 1969

(2) Serrão, Joel - O Século XIX em Portrugal, Comunicações ao Colóquio organizado pelo GIS, Nov. 1979. Editorial Presença.

(3) A ideia de apoio-mútuo acabará por corporizar-se no movimento cooperativo. Campos Lima em "A Revolução em Portugal" incorpora o cooperativismo na estratégia anarquista. António Sérgio a partir dos anos quarenta fará da ideia uma forma de agregar a população de forma solidária à margem do Estado.

(4) Fonseca, Carlos - A Origem da Primeira Internacional em Lisboa

(5)Fonseca, Carlos - Integração e Ruptura Operária, p.170

(6) O Socialismo na Europa

(7) O que é a Propriedade ?, 1840

(8) Sousa Brandão elaborou o estatutos do Centro. Em 1850 com Lopes Mendonça fundou o Eco dos Operários defensor do "Socialismo Utópico".

9) Fundada em 1864

(10) Manuel Silva Mendes (1867-1931), por exemplo é preso em Abril de 1894 quando distribuia manifestos em Braga.

   

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