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História da Formação Profissional e da Educação em Portugal

Carlos Fontes

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Idade Moderna - II (Século XVII) 

Livros Técnico-Científicos

O século XVIII é a consagração do movimento iniciado no século XVI. Surgem as grandes enciclopédias, como a "Encyclopedia des Arts, Sciences et Métiers", publicada em 28 volumes entre 1751 e 1772, que desde logo marcou uma profunda revolução no conceito de livro técnico .

"Ciência e vulgarização ao mesmo tempo, eis o que ela pretende ser ", eis como a define Paul Hazard. "As pessoas gostam do saber, mas tentam alcança-lo com o mínimo de esforço possível: tal é , particularmente , o génio do nosso século", escrevia um dos redactores das Memórias de Trévoux, no mes de Agosto de 1715. 

O século XVIII pretende tornar realidade este objectivo mais vasto de trazer ao povo os frutos da ciência, de um modo agradável e de fácil assimilação. O Jornal dos Sábios em Novembro de 1749, reforçava este ideário: "As pessoas gostam de saber , mas querem aprender sem dificuldade e em pouco tempo; é essa sem duvida a causa pela qual nos aparecem  todos os dias tantos métodos diferentes, e a razão pela qual se nos deparam tantos resumos". Estas ideias serão a chave para compreender, quanto a nós muito do que se irá escrever e difundir até ás primeiras décadas do século XIX. 

Se antes, Ephraim Chambers, em dois volumes já havia compendiado todo o saber na célebre Cyclopaedia or Universal Dictionary of Arts and Sciences, foi no entanto a Enciclopédia que foi mais longe em termos de inovação. Ora, precisamente um dos seus aspectos  mais originais e de maior alcance foi exactamente o lugar destacado que concedeu ás artes e ofícios, pretendendo fazer de cada um uma descrição dos princípios gerais que lhe serve de base, e os pormenores mais essenciais do que os caracterizariam. Pretendia-se passar em revista todos os conhecimentos, através de uma  exposição metódica e prática da sua utilização.

Mas este esforço de fixação do saber e difusão das novas "luzes", esbarrava sempre com  o  mesmo obstáculo de sempre: a maioria da população era analfabeta, sendo-lhe inacessível em grande parte os frutos destas obras. Esta será aliás o ponto de partida do iluminismo, como o será com mais vigor do liberalismo: a extensão da instrução publica como uma medida de fomento de progresso dos povos.

Em Portugal , o século XVIII, podemos claramente distinguir quatro dimensões que concorreram para a difusão dos novos conhecimentos técnicos: as bibliotecas, as livrarias, a imprensa periódica e a literatura técnica..

1. Bibliotecas. Um das iniciativas mais importantes de D. João V, foi ao nivel do fomento e criação de vastas bibliotecas. Não estava sozinho, pois, como escreve António Alberto de Andrade, conventos e fidalgos por todo o reino ostentavam prateleiras seguidas de obras de todos os tempos, e das quais se destacava a do Conde de Ericeira com os seus 18 mil volumes. 

O Monarca não lhes ficara atrás, com outros tantos recheara a  do Convento de S. Domingos e em igual número a do Convento de Mafra. A biblioteca da Universidade de Coimbra, Academia Real de Història, e a do Paço, constituíam um vasto repositório do saber do tempo. A Biblioteca do Paço, foi mesmo considerada "uma das maiores bibliotecas da Europa"[1]. Este acervo documental, estimulou o comércio livreiro, constituindo-se mesmo livrarias especializadas, como ocorreu em medicina.

2. Imprensa periódica. Despertou em toda a Europa no século anterior, tal como em Portugal. Foi todavia durante o reinado de D. João V, a imprensa conhecerá alguma animação, como a publicação de jornais como a "Gazeta de Lisboa" ( 1715 - 1760), a " Gazeta de Lisboa Ocidental" ( 1718-1741), o "Oculto Instruído",  a "Gazeta Literària" no Porto( 1761-1762),o "Diário de Medicina, Cirurgica e Farmarcia" ( 1764-1768), e outros que não deixaram de divulgar os novos progressos do mundo cientifico e técnico da Europa.

Este movimento foi brutalmente interrompido com o reforço da censura por Marques de Pombal, aquando da criação da Real Mesa Censória. O movimento só desperta de novo após as invasões franco-espanholas (1801-1814). Nessa altura surge também um novo tipo de imprensa, a dos "conhecimentos divertidos e úteis".

3. Edição de Livros Técnico-Científicos. A reforma da Universidade de Coimbra em 1772 foi motivo de uma intensa produção de manuais didácticos ( traduções e edição de autores portugueses). As Faculdades de Filosofia, Matemática e Medicina careciam em absoluto destes instrumentos, sem os quais a reforma seria vã. Para o efeito ampliou-se a tipografia da Universidade adequando-a ás novas exigências. 

No reinado de D. Maria I foi-lhe conferido um novo regulamento, assim como se ampliou a sua capacidade produtiva[2]. Para apoio ás novas matérias que foram introduzidas no ensino, foram editados um importante numero de obras, que marcaram uma viragem na altura.

Na Faculdade de Matemática, destacaram-se na Aritmética, o Tratado de Bezout ( traduzido por Monteiro Rocha em 1773 e reeditado em 1826), na Geometria editou-se os Elementos de Euclides (traduzidos por Angelo Brunelli), na Algebra e Calculo Infinitesimal foram traduzidos os Elements d Analyse Mathematique de Bezout (edições em 1774, 1793, 1801 e 1818), na mecânica traduziu-se o Tratado de Mecanica do Pe. Frances (?) Maria ( edições em 1775, 1785 e 1812), e o Tratado de Hidrodinamica de Bosset ( editado em 1775), na astronomia adoptou-se o Tratado de Lalande, na Analise Matemática traduziu-se a Theorie des Function Analytiques de Lagrange e Methaphisiques du Calcul Infinitesimal de Carnot ( editados m 1798 ?), na Geometria Analitica e Calculo Infinitesimal adoptaram-se os Principios Matematicos de Anastácio da Cunha.

Na Faculdade de Medicina, publicou-se em 1794 a célebre Farmacopeia Geral, a primeira farmacopeia oficial portuguesa,

A produção literatura técnica acompanhou estes progressos, sendo já difícil reter os títulos mais significativos. No entanto sobressaem claramente algumas áreas, como a cavalaria, espingardaria, Engenharia e arquitectura militar, agricultura, e Medicina e os outras sobre conhecimentos úteis às diferentes artes e oficios.

  Engenharia e Arquitectura: Tratado do Modo Mais Fácil de Mais exacto de Fazer Cartas Geográficas, Manuel de Azevedo Fortes. Lisboa,1822; O Engenheiro Portugues, Manuel de Azevedo Fortes,2 vols. 1728-1729; Artefactos Simétricos e Geométricos, de Pe. Inacio da Piedade Vasconcelos, Lisboa Ocidental. 1733 ( a primeira obra de arquitectura civil em Portugal); A Fortificação Moderna, Pfeffing, trad. de Manuel da Maia, Lisboa.1713; O Governador de Praças, Devile. trad. Manuel da Maia, Lisboa. 1708; Tratado de Ruacção, José Figueiredo Seixas, 1760 ( ? );Perspectivas dos Pintores e Arquitectos, do Padre Andrea Pozzo, trad. Figueiredo Seixas,1739;

Armas de Guerra: Espingarda Perfeita , pelos irmãos Rodrigues ( 1718);  Spingardeiro, João Stooter, Holandes nacionalizado; Exame de Artilheiros,  Pinto Alpoim ( 1744 ), Exame de Bombeiros , Pinto Alpoim ( 1743 );

Cavalaria:   ejo Real, Moraes Pina, 1792; Movimentos de cavalaria, José de Almeida e Mouro, Lisboa, 1741; Tratado do exercício da manobra, D. Francisco Xavier de Mascarenhas, Lisboa, 1737;

Agricultura: Tesouro de Lavradores, Dias Ramos, 1737 ( com edição em 1792) ; Livro de Agricultura, Garrida,1764; Agricultor Instruido, Fr. Theobaldo ,1790;

Medicina:  Breve Curso de Nueva Cirurgia, Monrayá y Roca.1725;Método de Como Aprender o Estudo da Medicina, Ribeiro Sanches, 1763. (? )

Enfermagem: Postilla Religiosa, e Arte de Enfermeiros, etc. Frei Diogo de Santiago.1741.

Farmácia: Farmacopeia Lusitana, D. Caetano de Santo António.1704; Pharmacopeia Bateana, de Jorge Bateo, traduzida por Caetano de Santo António.1713; Tesouro Apolinio, Galénico, Cirurgico, Farmaceutico, ou Compendio de Remédios para Ricos e Pobres, João Vigier. Lisboa.1714; Farmacopeia Ulissiponense...,João Vigier. Lisboa.1716; Farmacopeia Tubalense, Manuel Rodrigues, 1718 (?); Farmacopeia Geral para o Reino, e Dominios de Portugal, etc.Francisco Tavares (?), 1794.

Outras Artes: Elementos de Construção ( dos navios ), Pedro de Maris de Sousa Sarmento, Lisboa, 1788 ;   Divertimento Erudito, Fr. João Pacheco, 4 tomos, 1734‑1738.  ; Segredos das Artes Liberais e Mecanicas, Recopiladas e Traduzidas de Vários autores Selectos que tratam da Fisica, Pintura, Arquitectura, Optica, Chimica, 1744;         

Em Construção ! 

Carlos Fontes

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Notas:

[1]. Antònio Alberto Ferreira, ob. cit.,pag.82

 [2] 9 de Janeiro de 1790